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Este livro é uma seleção das entrevistas e perfis que fiz com escritores, críticos, artistas e
cientistas estrangeiros e brasileiros. Os textos foram publicados em três jornais, Folha de S.Paulo
(1992-95), Gazeta Mercantil (1995-2000) e O Estado de S.Paulo (em que estou desde maio de 2000
e onde já trabalhara entre 1991 e 92). Acho que uma das razões pela qual se é jornalista é o prazer
de encontrar pessoas diferentes e interessantes. Pergunto qual outra profissão me daria a
oportunidade de conversar com figuras humanas como João Cabral de Melo Neto, Stephen Jay Gould
ou Nelson Freire, tão díspares em personalidade, tão atraentes em talento. Se eu fosse povoar uma
“Ilha de Caras”, seriam estas pessoas que levaria e isolaria do oceano de futilidades que banha mais e mais a grande imprensa nacional e mundial.
(Daniel Piza)

Como Fernando Pessoa pode mudar a sua vida
 
Lisboa, bairro do Chiado, um dia chuvoso de outono, final dos anos 20. Fernando Pessoa, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis se sentam ao redor de uma mesa no café A Brasileira. Pessoa está de capote e bengala, um tanto introspectivo, talvez preocupado com as contradições de algum mapa astral; Caeiro veste roupas de camponês, com respingos de barro na calça; Campos mostra o relógio Cartier que acaba de trazer de Paris; Reis carrega um dicionário de latim e pede vinho e água para todos. Pessoa, o mais velho dos quatro, dá início à conversa contando que começou a escrever um livro de poemas que planeja chamar de Mensagem e fazer conter todas as características da alma portuguesa em seu caráter universal. O trio se espanta. Até agora nenhum deles havia publicado livro; todos os poemas eram produzidos para revistas e jornais. Por que então a novidade?
– Estou farto de improfícuas agonias – responde Pessoa. – Pus a alma no nexo de perdê-la, e o meu princípio floresceu em Fim.
– Mas tu mesmo – pergunta Campos – não disseste que tudo é ilusão, sonhar é sabê-lo?
– E não pediste em canção ao Senhor – lembra Caeiro, aparentemente não recuperado da noite de ópio anterior – que eles nos desse ao menos a força de não mostrar a dor a ninguém?
– E quem disse que mostro? – reagiu Pessoa. – Não uso o coração, por isso escrevo livre do meu enleio. Sentir? Sinta quem lê!
– A tua lenha é só peso que levas – intervém Reis – para onde não tens fogo que te aqueça.
– Como assim? – perguntam os outros, confusos.
– Pouco usamos do pouco que mal temos. A obra cansa, o ouro não é nosso – diz Reis.
– Mas, meu caro – replica Caeiro, com um semblante ao mesmo tempo alegre e triste –, o único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido nenhum. Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
– Logo – diz Reis –, põe quanto és no mínimo que fazes.
– Então quero publicar – arremata Pessoa. – Penso profundamente, por isso tenho saudades.
– Mas por que fazer das saudades e pensamentos um livro? – insiste Reis.
– Porque todo começo é involuntário. Deus é o agente.
– Mas apenas mortos somos só nossos, entende? O que acho é que a lembrança esquece.
– Eu acho que a alma que sente e faz – argumenta Pessoa – conhece só porque lembra o que esqueceu. E, se é assim, vivemos porque houvesse memória em nós do instinto da raça. O mais é carne.
– Que angústia te enlaça? – perguntam os outros, juntos.
– Meu ser tornou-se-me estranho, e eu sonho sem ver os sonhos que tenho. A angústia é a vela que passa na noite que fica. Somos todos cadáveres adiados que procriam.
– Eu também – acrescenta Campos – sou um convalescente do Momento. Moro no rés do chão do pensamento e ver passar a Vida faz-me tédio. Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
– Então por que tu escreves? – contesta Reis.
– Para me unir ao exterior pela estética. Sou definidamente pelo indefinido – diz Campos, reticente – e em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim. Mas ao menos fica a amargura do que nunca serei.
– À arte o mundo cria – assente Reis, dando baforadas no cachimbo.
– Assim na placa o externo instante grava seu ser, durando nela.
– Meu misticismo é não querer saber – retruca Caeiro. – Não sei o que é a natureza: canto-a. Se eu morrer novo, sem poder publicar livro nenhum, peço que não se ralem por minha causa. Se assim aconteceu, assim está certo.
– E o nome inútil que teu corpo usou, vivo, na terra – diz Reis, apontando para Caeiro –, como uma alma, não lembra.
– Mas isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender – ressalta Caeiro. Os outros não conseguem definir se ele está sereno ou agoniado. – Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros, quer para fazer bem, quer para fazer mal. A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos. Querer mais é perder isso, e ser infeliz. Valeu a pena?
– Tudo vale a pena – responde rapidamente Pessoa – se a alma não é pequena. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu.
– Eu nunca fiz mais do que fumar a vida – observa Campos. – Produtos românticos, nós todos... Mas, como um Deus, não arrumei nem a verdade nem a vida.
– Mas por que tanta tristeza? – pergunta Reis.
– Não sei. Pela manhã eu estava um pouco triste. E o dia deu em chuvoso. – Campos olha para fora e vê a chuva caindo. – Deem-me o céu azul e o sol visível. Névoa, chuvas, escuros, isso eu tenho em mim.
– Tu és louco – critica Pessoa, sob olhar atônito dos companheiros. – Louco, sim, louco, porque quis grandeza qual a Sorte não dá. Mas sem a loucura que é o homem mais que a besta sadia?
Caeiro olha para o copo d’água à sua frente.
– Vês? Formam-se bolhas na água que nascem e se desmancham e não têm sentido nenhum salvo serem bolhas de água que nascem e se desmancham.
– Sentido nenhum? – pergunta Pessoa. – É do português querer, poder só isto: o inteiro mar, ou a orla vã desfeita. O todo, ou o seu nada.
– Mas e se ele não quiser? – questiona Campos. – Quem quer é Deus. Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar... O tédio? A mágoa? A vida? Deixase... Eu cumpro informes instruções de além, e as bruscas frases que aos meus lábios vêm soam-me a um outro e anômalo sentido. Veja a cor do outono: é um funeral de apelos para minha dissonância...
– Mas isso não é um fingimento? – interfere Reis. – Se não houver em mim poder que vença o futuro, já me deem os deuses o poder de sabê-lo.
– O poeta é um fingidor – diz Pessoa, irônico. – Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.
Caeiro está visivelmente cansado dessa conversa toda. Com um gesto de muxoxo, diz: – Há metafísica bastante em não pensar em nada. O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse, pensaria nisso. E não estou nem alegre nem triste. Esse é o destino dos versos. Escrevi-os e devo mostrá-los porque não posso fazer o contrário. Passo e fico, como o Universo. Tu não concordas?
– Concordo – diz Pessoa, sem passar muita convicção. – Afinal, de quem é o olhar que espreita por meus olhos? Quando penso que vejo, quem continua vendo enquanto estou pensando? Às vezes, na penumbra do meu quarto, toma outro sentido em mim o Universo: é uma nódoa esbatida de eu ser consciente sobre minha ideia das coisas. – Dá um suspiro. – A fé já não tem forma na matéria e na cor da Vida.
– É, sentir a vida convalesce e estiola – diz Campos. – Acordamos e o mundo é opaco, levantamo-nos e ele é alheio. Saímos de casa e ele é a terra inteira, mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido. A metafísica, amigos, é uma consequência de estar mal disposto.
– E se colho a rosa é porque a sorte manda – ajunta Reis, depois erguendo o copo na direção dos outros. – Gozemos escondidos. Com mão mortal elevo à mortal boca o passageiro vinho, baços os olhos.
– De eterno e belo há apenas o sonho. Porque estamos falando ainda? – completa Campos. Os olhos de todos ficam tristes, até mesmo o de Caeiro.
– Os meus pensamentos são contentes – diz ele. – Só tenho pena de saber que eles são contentes. – Olha de novo para fora. A chuva parece ainda mais forte. – Pensar incomoda como andar à chuva quando o vento cresce e parece que chove mais. Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho.
– A minha também – dizem juntos Campos e Reis. Os três olham para Pessoa, aguardando sua reação. Depois de um tempo em silêncio: – Caiu chuva em passados que fui eu – diz ele enfim, com olhos de ressaca, mirando um horizonte que já não existe. – Narrei–me à sombra e não me achei sentido. Erro-me, e nada mais quero nem peço... Triste de quem é feliz! Vive porque a vida dura. – E agora Pessoa fixa seus olhos nos amigos. – Sim, vocês estão certos. Ser descontente é ser homem. Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro.
Pessoa bebe o último gole de seu vinho. Olha para o romântico e entediado Álvaro de Campos, para o hedonista e cético Ricardo Reis, para o bucólico e realista Alberto Caeiro. Pensa em lhes apontar as contradições, mas vê que elas também são parcialmente suas. Pensa em lhes dizer “Eu criei vocês”, mas se sente também uma criatura deles. Deixa então o copo sobre a mesa e se despede: – Adeus.
– Adeus – respondem os outros em uníssono, enquanto partem cada um para um lado.
A chuva também se fôra.

Fernando Pessoa (1888-1935) foi o maior poeta português do século XX.
 (Daniel Piza - Perfis e Entrevistas)
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que
nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos“.
(Luíza Caetano - Luiza e Fernando, DNA de almas)

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publicado às 16:14



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