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Feminismo

por Thynus, em 12.10.14
De maneira ampla, o feminismo pode ser definido como um longo processo não terminado de transformação da relação entre os gêneros. Um processo com raízes que se estendem desde o passado remoto até o presente. Por outro lado, o feminismo também pode ser apresentado como o discurso de busca de igualdade entre os sexos, e como tal já podia ser encontrado, por exemplo, na obra A cidade das mulheres, de Christine de Pisan, escritora francesa do século xiv que apresentava um discurso articulado e consciente em defesa dos direitos da mulher e da igualdade entre os sexos.
Todavia, se queremos definir o feminismo como movimento de massas, ele é um fenômeno bastante contemporâneo, que pode ser datado em torno das décadas de 1960-70, no mundo ocidental. Esse feminismo contemporâneo surgiu em um contexto no qual emergiram diversos movimentos de libertação denunciando a existência de vários tipos de opressão. Movimentos pelos Direitos Civis, pela igualdade racial, ecologistas, movimentos de homossexuais e de mulheres surgiram, então, como forma de pensar a opressão de modo mais amplo do que a partir da ideia de luta de classes, até então o fundamento das principais críticas à desigualdade social. Cada vez mais esses grupos foram percebendo que suas vidas estavam carregadas de estigmas e preconceitos, bem como que seus objetivos políticos nem sempre se confundiam com os objetivos do operariado, então considerado a classe social que seria a vanguarda de uma nova forma de organização social, o Socialismo. Foi nesse contexto que as mulheres começaram a perceber que o sexo é político, ou seja, que é permeado por relações de poder e de hierarquia, e essa situação (marcada pela desigualdade) continuaria a existir mesmo em um regime no qual inexistisse a luta de classes. Com o afloramento dessa consciência a partir dos anos 1960, nos Estados Unidos, surgiu o movimento feminista, que assumiu e criou uma identidade coletiva de mulheres como indivíduos do sexo feminino, possuidoras de interesses compartilhados: o fim da subordinação aos homens, da invisibilidade e da impotência, a defesa do direito de igualdade e de controle sobre seu corpo e sobre sua vida.
O principal objetivo das feministas era superar o autoritarismo e a desigualdade entre homens e mulheres nas relações pessoais, mas se preocuparam também com o entrelaçamento das relações pessoais com a organização política pública. Ou seja, a opressão de poder que se dava no âmbito privado não podia ser isolada de uma ação política pública mais abrangente: a luta por direitos de cidadania para todos, por exemplo. Assim, foram sendo organizados grupos de reflexão nos quais as mulheres compartilhavam suas agruras, e o que antes parecia um problema individual tornava-se coletivo.
O fato é que, desde a Independência dos EUA e a Revolução Francesa, no final do século xviii, as ideias de igualdade natural e de direitos inalienáveis do homem e do cidadão constituíram o arcabouço dos Estados liberais modernos. Princípios supostamente universais e racionais deveriam reger a criação das leis, no sentido de se dividir o poder e evitar a tirania. Mas os códigos de leis emanados desses dois movimentos revolucionários, ao mencionarem a igualdade supostamente universal de “todos os homens”, não incluíram as mulheres, negando-lhes, assim, a cidadania política. A França e os Estados Unidos após o século xviii, apesar de entrarem para a história ocidental como baluartes da liberdade, mantiveram as mulheres distantes dos direitos que tanto orgulhavam seus líderes. Não eram sequer cidadãs de segunda categoria, simplesmente não eram cidadãs. Vale lembrar que a França foi o último país da Europa a introduzir o voto feminino, e isso apenas em 1944. Essas contradições não passaram despercebidas pelas mulheres que viveram esses movimentos. Muitas delas, como Olympe de Gouges, exigiram, já na Revolução Francesa, que os direitos “naturais” fossem estendidos à parte feminina da humanidade.
Assim, uma das principais demandas feministas foi o direito de votar e ser votada. As mulheres pleiteavam, dessa forma, os direitos políticos e a cidadania. Por essa razão, o movimento feminista, durante muito tempo, se confundiu com o movimento sufragista, este um movimento de mulheres que reivindicava especificamente o direito das mulheres ao voto. Como indicam Branca Moreira Alves e Jacqueline Pitanguy, o sufragismo teve início nos Estados Unidos por volta de 1848, logo se estabelecendo também na Inglaterra. Tanto nos eua quanto na Inglaterra, o sufragismo foi um movimento de massas. As chamadas suffragettes, feministas inglesas radicais, ficaram famosas por fazerem uso da violência como forma de alcançar seus objetivos, tendo lutado por mais de seis décadas até conseguirem, em 1928, o direito ao voto.
Uma das principais marcas do feminismo era a resistência ao ridículo com que foi tratado. Muitas mulheres foram consideradas “masculinas demais” apenas por defenderem igualdade de direitos e atuarem na esfera dita “masculina”, ou seja, a política. Outras, como Virginia Woolf, tiveram de defender vigorosamente o status intelectual da mulher diante de homens que insistiam em reforçar a tese da inferioridade intelectual da mulher na década de 1920.
No Brasil, somente no final do século xix, as pioneiras do feminismo pleitearam o direito ao voto. As primeiras reivindicações foram feitas por meio de jornais, entre as décadas de 1860-90; em linguagem moderada, exigiam educação de qualidade para as mulheres, para que pudessem ser “boas mães” e “companheiras”. No final do século xix, entretanto, o voto já era uma demanda das brasileiras de classe alta e média alta. Mas, no Brasil, o feminismo não chegou a ser um movimento de massas, pelo menos até 1940, e nesse período não incluía mulheres pobres e trabalhadoras. O movimento sufragista brasileiro teve, assim, um perfil elitista. Além disso, seu caráter moderado contrastou com o inglês. Em geral de classe média alta, e com vínculos com os grupos dominantes, as feministas brasileiras optaram por um feminismo relativamente inexpressivo ideologicamente. Por outro lado, foi suficientemente organizado para convencer os extratos dominantes. Nesse sentido, sobressaiu-se Bertha Lutz, uma das fundadoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.Em 1932, a Federação e outras organizações feministas brasileiras alcançaram seu objetivo, e a Constituição de 1934 referendou o direito da mulher ao voto.
Atualmente, o feminismo não pode mais ser definido apenas pelo sufragismo, pois o voto já configura uma conquista. Mas muitos outros problemas ainda precisam ser discutidos, sobretudo os ligados aos hábitos arraigados na cultura machista: sexualidade e violência, saúde e reprodução e divisão de papéis no próprio lar (responsabilidades domésticas), entre outros. Pesquisas recentes sobre o mercado de trabalho no Brasil e sobre a violência contra a mulher, por exemplo, indicam que, apesar de algumas conquistas, velhas demandas ainda persistem. A socióloga Cristina Bruschini demonstrou que, apesar do aumento da presença feminina no mercado de trabalho, as mulheres em geral ocupam empregos tradicionalmente “femininos” (setores de serviços e setores informais), sofrem com a desigualdade salarial em relação aos homens, e precisam fazer grande esforço para articular os papéis familiar e profissional, uma vez que sobre elas continuam a recair as responsabilidades domésticas. Do mesmo modo, apesar de muitas mulheres estarem inseridas no mercado de trabalho (uma conquista feminina), as relações de gênero não mudaram muito, uma vez que homens (muitas vezes maridos desempregados) costumam usar da violência contra suas mulheres, demonstrando assim sua frustração por não exercer o antigo papel de provedor do lar. Ou seja, o feminismo ainda tem muito pelo que lutar, e isso fica mais evidente quando vemos muitos países implantando ações afirmativas para garantir a presença feminina, seja em postos de trabalho bastante masculinizados, seja para garantir seu espaço nos cargos do poder político formal.
Uma amostra de como o feminismo é um processo permanente de lutas e tensões é o fato de as mulheres, nas décadas de 1960 e 1970, mesmo após o reconhecimento legal de seu ingresso nas universidades, ainda terem de lutar por espaços nessas instituições – espaços até então masculinos por excelência. Homens de mentalidade tradicional acusavam a produção intelectual feminina de ser “política” e não “profissional”. Os historiadores norte-americanos, por exemplo, ressentidos por terem de dividir os espaços da academia com as mulheres, entrincheiravam-se na defesa de uma suposta neutralidade do saber histórico em oposição ao caráter “ideológico” da produção de historiadoras feministas. Durante muito tempo, mulheres, negros, judeus, católicos e “não cavalheiros”, como diz Joan Scott, foram sistematicamente sub-representados na Associação Histórica Americana (aha). O mesmo aconteceu na França, como apontou a historiadora francesa Michelle Perrot, país onde a História é uma disciplina muito prestigiada e, exatamente por isso, muito masculina.
Aqui entramos em outra discussão: a relação entre o feminismo e a História das mulheres. Em primeiro lugar, a História das mulheres emergiu atrelada à explosão do feminismo, como indica Mary Del Priore. Foram as feministas, antes dos historiadores, que perceberam o esquecimento que a História até então produzida devotava às mulheres. Elas eram ideologicamente identificadas com o objeto de estudo. As feministas fizeram da produção histórica outra arena de luta para resgatar seu passado e identificar o porquê da dominação masculina. A memória coletiva havia “esquecido” as mulheres como agentes da história, e era preciso, particularmente nos anos 1970, mostrar suas lutas, suas resistências, vitórias desconhecidas, humilhações. Esse resgate inspirou a prática política. Mas, aos poucos, a História das mulheres foi se afastando da política, ampliando seus questionamentos, ganhando legitimidade e rigor teórico. Finalmente, já na década de 1980, rompeu definitivamente com a política a partir da emergência da categoria de análise Gênero. Joan Scott descreve o percurso: do feminismo à História das mulheres, e desta para o gênero; ou da política para a História especializada, e desta para a análise. Mas, segundo Scott, o feminismo continua presente até hoje, seja na academia, seja na sociedade, e muitas pessoas que usam o termo gênero se definem como feministas. Além disso, a História das mulheres carrega de seu passado feminista a herança, positiva, em nosso entender, de ser um campo inevitavelmente político. Joan Scott, por exemplo, uma das principais defensoras da aplicação da categoria gênero, busca demonstrar que essa categoria guarda estreita ligação com as relações de poder entre os sexos.
Na sala de aula, a relação entre os gêneros é um tema pouco abordado. É preciso sensibilidade e coragem para lidar com o feminismo com alunos e alunas cujas famílias, muitas vezes, ainda adotam comportamentos tradicionais, sobretudo no que se refere à divisão de tarefas no lar, como a responsabilidade com os filhos e os serviços domésticos. Além disso, muitos livros didáticos ainda abordam superficialmente a História das mulheres e a relação entre os gêneros na história, e é preciso que o profissional busque outros recursos para empreender uma discussão satisfatória. Uma estratégia é fazermos a relação passado/presente. Mas precisamos nos precaver ao estudarmos o feminismo e suas lutas, mostrando quais os direitos hoje consolidados foram conquistas do movimento feminista. Por outro lado, precisamos sempre tentar incluir as mulheres como objeto de estudo em todos os períodos históricos trabalhados com os alunos: quais as condições das mulheres no Egito Antigo? No Brasil Colonial? Na Idade Média? Essa abordagem evita que releguemos às mulheres a uma História marginal, como se elas não fizessem parte do processo histórico como um todo. Para tal abordagem, professores e professoras podem encontrar uma diversidade de recursos, desde livros didáticos até longasmetragens e documentários sobre as mulheres em diferentes períodos históricos. Tais recursos podem incluir desde músicas até filmes. Mas é preciso também não transmitir a sensação de “progresso” na condição feminina. Ou seja, não dar a entender que estamos vivendo no melhor dos mundos e que, por isso, não precisamos fazer nada mais para mudar a relação entre mulheres e homens em nosso cotidiano.

(Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva - Dicionário de Conceitos Históricos)

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publicado às 23:04



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