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FELICIDADE COMO DOENÇA

por Thynus, em 01.06.16
Deus me livre de ser feliz. Soa estranho, mas me parece essencial nos afastarmos da neurose da felicidade. Muitos dirão que existem vários tipos de felicidade e estarão certos em dizê-lo. Os antigos gregos pensavam a felicidade como uma vida longe das paixões e pautada pelo pensamento e pela virtude pública. Os cristãos pensaram a felicidade como beatitude, isto é, a capacidade de viver sem pensar em si mesmos e voltados para o outro. Os iluministas gostavam de pensar a felicidade como a vida com a razão e próxima da Ciência. Os utilitaristas pensaram a felicidade como a otimização do bem-estar. E os contemporâneos inventaram a felicidade como neurose do desejo. Qual é a sintomatologia?
Primeiro, os índices de felicidade inventados pelos governos pra ganhar voto.
Nesse caso, felicidade é adquirir geladeira e TV de tela plana e dizer que faz sexo duas vezes por hora. Outro sintoma são pesquisas encomendadas por grupos que querem ver seu modo de vida afirmado como a forma mais feliz de viver, como os acadêmicos que “provam” que não ter filhos deixa você mais feliz – coisa de preguiçoso. Outro sintoma é pensar em você o tempo todo. Se você tem mais de trinta anos e se considera a pessoa mais importante do mundo, já fracassou como adulto.
É um adolescente tardio. Qualquer mulher sabe reconhecer um homem que sofre de síndrome de Peter Pan. Outro sintoma é a excessiva preocupação com a alimentação. Ser saudável demais depõe contra você. Quer mais um? Ler artigos que dão formas de felicidade a preços baixos.
O utilitarismo de massa ajudou muito a criar essa ideia de que bem-estar está acima de tudo. Mas o narcisismo e sua preocupação consigo mesmo é o campeão.
Pessoas que sofrem dessa neurose estão sempre tomadas pelo sentimento de que as fotos dos outros que elas veem no celular provam que os outros estão “aproveitando” mais a vida do que elas. A insatisfação como um ruído cada vez mais alto as atormenta. Óbvio que os outros são mais felizes do que nós. Para começo de conversa, eles não vivem as nossas misérias tão pessoais e que nos definem de forma silenciosa e constante. Não se trata de dizer que a felicidade não importa, mas de dizer que a felicidade deve ser discreta e falar pouco de si mesma. A elegância na felicidade é mais importante do que na tristeza.

(Luiz Felipe Pondé - A era do ressentimento)

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publicado às 13:45



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