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Fé racional e fé irracional

por Thynus, em 26.03.14

 

A capacidade de amar depende da capacidade de emergir do narcisismo e da fixação incestuosa à mãe e ao clã; depende de nossa capacidade de crescer, de desenvolver uma orientação produtiva em nossas relações para com o mundo e para conosco mesmos. Esse processo de emersão, de nascimento, de despertar requer, como condição necessária, uma qualidade: a fé. A prática da arte de amar exige a prática da fé.
Que é fé? Será a fé, necessariamente, uma questão de crença em Deus ou em doutrinas religiosas? Estará a fé, por força, em contraste com a razão e o pensamento racional, ou divorciada deles ? Mesmo para começar a entender o problema da fé, deve-se diferenciar entre a fé racional e a irracional. Por fé irracional compreendo a crença (numa pessoa ou numa idéia) baseada na submissão à autoridade irracional. Em contraposição, a fé racional é uma convicção enraizada na própria experiência que se tem de pensamento ou sentimento. A fé racional não é primordialmente a crença em algo, mas a qualidade de certeza e firmeza que nossas convicções possuem. Fé é um traço de caráter que embebe toda a personalidade, em vez de uma crença específica.
A fé racional tem raízes na atividade produtiva intelectual e emocional. No pensamento racional, em que para a fé se supõe não haver lugar, a fé racional é componente importante. Como, por exemplo, chega o cientista a uma nova descoberta? Começa fazendo experiência após experiência, reunindo fato após fato, sem ter uma visão do que espera encontrar'? Raras vezes uma descoberta verdadeiramente importante, em qualquer campo, foi efetuada dessa maneira. Nem se chega a conclusões importantes quando simplesmente se anda a perseguir uma fantasia. O processo do pensamento criador, em qualquer setor do esforço humano, muitas vezes começa com o que se pode chamar “visão racional”, e que em si é resultado de considerável estudo prévio, de pensamento refletido e de observação. Quando o cientista consegue reunir bastantes dados, ou elaborar uma formulação matemática para tomar sua visão original altamente plausível, pode-se dizer que ele chegou a uma hipótese experimentativa. Cuidadosa análise da hipótese, a fim de discernir o que ela implica, e a coleção de dados que a sustentem, levam a uma hipótese mais adequada e talvez, finalmente, à sua inclusão numa teoria de amplo alcance.
A história da ciência está repleta de exemplos de fé na razão e de visões de verdade. Copérnico, Kepler, Galileu e Newton estavam todos imbuídos de inabalável fé na razão. Por isso Bruno foi queimado na fogueira e Spinoza sofreu excomunhão. A cada passo dado da concepção de uma visão racional até à formulação de uma teoria, a. fé é necessária: fé na visão, como alvo racionalmente válido a alcançar; fé na hipótese, como proposição igualmente provável; e fé na teoria final, pelo menos até que se atinja um consenso geral sobre sua validez. Esta fé se enraíza na experiência própria, na confiança depositada no próprio poder de pensamento, de observação e de julgamento. Enquanto a fé irracional é a aceitação de alguma coisa como verdade apenas porque uma autoridade ou a maioria o afirmam, a fé racional tem raízes numa convicção independente) baseada na própria observação produtiva e no pensamento, apesar da opinião da maioria,
Pensamento e julgamento não são o único reino da experiência em que a fé racional se manifesta. Na esfera das relações humanas, a fé é qualidade indispensável a qualquer amizade ou amor significativos, “Ter fé” em outra pessoa significa estar certo de que ela merece confiança, da imutabilidade de suas atitudes fundamentais, do núcleo de sua personalidade, de seu amor. Não quero dizer com isto que uma pessoa não possa mudar de opinião, e sim que suas motivações básicas permanecem as mesmas; que, por exemplo, seu respeito à vida e à dignidade humana é parte dela própria, não sujeita a mudanças.
No mesmo sentido temos fé em nós mesmos. Somos conscientes da existência de um ser, de um núcleo em nossa personalidade que é imutável e que persiste através de toda a nossa vida, apesar das circunstâncias variáveis e independentemente de certas alterações em opiniões e sentimentos. Esse núcleo é que constitui a realidade por trás da palavra “Eu”, e sobre ele se baseia a nossa convicção de nossa própria identidade é ameaçado e tornamonos dependentes de outras pessoas, cuja aprovação se toma, então, a base de nosso sentimento de identidade. Só quem tem fé em si mesmo é capaz de ser fiel aos outros, porque só assim pode estar certo de que será num tempo futuro o mesmo que é hoje e, portanto, de que agirá e sentirá como agora se espera que o faça. A fé em si mesmo é uma condição de nossa capacidade de prometer, e se o homem, como disse Nietzsche, pode ser definido por sua capacidade de prometer, então a fé é uma das condições da existência humana. O que importa em relação ao amor é a fé no amor que se tem, em sua capacidade de produzir amor em outros e em seu merecimento de confiança.
Outro significado de ter fé numa pessoa refere-se á fé que temos nas potencialidades alheias. A mais rudimentar forma em que esta fé existe é a fé que a mãe tem para com o filho recém-nascido: ele viverá, crescerá, andará, falará. Contudo, o desenvolvimento da criança a tal respeito ocorre com tal regularidade que a expectativa disso parece não requerer fé. O caso é diferente quando se trata das potencialidades que podem deixar de desenvolver-se: as potencialidades da criança para amar, ser feliz, utilizar sua razão, além das mais específicas, como os dons artísticos. Suas sementes crescem e se tomam manifestas se forem dadas condições adequadas a seu desenvolvimento, e secam-se, se estas condições estiverem ausentes.
Uma das mais importantes entre essas condições é a de que a pessoa que tem significação para a vida de uma criança tenha fé nessas potencialidades. A presença dessa fé estabelece a diferença entre a educação e a manipulação. A educação identifica-se com o auxílio à criança para que realize suas potencialidades. (A raiz da palavra educação é educere, literalmente, levar adiante, ou fazer brotar algo que se acha potencialmente presente.) O contrário da educação é a manipulação, que se baseia na ausência da fé no crescimento das potencialidades e na convicção de que uma criança só se sairá bem se os adultos introduzirem nela o que é desejável e suprimirem o que pareça ser indesejável. Não há necessidade de ter fé nuto “robot”, porque nele também não há vida.
A fé nos outros tem sua culminação na fé na humanidade. No mundo ocidental, essa fé expressou-se, em termos religiosos, na religião judaico-cristã e, em linguagem secular, encontrou a expressão mais forte nas idéias humanísticas políticas e sociais dos últimos cento e cinqüenta anos. Como a fé na criança, baseia-se ela na idéia de que as potencialidades do homem são tais que, dadas as condições adequadas, ele será capaz de edificar uma ordem social governada pelos princípios da igualdade, da justiça e do amor. O homem ainda não conseguiu a construção de tal ordem, e, portanto, a convicção de que ele o possa fazer exige fé. Mas, como toda fé racional, esta também não é um pensamento só desejável, mas se baseia na evidência das realizações passadas da raça humana e na experiência interior de cada indivíduo, em sua própria experiência de razão e amor.
Se a fé irracional se enraíza na submissão a uma força que se sente ser esmagadoramente vigorosa, onisciente e onipotente, e na abdicação da força e do vigor que se tenham, a fé racional se baseia na experiência oposta. Temos essa fé num pensamento porque este é o resultado do que nós mesmos observamos e pensamos. Temos fé nas potencialidades alheias, nas nossas, nas da humanidade, porque, e só até o grau em que, experimentamos o crescimento de nossas próprias potencialidades, a realidade do crescimento em nós, a força de nosso próprio poder de razão e de amor. A fase da fé racional é a produtividade: viver por nossa fé significa viver produtivamente. Daí se segue que a crença no poder (no sentido de dominação) e o uso do poder são o reverso da fé. Acreditar no poder que existe é o mesmo que descrer do crescimento das potencialidades que ainda não foram realizadas. É uma predição do futuro exclusivamente baseada no presente manifesto; mas isso se demonstra um grave equívoco, profundamente irracional em sua consideração das potencialidades humanas e do crescimento humano. Não há fé racional no poder. Há submissão a ele, ou, da parte dos que o têm, o desejo de conservá-lo. Se para muitos o poder parece ser a mais real de todas as coisas, a história do homem tem provado que ele é a mais instável de todas as realizações humanas. Em vista do fato de se excluírem mutuamente a fé e o poder, todas as religiões e todos os sistemas políticos originalmente construídos sobre a fé racional se tomam corruptos e acabam por perder o vigor que têm, quando confiam no poder ou a ele se aliam.
Ter fé requer coragem, a capacidade de correr um risco, a disposição de aceitar mesmo a dor e a decepção. Quem quer que insista na incolumidade e na segurança como condições primárias de vida não pode ter fé; quem quer que se feche num sistema de defesa, em que a distância e a possessividade sejam seus principais meios de segurança, faz de si um prisioneiro. Ser amado e amar requerem coragem, a coragem de julgar certos valores como sendo de extrema preocupação, de saltar á frente e apostar tudo nesses valores.
Esta coragem é muito diferente daquela de que falava o famoso fanfarrão Mussolini, ao usar o lema: “viver perigosamente”. Sua espécie de coragem é a coragem do niilismo. Enraíza-se numa atitude destrutiva para com a vida, na predisposição a lançar fora a vida por se ser incapaz de amá-la. A coragem do desespero é o contrário da coragem do amor, assim como a fé no poder é o contrário da fé na vida.
Existe algo que se possa praticar acerca de fé e coragem? Na verdade, a fé pode ser praticada a cada momento. Criar um filho exige fé; adormecer exige fé; começar qualquer trabalho exige fé. Mas todos estamos acostumados a ter esta espécie de fé. Quem não a tem sofre de excesso de ansiedade por seu filho, ou de insônia, ou da incapacidade de fazer qualquer espécie de trabalho produtivo; ou é suspeitoso, refreando-se de aproximar-se de qualquer pessoa, ou hipocondríaco, ou incapaz de fazer quaisquer planos de longo alcance. Apegar-se ao julgamento que se tem a respeito de uma pessoa, ainda que a opinião pública ou certos fatos imprevistos pareçam invalidá-lo, aferrar-se às próprias convicções, ainda que sejam impopulares — tudo isso requer fé e coragem. Tomar as dificuldades, obstáculos e tristezas da vida como um desafio que devemos superar para tomar-nos mais fortes, em vez de como uma punição injusta que não nos devia sobrevir, requer fé e coragem.
A prática da fé e da coragem começa com os pequenos detalhes da vida diária. O primeiro passo é verificar onde e quando se perde a fé, olhar através das racionalizações que se usam para encobrir essa perda de fé, reconhecer onde se age de modo covarde, e, de novo, como se procura justificar isso. Reconhecer como cada traição à fé nos enfraquece e como a fraqueza aumentada leva a nova traição, e assim por diante, num círculo vicioso. Então, também se reconhecerá que quando se tem conscientemente medo de não ser amado, o medo real, embora habitualmente inconsciente, é o de amar. Amar significa entregar-se sem garantia, dar-se completamente na esperança de que nosso amor produzirá amor na pessoa amada. Amar é um ato de fé, e quem tiver mesquinha fé terá também mesquinho amor. Poder-se-á dizer mais acerca da prática da fé? Poder-se-ia; se eu fosse um poeta, ou um pregador, tenta-lo-ia. Mas, como não sou nenhum dos dois, nem mesmo posso tentar dizer mais acerca da prática da fé, senão que estou seguro de que quem estiver realmente interessado pode aprender a ter fé como uma criança aprende a caminhar.

(Erich From - A arte de amar)

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publicado às 14:31



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