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Fé e Razão

por Thynus, em 11.02.16
Um dos ensinamentos mais importantes concedidos pelo Buda é uma afirmação simples e de bom senso, que carrega profundas implicações tanto para a nossa vida em sociedade quanto para a nossa vida espiritual. Os habitantes de um vilarejo questionaram Buda sobre como saber no que acreditar, já que muitos professores e eruditos promulgavam vários sistemas de crença e doutrinas conflitantes entre si. Assim, Buda aconselhou:
* Não acredite em nada apenas porque ouviu.
* Não acredite em nada apenas porque foi dito e repetido por muitos.
* Não acredite em nada apenas porque está escrito nos livros religiosos.
* Não acredite em nada apenas embasado na autoridade de professores e anciões.
* Não acredite em tradições apenas porque elas se mantiveram por muitas gerações.
* Mas, se após a observação e a análise, restar algo que coadune com a razão e que leve ao benefício próprio e de outros, então acate e viva de acordo com isso.
 
 



Apesar de algumas heroicas tentativas recentes de revivê-los, a maioria dos filósofos concordaria que os argumentos tradicionais a favor da existência de Deus estão além da ressuscitação. A maioria dos crentes religiosos, porém, não se deixaria abalar por essa conclusão. Sua crença não depende de tais argumentos e com certeza não seria abalada por sua refutação.
Conflito entre Razão e Fé
 
Para eles, os padrões normais de discurso racional são inadequados quando se trata de assuntos religiosos. Especulações e raciocínios filosóficos abstratos não são a razão pela qual se tornaram crentes, e também não os fará perder a fé. Aliás, diriam eles, é arrogância supor que os nossos esforços intelectuais tornariam os propósitos de Deus visíveis ou compreensíveis para nós. Acreditar em Deus é, em última instância, uma questão de fé, e não de razão.
A fé pode ser cega, mas também não se trata de “apenas acreditar”. Os que elevam a fé acima da razão – os chamados fideístas – asseguram que a fé é um caminho alternativo para a verdade e que, no caso da crença religiosa, é o caminho certo. Um estado de convicção alcançado por meio da ação de Deus na alma exige, de qualquer forma, um ato voluntário e deliberado de vontade do fiel; a fé requer um salto, mas não um salto no escuro. Os filósofos, em comparação, desejam fazer uma avaliação racional dos possíveis argumentos em favor da crença religiosa; querem peneirar e pesar as evidências para chegar a uma conclusão. Fideístas e filósofos parecem engajados em projetos radicalmente diferentes. Sem terem aparentemente nada em comum, existe alguma chance de que entrem em acordo ou cheguem a um consenso?

Abraão e Isaque
O abismo intransponível entre fé e razão é bem ilustrado pela história bíblica de Abraão e Isaque. Abraão é o exemplo arquetípico e paradigmático da fé religiosa por sua disposição inabalável de obedecer aos mandamentos de Deus, chegando ao ponto de aceitar sacrificar seu próprio filho, Isaque. Tirado do contexto religioso e analisado à luz da razão, no entanto, o comportamento de Abraão parece insano. Qualquer leitura alternativa da situação (fiquei louco/entendi mal/Deus está me testando/o demônio está se fingindo de Deus/posso ter o pedido por escrito?) seria preferível e mais plausível que a escolhida por Abraão, por isso o comportamento dele é irremediavelmente incompreensível para o não crente com tendências racionais.


O balanço da fé em mãos fideísticas, o fato de a crença religiosa não poder ser defendida adequadamente em terreno racional é transformado em algo positivo. Se um caminho (completamente) racional fosse aberto, a fé não seria necessária, mas como a razão falha em providenciar uma justificação, a fé chega para preencher o vazio. O ato de vontade necessário ao crente adiciona mérito moral à aquisição da fé; e uma devoção que não questiona seu objeto é acatada, ao menos pelos que partilham dela, como piedade simples e honesta. Algumas das atrações da fé são bastante óbvias: a vida tem um significado claro, existe algum consolo para as tribulações da vida, os crentes se consolam sabendo que algo melhor os espera após a morte; e assim por diante. A crença religiosa resolve muitas das necessidades e preocupações básicas, primordiais, dos seres humanos, e muitas pessoas inegavelmente se tornam melhores e são até transformadas, ao adotarem um estilo de vida religioso. Ao mesmo tempo, os símbolos e ornamentos da religião têm proporcionado inspiração artística e enriquecimento cultural quase sem limites.

« Aquele que começa a amar o cristianismo mais que a verdade irá depois amar a sua própria seita ou igreja mais que o cristianismo, e terminará por amar a si mesmo mais que tudo. » Samuel Taylor Coleridge, 1825 
 
A aposta de Pascal
Imagine que acreditamos que a evidência para a existência de Deus não é conclusiva. O que devemos fazer? Podemos ou não acreditar em Deus. Se escolhemos acreditar e estivermos certos (isto é, Deus existe), ganhamos a bem-aventurança eterna; se estamos errados, perdemos pouco. Por outro lado, se escolhemos não acreditar e estivermos certos (isto é, Deus não existe), não perdemos nada, mas também não ganhamos muito; mas se estivermos errados, nossa perda é colossal – na melhor das hipóteses, perdemos a salvação eterna; na pior, sofreremos a danação eterna. Tanto a ganhar, tão pouco a perder: você seria tolo de não apostar na existência de Deus. Esse engenhoso argumento para se acreditar em Deus, conhecido como a aposta de Pascal, foi apresentado pelo matemático e filósofo francês Blaise Pascal em sua obra Pensamentos, de 1670. Engenhoso, sim, mas falho. Um problema óbvio é que o argumento exige que nós decidamos no que acreditar, e não é assim que a crença funciona. Pior que isso, porém, é que o impulso que nos leva a fazer a aposta em primeiro lugar é não termos informação suficiente sobre Deus para seguir adiante; no entanto, fazer a aposta certa depende de termos conhecimento do que agrada ou desagrada a Deus. O que acontece caso Deus não se aborreça por ser adorado, mas deteste gente calculista que faz apostas tendo em vista apenas os próprios interesses?


« Vamos pesar os prós e os contras de apostar na existência de Deus. Vamos calcular essas duas possibilidades: se você ganhar, ganha tudo; se perder, não perde nada. Aposte, então, sem hesitação, que Ele existe. » Blaise Pascal, 1670 

Vários dos fatos que seriam colocados pelos fideístas na lista de crédito da fé seriam colocados pelo filósofo ateu na lista de débitos. Entre os mais preciosos princípios do liberalismo secular, memoravelmente demonstrado por J. S. Mill, está a liberdade de pensamento e expressão, que não combina muito bem com o hábito de aquiescência não crítica louvado pelo crente religioso (veja box). A devoção inquestionável valorizada pelo fideísta pode parecer credulidade e superstição para o não crente. A pronta aceitação da autoridade pode levar as pessoas a sofrer a influência de seitas e cultos inescrupulosos, o que às vezes termina em fanatismo e excesso de zelo. Ter fé nos outros é admirável, desde que esses outros sejam em si admiráveis.

 J. S. Mill e a liberdade intelectual
Em sua obra de 1859, Sobre a liberdade, na qual faz um discurso apaixonado sobre a liberdade de expressão, John Stuart Mill fala sobre os perigos de uma cultura intelectualmente reprimida, na qual o questionamento e a crítica de opiniões recebidas são desencorajados e “os mais ativos e inquiridores intelectos” temem entrar na “livre e ousada especulação sobre os mais nobres assuntos”. O desenvolvimento mental é restrito, a razão se curva, a própria verdade tem raízes fracas: “a verdadeira opinião permanece… como um preconceito, uma crença independente de argumentos e de provas contra os argumentos – esta não é a maneira pela qual a verdade deve ser sustentada por um ser racional… A verdade, assim sustentada, não passa de mais uma superstição, pendurando-se acidentalmente às palavras que enunciam uma verdade.”


Quando a razão é excluída, muitos excessos podem vir correndo ocupar seu lugar; e é difícil negar que, em certos momentos e em certas religiões, o sentido religioso e a compaixão saíram voando pela janela e foram substituídos por intolerância, fanatismo, sexismo e coisas piores.
Então a folha de balanço é fechada, com as colunas de crédito e débito alinhadas, e com frequência o que aparece como ativo de um lado é visto como passivo do outro. Na medida em que diferentes métodos de contabilidade são usados, os balanços em si não têm significado, e essa costuma ser a impressão permanente que fica quando crentes e não crentes debatem entre si. Eles geralmente não se entendem, não conseguem estabelecer áreas de interesse comum e são incapazes de fazer com que o outro se mova um milímetro sequer. Os ateus provam para si mesmos com grande satisfação que a fé é irracional; os que creem veem tais supostas provas como irrelevantes. No fim, não importa se a fé é irracional ou não racional; desafiadora e orgulhosamente, ela se opõe à razão e, num certo sentido, é esse o seu objetivo.

« Acredito, logo compreendo. » Santo Agostinho, c.400 

a ideia resumida:
Um salto de fé
 
(Dupré, Ben - 50 ideias de filosofia que você precisa conhecer)

 

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publicado às 04:36



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