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Ninguém projecta conscientemente. Isso seria pura e simplesmente uma contradição. Ninguém acorda pela manhã com a intenção de sair à rua e projectar os seus aspectos negados, rejeitados e escondidos. E, contudo, a energia psíquica em cada um de nós, principalmente a que se encontra fora do nosso alcance, no subconsciente, manifesta-se através de uma dinâmica que o próprio ego não consegue compreender, nem conter. É assim que nos apaixonamos, que tememos um estranho na rua, e recriamos as histórias dos nossos relacionamentos uma e outra vez.
A mente é como um computador analógico capaz de funcionar apenas devido à nossa história pessoal. Até certo ponto, a mente procura situações análogas para poder atribuir significado a algo ou alguém. “Quando é que no passado senti o que estou a sentir agora?”, “O que sei eu sobre esta situação’”, “O que posso ir buscar ao passado para melhor processar este evento?”. Apesar de cada momento na nossa vida ser absolutamente único, o nosso sistema psíquico, funcionando a partir de dados da experiência do passado, como a ansiedade, inunda o campo da nova experiência com a informação antiga. E assim projectamos a nossa vida interior, ou aspectos dela, para cima de indivíduos, grupos, nações. É desta mesma maneira que os propagandistas, os publicitários e os políticos procuram invocar em nós respostas positivas ou negativas. Com frequência a capacidade de crítica do ego consciente é suplantada pelos poderes da programação histórica e os novos momentos da nossa vida sofrem em benefício do passado.
Tenho um vizinho que apelida todos os políticos e homens com poder de decisão de “bananas”. Para ele são todos uns “bananas”! Está a ver televisão, surge um politico e a reacção dele, colérica, é sempre a mesma: “Olha para aquele banana!” O curioso deste meu vizinho é que a sua esposa, enquanto foi viva, tratou-o sempre por “banana”. Ele não consegue ver a ironia nem a projecção. Uma vez que a esposa partiu, o “banana” deixou de estar nele e passou a ser projectado em todos os homens com poder de decisão. Este exemplo ilustra o que disse até agora.
Assim, aquilo que não somos capazes, ou não queremos, ver em nós próprios, ou aquilo que perturba a imagem que queremos mostrar ao mundo de nós, é muitas vezes distanciada do ego consciente através de um mecanismo de projecção que desassocia estes aspectos negados. Uma vez que a energia, a maldade, se encontra agora ‘lá fora’, eu não tenho que lidar com ela ‘cá dentro’.
Mais uma vez, nós não projectamos conscientemente, motivo pelo qual as nossas projecções são tão poderosas, tão capazes de reacções desproporcionais ao que está a acontecer. Quem seria capaz de imaginar que aquilo ‘lá fora’ a que eu reajo tem a sua origem ‘cá dentro’? Quem seria capaz de imaginar que a realidade que eu vejo ‘lá fora’ é mais um aspecto de quem eu sou? Não admira que eu tenha a reacção que tenho, e que sinta uma enorme atracção pela situação ou pessoa!
Nós estamos continuamente a correr em direcção à nossa Sombra, e acreditamos ser algo ‘lá fora’ da qual podemos distanciar-nos. Com cada projecção da Sombra, a nossa alienação potencial daquilo a que se chama realidade aumenta. Quanto mais despejamos os nossos detritos sobre os outros, mais iremos ganhar uma visão distorcida da realidade. Muito raramente conseguimos ver o mundo, e os outros, tal como são de verdade. Guerras foram feitas, romances conquistados, relacionamentos iniciados e terminados sobre as projecções da Sombra. No final perguntamo-nos para quê tanto esforço...
 
Quantas pessoas projectaram na Princesa Diana as suas vidas por viver? Os seus sonhos, os seus sorrisos, a sua bondade? Tudo projecções da Sombra. E depois, na sua morte prematura, choraram as suas próprias vidas por viver. Quanta da vida sofrida desta mulher não foi apenas um carregar aos ombros as Sombras de milhares, senão milhões, de pessoas? De que se alimenta a bisbilhotice e a inveja se não da fuga de nós próprios?
Aquilo que não conhecemos, ou temos receio de conhecer, magoa-nos de verdade. E muitas vezes magoa ainda os que nos rodeiam. Muito frequentemente aquele que recebe a projecção da Sombra dos outros – seja ele um bruxo, pedófilo, toxicodependente, ladrão, judeu, chinês, homossexual, ou qualquer outro mártir do nosso inconsciente – irá ser acusado, humilhado, marginalizado, morto, ou ignorado. Mas estes são apenas os corajosos que carregam a nossa vida secreta, a nossa Sombra, e por este motivo iremos odiá-los, humilhá-los e destrui-los, porque cometeram o pior dos crimes: mostraram-nos o que se esconde dentro de nós.
Infelizmente, quanto mais fraco for o estado do ego mais intolerável se torna, e maior o potencial para julgar os demais de maneira categórica. O mesmo é dizer: maior o preconceito e a intolerância.

(Emídio Carvalho - A Sombra Humana)

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publicado às 12:59



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