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O sono é uma porção de morte que tomamos antecipadamente, e por meio da qual recobramos e renovamos a vida exaurida durante o dia. Le sommeil est un emprunt fait à la mort [o sono é um prefácio feito à morte]. O sono pede emprestado da morte para conservar a vida; ou são os juros pagos provisoriamente à morte, que é o pagamento integral do capital. O reembolso total se exige em um prazo tanto maior quanto mais elevados são os juros e mais metodicamente se paga.
(Arthur Schopenhauer - "Aforismos para a Sabedoria de Vida")
 
 
 
 
O fato mais espantoso sobre qualquer vida individual é que um terço dela se passa inteiramente fora da história, e mesmo fora do espaço e do tempo, no que concerne à experiência subjetiva: no qual do ponto de vista interior, não estamos nem no tempo nem no espaço. Nem estamos na história; apenas passamos fora do mundo da história num estado de temporário não-ser. É um estado absolutamente essencial para nós porque nele nos refugiamos de nossas atividades terrivelmente egoístas a fim de recuperarmos um pouco da saúde e sanidade que estamos sempre minando com nossas atividades conscientes.
Shakespeare tem uma passagem belíssima sobre o sono, em Macbeth: "O sono que trama a emaranhada seda das preocupações, um terço de nossa vida se passa no sono Morte da vida de cada dia, refrigério da dura lida, Bálsamo de mentes feridas, curso paralelo da grande natureza, Principal alimento no banquete da vida"1.
O sono é exatamente isso — o extraordinário acesso a uma nova vida e uma nova visão que nos chegam durante essas oito horas, das vinte e quatro, em que podemos escapar de nós mesmos. Até o mais violento fanático ou o mais perigoso bandido, durante esse terço de sua vida, nesse momento de inteira inconsciência em que pode esquecer seu ego, de alguma forma se reconcilia com a profunda e divina fonte de todo o ser. É um pensamento belíssimo o de que mesmo um Hitler, um Himmler, um Gêngis Khan e um Jay Gould, mesmo um Richelieu, puderam esquecer por momentos as terríveis preocupações do dia.
Um fato muito interessante, quando falamos em organizações sociais, é a descoberta de que elas nunca dormem. As organizações sociais vivem por assim dizer num estado de insônia crônica; jamais se afastam de si mesmas, jamais se abrem para novos caminhos de vida e conhecimento. São corrigidas, de tempos em tempos, apenas pelos indivíduos — que conseguem o benefício do sono e por isso podem reformar organizações sociais de maneira racional. Como disse o sr. Bumble, "a lei é uma mula" — porque a lei nunca dorme2. A Igreja sofre de coisa semelhante. Havia um hino que eu cantava freqüentemente na escola, e uma de suas estrofes diz: "Agradecemos-Te porque Tua Igreja vigilante Não dorme enquanto a Terra busca a Luz, O mundo inteiro, atenta, cuida e guarda, E não descansa, seja dia ou seja noite".
Essa insônia vigilante pode ser a causa de fatos deploráveis na história eclesiástica. A Igreja foi reformada periodicamente por gente que tirava inspiração do sono e da profundeza da mente, e por causa disso ela permanece saudável como está. Mas sofre dos defeitos de todas as organizações, na medida em que, não sendo organismo, mas apenas organização, não tem capacidade de afastar-se e tirar férias de si mesma; jamais dorme, e não consegue se recuperar.
 Para voltar ao indivíduo e ao quanto ele está na história, vemos que há muitos períodos em sua vida, além daqueles gastos dormindo, em que ele fica fora da história. Esses incluem a primeira infância e a maior parte da infância. Durante esses períodos, o homem vive uma vida quase exclusivamente privada, na qual acontecimentos públicos têm nele uma influência mínima. Isso também é verdadeiro quanto à velhice e decrepitude, e períodos de enfermidade; nesses, o indivíduo fica tão abatido que se afasta totalmente da vida pública, e por causa de sua atenção reduzida, e da dor crônica, e da frustração, vive fora de qualquer relação com o mundo exterior. Por fim, o ato mais privado e não-histórico de todos é o ato de morrer, no qual há uma redução da atenção até o indivíduo ser totalmente retirado do mundo da história. É verdade que houve homens eminentes que tentaram permanecer históricos mesmo em seu leito de morte. Há uma história dolorosa sobre Daniel Webster, que falava demais com seus amigos enquanto morria, e queixou-se, perguntando: "Acaso eu disse algo indigno de Daniel Webster?" Parece uma coisa terrível que nesse momento de sua vida um homem sentisse necessidade de ainda ser uma personagem pública e histórica, preocupando-se em ser digno de sua própria reputação.
Se somarmos todos os períodos durante os quais estamos fora da história — sono, infância, extrema velhice e decrepitude, e ainda enfermidade —, veremos que de seu tempo médio de vida, setenta anos, o indivíduo provavelmente passa cerca de quarenta anos excluído da história.
Simplesmente não participa das grandes generalizações históricas que os sociólogos e historiadores fazem.
Porém, mesmo enquanto ser maduro e consciente, o homem gasta grande parte de sua vida num contexto puramente privado e não-histórico. A definição de vida privada que mais aprecio é a dada pelo ensaísta russo Vassíli Rozanov feita há cerca de trinta ou quarenta anos. Ele disse que vida privada é "beliscar o nariz e olhar o pôr-do-sol". É uma definição muito bela; se a interpretarmos de maneira mais geral, veremos que seu verdadeiro significado é que vida privada consiste em gozar nossas reações puramente fisiológicas, estéticas e inspiradoras. Naturalmente, tendemos a racionalizar e explicar essas experiências em termos da cultura dominante. Mesmo assim elas permanecem surpreendentemente privadas e separadas do movimento histórico geral do tempo em que vivemos. (...) Estamos bem e saudáveis unicamente porque o ego tira férias durante um terço de cada dia. Se permanecêssemos o tempo todo acordados, sem dúvida estaríamos bem doentes, ou loucos. E enquanto o ego está fora do caminho, durante o sono, podemos dizer que aquilo que se chama alma vegetativa funciona, sem interferência desse intolerável eu e do inconsciente pessoal, e nos mantém saudáveis.
Mas existe alguma atividade durante o sono: o sonho. Naturalmente a maior parte dos sonhos se referem a coisas que aconteceram durante o dia, antes de dormirmos, ou em tempos muito recentes; mas alguns sonhos, como indicaram os freudianos, referem-se de um modo simbólico a material soterrado. Outros parecem participar da natureza do que Jung chamou "os grandes sonhos", referindo-se ao que denomina material arquetípico, num nível bastante mais baixo do inconsciente.
Alguns sonhos nem mesmo parecem referir-se a isso, mas a algo que não tem nenhuma relação particular com a psique humana.

(Aldous Huxley - A Situação Humana)

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publicado às 03:36



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