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ERRO ENTRE OS MORTOS

por Thynus, em 05.09.14
O reino dos céus é uma condição do coração e não algo que cai na terra ou
que surge depois da morte.
(Nietzsche)

A morte é o começo da vida

O mito de Erro é narrado por Platão em A república. Ele nos fornece uma visão rica e complexa da morte e do além, que levanta questões importantes sobre algumas de nossas maneiras mais simplistas de encarar o que constitui o mistério mais profundo da vida. Independentemente do que nos tenham ensinado na infância, e daquilo em que acreditemos como adultos no que diz respeito ao que nos espera depois da morte, a história de Erro nos diz que o cosmo é uma unidade e que todos fazemos parte de um todo maior, que se move segundo leis ordeiras e harmoniosas. 
A morte, nesse sistema grandioso e ordeiro, é apenas uma etapa no continuum da unidade maior.
 
Erro era um bravo guerreiro que tombou numa batalha. Como o deram como morto, foi devidamente deitado sobre uma pira fúnebre. Seu corpo ali permaneceu durante doze dias, misteriosamente intacto. E no décimo segundo dia Erro surpreendeu os amigos ao acordar e lhes contar a história de sua viagem ao mundo das sombras.
Sua alma havia deixado seu corpo e se juntado a uma multidão de outras almas, num cenário estranho e maravilhoso, onde dois abismos abriam-se para o interior da terra e duas passagens subiam para o céu. Lá ficavam sentados os juízes que proferiam a sentença de cada pessoa. As almas dos justos eram instruídas a tomar um dos caminhos ascendentes, cada qual levando um papiro que resumia sua santidade. Outras, no entanto, levavam registros de suas más ações e eram instruídas a descer para o subterrâneo por uma das passagens descendentes. Ao chegar a vez de Erro, no entanto, os juízes decidiram que ele deveria levar de volta ao mundo dos vivos um relatório sobre o que tinha visto e ouvido entre os mortos.
Ele viu os mortos recentes seguirem seus caminhos distintos, alguns subindo para o céu, outros descendo para o inferno. Pela outra abertura do mundo subterrâneo, subiam das profundezas sombras cobertas de pó e sujeira, que iam se unir às que desciam, reluzentes e puras, da outra passagem celestial. Na planície, elas se misturavam, reconhecendo aqueles a quem tinham conhecido em vida e trocando notícias avidamente. Os justos estavam repletos de alegria, mas os iníquos lamentavam em prantos o que haviam suportado durante mil anos. Erro soube que cada ato praticado em vida era recompensado por um prazo dez vezes maior na vida das sombras, com castigos severos para os maus e ricas recompensas para os que haviam ajudado seus semelhantes.
As almas destinadas a retornar à Terra numa outra encarnação passavam algum tempo nesse lugar, e depois partiam para uma coluna de luz que reluzia como um arcoíris, só que mais brilhante e etérea. Essa coluna de luz, segundo Erro ficou sabendo, é o eixo do céu e da terra, e do meio dele pende o fuso diamantino da Necessidade, que ela gira nos joelhos para manter girando oito círculos de cores variadas. Esses círculos são as trajetórias do Sol, da Lua, dos planetas e das estrelas fixas. Em cada círculo gira uma Sereia, cantando uma única nota, de modo que suas oito vozes misturam-se harmoniosamente e compõem a Música das Esferas. Em volta do trono da Necessidade sentam-se suas três filhas, as Moiras — Láquesis, Clotó e Átropos. Suas vozes cantam no ritmo das Sereias. Láquesis canta o passado, Clotó, o presente, e Átropos, o futuro, e de tempos em tempos as três tocam no fuso para mantê-lo girando.
Enquanto Erro observava, as almas se apresentaram a Láquesis, que tinha no colo o quinhão a ser sorteado por cada uma. Um arauto fez então uma proclamação a todas.
— Almas errantes, exclamou, estais prestes a entrar num novo corpo mortal. Cada qual poderá escolher seu destino, mas a escolha será irreversível. A virtude não respeita as pessoas; liga-se a quem a honra e foge dos que a desprezam. Em vossas cabeças estará vossa sorte: os deuses não serão culpados.
Primeiro as almas tiraram a sorte para ver em que ordem fariam sua escolha, com exceção de Erro, que foi convidado a ficar por perto e observar. O arauto listou diante delas todas as situações da vida humana — tirania, mendicância, fama, beleza, riqueza, pobreza, saúde e doença. Havia também vidas de animais, misturadas com as de homens e mulheres. O arauto, ministro das Moiras, exortou as almas a não serem precipitadas na escolha.
Mas a primeira alma da fila escolheu avidamente uma vida que prometia grande riqueza e poder. Depois, examinando mais de perto seu quinhão, descobriu que estava destinada a devorar os próprios filhos, entre outras atrocidades, ao que então chorou amargamente, acusando a sorte, os deuses e qualquer coisa que não sua própria insensatez por essa escolha. Essa alma viera do Elísion e, em sua vida anterior, vivera num estado ordeiro, devendo sua virtude aos costumes e às expectativas coletivas, e não a uma sabedoria interior. Aliás, o mesmo se deu com muitas das almas do Elísion que fizeram escolhas equivocadas, porque, embora fossem “boas”, segundo a definição popular, faltava-lhes experiência dos males da vida. Por outro lado, as que tinham sido libertas do mundo inferior frequentemente estavam escoladas, tendo aprendido com seu próprio sofrimento e com o sofrimento alheio a serem mais autenticamente bondosas e compassivas. E foi por isso que a maioria das almas trocou um destino bom por um ruim, ou um ruim por um bom.
Erro teve pena e se divertiu ao ver como as almas faziam suas escolhas, aparentemente guiadas pela lembrança de uma vida anterior. Viu Orfeu escolher o corpo de um cisne, como que por ódio às mulheres, que o haviam despedaçado, esquecendo que devia seu nascimento a uma delas. Agamêmnon agiu de modo semelhante, escolhendo a vida de uma águia, pois seu destino anterior também o deixara ressentido da humanidade. E assim continuaram, sendo o astuto Ulisses o último de todos. Lembrando-se dos percalços do passado, que lhe haviam afligido a alma em suas aventuras, ele procurou cuidadosamente, esquecida num canto, uma vida serena e simples, que todas as outras almas tinham desprezado.
Em seguida, exclamou que, se tivesse sido o primeiro a escolher, não teria pedido nada melhor.
Depois de todas as almas fazerem suas escolhas, elas passaram enfileiradas diante de Láquesis, que deu a cada uma o gênio guardião que deveria acompanhá-la na vida e cumprir o destino ligado ao quinhão escolhido por essa alma. Esse espírito levava as almas até Clotó, que, fazendo o fuso dar uma volta, confirmou sua escolha.
Todas as almas tiveram que tocar no fuso, sendo então conduzidas a Átropos, que retorceu o fio entre seus dedos, para tornar inquebrável o que Clotó havia fiado. Por último, cada alma e seu gênio curvaram-se diante do trono da Necessidade. E, em seguida, dirigiram-se à planície deserta do Lete e passaram a noite junto ao Rio do Esquecimento, cuja água não podia ser contida em nenhum recipiente. Todas tinham que beber dessa fonte, e quase todas se precipitaram e beberam demais, e com isso perderam toda a lembrança do que havia acontecido antes. Em seguida, adormeceram.
Por volta da meia-noite, entretanto, o estrondo de um trovão e de um terremoto despertou as almas, que se dispersaram como estrelas cadentes, em direção aos diferentes locais onde deveriam renascer.
Quanto a Erro, ele não foi instruído a beber da água do Lete. Mas não sabia como sua alma havia retornado a seu corpo. De repente, ao abrir os olhos, descobrira-se vivo, estendido sobre sua pira fúnebre.
 
COMENTÁRIO: Os estudiosos comumente entendem a história platônica de Erro como uma construção intelectual destinada a transmitir ideias platônicas específicas. Mas a imagem de um cosmo imenso e ordeiro — onde o que está em cima, no céu, reflete-se no que está embaixo, na terra, e onde toda ação humana tem antecedentes e consequências — não é uma construção de Platão. É uma antiga visão cósmica, cuja natureza é verdadeiramente mítica. Sua essência é que cada alma humana, como parte de uma unidade maior, deve assumir a responsabilidade por seu destino, e não podemos responsabilizar as circunstâncias nem Deus pelas situações em que nos encontramos. Ainda que possamos, como as almas da história, ter bebido demais das águas do Lete e esquecido a história que deixamos para trás, as raízes de nossa necessidade atual encontram-se realmente no passado — seja numa vida anterior, seja no psiquismo ancestral e familiar do qual viemos. Pelo menos metade da população mundial acredita na reencarnação, embora o Ocidente judaico-cristão costume pensar nela como uma prerrogativa do Oriente “místico”. Platão, entretanto, era grego, e o mito que ele contou está profundamente arraigado no psiquismo ocidental, tornando a vir à tona na era moderna para recolocar a responsabilidade e a escolha individuais no centro da vida.
O mito de Erro nos apresenta a morte como um prelúdio da vida, e vice-versa.
Vida e morte, portanto, são capítulos diferentes de uma narrativa cíclica, sendo cada um deles uma transição regida por um padrão cósmico ordeiro. A morte, assim, é um rito de passagem, e só é um fim no sentido de se encerrar um capítulo da história. Há nesse mito uma moral bem-definida, já que os iníquos sofrem no mundo subterrâneo, enquanto os bons desfrutam a bem-aventurança das esferas superiores; mas nenhum deles fica por lá por toda a eternidade, e mesmo as recompensas e punições reservadas aos mortos recentes são de significado paradoxal. Adquirimos sabedoria pelo sofrimento gerado por nossos erros, e cometemos erros por não compreendermos o significado do sofrimento. Os bons podem atrair o mal para si por desconhecê-lo, e os maus podem ser transformados pelas consequências de seus atos. Para os que aceitam a filosofia da reencarnação, essas verdades profundas podem ser entendidas como relativas à maneira como vivemos nossa vida aqui e agora, já que criamos o futuro a partir do presente e do passado. Mas elas também podem ser relativas a uma única vida, que também é um processo cíclico com capítulos que têm começo e fim; e no curso de uma única vida podemos causar e suportar o sofrimento, ganhar sabedoria e fazer escolhas acertadas, ou professar que somos bons e fazer escolhas erradas, por ser essa bondade apenas superficial.
O mito de Erro gera mais perguntas do que respostas, e jamais saberemos ao certo de onde ele veio ou o que Platão pretendeu ao incluí-lo em sua obra. Mas essa visão grandiosa de um cosmo regido pela Necessidade e refletido nos padrões ordeiros dos planetas nos mostra uma percepção muito importante da morte. Se levarmos a vida sem compreender como nos ligamos uns aos outros e como toda ação implica consequências, teremos todos os motivos para temer a morte — seja por haver algum castigo terrível à nossa espera, seja por termos que ir para a escuridão sabendo que, em vida, nada fizemos para dissipar as trevas do mundo que nos cerca. Além de nos apresentar uma visão muito diferente e complexa da morte, a história de Erro é um mito sobre como viver a vida.
 
(Liz Greene Juliet Sharman-Burke - Uma Viagem através dos Mitos, O significado dos mitos como um guia para a vida)

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publicado às 03:59



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