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Erotismo e Religião

por Thynus, em 18.01.16
Durante a Idade Média, o interior de algumas igrejas era
pintado com cenas eróticas: homens e mulheres em atitude obscena,
freiras que mostravam seus peitos ou representações de Adão e Eva
completamente nus. A partir do século XV, as folhas de parreiras invadiram
templos e outros edifícios com a sagrada missão de tapar a
genitália. Graças a essa beatice, olhar o que estava escondido se converteu
em elemento estimulador de nossa libido. Não é comum que
isso aconteça com quase tudo o que é proibido?
A ambientação dessa fantasia numa catedral, um espaço relacionado
com a repressão, tem um caráter transgressor e, portanto, mais
excitante ainda. Sua rebeldia, porém, não é completa, uma vez que a
mulher é atacada e agredida por um homem que ela não procurou por
sua própria vontade. Ele tem o controle. É uma maneira de acalmar os
sentimentos de culpa que perseguem os católicos.

(Sonsoles Fuentes, Laura Carrión - Mulheres Confessam)
 
A sexualidade é uma experiência que permite ao humano
ir além de si mesmo e superar a descontinuidade
que condena o ser
(Georges Bataille)

Toda a atividade do erotismo tem por fim atingir o ser mais íntimo,
no ponto onde ficamos sem forças, onde nos enfraquecemos e nos aniquilamos.
Toda a realização erótica  tem por princípío uma destreuição da estrutura
do ser fechado. A ação decisiva é o desnudamento, a nudez se opõe ao estado fechado, 
quer dizer,  ao estado de existência descontínua.
(Gina Valbão Strozzi - Erotismo e Religião em Georges Bataille) 
 
 
Êxtase, do grego, significa "sair de si". O estado de êxtase é um estado especial de consciência. Êxtase místico é a sublimação do êxtase erótico. Sublimar significa dirigir a carga libidinal para um objecto espiritual . O estado de êxtase místico é o mesmo estado fisiológico do orgasmo, mas sublimado. Algumas condições patológicas também podem desencadear o êxtase místico. O amamentamento, o acto sexual e o parto são processos regulados pelo mesmo coquetel de hormônios e se vividos de forma consciente e em condições ideais, constituem uma experiência extática de profunda transformação. Hoje em dia tornou-se fácil analisar as múltiplas funções dos estados de êxtase. Uma função óbvia é a de ampliar o amor em certos períodos críticos. O “cocktail orgasmogénico" de base produzido pelo nosso corpo sempre inclui hormônios como a ocitocina e as endorfinas , e pode ser considerado um verdadeiro e próprio "coquetel de hormónios do amor ": amor pelo recém-nascido no período perinatal, amor pelo bebê durante a amamentação, amor pelo parceiro durante a relação sexual
 
 
Este texto surge de uma experiência vivida em Roma, há cerca de quatro anos, diante de uma escultura de Gian Lorenzo Bernini – O êxtase de Santa Teresa –, na Igreja Santa Maria della Vittoria. Na ocasião fui “arrebatada” por um caleidoscópio de emoções, com profunda mobilização emocional. Foi uma experiência preciosa e marcante. São raros os momentos de nossa vida em que temos o privilégio de ser tocados de forma tão profunda e significativa. Percebo como, ainda hoje, ela não só permanece ressoando dentro de mim, como também vem promovendo desdobramentos, por exemplo, a elaboração deste texto, no qual desenvolvo algumas idéias sobre as relações entre o místico e o erótico. Vou tentar compartilhar essa experiência, porém, acredito que a palavra não pode alcançar o que realmente foi ali vivenciado. A natureza do que estava sendo representado – o êxtase –, assim como as imagens evocadas em mim estão além daquilo que a linguagem pode transmitir.
Ao contemplar a cena mística representada nessa obra, além da rara beleza e sensibilidade, saltou-me aos olhos a exuberância do erotismo ali presente. Há uma explosão de sensualidade que se irradia pela escultura. Junto com os sentimentos do êxtase místico vi figurada, de maneira magnífica, a representação de uma experiência de intenso prazer e gozo. A genialidade de Bernini conseguiu transformar a frieza e dureza do mármore numa criação que transmite movimento, leveza, emoções sublimes e calorosas, além de extrema voluptuosidade. Chama atenção a languidez do corpo da santa, os movimentos serpenteantes de seu traje, bem como sua expressão facial de êxtase, desfalecimento e exaustão. Seus olhos fechados acentuam ainda mais a manifestação do prazer orgástico. “O prazer se expande pelo panejamento em ondulações gozozas irreprimíveis”, são as palavras de Bataille (1957/2004) para expressar sua vivência diante dessa criação do grande mestre do barroco italiano. Lacan (1972-73/1981) também ressalta, de forma primorosa, o erotismo da cena: “[...] basta olhar para ela para saber que ela goza. E do que ela goza? É claro que o testemunho essencial dos místicos é justamente o de dizer que eles o experimentam, mas não sabem nada dele” (p. 107).
Observo pontos de aproximação entre as sensações e imagens evocadas em mim ao contemplar a criação de Bernini e a experiência de êxtase ali representada: certa desconexão temporária com o mundo externo, arrebatamento, uma profunda emoção no âmago do meu ser, acompanhada de manifestações corporais, como constrição precordial, sensações em nível visceral e leve atordoamento. Esses foram os estímulos que me mobilizaram para refletir sobre as conexões entre erotismo e a experiência místico-religiosa.
Conhecendo melhor a produção de Bernini, pude observar que o erotismo é um atributo marcante de sua arte. A beata Lodovica Albertino e O baldaquino, na Basílica de São Pedro, outros trabalhos de sua autoria, também esbanjam intensa sensualidade. As palavras de Bataille (1957/2004) sobre O baldaquino exaltam o erotismo da obra: “[...] a torsão arrogante e intumescida dos volumes, sua ereção formal, foi vista como incongruência no coração de um espaço de meditação”.
Na realidade, o erotismo é inerente, em maior ou menor grau, a qualquer obra de arte; mesmo que não se faça presente na forma ou tema, podemos reconhecer sua manifestação no ato criativo do artista. O componente libidinal da expressão criativa envolve as pulsões pré-genitais e aspectos arcaicos da sexualidade nos quais se misturam erotismo e agressão, o amor e o ódio. Certa regressão psíquica temporária é também um requisito primordial para a criatividade do artista, assim como para a experiência mística. A produção artística do período barroco está impregnada de forte erotismo. Os excessos místicos e eróticos se relacionam intimamente.
A arte barroca rompe o equilíbrio entre a razão e emoção, entre a arte e a ciência, característico do Renascimento. Propõe a expressão e exaltação dos sentimentos, visando comover intensamente o espectador. É uma época de conflitos espirituais e religiosos. A igreja converte-se numa espécie de palco onde são encenados esses dramas. A fé deveria ser alcançada através dos sentidos e da emoção, e não apenas pela razão. O barroco traduz a tentativa de diálogo entre forças antagônicas: bem e mal, Deus e Diabo, paganismo e cristianismo, espírito e matéria. Em O êxtase de Santa Teresa estão representadas características relevantes desse estilo, tais como movimento, os contrastes acentuados de luz e sombra, realismo, expressão intensa dos sentimentos, composição assimétrica em diagonal e drapeamento e sensualidade. Nesse período, as imagens de cenas religiosas retratadas pelos artistas, assim como a linguagem utilizada pelos místicos ao tratar de questões espirituais, esbanjam profundo erotismo, revelando sua íntima relação com a experiência mística.
Doce embriaguez, beijo dos esposos3, loucura celestial, delícias concedidas são expressões encontradas nos textos místicos que atestam a profunda imbricação entre o erótico e o místico. Erotismo e religião caminham lado a lado, dialogam sem dificuldades. A linguagem que Santa Teresa de Ávila adota para expressar suas vivências místicas revela claramente essa relação:
Vi nele uma comprida lança de ouro e sua ponta parecia ser um ponto de fogo. Parece que ele a enterrou muitas vezes em meu coração e perfurou minhas entranhas. Quando retirava a lança, parecia também retirar minhas entranhas e me deixar toda em fogo do grande amor de Deus. A dor era tão grande que me fazia gemer, porém, a doçura dessa dor excessiva era tal que eu não podia pensar em ficar livre dela... A dor não é corporal, mas espiritual, embora o corpo tenha sua parte e mesmo uma grande parte. É uma carícia de amor tão doce, que então acontece entre a alma e Deus, que rogo a Deus em sua bondade que faça com que ela seja experimentada quem quer que pudesse acreditar que estou mentindo.
Durante os dias em que isso acontecia, ficava meio abobada; não queria ver nem falar, mas ficar abraçada com meu sofrimento que para mim era a maior glória [...] Isto ocorria algumas vezes, quando o Senhor queria que me viessem estes arrebatamentos intensos, que mesmo estando entre pessoas, não podia resistir [...] Antes que esse sofrimento de que falo agora comece, parece que o Senhor arrebata a alma e a põe em êxtase, e assim não há lugar para dor e padecimento, porque logo vem o gozar. (folheto disponível no local da escultura (Santa Teresa de Jesus, Livro de sua vida, cap. XXIX).
Diante do exposto, fica evidente a limitação da abordagem do erotismo somente pelo vértice científico. A relação entre o erotismo e misticismo só pode ser apreendida a partir da vida interior.
Mas o que é o êxtase? Em função de sua natureza, a palavra é insuficiente para descrevê-lo. Na realidade, qualquer experiência mística é difícil de ser colocada em palavras. As analogias constituem um recurso que facilita a comunicação. Segundo Borges (2005, p.30) “o êxtase é um acontecimento de ‘outra ordem’, que não deixa traços recuperáveis na memória, quem sabe precisando desenvolver outro tipo de memória para ser reconstituído, como o próprio gozo e a criação poética”. Podemos caracterizá-lo como uma experiência interior que arrebata o sujeito e que se expressa com dramaticidade através do corpo; não há nada a fazer senão sucumbir ao arrebatamento. É uma ocorrência involuntária ao sujeito que a experimenta e sem a participação da racionalidade; é algo realmente vivido e experimentado. Estão presentes transformações da percepção bem como alteração do nível de consciência. No êxtase místico o arrebatamento depende de uma predisposição divina, é vontade do criador e corresponde a uma união com Deus. Os místicos o descrevem como um estado de beatitude que penetra os sentidos, que os eleva ao possuí-los e que se esvai com a experiência. “O gozo do êxtase é uma dádiva de Deus. Através dele o místico encampa todo o corpo no território da alma enlevada” (Borges, 2005, p. 30). As descrições do êxtase se aproximam à de um orgasmo4. Salta aos olhos a presença marcante das manifestações corporais nos relatos dessa experiência: desfalecimento, perda da respiração, levitação, rigidez dos membros... A própria Santa Teresa faz referência à rigorosa disciplina necessária para se desprender da sensualidade presente na experiência contemplativa.
Segundo Tesone (2006), o êxtase pode ser compreendido como uma busca pela completude narcísica que se realiza através da ligação fusional com Deus. Comenta que, simultaneamente a essa busca, ocorre um desligamento de si, colocando o sujeito que vive essa experiência fora do centro dele mesmo, e uma dessubjetivação que o anula como sujeito. Ele vive através do brilho do objeto que o ilumina, estabelecendo uma relação especular na qual o olhar atribuído a Deus o diviniza e confirma sua potência narcísica. O fragmento do poema de Santa Teresa “Vivo sem viver em mim” (1957, p. 754) é uma expressão preciosa dessa situação.
Vivo sem viver em mim,
E de tal maneira espero,
Que morro porque não morro
Vivo já fora de mim,
Depois que morro de amor;
Porque vivo no Senhor,
Que me quis para si.
A visão dos místicos sobre o erotismo revela alguns aspectos curiosos. O componente erótico do feminino, que usualmente está mais associado ao sofrimento e à dor, é paradoxalmente ressaltado pelos místicos, porém, sob determinadas condições. O erotismo/gozo pode ser exposto desde que atribuído à experiência religiosa. Em nome de Deus o místico pode experimentar aquilo que, em outras condições, estaria interditado. É necessário que o gozo permaneça não assumido por aquele que o experimenta ou, pelo menos, distante do olhar do outro; ele pode ser vivido sem críticas, sem pudor e sem a conotação de pecado na reclusão do monastério e em nome da religião (Tesone, 2006). A obra de Bernini, assim como a célebre frase de Lacan a seu respeito, transcrita acima, traduzem esse aspecto de forma primorosa.
Brown (2005) relata um fato interessante sobre a localização dessa escultura, que também é revelador do paradoxo que envolve o discurso dos místicos sobre o erotismo. Comenta que originalmente a escultura se encontrava no Vaticano, até que o papa Urbano VIII, sob a alegação de que a obra era extremamente erótica e sensual, decidiu transferi-la para o local onde está hoje: uma igreja distante e pouco conhecida. Assim, de um lugar de grande exposição, ela passa a ocupar um local de visibilidade restrita.
Bataille (1957/2004), em O erotismo, reflete intensamente sobre a complexidade da vida erótica, ressaltando a íntima relação entre esta e a experiência místico-religiosa. Segundo ele, o erotismo diz respeito a uma experiência pessoal e individual; seu sentido último é a fusão, ou seja, a ausência do limite. Aponta uma relação essencial e paradoxal entre erotismo e morte. “Entre um ser e um outro há um abismo, uma descontinuidade” (p. 22), sendo que o desejo erótico supõe em nós a dissolução do ser constituído na ordem descontínua; a vida descontínua é colocada em questão, existindo uma procura pela continuidade. O mesmo fenômeno se dá na experiência mística, com a diferença de que nesta há ausência do objeto, enquanto que no erotismo, em seu primeiro movimento, existe um objeto de desejo.
Apesar do erotismo se exprimir, num primeiro momento, pela presença de um objeto de desejo, seu sentido último é a fusão, como já assinalamos. A diferença de experiência mística e erotismo é que na primeira não há uma intenção real consciente de envolvimento do corpo. Buscando na literatura psicanalítica a relação entre erotismo e religião, chamou-me a atenção a escassez de referências sobre o assunto. Apesar de ateu, Freud dedicou vários escritos aos temas religiosos. Considero que suas idéias sobre religião desestimularam os psicanalistas a expandirem a investigação desse assunto.
Reich foi um dos poucos autores que se debruçou sobre a questão. Para ele, o misticismo constitui uma sexualidade distorcida; as respostas místicas impedem a percepção da excitação sexual e o alívio orgástico. Rycroft (citado por Milner, 1987/1991), referindo-se ao trabalho de Reich, comenta que, para este, o orgasmo, unindo o corporal e o espiritual, rompe a dicotomia entre as visões natural-científica e poética-religiosa da realidade. No entanto, devido à couraça defensiva do caráter, a maioria das pessoas jamais alcança o orgasmo neste sentido.
Um olhar superficial já revela dificuldades no diálogo entre psicanálise e religião. Podemos detectar no pensamento de Freud uma ênfase nos aspectos patológicos da religião. Já em 1907, aponta a analogia entre os rituais obsessivos dos neuróticos e os cerimoniais religiosos. Os atos religiosos são públicos e simbólicos, enquanto os atos neuróticos são privados e aparentemente sem sentido. Refere-se à neurose como uma religiosidade individual e à religião como neurose obsessiva universal. Decorridos vinte anos, ainda mantém o mesmo ponto de vista, como atesta a passagem a seguir: “A religião seria a neurose obsessiva da coletividade humana, da mesma forma que a da criança proviria do complexo de Édipo na relação com o pai” (Freud, 1927/1973, p. 2985).
Ao colocar a psicanálise no divã, em O futuro de uma ilusão (1927), referindo-se à religião como uma ilusão, cria um distanciamento ainda maior entre estas duas importantes disciplinas da subjetividade.Consideraque as idéias religiosas são ilusões, realizações dos desejos mais antigos, intensos e urgentes da humanidade. Elas nascem da necessidade de tornar tolerável o desamparo humano e são formadas a partir do material extraído das lembranças do desamparo do nascimento, de nossa própria infância e da infância da humanidade. As ilusões, por sua vez, são definidas como distorções derivadas de desejos humanos. Nesse mesmo texto, Freud compara os dogmas religiosos às idéias delirantes. Sua concepção de ilusão enfatiza o aspecto de evasão e distorção da realidade e não inclui a possibilidade de ela poder funcionar como um elemento que propicie o contato com a realidade. “O trabalho científico é, a meu juízo, o único caminho que pode nos levar ao conhecimento da realidade exterior a nós. Esperar algo da intuição e do êxtase não é mais que uma ilusão” (Freud, 1927/1973, p. 2978)5.
Ele privilegia o elemento regressivo da religião, rejeitando-a em nome da ciência e do progresso. Não conseguiu visualizar seu potencial na constituição da subjetividade do homem. Parece ter destacado apenas o aspecto de evasão da realidade que, dependendo da natureza do vínculo que se estabelece, pode realmente ser observado. A passagem transcrita a seguir ilustra com primor seu ponto de vista:
A técnica da religião consiste em reduzir o valor da vida e em deformar delirantemente a imagem do mundo real, medidas que tem por condição prévia a intimidação da inteligência. A este preço, impondo pela força ao homem a fixação a um infantilismo psíquico e fazendo-o participar de um delírio coletivo, a religião consegue evitar a muitos seres a queda na neurose individual (Freud, 1930/1973, p. 3030).
Na resposta à carta de Roman Rolland, em 1930, Freud prossegue expandindo suas idéias a respeito da religião. Rolland faz referência a um sentimento existente em muitos de nós, denominado por ele de “sensação de eternidade”. Trata-se de uma experiência essencialmente subjetiva de algo sem limites, de certo modo oceânico, de um sentimento de comunhão com o mundo externo, que seria a fonte da religiosidade. “Só graças a esse sentimento oceânico uma pessoa poderia se considerar religiosa, ainda que rechace toda fé e toda ilusão” (Freud, 1930/1973, p. 3018).
Freud aceita a existência, em algumas pessoas, do assim chamado “sentimento oceânico”, porém, ele o atribui a uma fase precoce do desenvolvimento do ego, em que há uma indiferenciação entre o eu e o mundo externo. Os conteúdos ideativos correspondentes a essa fase do desenvolvimento do ego são os de infinitude e de comunhão com o todo, os mesmos que Rolland emprega para se referir ao sentimento oceânico. Acrescenta ainda que o sentimento religioso é derivado do desamparo infantil, da nostalgia pelo pai que ele suscita.
A ênfase no componente regressivo da experiência religiosa constitui um ponto central de seu discurso. Para ele, a religião é a expressão da imaturidade do ser humano.
Considero importante a discriminação entre religião e experiência religiosa. Penso que as considerações de Freud referiam-se particularmente à religião e refletiam sua preocupação com o uso desta como forma de evasão do mundo mental. No meu entender, a experiência religiosa pode propiciar a integração de aspectos dissociados, funcionar como um setting propício para a elaboração de angústias existenciais, ter uma função integradora, ampliar rede de significados, promovendo, portanto, transformações profundas e expansão psíquica.
Podemos compreender essa regressão, não como patologia, mas como parte de um processo de desenvolvimento; a perda do self que ocorre em determinadas experiências religiosas pode representar o desmantelamento adaptativo do falso self, enquanto que o retorno a processos primitivos arcaicos pode significar a recuperação do verdadeiro self. Quando se enfoca a experiência religiosa sob este vértice, ela é tão reparadora quanto a criatividade ou a psicanálise.
Considerando que Freud almejava o reconhecimento da psicanálise como ciência e que as idéias religiosas entravam em conflito com o modelo de ciência vigente na época, é compreensível seu posicionamento. Acredito que sua visão contribuiu para as dificuldades de diálogo entre a religião e a psicanálise. É interessante observar que, ao se referir à indiferenciação self-objeto nos estados de intenso enamoramento, está admitindo, de certa forma, pontos de conexão entre erotismo e religião.
As mudanças nos paradigmas da ciência, bem como o contexto atual de nossa sociedade, vêm favorecendo o estreitamento desse diálogo. Não podemos deixar de citar as valiosas contribuições de Bion (1970/1973) a respeito do místico na psicanálise.
Mais recentemente, Fauteux (1997) faz uma correlação interessante entre criatividade e experiência religiosa. Em ambas existe uma regressão adaptativa do ego, podendo constituir um caminho para a maturidade do self. Observa-se um distanciamento temporário da realidade e um retorno a estruturas inconscientes precoces que podem possibilitar a elaboração de conflitos não resolvidos e redirecionar o desenvolvimento para uma identidade pessoal mais madura.
O processo criativo começa com um esforço disciplinado de se livrar do falso self para recuperar o verdadeiro self. Ele compreende um estado de regressão temporário do qual poderá ou não emergir a elaboração criativa que é o estágio final da criatividade. Ela é o ato de comunicação com os outros, o ato de dar forma à sua inspiração. Os sentimentos profundos e imagens arcaicas que surgem de seu mergulho no inconsciente são inspiradoras, mas não constituem em si o processo criativo.
Na experiência religiosa é igualmente a elaboração que vai transformá-la em uma experiência criativa. A elaboração da experiência religiosa transforma a vida, aproximando-se, nesse aspecto, da experiência psicanalítica.
Não se trata de um processo linear, mas de contínuas oscilações entre esses estados. A inspiração do artista corresponde à iluminação na experiência religiosa. Esta consiste no sentimento de estar unido a Deus, ou ter a verdade desvelada. Pela quebra do falso self, libera-se o verdadeiro self, emergindo assim a receptividade para o novo. Os processos psicológicos internos que eram mantidos na escuridão são iluminados.
Nesse momento, surge-me a seguinte questão: o que teria se passado no âmago da alma de Bernini ao esculpir essa obra magnífica? Sabe-se que ele teve acesso aos relatos de Santa Teresa sobre sua vivência mística. Acredito que, além de ter sido profundamente tocado pelos seus escritos, parece ter vivenciado uma experiência de natureza semelhante à figurada na obra.
Para concluir, retomarei o processo que se desenvolveu dentro de mim, desde o contato com essa obra de arte até a elaboração do presente texto, pois considero que ele reflete de alguma forma o tema aqui abordado, ou seja, a ligação entre erotismo e experiência religiosa.
O estímulo disparador desse processo foi o contato com a criação de Bernini, materializando, através da escultura, uma experiência mística (êxtase), com forte colorido erótico. As imagens evocadas, a complexidade e intensidade das emoções despertadas pela obra, ou seja, a qualidade da experiência que vivi pode se aproximar, em certo sentido, de uma experiência religiosa. Essa experiência permaneceu semi-adormecida dentro de mim durante anos. Nesse período, vez ou outra retornava de forma intensa, porém fugaz, sem qualquer desdobramento perceptível. Foram necessários quatro anos para resgatá-la de forma criativa. O investimento libidinal envolvido na transformação dessa experiência resultou na criação e comunicação deste texto. Penso que foi possível uma elaboração criativa. 

(Raquel Elisabeth Pires)
Apolo e Dapne, Bernini

 

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