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Éris e as Erínias

por Thynus, em 11.08.14

Alguns dizem que Éris e seu irmão gêmeo Ares foram concebidos por Hera quando a deusa tocou certa flor que, no que se refere ao deus homicida, poderia ser o malmequer ou cardo branco, enquanto que para gerar a Discórdia tocou a flor negra ou abrunheiro, da qual a deusa também chamada Disputa veio a absorver o veneno da cizânia.
Dona de humores perversos, Éris tem nas Erínias - ou Fúrias - sua contrapartida perfeita quando incute na alma os mais terríveis castigos a uma conduta lesiva. Éris se apresenta e se faz perceber cada vez que surge um problema; todavia, tal como as Hárpias, as Erínias transformam-se em cães ou em serpentes: desafiam, ladram, mordem o coração e semeiam o terror na consciência. Se Éris é movida pelo simples prazer de provocar altercações, as Fúrias aparecem como instrumento da vingança divina perante as falhas humanas. A Discórdia, segundo Homero, apresenta-se apequenada a princípio e depois se encrespa; em seguida, vigorosa e agressiva, ergue a cabeça até o céu e arrasta o resto do corpo pelo solo envenenando tudo o que encontra em seu caminho.
Filhas do sangue do castrado Urano - a substância que fertilizou Gaia -, as poderosíssimas Erínias acossam intimamente cada criatura, aguilhoam a consciência com remorsos e, quando querem realmente infligir castigos, infundem no espírito estados cambiantes de autodestruição que podem variar de um mero sentimento de culpa até as mais complexas expressões de autodesprezo. Diversamente de Éris, que manipula o repúdio para coroar sua discórdia com manifestações de ódios públicos, as Erínias encarregam-se de velar, desde o interior da mente, pela manutenção da ordem e pela prevalência da lei natural. Além disso, elas também ratificam os excessos doentios, geralmente na esfera privada, apesar da influência dos outros deuses e acima de qualquer reserva da vontade que os homens interponham para aplacá-las quando o tormento rouba-lhes o sono ou lhes impede o sossego.
Vingadoras do mal, primeiro proíbem e advertem; mas se não forem atendidas, condenam sem limites e aniquilam o ser até suas mais íntimas profundezas com a eficácia do remorso.
Não houve quem escapasse de suas sanções no passado. Mesmo hoje, ninguém consegue se furtar a elas. As Erínias instigaram Édipo desde o momento em que ele conheceu a verdade sobre seu duplo crime, e lhe moveram as mãos para que arrancasse os próprios olhos com a vã intenção de afastar de si a visão delas e da carga de culpa que lhe apresentavam. Só conseguiu vencê-las no final de sua vida quando, na paz da alma recobrada pela mediação de outros deuses, expiou, entre sofrimentos e doses de lucidez, as trevas que até então lhe atormentavam a consciência.
Para se libertarem dos sofrimentos que lhes provocavam as Erínias, os homens inventaram o ato da confissão como via de compensação ou, talvez, de permuta de um sacrifício por outro. Mas as Erínias cruzaram os séculos, poderosas e inamovíveis, até se alojarem na alma do homem contemporâneo, marcado por sua personalidade culpável. Foi então que surgiu a psicanálise, e a humanidade explorou os meandros da conduta para mitigar, fosse pela ciência, fosse pela religiosidade, o seu vigoroso furor. Por isso não é diferente o sofrimento de Orestes, que despertou contra si as Erínias por ter dado morte a Clitemnestra, sua mãe e irmã de Helena de Tróia, do padecer de qualquer mulher sem nome que assassina seu próprio filho movida pela perfídia de Éris. As Erínias seguiam Orestes como cães de caça, sem lhe conceder um só instante de paz; à filicida de hoje elas acossam com o silêncio da serpente letal e com uma potência que em nada é menor àquela que, entre nós, moveu as mãos de Jorge Cuesta (1) para primeiro se mutilar de maneira horrenda e depois se enforcar na mesma banheira em que, de permeio a um rio de sangue, buscou uma forma de expiação para seu possível tormento incestuoso.
As Erínias, deidades de signo dual, ao serem vencidas pela bondade e pela purificação interior, assumem o nome de Eumênides, um eufemismo para Benévolas, quando a razão, simbolizada por Atena, reconduziu a consciência à harmonia. Alecto, Tisífone e Megera são os nomes das três Fúrias em sua modalidade de espíritos cruéis, que rastejam no mundo inferior e não cessam de torturar os criminosos. (3)
E se Ares, o deus trácio, desde tempos imemoriais ama as batalhas pelo simples prazer que elas lhe causam, Éris dá ocasião para os combates por meio de rumores, insulando os ciúmes ou despertando outras paixões perversas. Nenhum dos gêmeos tomapartido ou prefere uma facção a outra, pois seu maior contentamento éjustamente o ódio. Isso foi atestado pela llíada quando Éris, por não ter sido convidada para as bodas de Peleu e Tétis, apadrinhada pelo legendário Teseu e da qual participavam as outras deusas, decidiu se interpor à conversa amistosa entre Hera, Atena e Afrodite fazendo rodar a seus pés uma maçã de ouro na qual inscrevera a legenda "à mais bela", fato que se converteria na causa inicial da Guerra de Tróia, ocorrida uma geração depois.
Tampouco Pirítoo, rei dos lápitas e filho de Zeus, que sob a forma de um garanhão correu ao redor de Dias antes de seduzi-la, convidou qualquer dos gêmeos para seus esponsais com Hipodâmia, a domadora de cavalos - não obstante tenham comparecido, além de seu amigo Teseu, rei de Atenas, os demais deuses olímpicos -, porque recordou o dano que Éris havia provocado nas bodas de Tétis e Peleu; no entanto, a Discórdia acabou por se vingar. Apresentaram-se ao banquete mais hóspedes do que podia comportar o palácio, e seus primos, os centauros, juntamente com Nestor, Ceneu e vários outros nobres tessálios, foram se sentar às mesas colocadas sob a proteção da abóbada de uma caverna próxima à sombra de grandes árvores.
Diz-se que, desacostumados ao vinho, os centauros sentiram pela primeira vez seu aroma e, cativados por sua fragrância, recusaram o leite azedo que costumavam tomar e que lhes fora servido.
Apressaram-se, então, a encher suas guampas de prata e beberam o licor derramado dos odres, sem misturá-lo com água, até perderem os sentidos. Quando a noiva foi com seu séquito saudar os que comiam e bebiam na caverna, Eurito se levantou de um salto, furibundo, derrubou a mesa com violência e agarrou Hipodâmia, arrastando-a pelos cabelos. Os outros centauros seguiram seu exemplo nefasto e, depois de quebrarem as mesas e vociferarem, puseram-se a violentar coletivamente as moças e os rapazes que se divertiam no interior da caverna.
Indignados, o rei Pirítoo e seu paraninfo Teseu, coberto com sua pele de leão, acorreram para salvar a noiva. Cortaram ambas as orelhas e o nariz de Eurito em sinal de vingança e o arrojaram para fora da caverna com a ajuda dos outros lápitas. Comandada por Éris e Ares, iniciou-se uma feroz batalha que durou até o anoitecer, com um pavoroso saldo de mortos e feridos. Esta é a origem da legendária inimizade entre lápitas e centauros, a quem Homero descreve como "feras peludas" e a seus vizinhos, os lápitas, como "esmigalhadores de pederneiras" (2).
As obras de Éris são tão imemoriais como incontáveis. Moveu a mão de Caim para assassinar por inveja seu irmão Abel com uma queixada de jumento. Marcou com rancor a história de José e seus irmãos. Impediu a consumação dos amores de Julieta e de Romeu, por causa dos rancores e disputas entre Capuletos e Montecchios. Encheu de injúrias a boca de Salomé para que decapitassem João Batista, por despeito. Éris esteve também na língua de Herodes ao condenar à morte os inocentes a fim de eliminar o Rei dos Reis e, mais tarde, imbuída de sua sede de conflitos, agitou a multidão para crucificá-lo quando fez Pôncio Pilatos lavar as mãos em público, como sinal de sua covardia.
No entanto, esses crimes inumeráveis não ficam impunes porque detrás da Discórdia avançam as Erínias, agitando os espíritos com seus pavorosos sentimentos de culpa, os quais, quando não provocam a autodestruição e ainda mais mortes, tendem a fomentar alicerces civilizadores para expiar com atos de redenção as faltas que se debatem nas consciências contra o vigor dos imperativos morais.
Ainda que poderosos, os gêmeos Éris e Ares não são invencíveis. Reinam agora em um mundo cada vez mais turvo e inquieto, mas contra eles se interpõe a luta da razão e o império da ordem jurídica.
Anuladas em parte pelo fanatismo e pelo desejo de exclusão, as Erínias não parecem ter lugar na consciência dessa humanidade distraída com perseguições e movimentos de ódio; contudo, as Fúrias da consciência persistem em sua obra vingadora porque, enquanto existirem a Discórdia e os crimes dela inseparáveis, elas se manifestarão com seu veneno letal para nos injetar remorsos e tormentos interiores.
Outros deuses da Antigüidade foram olvidados ou seus atributos dissipados nas conquistas humanas; de Ares, Éris e das Erínias, ao contrário, remos notícias a cada minuto, no público e no privado. Não existe homem que não tenha sido tocado por eles nem consciência que não se debata, em maior ou menor grau, contra o influxo da dissensão ou da culpa. Aí estão, sempre à testa da conduta humana, animando as lutas entre a ordem e o caos, entre a perversidade e o sossego da alma.

(1) Engenheiro químico, poeta e ensaísta mexicano nascido em 1903, na cidade de Córdoba, Estado de Veracruz. - Sua obra, publicada em revistas e periódicos, só foi reunida e editada após sua morte. Cuesta se suicidou em agosto de 1942.


(2) Espécie de quartzo, que emite uma fagulha ao ser percutida por metal ou outra pedra, usada desde a Antigüidade para acender fogo. O apelido foi dado por Homero porque lançaram pedaços imensos de pederneira contra os centauros. Como esta rocha é friável, esmigalhava-se ao bater no alvo ou quando caía no chão.

 

(3)  Do sexo amputado do infeliz Urano e do sangue que se espalhou pela superfície da terra, Gaia, nasceram inicialmente deusas aterradoras, que os gregos denominaram “Erínias”. Segundo o poeta Virgílio,(as Erínias) eram três e se chamavam Aleto, Tisífone e... Megera! Isso mesmo, é daí que vem a famigerada megera de quem às vezes falamos em nossa linguagem corrente, nos referindo a alguma mulher particularmente desagradável. Pois, verdade seja dita, as Erínias podiam ser tudo, exceto amáveis; eram, como disse, divindades da vingança e do ódio que perseguiam os culpados de crimes cometidos no coração das famílias e lhes aplicavam tormentos e torturas abomináveis. Foram, por assim dizer, configuradas com essa finalidade desde o nascimento, pois seu principal destino era o de vingar o pai, Urano, no crime cometido pelo filho mais moço, o Titã Cronos. Mas indo além desse caso pessoal, elas acabaram tendo um papel bem importante em inúmeras narrativas míticas, em que detinham a função de terríveis vingadoras de todos os crimes familiares e até mesmo, mais amplamente, de crimes cometidos contra a hospitalidade, quer dizer, contra pessoas que deviam ser tratadas, mesmo sendo de fora, como membros da família. Foram elas, por exemplo, que fizeram ser devorado pela terra o pobre Édipo, que, sem saber nem querer, havia matado o próprio pai e desposado a própria mãe.
As Erínias, divindades da vingança (querem vingar o pai, Urano, da afronta que Cronos lhe impôs). Pelos poetas latinos saberemos que eram três, sendo a última chamada Megera. São também chamadas “Eumênidas”, isto é, as “Benevolentes”, e os romanos lhes deram o nome bastante imagético de “Fúrias” (Luc Ferry, A Sabedoria dos Mitos Gregos).
 O termo "megera" significando mulheres velhas feias originariamente significava "selvagem" como aplicado a um falcão; outros significados obsoletos de "megera" incluem "intratável", "voluntariosa", "leviana" e "desvairada". No caso, a sexualidade feminina combinada com poder deve ser banida, e megera torna-se o menos pensável dos objetos sexuais. Poder uma megera pode ter, mas é um poder apenas para causar repulsa ou aversão ( A N D R E A NYE - Teoria Feminista e as Filosofias do Homem).

(Martha Robles - Mulheres, Mitos e Deusas, o feminino através dos tempos)

 As poderosíssimas Erínias acossam intimamente cada criatura, aguilhoam a consciência com remorsos e, quando querem realmente infligir castigos, infundem no espírito estados cambiantes de autodestruição que podem variar de um mero sentimento de culpa até as mais complexas expressões de autodesprezo.
 
 

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