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Erich Fromm: SEXO E CARÁTER

por Thynus, em 11.10.16
A TESE da existência de diferenças inatas entre os dois sexos, que resultam necessàriamente em diferenças de caráter, é muito antiga. O Velho Testamento estabelece, como peculiaridade e maldição da mulher, que seu “desejo seja apenas para teu marido e êle te dominará”, e do homem que terá de trabalhar em suor e sofrimento. Mas até mesmo a afirmativa bíblica encerra, virtualmente, a tese oposta: o homem foi criado à semelhança de Deus, e sómente como punição pela desobediência original - homens e mulheres foram criados como iguais, em relação à sua responsabilidade moral - recebeu a maldição do conflito mútuo e da diferença eterna. Os dois aspectos, o da diferença básica e o da identidade básica, foram repetidos através dos séculos - certas épocas ou escolas filosóficas ressaltam uma tese, outras a tese oposta.
O problema assumiu maior significação nas discussões filosóficas e políticas dos séculos XVIII e XIX. Representantes da filosofia do Iluminismo afirmaram não haver distinções inatas entre os sexos (l'âme n'a pas de sexe) ; que as diferenças porventura existentes eram condicionadas pela educação, eram - como hoje diríamos - diferenças culturais. Os filósofos românticos de princípios do século XIX, por sua vez, ressaltavam o ponto oposto. Analisaram a diversidade de caráter entre homens e mulheres, e disseram que esta era, fundamentalmente, conseqüência de diferenças biológicas e fisiológicas inatas.
Afirmaram que tais diferenças de caráter existiriam em qualquer cultura concebível.
A despeito dos méritos das respectivas argumentações e a análise dos românticos teve, frequentemente, profundidade - ambos encerravam uma implicação política. Os filósofos do Iluminismo, particularmente os franceses, queriam ressaltar a igualdade social, e até certo ponto também política, entre homem e mulher. Acentuaram a falta de diferenças inatas como argumento a seu favor. Os românticos, que eram reacionários políticos, usaram a análise da essência (Wesen) da natureza do homem como prova da necessidade da desigualdade política e social. Embora atribuíssem qualidades muito admiráveis “à mulher”, insistiam em que suas características a tornavam incapaz de participar na vida social e política em pé de igualdade com os homens.
A luta política pela igualdade feminina não terminou no século XIX, nem se concluiu então a discussão teórica sôbre o caráter inato ou o caráter cultural dessas diferenças. Na Psicologia moderna, Freud tornou-se o representante mais destacado do ponto de vista dos românticos. Enquanto o argumento dêstes fôra elaborado em linguagem filosófica, o de Freud se baseava na observação científica dos pacientes pela Psicanálise. Supunha êle que as diferenças anatômicas entre os sexos era a causa de diferenças de caráter inalteráveis. “A anatomia é a sua desgraça”, diz êle da mulher, parafraseando uma afirmação de Napoleão. Segundo Freud, a menina, ao descobrir que não tem o órgão genital masculino, fica profundamente chocada e impressionada, sentindo que lhe falta alguma coisa, e inveja o homem por ter algo que o destino lhe negou, e, ainda, que no curso normal de sua evolução ela tentará superar o sentimento de inferioridade e inveja substituindo o órgão genital masculino por outras coisas - marido, filhos, bens. No caso de uma evolução neurótica, ela não conseguirá realizar essas substituições satisfatórias. Continua invejando o homem, não abandona o desejo de ser homem, torna-se homossexual ou odeia os homens, ou busca compensações culturalmente admitidas. Até mesmo no caso de evolução normal, a qualidade trágica da sorte feminina jamais desaparece totalmente -persegue-a o desejo de obter algo que permanece inalcançável por tôda a vida.
Embora os psicanalistas ortodoxos conservassem essa teoria de Freud como uma das pedras fundamentais de seu sistema psicológico, outro grupo de analistas, culturalmente orientados,
discutiu as descobertas de Freud. Mostrou os erros, tanto clínicos como teóricos, do raciocínio freudiano, assinalando as experiências culturais e pessoais das mulheres na sociedade moderna, que provocaram os traços de caráter explicados por êle em têrmos biológicos. A opinião dêsse grupo de psicanalistas teve confirmação nas descobertas dos antropólogos.
Não obstante, existe o perigo de que certos adeptos das teorias antropológica progressista e psicanalítica recuem a ponto de negar totalmente que as diferenças biológicas tenham qualquer efeito na estrutura do caráter. Podem ser levados a isso pela mesma motivação encontrada nos representantes do Iluminismo francês. Como a ênfase sôbre as diferenças inatas é usada como argumento pelos inimigos da igualdade da mulher, parece necessário provar que há apenas causas culturais para qualquer diferença que se possa observar empiricamente.
É importante reconhecer que nessa controvérsia existe uma importante questão filosófica. A tendência para negar qualquer diferença de caráter entre os sexos pode ser provocada pela aceitação implícita de uma das premissas da filosofia antiigualitária: a fim de pretender a igualdade, é necessário provar que não há diferenças de caráter entre os sexos, exceto as provocadas pelas condições sociais existentes. Um dos grupos fala de diferenças, ao passo que os reacionários realmente pretendem dizer deficiências e, mais especificamente, as deficiências que tornam impossível partilhar da plena igualdade com o grupo dominante. Assim, a pretensa inteligência limitada e a falta de faculdade de organização e de juízo crítico ou abstrato das mulheres foram alegadas como razões para impedir sua plena igualdade com os homens. Uma escola de pensamento afirmava que elas possuem intuição, amor, ete., mas que essas qualidades não pareciam torná-las mais capazes de enfrentar as tarefas da sociedade moderna. O mesmo se diz, com freqüência, das minorias como a dos negros ou judeus. Dessa forma, o psicólogo e o antropólogo foram levados à necessidade de demonstrar que entre os sexos ou grupos raciais não havia diferenças fundamentais capazes de impedir-lhes a participar da Plena igualdade. Devido a essa posição, os pensadores liberais se inclinaram a reduzir ao mínimo a existência de quaisquer distinções.
Embora os liberais provassem que não existem diferenças capazes de justificar a desigualdade política, econômica e social, deixaram-se levar a uma posição defensiva estratègicamente desfavorável. Para provar o fato de que não existem diferenças socialmente prejudiciais não é necessário sustentar a inexistência de diferenças. A questão será, então, adequadamente, a seguinte: qual a utilização dada às diferenças, reais ou súpostas, e a que finalidades políticas servem? Admitindo que as mulheres tenham certas distinções de caráter em relação aos homens, que significa isso?
Nossa tese é a de que certas distinções biológicas provocam outras distinções de caráter; que tais diferenças se fundem com as provocadas diretamente pelos fatôres sociais; que êstes são muito mais fortes em seu efeito e podem aumentar, eliminar ou inverter diferenças de origem biológica; e que, finalmente, as diferenças de caráter entre os sexos, quando não determinadas diretamente pela cultura, jamais constituem diferenças de valor. Em outras palavras, o caráter tipico dos homens e das mulheres na cultura ocidental é determinado pelos seus respectivos papéis sociais, mas há uma coloração nesse caráter que resulta das diferenças de sexo. Tal coloração é insignificante, em relação às diferenças de origem social, mas não deve ser ignorada.
A suposição implícita em grande parte do pensamento reacionário é a de que a igualdade pressupõe uma ausência de diferenças entre pessoas e grupos sociais.
Elas evidentemente existem, em relação a quase tudo o que importa na vida, e por isso a conclusão é que não pode haver igualdade. Quando, inversamente, os liberais negam o fato de haver grandes diferenças nos dons mentais e físicos, e condições acidentais de personalidade favoráveis ou desfavoráveis apenas contribuem para que seus adversários aparentem ter, aos olhos do homem comum, razão. O conceito de igualdade, tal como se desenvolveu na tradição judaico-cristã e na tradição progressista moderna, significa que todos os homens são iguais na capacidade humana que se relaciona com o gozo da liberdade e felicidade. Significa, ainda, que como conseqüência política dessa igualdade básica nenhum homem será usado como meio para as finalidades de outro homem, e nenhum grupo será meio para as finalidades de outro grupo. Todo homem é um universo em si, e sómente para seus objetivos. Sua finalidade é a realização de seu ser, incluindo as peculiaridades mesmas que o caracterizam e distinguem dos outros. Assim, a igualdade é a base do pleno desenvolvimento das diferenças, e resulta no desenvolvimento da individualidade.
Embora existam várias diferenças biológicas cuja importância para as diferenças de caráter entre homem e mulher bem poderíamos examinar, êste ensaio apenas se ocupará principalmente de uma delas. Nosso objetivo, aqui, não é tanto examinar a totalidade do problema das diferenças de caráter entre os sexos mas ilustrar a tese geral. Vamos focalizar principalmente os papéis do homem e da mulher nas relações sexuais e procurar mostrar que essa diferença resulta em certas diferenças de caráter - que apenas dão côr às principais distinções provocadas pelos papéis sociais diversos do homem e da mulher.
A fim de funcionar sexualmente, o homem precisa de ereção e de ser capaz de conservá-la durante a relação até atingir o orgasmo. A fim de satisfazer a mulher, deve ser capaz de conservar a ereção por um período suficientemente prolongado para que também ela tenha o orgasmo. Isso significa que para satisfazer sexualmente a mulher o homem tem de demonstrar sua capacidade de ter e manter a ereção. A mulher, por sua vez, para satisfazer sexualmente o homem nada precisa demonstrar. Na verdade, sua excitação pode aumentar o prazer masculino. Certas alterações físicas nos seus órgãos sexuais podem tornar mais fáceis as relações. Como só levamos em conta as reações puramente sexuais e não as sutis reações psíquicas de personalidades distintas, a realidade é que o homem precisa da ereção para satisfazer a mulher; a mulher de nada precisa para satisfazer o homem, a não ser certa boa-vontade. E, falando de boa-vontade, é importante notar que a capacidade que tem a mulher de satisfazer sexualmente o homem depende da sua vontade - é uma decisão consciente que pode tomar no momento que desejar. A capacidade masculina, porém, não é simplesmente uma função de sua vontade. Na realidade, êle pode ter desejo sexual e ereção contra a vontade, e pode ser impotente apesar de um ardente desejo em contrário. Além disso, da parte do homem a inabilidade de funcionar é um fato que não pode ser disfarçado. A falta de reação total ou parcial na mulher, embora freqüentemente percebida pelo homem, não é tão evidente, permitindo uma grande margem de disfarce. Se a mulher o consente, o homem pode ter certeza de satisfazer-se sempre que desejar. Mas a situação da mulher é totalmente diferente; o mais ardente desejo sexual de sua parte não levará à satisfação, a menos que o homem tenha também por ela um desejo suficiente para provocar a ereção. E, mesmo durante o ato sexual, a mulher depende, para sua plena satisfação, da capacidade masculina de levá-la ao orgasmo. Assim, para satisfazer sua companheira o homem tem de provar alguma coisa; a mulher, não.
Dessa diferença nos respectivos papéis sexuais segue-se uma outra - a diferença nas suas ansiedades específicas em relação à função sexual. A ansiedade está localizada no ponto mesmo em que as posições do homem e da mulher são vulneráveis. A posição do homem é vulnerável na medida em que tem de provar alguma coisa, ou seja, na medida em que é potencialmente capaz de falhar.
Para êle, as relações sexuais têm sempre a côr de uma prova, de um exame. Sua ansiedade específica é a de falhar. Mêdo da castração é o caso extremo - mêdo de tornar-se orgânicamente, e portanto permanentemente, incapaz de funcionar.
A vulnerabilidade da mulher, por sua vez, está na dependência do homem; o elemento de insegurança relacionado com suas funções sexuais está não em falhar, mas em não se realizar, em se frustrar, em não ter contrôle completo do processo que leva à satísfação sexual. Não é de surpreender, assim, que as ansiedades do homem e da mulher se refiram a esferas diferentes - a do homem ao seu ego, seu prestígio, seu valor aos olhos da mulher; a da mulher, à sua satisfação e prazer sexual.(Distinção semelhante, em relação às diferenças nos temores sexuais das crianças, é estabelecida por Karen Horney, “Die Angst vor der Frau”, Zeitschr.f. Psychoanal. XIII (1932), 1-18)
O leitor poderá indagar: não são essas ansiedades características apenas das personalidades neuróticas? Não tem o homem normal certeza de sua potência? Não tem a mulher normal confiança em seu companheiro? Não se trata, no caso, do homem moderno, altamente nervoso e sexualmente inseguro? Não estariam o homem e a mulher das cavernas, com sua sexualidade primitiva e não estragada, livres dessas dúvidas e ansiedades?
À primeira vista, assim poderia parecer. O homem que se preocupa constantemente com sua potência representa certo tipo de personalidade neurótica, tal como a mulher que está constantemente temerosa de ficar insatisfeita, ou que sofre com a sua dependência. Como ocorre freqüentemente, no caso a diferença entre o “neurótico” e o “normal” é freqüentemente de grau e consciencia, e não de essência. O que no neurótico é uma ansiedade consciente e permanente, no chamado homem normal é uma ansiedade relativamente ignorada e quantitativamente insignificante. O mesmo ocorre na mulher. Além disso, nos indivíduos normais, a ansiedade não é despertada por certos incidentes que sempre provocam ansiedade manifesta nos neuróticos. O homem normal não tem dúvida de sua potência. A mulher normal não tem mêdo de ser sexualmente frustrada pelo homem que escolheu para companheiro. A escolha de um homem em quem possa confiar sexualmente é parte essencial de seu instinto sexual sadio. Mas isso não altera o fato de que potencialmente o homem pode falhar, e a mulher, jamais. A mulher depende do desejo do homem, e não o homem do desejo feminino.
Há ainda outro elemento significativo, para determinar a presença de ansiedade, e de ansiedades diferentes, no homem e na mulher normais.
A diferença entre sexos é a base da mais antiga e elementar divisão da humanidade em grupos separados. Homens e mulheres precisam uns dos outros para a manutenção da raça e da família, bem como para a satisfação de seus desejos sexuais. Mas em qualquer situação na qual os dois grupos diferentes se necessitam, haverá não só elementos de harmonia, cooperação e satisfação mútua, mas também de luta e desarmonia.
A relação sexual entre os sexos dificilmente poderia estar lívre de antagonismo e de hostilidade potenciais. Os homens e as mulheres têm, juntamente com a capacidade de amar-se, uma capacidade semelhante de odiar. Em qualquer relação entre homem e mulher, o elemento de antagonismo é uma potencialidade, e dessa potencialidade mesma o elemento de ansiedade surge por vêzes. O ser amado pode transformar-se em inimigo, e nesse caso os pontos vulneráveis do homem e da mulher, respectivamente, são ameaçados.
O tipo de ansiedade e ameaça, porém, é diferente no homem e na mulher. Se a principal ansiedade do homem é a de falhar, de não executar o que dêle se espera, o impulso destinado a protegê-lo dessa ansiedade é o desejo de prestígio.
O homem está profundamente imbuído do anseio de provar constantemente, a si e à mulher que ama, a tôdas as outras mulheres e a todos os outros homens, que corresponde a qualquer expectativa que se mantenha em relação a êle. Procura proteção contra o mêdo de falhar sexualmente, competindo em tôdas as outras esferas da vida nas quais o poder, a fôrça física e a inteligência são úteis para assegurar o êxito. Intimamente relacionada com êsse desejo de prestígio está a sua atitude de competição em relação aos outros homens. Tendo mêdo de um possível fracasso, êle tende a provar que é melhor do que qualquer outro homem. O Dom Juan o faz diretamente no âmbito sexual, o homem médio o faz indiretamente - matando maior número de inimigos, caçando maior número de búfalos, ganhando mais dinheiro ou tendo maior êxito em outros setores do que seus concorrentes.
O moderno sistema social e econômico baseia-se nos princípios da concorrência e do êxito. As ideologias louvam-lhe o valor, e por essas e outras circunstâncias o anseio de prestígio e competição está firmemente implantado no ser humano médio que vive na cultura ocidental. Mesmo que não houvesse diferenças nos respectivos papéis sexuais, essas ansiedades existiriam nos homens e nas mulheres, devido aos fatôres sociais. O impacto dessas fontes sociais é tão grande que podemos duvidar se, em têrmos quantitativos, há qualquer predomínio acentuado do anseio de prestígio no homem, em conseqüência dos fatôres sexuais que focalizamos. A questão de primordial importância, porém, não são as proporções em que a concorrência é aumentada pelas fontes sexuais, mas sim a necessidade de reconhecer-se a presença de outros fatôres, além do social, no estímulo à competição.
A busca masculina de prestígio lança alguma luz sôbre a qualidade específica da vaidade do homem. Afirma-se, geralmente, ser a mulher mais vaidosa do que o homem. Embora o inverso possa ser verdade, o que importa não é a diferença em quantidade, mas sim na natureza da vaidade. A característica essencial da vaidade masculina é o exibicionismo, a demonstração do bom
“executor” que êle é. O homem anseia por afirmar que não tem mêdo de falhar.
Sua vaidade parece colorir tôda a sua atividade. Provàvelmente não haverá nenhuma realização do homem, desde o ato do amor até o ato mais corajoso numa batalha ou no pensamento, que não esteja permeado, em proporções diferentes, dessa vaidade típica masculina.
Outro aspecto do anseio que tem o homem de prestígio é sua sensibilidade ao ridículo.Até mesmo o covarde pode tornar-se herói pelo mêdo de ser ridicularizado pelas mulheres, e o receio de perder a vida pode ser menor do que o mêdo ao ridículo. Na verdade, isso é típico da essência do heroísmo masculino, e que não é maior do que o heroísmo de que são capazes as mulheres, mas sim diferente, por estar impregnado da vaidade masculina.
Outro resultado da precária posição do homem em relação à mulher e seu mêdo do ridículo feminino é o ódio potencial que experimenta por ela. Êsse ódio contribui para um anseio que tem também uma função defensiva: dominar a mulher, ter poder sôbre ela, fazê-la sentir-se fraca e inferior. Se o homem consegue isso, não precisa ter mêdo dela. Se ela tiver mêdo dêle; mêdo de ser morta, espancada, ou passar fome - não poderá ridicularizá-lo. O poder sôbre uma pessoa não depende da intensidade da paixão experimentada nem do funcionamento da produtividade sexual e emocional. O poder depende de fatôres mantidos com tal segurança que jamais possa surgir uma dúvida sôbre a capacidade ou a competência. Incidentalmente, a promessa de poder sôbre a mulher é o conforto que o mito bíblico, de tendências patriarcais, oferece ao homem, ainda quando Deus o amaldiçoa.
Voltando ao problema da vaidade, afirmamos que a vaidade feminina difere, qualitativamente, da vaidade masculina. 
Esta se resume em mostrar o que o homem pode fazer, em provar que jamais falha; a vaidade da mulher é caracterizada essencialmente pela necessidade de atrair e de provar a si mesma que é capaz de atrair. Na verdade, o homem precisa exercer atração, sexualmente, sôbre a mulher, a fim de conquistá-la.
Isso é particularmente exato numa cultura em que gostos e sentimentos distintos estão implícitos na atração sexual. Mas há outras formas pelas quais o homem pode conquistar a mulher e levá-la a ser sua companheira sexual: simples fôrça física ou, o que é mais significativo, poder social e riqueza. Suas oportunidades de satisfação sexual não dependem exclusivamente da capacidade de exercer atração sexual. Nem a fôrça nem as promessas podem dar potência sexual a um homem. O esfôrço feminino para atrair é uma exigência do seu papel sexual, e sua vaidade ou preocupação com a aparência resulta disso.
O mêdo feminino da dependência, ou frustração, de um papel que a obriga a esperar freqüentemente leva a um desejo que Freud acentuou bastante: o de ter o órgão genital masculino.(Cf. Clara Thompson, “What is Penis Envy?”, e a discussão que se segue, por Janet Rioch, Proceedings of the Assoemition for the Advancement of Psychoanalysis, Boston Meeting, 1942) A raiz disso, porém, não está em sentir a mulher, primordialmente, que lhe falta alguma coisa, que ela é inferior ao homem por falta de um pênis. Embora em muitos casos haja outras razões, o desejo feminino de ter um penis surge freqüentemente do anseio de não ser dependente, de não ter suas atividades limitadas, de não ficar exposta ao perigo da frustração. Tal como o desejo masculino de ser mulher pode resultar dessa vontade de se ver livre do pêso da prova, o desejo feminino de ter um pênis pode resultar do anseio de superar a própria dependência. E também, em circunstâncias especiais, mas não raras, não sómente o pênis serve como um símbolo de independência, mas, na satisfação das tendências sádico-agressivas, também simboliza uma arma com a qual ferir os homens ou as outras mulheres.(Na homossexualidade feminina, um aspecto significativo do quadro parece ser a combinação da tendência a ser ativa, em contraste com o papel dependente passivo, juntamente com as tendências destruidoras)
Se a principal arma do homem contra a mulher é seu poder físico e social sôbre ela, então a principal arma da mulher é a possibilidade de ridicularizar o homem. A forma mais radical disso é tornar o homem impotente. Há muitas formas, sutis e cruas, pelas quais a mulher faz isso. Tais formas vão de uma expectativa explícita ou implícita de um fracasso até a frieza e a uma espécie de espasmo vaginal que torna a cópula fisicamente impossível. O desejo de castrar o homem não parece desempenhar o papel sumamente importante que Freud lhe atribui. A castração é, na verdade, uma forma de tornar o homem impotente e surge freqüentemente quando as tendências destruidoras e sádicas são acentuadas. Mas o principal objetivo da hostilidade feminina parece ser não o dano fisico, mas funcional, a interferência na capacidade masculina de realizar o ato. A hostilidade específica do homem é sobrepor-se pela fôrça física, pela fôrça política ou econômica; a da mulher é solapar, pelo ridículo e pelo desprêzo.
A mulher pode ter filhos, o homem não. Dêsse ponto de vista patriarcal, Freud supõe, caracteristicamente, que a mulher inveja o órgão masculino, sem observar a possibilidade de que os homens sintam inveja da capacidade feminina de ter filhos. Essa interpretação unilateral não vem apenas da premissa masculina de que os homens são superiores, mas também resulta da atitude de uma civilização altamente técnica e industrial, na qual a produtividade natural não é muito valorizada. Não obstante, se considerarmos os períodos iniciais da história humana, quando a vida dependia essencialmente da produtividade na Natureza, e não da produtividade técnica, o fato de partilharem as mulheres êsse dom com a terra e com as fêmeas dos animais deve ter sido extremamente impressionante. O homem é estéril, em têrmos puramente naturalistas. Numa cultura em que a principal ênfase recai sôbre a produtividade natural, seria de supor que o homem se sentisse inferior à mulher, especialmente quando seu papel na produção dos filhos não era compreendido. Podemos supor que os homens admiravam as mulheres por essa capacidade que lhes faltava, que estavam maravilhados com ela e a invejavam. O homem não podia produzir, podia apenas matar animais e comê-los, ou matar inimigos para ter segurança, ou assimilar-lhes a fôrça através de algum processo mágico. 
Sem discutir a situação dêsses fatôres nas comunidades exclusivamente agrárias, examinaremos ràpidamente os efeitos de algumas importantes transformações históricas. Um dêsses feitos mais significativos foi a crescente aplicação da técnica à produção. A inteligência foi usada, cada vez mais, para aperfeiçoar e aumentar os vários meios de vida que originalmente dependiam apenas das dádivas da Natureza. Embora as mulheres tivessem um dom original que as tornava superiores aos homens, êstes a princípio compensaram tal falta usando sua habilidade na destruição, e mais tarde empregando seu intelecto como base da produtividade técnica. Em suas fases iniciais, isso se relacionava intimamente com a mágica; mais tarde, o homem, pela fôrça de seu pensamento, produziu coisas materiais. Sua capacidade de produção técnica superou com o tempo a dependência da produção natural.
Ao invés de desenvolvermos mais êsse ponto, remetemos o leitor simplesmente aos escritos de Bachofen, Morgan e Briffault, que reuniram e analisaram brilhantemente o material antropológico que, embora não lhes comprove as teses, sugere fortemente que em várias fases da história primitiva existiram certas culturas nas quais a organização social se centralizava em tôrno da mãe, e nas quais as deusas maternais, identificadas com a produtividade da Natureza, eram o centro das idéias religiosas do homem.(Ver também Frieda Fromm-Reichmann, “Notes on the Mother Role in the Family Group”, Bulletin of the Menninger Clinic, IV (1940), 132-148)
Uma ilustração bastará. O mito babilônico da criação começa com a existência de uma deusa-mãe - Tiamate - que governa o universo. Seu domínio, porém, é ameaçado pelos seus filhos, que planejam rebelar-se e derrubá-la. Como líder dessa luta buscam alguém que possa igualá-la em fôrça. Chegam, finalmente, a um acôrdo em relação a Marduque, mas antes da escolha definitiva exigem que se submeta a uma prova. Qual prova? Apresentara-lhe um pano, que tem de, “com o poder de sua bôca”, fazer desaparecer e reaparecer de nôvo, com uma palavra. Com uma palavra o líder escolhido destrói o pano e com uma palavra o cria novamente. Sua liderança é confirmada. Derrota a deusa-mãe e com seu corpo cria o céu e a terra.
Qual o sentido dessa prova? Para que o deus masculino iguale a fôrça da deusa, necessita da qualidade que a faz superior - o poder de criar. A prova destina-se a confirmar que êle tem êsse poder, bem como o poder caracteristicamente masculino de destruir, a forma pela qual o homem tradicionalmente modificou a Natureza. Êle primeiro destrói, depois recria, um objeto material - mas o faz com sua palavra e não, como a mulher, com o seu ventre. A produtividade natural é substituída pela mágica do pensamento e dos processos verbais.
O mito da criação bíblico começa onde o mito babilônico termina. Quase todos os traços da supremacia da deusa já estão eliminados. A criação começa com a mágica de Deus, a mágica da criação pela palavra. Repete-se o tema da criação masculina, e, contràriamente à realidade, o homem não nasce da mulher, e sim a mulher é feita do homem.(Compara-se o mito grego de Atena nascendo da cabeça de Zeus, e a interpretação dêsse mito, bem como dos remanescentes da religião matriarcal na mitologia grega, feita por Bachofen e Otto) O mito bíblico é uma ode ao triunfo do homem, negando que as mulheres façam nascer os homens, e invertendo as relações naturais. Na maldição de Deus, temos novamente a afirmação da supremacia do homem. A função criadora da mulher é reconhecida, mas terá de ser exercida em sofrimento. O homem destina-se ao trabalho, ou seja, à produção, e assim substitui a produtividade original da mulher, mesmo que isso também tenha de ser feito com suor e lágrimas.
Examinamos, com alguma minúcia, o fenômeno dos remanescentes matriarcais na história da religião para ilustrar um ponto importante neste contexto - o fato de que a mulher tem a capacidade da produção natural que falta ao homem, estéril nesse nível. Em certos períodos da história essa superioridade da mulher é admitida conscientemente; em outros tôda a ênfase recai sôbre a produtividade mágica e técnica do homem. Não obstante, parece que inconscientemente, ainda hoje, essa diferença não perdeu totalmente o sentido; no recôndito do homem existe uma admiração pela mulher, por essa capacidade que falta a êle, e que inveja e teme. Em seu caráter há a necessidade de um esfôrço permanente de compensação dessa falta; e, no recôndito da mulher, há um sentimento de superioridade em relação ao homem, pela sua “esterilidade”.
Até agora, tratamos certas distinções de caráter entre homens e mulheres, resultantes de suas diferenças sexuais. Significa isso que os traços como a dependência excessiva, de um lado, e o anseio de prestígio e competição, de outro, sejam causados essencialmente pelas diferenças de sexo? Devem “o” homem e “a” mulher exibir êsses traços, de forma que, se tiverem traços característicos do outro sexo, isso se deva explicar pela presença de um componente homossexual?
Não admitimos essas conclusões. A diferença sexual influi na personalidade do homem e da mulher médios, e essa influência pode ser comparada à clave ou tom em que uma melodia é escrita, e não à própria melodia. Além disso, refere-se sómente ao homem e à mulher médios, e varia em cada pessoa.
Essas diferenças “naturais” fundem-se com as diferenças provocadas pela cultura específica em que vive a pessoa. Hoje, por exemplo, o anseio de prestígio e sucesso pelo homem tem muito menos relação com os papéis sexuais do que com os papéis sociais. A sociedade é organizada de modo que necessàriamente produz tais anseios, tenham êles ou não suas raízes em peculiaridades masculinas ou femininas específicas. O anseio de prestígio, que encontramos no homem moderno desde o fim da Idade Média, é condicionado principalmente pelo sistema social e econômico, e não por seu papel sexual. O mesmo ocorre em relação à dependência das mulheres. Ocorre que os padrões culturais e formas sociais podem criar tendências ideológicas que correm paralelas a tendências idênticas enraizadas em fontes totalmente outras, como as diferenças sexuais. Se tal fôr o caso, as tendências paralelas se fundem numa só, como se idênticas fôssem as suas fontes.
Os anseios de prestígio e dependência, embora produtos da cultura, determinam a totalidade da personalidade. A personalidade individual fica, assim, reduzida a um segmento da totalidade da gama das potencialidades humanas. Mas as diferenças de caráter, embora tenham raízes em diferenças naturais, não são dêsse tipo. A razão disso está no fato de que mais profunda do que a diferença é a igualdade dos sexos, o fato de que homens e mulheres são, acima de tudo, sêres humanos partilhando das mesmas potencialidades, dos mesmos desejos e mesmos temores. O que existe nêles de diverso, decorrente de diferenças naturais, não representa uma diferença fundamental. Dá às suas personalidades, fundamentalmente semelhantes, pequenas diferenças de ênfase numa ou noutra tendência, surgidas empiricamente como um colorido. As distinções provocadas pelas diferenças sexuais não constituem base para atribuir ao homem e à mulher papéis diferentes em nenhuma sociedade.
É evidente hoje que quaisquer diferenças existentes entre os sexos são relativamente insignificantes em relação às diferenças de caráter que encontramos entre pessoas do mesmo sexo.
As diferenças sexuais não influenciam a capacidade de fazer trabalhos de qualquer espécie. É certo que realizações extremamente diversas podem ser coloridas, em sua qualidade, pelas características sexuais - um sexo pode ser mais bem dotado para determinado tipo de trabalho -, mas o mesmo ocorre quando os extrovertidos são comparados aos introvertidos, ou os tipos pícnicos aos tipos astênicos. Seria um êrro fatal julgar as distinções sociais, econômicas e políticas segundo essas características.
Em comparação com as influências sociais gerais que formam os padrões masculinos ou femininos, é claro que as experiências individuais e, do ponto de vista social, acidentais são altamente significativas. Essas experiências pessoais, por sua vez, se fundem com os padrões culturais, reforçando - e por vêzes também reduzindo - seus efeitos. A influência dos fatôres sociais e pessoais excede em fôrça a dos fatôres “naturais” que examinamos aqui.
Constitui uma triste ilustração dos tempos a necessidade que experimentamos de assinalar que as diferenças provocadas pelo papel masculino ou feminino não se prestam a qualquer julgamento de valor, do ponto de vista social ou moral. Em si, não são boas nem más, desejáveis ou desagradáveis. O mesmo traço surgirá como uma característica positiva numa personalidade quando certas condições existirem, e como característica negativa noutra personalidade, sob condições diferentes. 
Assim, as formas negativas nas quais o temor masculino de falhar e sua necessidade de prestígio se podem manifestar são óbvias: vaidade, falta de seriedade, presunção, inconstância. Mas parece igualmente óbvio que os mesmos traços podem resultar em traços muito positivos: iniciativa, atividade, coragem. O mesmo se aplica às características femininas que descrevemos, e que podem resultar, como freqüentemente resultam, em sua incapacidade de “viver por si mesma” emocionalmente, pràticamente, intelectualmente. Mas que, em outras condições, podem fazer dela a fonte de paciência, intensidade de amor, encanto erótico, constância.
O resultado positivo ou negativo de uma ou outra característica depende da estrutura do caráter, como um todo, da pessoa em questão. Entre os fatôres de personalidade que levam a um resultado positivo ou negativo estão, por exemplo, a ansiedade e a autoconfiança, a inclinação a destruir ou a construir.
Mas não basta assinalar um ou dois dos traços mais isolados; sómente o todo da estrutura do caráter determina se uma das características masculinas ou femininas será um traço negativo ou positivo. Êsse princípio é idêntico ao que Klages introduziu em seu sistema grafológico. Qualquer traço isolado na escrita pode ter um sentido positivo ou negativo, de acôrdo com o que êle chama de forminiveau (nível da forma), da personalidade total. Se o caráter de uma pessoa pode ser considerado como “ordeiro”, isso pode significar uma de duas coisas: indica algo positivo, como seja, a pessoa não é desordenada, é capaz de organizar sua vida; ou indica algo negativo, ou seja, que a pessoa é pedante, estéril, sem iniciativa. Evidentemente, o traço de “ordeiro” está na raiz de ambas as conseqüências positivas ou negativas, mas o resultado é determinado por vários outros fatôres da personalidade total. Êstes, por sua vez, dependem das condições externas que tendem a restringir a vida ou a contribuir para um desenvolvimento generoso
 
(ERICH FROMM - O DOGMA DE CRISTO e Outros Ensaios Sôbre Religião, Psicologia e Cultura)

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