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Neurônios afetados pela doença de Alzheimer têm diferenças sutis em relação aos saudáveis (Foto: Faculdade de Medicina de San Diego / Universidade da Califórnia / Nature / Divulgação
 
É fascinante fazer a conexão entre mente e cérebro, mas, quando a conexão cessa, é um terror. Minha vida profissional tem sido dedicada a pesquisar o lado escuro do cérebro. No Alzheimer’s Genome Project, meu laboratório continua encontrando os genes, mais de uma centena até agora, envolvidos na mais comum e devastadora forma de demência. Escrever este livro me deu a oportunidade de dar um passo atrás e considerar o cérebro de uma perspectiva mais ampla. Quanto mais você sabe sobre a mente, mais sua pesquisa sobre o cérebro começa a tomar forma dentro de novos padrões e possibilidades.
Nas pesquisas sobre o câncer, há uma tremenda urgência em encontrar uma cura, do mesmo modo que se sente a pressão imensa contra o tempo para o mal de Alzheimer. Conforme a expectativa de vida aumenta, aumenta o número de casos. Mais de 5 milhões de americanos e 38 milhões de pessoas no mundo sofrem dessa moléstia. Por volta de 2040, há uma projeção de 14 milhões de pacientes nos Estados Unidos e mais de 100 milhões em todo o planeta, se não forem desenvolvidas terapias preventivas eficazes.
No momento, estudos genéticos oferecem a melhor possibilidade de um dia erradicar o mal de Alzheimer. Ao serem revelados todos os genes que mostram riscos dessa doença se manifestar, seremos capazes um dia de predizer com segurança e mais precocemente o risco que uma pessoa corre. Para aqueles ameaçados com risco mais elevado, provavelmente será necessário fazer exames para a detecção pré-sintomática, começando por volta dos 30 ou 40 anos de idade. As mudanças no cérebro começam anos antes dos primeiros sintomas de perda de memória aparecerem. Em sua progressão cruel, o Alzheimer destrói as áreas do cérebro voltadas para a memória e o aprendizado. Nossa esperança imediata seria fortalecer as pessoas que apresentam alto risco com terapias que pudessem deter a progressão futura da doença antes que a demência ataque.
Assim que tivermos remédios que consigam fazer isso, esperamos prevenir o mal de Alzheimer antes que os sintomas clínicos de declínio de cognição comecem a se manifestar. A chamada “estratégia farmacogenética” baseia-se em “previsão precoce – detecção precoce – prevenção precoce”. Se as três puderem ser combinadas, temos esperança de deter o Alzheimer antes que ele comece. É uma estratégia ampla, que remonta à prevenção da varíola com a vacina na infância, mas que se amplia ao prevenir o câncer de pulmão não fumando. Uma estratégia semelhante pode ser aplicada a outras moléstias comuns ligadas ao envelhecimento, como problemas cardíacos, câncer, derrame e diabetes.
O mal de Alzheimer tem algum componente ligado ao estilo de vida? Essa é uma pergunta que ainda não podemos responder com certeza, mas quero me preparar para esta possibilidade. O próximo horizonte é a mente. Qualquer mudança de estilo de vida começa na cabeça. Primeiro, é preciso querer mudar, e então é necessário levar o cérebro a criar novas redes neurais para dar suporte à sua decisão. Já sabemos que “use-o ou perca-o” se aplica ao cérebro em geral, especialmente quando se trata de conservar a memória afiada e intacta ao longo da vida. Com Deepak, investigamos muito mais profundamente a conexão mente-corpo. Quando chegamos ao nosso “estilo de vida ideal para o cérebro”, não estávamos estabelecendo que fosse especificamente para o Alzheimer. Também não afirmamos que a doença ocorre porque o paciente não levou um estilo de vida conveniente. A genética e o estilo de vida se unem para causar essa doença na maioria dos casos. E alguns fatores genéticos são muito difíceis de alterar, mesmo com uma vida saudável.
Quase todos nós herdamos variações genéticas que tanto aumentam como diminuem nosso risco para o mal de Alzheimer. Essas variantes genéticas combinam-se com fatores ambientais para determinar o risco de a doença se manifestar ao longo da vida. Os fatores de maior risco abrangem uma gama de possibilidades, como depressão, derrame, lesão cerebral traumática, obesidade, colesterol alto, diabetes, e até mesmo solidão.
Os genes que influenciam o risco dessa doença incidem em duas categorias: determinista e suscetível. Uma pequena porção da incidência da moléstia (menos de 5 por cento) aparece antes dos 60 anos e, na maioria das vezes, ocorre pelas mutações de um dos três genes que eu e meus colegas descobrimos. Essas mutações herdadas virtualmente garantem a instalação da doença aos 40 ou 50 anos. Felizmente, essas mutações são muito raras. Na grande maioria dos casos, o Alzheimer surge depois dos 60 anos. Nesses casos, têm sido detectados genes que carregam variantes que influenciam a suscetibilidade da pessoa. Essas variantes não causam a doença obrigatoriamente, mas, quando são herdadas, conferem tanto o risco aumentado quanto reduzido para a doença, à medida que a pessoa envelhece.
A boa notícia é que, na maioria dos casos de Alzheimer, o tipo de vida que a pessoa leva pode potencialmente ser um trunfo contra a disposição genética para a doença. Uma representação genética semelhante apresenta-se na maioria das doenças comuns ligadas ao envelhecimento, como problemas cardíacos, câncer, derrame e diabetes. Certos comportamentos podem indicar um padrão na atividade cerebral que poderia ser tratado desde cedo? Alguns pesquisadores do autismo estão fazendo essa pergunta em relação a crianças pequenas que ainda não mostram sinais do distúrbio, mas que sustentam a cabeça de um determinado modo que é um sinal prévio de autismo. Um dos maiores avanços na pesquisa do cérebro não chegou ao conhecimento do público. É a guinada da sinapse para a rede. Por décadas, a neurociência dirigiu seus principais esforços para descobrir como uma única sinapse, a junção comunicativa entre dois neurônios, realmente funciona. O trabalho de pesquisa foi extenuante e meticuloso. Imagine tentar parar um raio enquanto ele risca o céu, só que numa escala milhões de vezes menor. Os avanços importantes, que se deram lentamente, envolveram o congelamento de tecido cerebral para extrair as moléculas mensageiras que ficaram conhecidas como “neurotransmissores”. Estudos sobre dois deles, a serotonina e a dopamina, proporcionaram um grande progresso no tratamento de moléstias, estendendo-se da depressão ao mal de Parkinson.
Mas estudar a sinapse não nos levou longe o bastante. Há muitos tipos diferentes de depressão, por exemplo, cada uma com sua própria assinatura química. Mas a indicação de antidepressivos de largo espectro não era eficaz para todos os tipos, porque no paciente A o quadro de sintomas não era o mesmo que no paciente B, mesmo que ambos relatassem tristeza, desamparo, fadiga, sono irregular, perda de apetite etc. A depressão forma sua própria e singular rede neural de pessoa para pessoa.
Foi por isso que surgiu uma abordagem de sistemas, procurando por padrões maiores de redes que se estendam bem além da sinapse. Examinar um fusível na caixa de luz de sua casa não é de todo diferente do que olhar o esquema de fiação completo. Isso já não acontece no cérebro. As redes neurais são vivas, dinâmicas e inter-relacionadas de tal modo que a mudança em uma peça da fiação irá reverberar por todo o sistema nervoso.
Tão abstrato quanto possa soar, a abordagem de redes abre um número extraordinário de portas. Nós comparamos o cérebro a um processo fluido, não a uma coisa. Como pensar e sentir também são processos fluidos, é como olhar dois universos espelhados. (A mente inconsciente pode até ser vista como paralela à massa “escura” e à energia que controlam misteriosamente eventos no cosmos visível.) Nessa representação ampla, os neurônios comportam-se em sincronia com tudo que está acontecendo a você, e até seus genes participam. Longe de ficarem sentados imóveis em um silêncio congelante dentro de cada célula, seus genes são ativados e desativados, mudando sua produção química de acordo com todo tipo de acontecimento em sua vida. O comportamento molda a biologia. Usando essa palavra de ordem, as pesquisas têm demonstrado que mudanças positivas no estilo de vida – na dieta, em exercícios, no controle de estresse e na meditação –, afetam de quatrocentos a quinhentos genes, e provavelmente um número ainda maior.
O que você pode fazer para evitar ou fazer face ao mal de Alzheimer? Siga a tendência de estilo de vida que está funcionando no resto do mundo para tantas doenças. Para começar, exercícios. Um colega próximo, Sam Sisodia, mostrou que em modelos animais (ratos que receberam as mutações genéticas humanas do Alzheimer), ao se providenciar à noite rodas para que eles se exercitassem, a patologia cerebral se reduzia de forma dramática. O exercício realmente induz a atividade dos genes que baixam os níveis de beta-amiloides no cérebro. Estudos epidemiológicos também confirmam que o exercício moderado (três vezes por semana por uma hora) pode diminuir o risco de Alzheimer. Um teste clínico indicou que a prática de 60 minutos de exercício forte duas vezes por semana era capaz de diminuir a progressão da moléstia assim que ela começava.
A segunda chave é a dieta. A regra geral é: se o que você come faz bem para o coração, é bom para o cérebro. Uma dieta mediterrânea, rica em azeite de oliva extravirgem, assim como quantidades moderadas de vinho tinto e mesmo de chocolate amargo, têm sido associadas ao baixo risco para desenvolver Alzheimer. Uma prevenção até mais simples é comer menos. Em modelos animais, as restrições calóricas aumentam a longevidade e reduzem a patologia do cérebro. (Mais recentemente, o óleo de coco extravirgem foi apresentado como útil para o tratamento e a prevenção da doença. Entretanto, são necessários mais dados para avaliar essa pretensão.)
Você está alcançando o terceiro dos meios de prevenção ao ler este livro. Trata-se da curiosidade intelectual, que estimula a formação de novas sinapses no cérebro. Cada nova sinapse que você faz fortalece aquelas que você já tem. Como dinheiro no banco, fazer mais sinapses significa que você não será tão facilmente exaurido antes de ter Alzheimer. Embora essa doença afete pessoas com espectro completo de educação, da saída do ensino médio ao doutorado, alguns estudos sugerem que um nível mais elevado de educação pode servir como proteção. Talvez mais importante que a estimulação intelectual seja o engajamento social. Ser mais socialmente interativo tem sido associado com risco mais baixo, enquanto a solidão tem sido documentada como um fator de risco para adquirir a doença.
Seria incrível se o Alzheimer pudesse ter a mesma reviravolta que houve com o câncer. Uma década atrás, o tratamento de câncer era quase totalmente direcionado para a detecção precoce seguida por quimioterapia, radioterapia e cirurgia. Em 2012, os Centros de Controle de Doenças estimaram que dois terços dos cânceres são evitáveis por meio de um estilo de vida proativo, evitando a obesidade e não fumando. Outros centros de câncer elevaram essa estimativa para um número entre 90 e 95 por cento.
Os sinais de progresso em todas as frentes – química, genética, comportamental e de estilo de vida – são encorajadores. Mas só eles não teriam me levado a escrever sobre o supercérebro. No meu campo, é possível crescer como técnico, cavando seu nicho científico na análise de aspectos bem limitados de uma doença. Pode-se ir mais longe na ciência deixando de especular e obedecendo à máxima: “Cale a boca e calcule”. As ciências exatas têm orgulho de seu status na sociedade, mas eu também testemunhei pessoalmente que esse orgulho pode chegar à arrogância quando se trata de considerar as contribuições da metafísica e da filosofia nas teorias científicas de desenvolvimento. Essa ampla dispensa de qualquer coisa que não possa ser medida e reduzida a dados me parece uma incrível intransigência. Como pode fazer sentido dispensar a mente, não importa o quanto ela possa ser invisível e imponderável, quando a ciência é, inteiramente, um projeto mental? As maiores descobertas científicas do futuro muitas vezes começam como promessas vãs do passado.
O supercérebro representa os esforços de dois investigadores sérios, ambos vindos da medicina, para ver tão longe quanto possível dentro da conexão mente-cérebro. É um passo corajoso para um cérebro de pesquisador de “exatas” assumir a posição de que “a consciência vem primeiro”, mas a evolução do meu pensamento me levou gradativamente até aí – como levou antes de mim figuras eminentes como Wilder Penfield e John Eccles. Do meu ponto de vista, os neurocientistas não podem se permitir ignorar a interface com a consciência, porque, ao argumentar que “o cérebro tem de vir primeiro”, eles podem ser culpados de proteger seu quinhão em vez de, como cientistas reais, perseguirem a verdade, seja lá onde for que a experiência possa levar.
A verdade sobre a consciência precisa abranger mais do que choques de elétrons rebatendo elétrons dentro do cérebro. Entrei na pesquisa sobre o mal de Alzheimer para resolver um quebra–cabeça fisiológico difícil, especialmente depois de ver minha avó sucumbir com essa terrível doença. Quando o Alzheimer ataca, os doentes e seus familiares sentem-se completamente traídos. Mesmo os estágios iniciais são assustadores. O sinal precoce é uma “leve incapacidade cognitiva”, que parece bastante inofensiva. Uma vez que chega, entretanto, o efeito humano dificilmente é leve à medida que o doente começa a ter dificuldade em suas tarefas cotidianas e não consegue mais executar tarefas múltiplas. Quando fica difícil encontrar as palavras, o doente passa também a ter uma dificuldade crescente para falar e escrever.
Pior do que isso, entretanto, é o sentido de condenação que se instala. Não há volta depois que o processo começa. As lembranças antigas dissipam-se, e as novas não conseguem se formar. Finalmente, o doente se torna inconsciente de que tem a doença, mas então o trabalho de cuidados em tempo integral já foi passado adiante, na maioria das vezes para os familiares mais próximos. Estima-se que atualmente 15 milhões de cuidadores não pagos estejam envolvidos nessa tarefa. Esse terrível ladrão de mentes cria sofrimento em toda a sua volta.
A compaixão atinge qualquer um que testemunhe diretamente essa epidemia, mas podemos nos esforçar para transformar a piedade e a culpa em uma perspectiva diferente. Por que não usar a realidade do Alzheimer como um incentivo para usar nosso cérebro da melhor forma possível nas décadas que antecedem nossa velhice? O mal de Alzheimer mata o sonho de que a velhice será um tempo cheio de vida. Antes de chegarmos a vencer a batalha pela cura da doença, podemos alcançar outra vitória, usando o cérebro para a realização, mesmo desde a infância. Essa é a visão do supercérebro, a parte deste livro que tem o maior significado para mim.
Como espécie, deveríamos separar um tempo todos os dias para agradecer por esse órgão surpreendente zunindo em nossa cabeça. Seu cérebro não só transmite o mundo para você, mas essencialmente cria esse mundo. Se conseguir dominar seu cérebro, você poderá dominar sua vida. Uma vez que a mente liberte seu poder profundo, o resultado poderá ser uma consciência maior, um corpo mais saudável, uma disposição mais feliz e um crescimento pessoal ilimitado. Novas descobertas relacionadas às habilidades do cérebro de se regenerar e de religar seus circuitos continuarão a nos espantar. Essa transformação é física, mas ocorre em resposta a intenções mentais. Precisamos não esquecer jamais de que a verdadeira sede da existência humana tem origem na mente, para a qual o cérebro se curva como o mais devotado e próximo dos servos.

(DEEPAK CHOPRA &  RUDOLPH E. TANZI - SUPERCÉREBRO, Como expandir o podertransformador da sua mente)

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publicado às 21:07



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