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O sono é uma porção de morte que tomamos antecipadamente, e por meio da qual recobramos e renovamos a vida exaurida durante o dia. Le sommeil est un emprunt fait à la mort [o sono é um prefácio feito à morte]. O sono pede emprestado da morte para conservar a vida; ou são os juros pagos provisoriamente à morte, que é o pagamento integral do capital. O reembolso total se exige em um prazo tanto maior quanto mais elevados são os juros e mais metodicamente se paga.
(Arthur Schopenhauer - "Aforismos para a Sabedoria de Vida")

A vida é apenas a morte sendo evitada e adiada. (...
Cada vez que respiramos, afastamos a morte 

que nos ameaça e assim lutamos com ela a cada segundo

(Arthur Shopenhauer)

 

0000000a-arte-de-saber-envelhecer-9-728.jpgA arte de envelhecer

 

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Uma experiência de juventude assumiu certa significação para mim agora que sou mais velho. Assisti a uma conferência de um físico muito conhecido em Cambridge. Ele entrou devagar, arrastando os pés, um homem muito velho. Eu me surpreendi pensando: “Por que ele arrasta os pés assim? Por que não pode caminhar como um ser humano normal?” Na hora, me corrigi: “Não pode evitar, é muito velho.”
Minha espontânea reação juvenil à visão de um velho é típica da espécie de sentimentos que a visão dos velhos suscita hoje, e talvez ainda mais em tempos passados, em pessoas saudáveis nos grupos de “idade normal”. Elas sabem que os velhos, mesmo quando saudáveis, muitas vezes têm dificuldade em mover-se da mesma maneira que pessoas saudáveis de outra faixa etária, exceto as crianças pequenas. Sabem disso, mas de maneira remota. Não podem imaginar a situação em que suas próprias pernas e tronco deixam de obedecer à sua vontade, como seria normal.
Uso deliberadamente a palavra “normal”. Que as pessoas se tornem diferentes quando envelhecem é muitas vezes visto, embora involuntariamente, como um desvio da norma social. Os outros, os grupos de “idade normal”, muitas vezes têm dificuldade em se colocar no lugar dos mais velhos na experiência de envelhecer — o que é compreensível. Pois a maioria das pessoas mais jovens não tem base de experiência própria para imaginar o que ocorre quando o tecido muscular endurece gradualmente, ficando às vezes flácido, quando as juntas enrijecem e a renovação das células se torna mais lenta. Os processos fisiológicos são bem conhecidos pela ciência e parcialmente compreendidos. Há extensa literatura sobre o tema. Muito menos compreendida, e menos abordada na literatura, é a própria experiência do envelhecimento. É um tópico pouco discutido. Não deixa de ser importante para o tratamento dos velhos por aqueles que não o são — ou ainda não o são —, e não apenas para o tratamento médico, ter uma compreensão maior e mais detalhada da experiência do envelhecimento, e também da morte. Mas claramente, como já disse, há dificuldades especiais que impedem a empatia. Não é fácil imaginar que nosso próprio corpo, tão cheio de frescor e muitas vezes de sensações agradáveis, pode ficar vagaroso, cansado e desajeitado. Não podemos imaginá-lo e, no fundo, não o queremos. Dito de outra maneira, a identificação com os velhos e com os moribundos compreensivelmente coloca dificuldades especiais para as pessoas de outras faixas etárias. Consciente ou inconscientemente, elas resistem à ideia de seu próprio envelhecimento e morte tanto quanto possível.
Essa resistência, esse processo de recalcamento, é, por razões às quais retornarei, provavelmente mais evidente nas sociedades desenvolvidas que nas menos desenvolvidas. Agora que estou velho sei, por assim dizer, pelo outro lado, quão difícil é para as pessoas jovens ou de meia-idade entender a situação e a experiência dos velhos. Muitos de meus conhecidos me dizem palavras gentis como: “Impressionante! Como você consegue se manter saudável? Na sua idade!” ou “Você ainda nada? Que maravilha!” Sinto-me um equilibrista, familiarizado com os riscos de seu modo de vida e razoavelmente certo de que alcançará a escada na outra ponta da corda, voltando ao chão tranquilamente a seu devido tempo. Mas as pessoas que assistem a isso de baixo sabem que ele pode cair a qualquer momento e o contemplam excitadas e um tanto assustadas.
Lembro outra experiência que pode servir como exemplo da não identificação dos mais jovens com os velhos. Era professor visitante numa universidade alemã e fui convidado para jantar por um colega que estava no auge de sua vida. Serviu-me um aperitivo antes do jantar e me convidou a sentar numa moderna poltrona de lona, muito baixa. Sua mulher nos chamou para a mesa. Levantei, e ele me lançou um olhar de surpresa, talvez um tanto decepcionado: “Puxa, você está em muito boa forma”, disse. “Não faz muito tempo, o velho Plessner jantou conosco. Sentou na poltrona baixa como você, mas não conseguiu se levantar, por mais esforço que fizesse. Você precisava ver. No fim, tivemos que ajudá-lo.” E ria que ria: “Hahahaha! Não conseguia levantar!” Meu anfitrião se sacudia de rir. Evidentemente, também nesse caso, a identificação entre os não velhos e os velhos causava dificuldades.
A sensação “talvez eu fique velho um dia” pode estar inteiramente ausente. Tudo o que sobra é o gozo espontâneo de nossa própria superioridade, e do poder dos jovens em relação aos velhos. A crueldade que se expressa na zombaria dos velhos desvalidos, e também da feiúra de alguns velhos e velhas, era provavelmente maior antigamente do que hoje. Mas decerto não desapareceu. Está intimamente relacionada a uma mudança muito característica nas relações interpessoais, que tem lugar quando as pessoas envelhecem ou estão no leito de morte: quando envelhecem ficam potencial ou realmente menos fortes em relação aos mais jovens. Ficam visivelmente mais dependentes dos outros. A maneira como as pessoas dão conta, quando envelhecem, de sua maior dependência dos outros, da diminuição de sua força potencial, difere amplamente de uma para outra. Depende de todo o curso de suas vidas e, portanto, da estrutura de sua personalidade. Mas talvez seja útil lembrar que algumas das coisas que os velhos fazem, em particular as coisas estranhas, estão relacionadas a seu medo de perder a força e a independência, e especialmente de perder o controle de si mesmos.
Uma das formas de adaptação a essa situação é a regressão ao comportamento infantil. Não tentarei decidir se isso é simplesmente um sintoma de degeneração física ou uma fuga inconsciente da crescente fragilidade desses idosos em direção aos padrões de comportamento da primeira infância.
De todo modo, também representa uma adaptação a uma situação de dependência total que tem seu sofrimento, mas também suas vantagens. Há pessoas em muitos asilos hoje que têm que ser alimentadas, postas no vaso sanitário e limpas como crianças pequenas. Também enfrentam o poder como crianças. Uma enfermeira noturna que os trata um pouco bruscamente pode ser chamada de hora em hora durante a noite inteira. Este é apenas um dos muitos exemplos de como a experiência das pessoas que envelhecem não pode ser entendida a menos que percebamos que o processo de envelhecer produz uma mudança fundamental na posição de uma pessoa na sociedade, e, portanto, em todas as suas relações com os outros. O poder e o status das pessoas mudam, rápida ou lentamente, mais cedo ou mais tarde, quando elas chegam aos sessenta, aos setenta, oitenta ou noventa anos.

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O mesmo vale para o aspecto afetivo das relações das pessoas que envelhecem e, especialmente, das que estão prestes a morrer com os outros. Meu tema e o tempo disponível me obrigam a limitar-me a um aspecto dessa mudança, o isolamento dos que envelhecem e dos moribundos que frequentemente ocorre em nossa sociedade. Como disse de início, ocupo-me não com o diagnóstico dos sintomas físicos do envelhecimento e da morte — que às vezes, de maneira pouco apropriada, são chamados de sintomas objetivos —, mas em examinar o que as pessoas que envelhecem e as moribundas experimentam “subjetivamente”. Quero complementar o diagnóstico médico tradicional com um diagnóstico sociológico, centrado no perigo do isolamento a que os velhos e moribundos estão expostos.
Podemos notar a esse respeito a marcada diferença entre a posição dos que envelhecem e dos moribundos nas sociedades industriais de hoje e nas pré-industriais, isto é, nas sociedades medievais ou do início da industrialização. Nas sociedades pré-industriais, em que a maioria da população vive em vilarejos e se ocupa do cultivo da terra e da criação de gado, ou seja, em que camponeses e lavradores formam o maior grupo ocupacional, quem lida com os que vão envelhecendo e com os moribundos é a família. Isso pode ser feito de maneira amável ou brutal, mas há também características estruturais que distinguem o envelhecimento e a morte nessas sociedades dos mesmos fenômenos nas sociedades industriais mais avançadas. Atenho-me a duas dessas diferenças. Os velhos que vão ficando fisicamente mais fracos em geral permanecem dentro do espaço de vida da família, ainda que às vezes após um enfrentamento com os membros mais jovens, e em geral também morrem dentro desse espaço. Por isso mesmo, tudo o que diz respeito ao envelhecimento e à morte acontece muito mais publicamente que nas sociedades industriais altamente urbanizadas, sendo ambos os processos formalizados por tradições sociais específicas. O fato de que tudo ocorre de modo mais público dentro do domínio da família extensa, em alguns casos incluindo os vizinhos, não significa necessariamente que as pessoas que envelhecem e os moribundos apenas experimentam um tratamento amável. Não é incomum que a geração mais jovem, ao chegar ao comando, trate mal a mais velha, às vezes até com crueldade. Não faz parte das tarefas do Estado imiscuir-se nesses assuntos.
Hoje, nas sociedades industrializadas o Estado protege o idoso ou o moribundo, como qualquer outro cidadão, da violência física óbvia. Mas ao mesmo tempo as pessoas, quando envelhecem e ficam mais fracas, são mais e mais isoladas da sociedade e, portanto, do círculo da família e dos conhecidos. Há um número crescente de instituições em que apenas pessoas velhas que não se conheceram na juventude vivem juntas. Mesmo com o alto grau de individualização que prevalece, a maioria das pessoas em nossa sociedade forma, antes da aposentadoria, laços afetivos não só com a família, mas com um círculo maior ou menor de amigos e conhecidos. O envelhecimento geralmente é acompanhado pelo esgarçamento desses laços que ultrapassam o círculo familiar mais estreito. Exceto quando se trata de casais velhos, a admissão em um asilo normalmente significa não só a ruptura definitiva dos velhos laços afetivos, mas também a vida comunitária com pessoas com quem o idoso nunca teve relações afetivas. O atendimento físico dos médicos e o pessoal de enfermagem podem ser excelentes. Mas ao mesmo tempo a separação dos idosos da vida normal e sua reunião com estranhos significa solidão para o indivíduo. Não estou pensando apenas nas necessidades sexuais, que podem ser muito ativas na extrema velhice, particularmente entre homens, mas também na proximidade emocional entre pessoas que gostam de estar juntas, que têm um certo envolvimento mútuo. Relações desse tipo em geral também diminuem com a transferência para um asilo e raramente encontram aí uma substituição. Muitos asilos são, portanto, desertos de solidão.

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A natureza especial da morte nas sociedades industriais desenvolvidas, com o isolamento emocional como uma das características preeminentes, surge de modo particularmente claro se compararmos os procedimentos e atitudes relativos à morte nas sociedades em estágios mais avançados aos dos países menos desenvolvidos. Todos estamos familiarizados com pinturas de períodos anteriores, que retratam famílias inteiras — mulheres, homens e crianças — em torno do leito da matriarca ou do patriarca moribundo. Pode ser uma idealização romântica. Famílias nessa situação podem ter sido muitas vezes negligentes, brutais e frias. Quem sabe os ricos nem sempre morreram de maneira suficientemente rápida para seus herdeiros. Os pobres podem ter ficado estendidos sobre sua sujeira e passado fome. Pode-se dizer que antes do século XX, ou talvez do XIX, a maioria das pessoas morria na presença de outras apenas porque estavam menos acostumadas a viver e estar sós. Não havia muitos cômodos onde uma pessoa pudesse ficar só. Os moribundos e os mortos não eram tão flagrantemente isolados da vida comunitária como é geralmente o caso nas sociedades avançadas. As sociedades como tais eram mais pobres antigamente; não eram tão organizadas em termos de higiene como as sociedades posteriores. As grandes epidemias assolavam frequentemente os países europeus; pelo menos desde o século XIII, iam e vinham em geral diversas vezes em cada século até o século XX, quando as pessoas finalmente aprenderam a lidar com elas.

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Geralmente é difícil para as pessoas de épocas recentes colocar-se no lugar de outras que viveram em períodos anteriores; assim, as pessoas de hoje não podem entender de maneira apropriada sua própria situação, ou a si mesmas. A situação é que simplesmente o estoque social de conhecimentos relativos à doenças e suas causas era, em sociedades antigas, a medieval, por exemplo, não só muito mais limitado, mas também muito menos seguro do que hoje. Quando as pessoas carecem de um conhecimento seguro da realidade, também ficam menos seguras; exaltam-se com maior facilidade, entram mais rapidamente em pânico; preenchem as lacunas de seu conhecimento realista com conhecimentos fantasiosos e buscam aplacar o medo de ameaças inexplicáveis por meios igualmente fantasiosos. Assim, as pessoas de outrora tentavam enfrentar as epidemias recorrentes por meio de amuletos, sacrifícios, acusações contra envenenadores, bruxas e sua própria natureza pecaminosa, como maneira de apaziguar seus sentidos alarmados.
Mesmo hoje pode acontecer de pessoas atingidas por uma doença incurável, ou que por outras razões se encontrem às portas da morte, escutarem uma voz interior sussurrando que é culpa de seus parentes ou punição por seus próprios pecados. Mas hoje tais fantasias privadas tendem a não se confundir com conhecimento público factual; são normalmente percebidas como fantasias privadas. O conhecimento das causas das doenças, do envelhecimento e da morte tornou-se mais seguro e abrangente. O controle das grandes epidemias fatais é apenas um dos muitos exemplos de como a expansão do conhecimento congruente com a realidade desempenhou um papel na mudança dos sentimentos e comportamentos humanos.

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Talvez seja um tanto equivocado chamar esse recuo das explicações emotivas pela via da fantasia ou, para usar a fórmula emotiva de Max Weber, esse “desencantamento do mundo”, de processo de racionalização. Como quer que o termo seja utilizado, ele sugere que o que mudou afinal foi a “razão” humana; parece implicar que as pessoas se tornaram mais “racionais” ou, em linguagem simples, mais sensatas que em tempos anteriores. É uma autovaloração que dificilmente faz jus aos fatos. Só se começa a entender a mudança referida pelo conceito de racionalização quando se reconhece que uma das mudanças por ele acarretadas é o aumento do conhecimento social orientado para os fatos, conhecimento capaz de conferir uma sensação de segurança. A expansão do conhecimento real e a correspondente retração do conhecimento fantasioso andam de mãos dadas com o aumento do controle efetivo dos acontecimentos que podem ser úteis às pessoas, ou dos perigos que podem ameaçá-las. A idade e a morte estão entre estes últimos. Encontramos uma situação curiosa ao tentar compreender o que o avanço do conhecimento mais realista nessas áreas significa em termos das possibilidades de seu controle pela humanidade.
O estoque de conhecimentos da sociedade em relação aos aspectos biológicos do envelhecimento e da morte aumentou muito nos dois últimos séculos. O próprio conhecimento nessas áreas se tornou mais bem-fundamentado e mais realista. E nossa capacidade de controle aumentou com o conhecimento. Mas nesse nível biológico parecemos nos aproximar de uma barreira intransponível quando tentamos estender ainda mais o controle humano sobre os processos de envelhecimento e morte. O que nos faz lembrar que aqui e ali a capacidade dos seres humanos em relação ao universo natural tem seus limites.
O progresso no conhecimento biológico tornou possível elevar consideravelmente a expectativa de vida do indivíduo. Mas por mais que tentemos, com o auxílio do progresso médico e a capacidade crescente de prolongar a vida do indivíduo e aliviar as dores do envelhecimento e da agonia, a morte é um dos fatos que indica que o controle humano sobre a natureza tem limites. Sem dúvida a abrangência desse controle é em muitas áreas extremamente grande. O que não significa que não existam limites ao que é realizável pelos seres humanos em relação aos fatos da natureza. Tanto quanto se pode ver, isso não se aplica ao plano social da vida humana. Aqui, não há limites absolutos ao que pode ser feito, e é pouco provável que sejam encontrados. Mas, ao ampliar a esfera de seu conhecimento e controle, as pessoas certamente encontram obstáculos difíceis, barreiras que podem atrasá-las por séculos ou mesmo milênios, embora não sejam invencíveis pelo controle humano. Barreiras absolutas existem nos níveis pré-humanos do cosmo, que chamamos de “Natureza”; mas nos níveis sociais humanos, referidos por palavras como “sociedade” e “indivíduo”, existem apenas na medida em que também contêm e fazem parte dos níveis da natureza. Mencionarei de passagem duas das barreiras que oferecem atualmente sérios obstáculos à orientação humana e ao controle das pessoas sobre seus próprios afazeres, embora não sejam de maneira nenhuma intransponíveis. Primeiro, há a escala de valores vistos comumente como autoevidentes, pela qual a “Natureza”, isto é, os acontecimentos naturais pré-humanos, compreende uma esfera muito mais valorizada que a “cultura” e a “sociedade”, a área formada e criada pelos próprios seres humanos. A ordem eterna da “natureza” é contrastada favoravelmente à desordem e mutabilidade do mundo humano. Muitas pessoas adultas continuam a procurar por alguém que as leve pela mão como a uma criança, uma figura materna ou paterna que lhes aponte o caminho a seguir. A “Natureza” é uma dessas figuras. Supõe-se que tudo o que ela faz, tudo o que é “natural”, deva ser bom e salutar para os homens. A harmoniosa regularidade da descrição da “Natureza” de Newton encontrou expressão na admiração de Kant pelas leis eternas do céu estrelado que nos cobre, a lei moral dentro de nós mesmos. Mas a bela imagem da “Natureza” de Newton ficou para trás. Esquecemos facilmente que o conceito de “Natureza” é agora sinônimo do que os cosmólogos concebem como a evolução do universo, com sua expansão sem propósito, a produção e destruição de sóis e galáxias incontáveis, e dos “buracos negros” que devoram a luz. Não faz diferença que descrevamos o processo como “ordem”, “acaso” ou “caos”.
Nem faz muito sentido dizer que os fatos naturais são bons para as pessoas, ou tampouco maus. A “Natureza” não tem intenções; não tem objetivos; não tem propósitos. As únicas criaturas neste universo que podem estabelecer objetivos, que podem criar e dar sentido, são os próprios seres humanos. Mas sem dúvida é ainda insuportável para muita gente imaginar que lhes compete a tarefa de decidir os rumos que a humanidade deve seguir e os planos e ações que têm sentido para os homens. Buscam constantemente alguém que as alivie desse peso, alguém que dite as regras pelas quais devem viver e formule os objetivos para que suas vidas sejam dignas de serem vividas. O que esperam é um sentido predeterminado vindo de fora; o que é possível é um sentido criado por elas mesmas e, em última análise, pelos homens em conjunto, que dê direção às suas vidas.
O amadurecimento da humanidade é um processo difícil. O período de aprendizado é longo, erros graves são inevitáveis e o perigo da autodestruição, da aniquilação de nossas próprias condições de vida, no curso desse processo de aprendizado, é grande. Mas esse perigo só tende a crescer, se as pessoas se mantiverem na atitude de crianças para as quais alguém mais faz tudo o que só elas podem fazer. A ideia de que a natureza, se deixada por conta própria, fará o que é certo para os homens, inclusive para sua vida em comum, é um exemplo. E mostra como decisões que só os seres humanos podem tomar, e a responsabilidade que vem com elas, são delegadas a uma figura materna imaginária, a “Natureza”. Mas, entregue a si mesma, a natureza é cheia de perigos.
Certamente, a exploração humana da natureza também implica grandes ameaças. Processos naturais extra-humanos são incapazes de aprendizado. A própria sociedade humana é um estágio no desenvolvimento da natureza. Mas distingue-se de todos os estágios anteriores pelo fato de que os seres humanos podem mudar seu comportamento e sentimentos como resultado de experiências comuns e pessoais, isto é, de processos de aprendizado, numa medida muito maior, e de maneira diferente, que as outras criaturas. Essa capacidade de mudar pode ser de valor extraordinário para os homens. Mas seu desejo de imortalidade constantemente os leva a atribuir a sinais de imutabilidade — por exemplo, à “natureza” imaginada como algo que não muda — um valor muito mais alto do que a si mesmos, ao desenvolvimento de sua própria vida comunitária e à amplitude e ao padrão cambiante de seu controle sobre a “natureza”, sobre a “sociedade” e sobre suas próprias pessoas. Talvez até mesmo ao lermos isso sintamos um resíduo da resistência à reavaliação exigida por essa exploração. Esse é um dos obstáculos a que me referi.
O segundo obstáculo que apresento como exemplo está ligado à presente incapacidade das pessoas de reconhecer que, dentro da esfera da realidade que formam junto com as outras, mudanças de longa duração e não planejadas, mas que têm uma estrutura e direção específicas, estão acontecendo, e que esses processos, como processos naturais incontroláveis, as empurram involuntariamente para um lado e para o outro. Como não reconhecem esses processos sociais não planejados e, portanto, não sabem como explicá-los, não têm meios apropriados para influenciá-los ou controlá-los. Exemplo disso é a incapacidade de as pessoas reconhecerem os processos não planejados pelos quais são levadas repetidamente à guerra.(Apenas menciono de passagem que a dinâmica figurativa da livre competição entre Estados, a qual discuti em termos de um “mecanismo monopolístico” no segundo volume de meu Processo civilizador, desempenha um papel decisivo nesse curso para a guerra.) Vários Estados atingiram um estágio de civilização em que matar os outros não dá a seus membros um prazer especial, nem sua própria morte na guerra é considerada particularmente honrosa. Mas as pessoas hoje encontram-se tão expostas ao perigo da guerra como aquelas em estágios anteriores de desenvolvimento estavam sujeitas às cheias incontroláveis dos grandes rios, ou às grandes epidemias infecciosas que às vezes matavam parte considerável da população do país.
Já falei da conceitualização da relação da natureza extra-humana com esses processos sociais humanos em termos de opostos como “natureza” e “cultura”, com uma valorização decididamente mais alta da primeira. Nem sempre é fácil convencer as pessoas do final do século XX de que a “natureza” em estado bruto não é particularmente adequada às necessidades humanas. Só depois que as florestas primevas foram abertas, quando os lobos, onças, cobras venenosas, escorpiões — em suma, todas as outras criaturas que poderiam ameaçar os homens — foram exterminados, só depois que a “natureza” foi domesticada e fundamentalmente transformada pelos humanos é que ela começou a parecer para populações que viviam geralmente nas cidades como bela e benigna para a humanidade. Na realidade, os processos naturais seguem seu curso distribuindo cegamente coisas boas e más, as alegrias da saúde e as terríveis dores da doença, aos seres humanos. As únicas criaturas que, quando necessário, podem dominar até certo ponto o curso sem sentido da natureza e ajudar-se mutuamente são os próprios seres humanos.
Os médicos podem fazê-lo; ou pelo menos podem tentar. Mas talvez mesmo eles ainda sejam em parte influenciados pela ideia de que os processos naturais são tudo o que importa em seus pacientes. Pode ser, em alguns casos. Mas nem sempre. Doutrinas rígidas não ajudam muito aqui. O que é decisivo é o conhecimento não dogmático do que é benigno e do que é maligno na natureza. No presente, o conhecimento médico é em geral tomado como conhecimento biológico. Mas é possível imaginar que, no futuro, o conhecimento da pessoa humana, das relações das pessoas entre si, de seus laços mútuos e das pressões e limitações que exercem entre si faça parte do conhecimento médico. É a esse ramo do conhecimento que pertencem os problemas que estou discutindo. É possível que o aspecto social das vidas das pessoas, suas relações com as outras, tenha importância especial para as que envelhecem e para as que estão para morrer simplesmente porque processos naturais cegos e incontroláveis ganharam poder sobre elas. Mas a consciência de que as pessoas atingiram o limite de seu controle sobre os processos naturais frequentemente engendra, nos médicos e talvez nos conhecidos e amigos das pessoas que envelhecem e se aproximam da morte, uma atitude que está em contradição com as necessidades sociais dessas últimas. As pessoas parecem se dizer que não há nada que possam fazer, dão de ombros e seguem seu caminho com pesar. Os médicos em particular, cuja tarefa consiste em adquirir controle sobre as forças destrutivas e cegas da natureza, parecem muitas vezes observar estarrecidos como tais forças quebram a autorregulação normal do organismo dos doentes e dos moribundos e avançam sem controle na destruição do próprio organismo.
Obviamente não é fácil testemunhar esse processo de decadência com equanimidade. Mas talvez as pessoas nessa situação tenham uma necessidade especial de outras pessoas. Sinais de que os laços ainda não foram cortados, de que aqueles que estão deixando o círculo humano ainda são valorizados dentro dele, são especialmente importantes, dado que agora estão fracos e talvez não passem de uma sombra do que foram. Mas, para alguns moribundos, a solidão talvez seja um benefício. Talvez sejam capazes de sonhar e não queiram ser perturbados. Devemos sentir do que eles precisam. Morrer ficou mais informal em nossos dias, e a gama de necessidades individuais, quando conhecidas, se ampliou.

6

Talvez tudo isso deixe claro que as atitudes que hoje prevalecem em relação aos moribundos e à morte não são inalteráveis nem acidentais. São peculiaridades de sociedades num estágio particular de desenvolvimento e, portanto, com uma estrutura particular. Os pais nessas sociedades são frequentemente mais reticentes em falar com seus filhos sobre a morte e o morrer. As crianças podem crescer sem nunca terem visto um cadáver. Em estágios anteriores de desenvolvimento o espetáculo de cadáveres era muito mais comum. Desde então, o aumento da expectativa de vida tornou a morte mais distante dos jovens e dos vivos em geral. Obviamente, numa sociedade com uma expectativa de vida de trinta e sete ou quarenta anos, a ideia de morte se apresenta muito mais imediatamente, mesmo para os jovens, que numa sociedade com uma expectativa de vida próxima dos setenta. É bem possível que o compreensível horror da guerra atômica seja reforçado pelo fato de que os jovens em nossa sociedade podem normalmente esperar uma vida mais longa que nunca. Senti isso de perto quando um jornalista de vinte anos que me entrevistava, franzindo o cenho, perguntou sobre meu livro a respeito da “solidão dos moribundos”: “O que o levou a escrever sobre tema tão curioso?” Tudo isso contribui para empurrar a agonia e a morte mais que nunca para longe do olhar dos vivos e para os bastidores da vida normal nas sociedades mais desenvolvidas. Nunca antes as pessoas morreram tão silenciosa e higienicamente como hoje nessas sociedades, e nunca em condições tão propícias à solidão.

7

Num livro bem conhecido de B.G. Glaser e A.L. Strauss, Time for Dying (Chicago, 1968), os autores fazem a seguinte observação:
A maioria dos pacientes pertence a uma família. Se parentes ficam ao pé do leito de um membro moribundo da família durante os últimos dias, sua presença pode ocasionar problemas sérios para os médicos e a equipe de enfermagem do hospital, reduzindo inclusive a eficácia dos cuidados com o paciente (p.151).
Essa breve afirmação aponta para um grave conflito não resolvido na institucionalização ostensivamente racional da morte — pelo menos nos hospitais norte-americanos, a que as observações de Glaser e Strauss certamente se referem em primeiro lugar. O moribundo recebe o tratamento médico mais avançado e cientificamente recomendado disponível. Mas os contatos com as pessoas a que está ligado, e cuja presença pode proporcionar o maior conforto para aquele que parte, frequentemente são considerados inconvenientes para o tratamento racional do paciente e para a rotina do pessoal. E assim esses contatos são reduzidos ou impedidos sempre que possível. Glaser e Strauss observam no mesmo contexto (p.152) que, em algumas regiões menos desenvolvidas, pessoas próximas oferecem conforto e atenção aos moribundos por força da tradição. Liberam assim a equipe de enfermagem para outras tarefas. E também assumem os cuidados rotineiros de pacientes em recuperação. A equipe então está acostumada à sua presença. Os próprios parentes, que precisam de consolo, se ajudam mutuamente. Isso é um claro contraste com o que, segundo Glaser e Strauss, acontece nos hospitais em países mais desenvolvidos, onde a equipe gasta parte de seu tempo confortando os parentes aflitos.
O quadro dessa diferença é nítido. De um lado, o tipo antigo: os membros da família se reúnem em torno da pessoa doente, trazem comida, dão os remédios, limpam e lavam o paciente e talvez, trazendo sujeira das ruas para o leito do paciente, cuidam dele sem lavar as mãos. Possivelmente apressam o fim, pois nada disso é muito higiênico. Possivelmente sua presença adia a morte, pois pode ser uma das grandes alegrias dos moribundos estarem cercados por parentes e amigos — última prova de amor, último sinal de que significam alguma coisa para os outros. É um grande apoio — encontrar eco dos seus sentimentos nos outros que se ama e a quem se está apegado, e cuja presença faz surgir um sentimento terno de pertencer à família humana. Essa afirmação mútua das pessoas através de seus sentimentos, o eco dos sentimentos entre duas ou mais pessoas, desempenha um papel central na atribuição de significado e sentido de realização para uma vida humana — afeição recíproca, por assim dizer, até o fim.
Não devemos nos iludir: as famílias em Estados menos desenvolvidos são muitas vezes tudo, menos harmoniosas. Frequentemente apresentam maior desigualdade de poder entre homens e mulheres e entre jovens e velhos. Seus membros podem amar-se ou odiar-se, talvez as duas coisas ao mesmo tempo. Pode haver relações de ciúme e desprezo. Só uma coisa é rara nesse nível de desenvolvimento social, especialmente nos casos em que as mulheres, as mães, formam o núcleo integrador afetivo da família: não há neutralidade emocional no quadro da família extensa. De certa maneira, isso ajuda os moribundos. Despedem-se do mundo publicamente, num círculo de pessoas cuja maioria tem grande valor emocional para os moribundos, e para os quais estes têm o mesmo valor. Morrem menos higienicamente, mas não sós. Na unidade de terapia intensiva de um hospital moderno, os moribundos podem ser tratados de acordo com o mais recente conhecimento biofísico especializado, mas muitas vezes de maneira neutra em termos de sentimentos: podem morrer em total isolamento.

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Além disso, a perfeição técnica do prolongamento da vida certamente não é o único fator que contribui para o isolamento dos moribundos em nossos dias. A maior pacificação interna dos Estados industriais desenvolvidos e o expressivo aumento do limiar do embaraço face à violência fazem surgir nessas sociedades uma antipatia muda, mas perceptível, dos viventes em relação aos moribundos — uma antipatia que muitos membros dessas sociedades não conseguem superar mesmo quando não a aprovam. Morrer, como quer que seja visto, é um ato de violência. Se as pessoas são as responsáveis ou se é o curso cego da natureza que traz a decadência repentina ou gradual de um ser humano em última análise não tem muita importância para a pessoa afetada. Assim, um nível mais alto de pacificação interna também contribui para a aversão à morte, ou, mais precisamente, aos moribundos. E assim também um nível mais alto de contenção civilizada. Não faltam exemplos. A demorada morte de Freud em decorrência de um câncer na laringe é um dos mais significativos. O avanço da doença gerava um mau cheiro cada vez pior. Mesmo o cão fiel se recusava a aproximar-se do doente. Apenas Anna Freud, forte e inflexível em seu amor pelo pai moribundo, o ajudou nessas últimas semanas, impedindo que se sentisse abandonado. Simone de Beauvoir descreveu com assustadora exatidão os últimos meses de seu companheiro Sartre, que não era mais capaz de controlar o fluxo urinário e era forçado a andar com sacos plásticos amarrados a seu corpo — e os sacos às vezes transbordavam. A decadência do organismo humano, o processo a que chamamos morrer, quase sempre é acompanhado de mau cheiro. Mas as sociedades desenvolvidas inculcam em seus membros uma grande sensibilidade aos cheiros fortes.
Todos esses são em realidade apenas exemplos de como falhamos ao enfrentar os problemas dos moribundos nas sociedades desenvolvidas. O que eu disse aqui é apenas uma pequena contribuição para o diagnóstico de problemas que ainda precisam ser resolvidos. Esse diagnóstico, me parece, deve ser desenvolvido. Em termos amplos, ainda não estamos plenamente conscientes de que morrer nas sociedades mais desenvolvidas é acompanhado de problemas específicos que devem ser enfrentados como tais.
Os problemas que levantei são, como se pode ver, problemas de sociologia médica. As precauções médicas de hoje dizem respeito principalmente a aspectos individuais do funcionamento fisiológico de uma pessoa — o coração, a bexiga, as artérias e assim por diante —; quanto a isso, a técnica médica para preservar e prolongar a vida está sem dúvida mais avançada que nunca. Mas concentrar-se em corrigir medicamente órgãos isolados que funcionam cada vez pior só vale a pena em benefício da pessoa dentro da qual esses componentes estão integrados. E se os problemas dos componentes individuais nos levam a esquecer os da pessoa que os integra, realmente desvalorizamos o que fazemos para os próprios componentes. Hoje a decadência das pessoas, a que chamamos de envelhecimento e morte, coloca para os outros seres humanos, aí incluídos os médicos, certo número de tarefas não realizadas e geralmente não reconhecidas. As tarefas que tenho em mente ficam ocultas se a pessoa individual é considerada e tratada como se existisse apenas para si mesma, independente de todas as outras. Não estou seguro de até que ponto os próprios médicos sabem que as relações de uma pessoa com as outras têm uma influência codeterminante tanto na gênese dos sintomas patológicos quanto no curso tomado pela doença. Levantei aqui o problema da relação das pessoas com os moribundos. Assume, como vimos, uma forma especial nas sociedades mais desenvolvidas, porque nelas o processo de morrer está isolado da vida social normal numa medida maior que antigamente. Um resultado desse isolamento é que a experiência de envelhecer e agonizar, que nas sociedades antigas era organizada por instituições e fantasias públicas tradicionais, tende a ser ofuscada pelo constrangimento nas sociedades posteriores. Talvez, ao apontar para a solidão dos moribundos, fique mais fácil reconhecer, nas sociedades desenvolvidas, um núcleo de tarefas que continuam por fazer.
Estou ciente de que os médicos têm pouco tempo. Também sei que as pessoas e seu círculo de relações recebem deles mais atenção hoje do que antes. O que fazer se sabemos que uma pessoa preferiria morrer em casa a morrer no hospital, e se também sabemos que em casa ela morrerá mais rapidamente? Mas talvez seja exatamente isso o que ela quer. Talvez não seja supérfluo dizer que o cuidado com as pessoas às vezes fica muito defasado em relação ao cuidado com seus órgãos.

(Norbert Elias - Envelhecer e Morrer)

 

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