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Tenha sempre em mente que as preocupações com a morte freqüentemente se disfarçam em trajes sexuais. O sexo é o grande neutralizador da morte, a antítese vital absoluta da morte. (...)
O termo francês para orgasmo, la petite mort ("pequena morte"), aponta para a perda orgásmica do self, que elimina a dor da separação — o "eu" solitário desaparecendo no "nós" fundidos.
(Irvin D. Yalom - Os desafios da terapia)
 
A identidade de uma pessoa passa por três pontos cruciais, sendo o primeiro a
sua inclusão em uma comunidade harmoniosa — um cosmos. Uma vez mais, o homem
só é de fato homem entre os homens e, em exílio, ele nada é — por isso, aliás, o
banimento da cidade, para os gregos, corresponde a uma condenação à morte, o castigo
supremo que se inflige aos criminosos. Mas há uma segunda condição: a memória, as
lembranças, sem as quais uma pessoa não sabe quem ela é. É preciso saber de onde
viemos para saber quem somos e para onde devemos ir. O esquecimento se revela,
com relação a isso, a pior forma de despersonalização que se possa conhecer em vida.
É uma pequena morte em plena existência, e o amnésico é o ser mais infeliz da terra.
Por último, deve-se aceitar a condição humana, isto é, apesar de tudo, a finitude. O
mortal que não aceita a morte vive em hybris, em descomedimento e com uma forma de
orgulho que beira a loucura. Ele se imagina o que não é, um deus, um Imortal, como um
louco se imagina César ou Napoleão.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

“O medo é o assassino da mente” —
disse Lana, recitando de memória. — “O
medo é a pequena morte que traz a obliteração
completa. Vou enfrentar meu medo.
Vou...” não lembro o resto. É de um livro que
eu li há muito tempo.

Para surpresa de quase ninguém, Astrid disse:
— Duna, de Frank Herbert. “Não devo
temer. O medo é o assassino da mente. O
medo é a pequena morte que traz a
obliteração total.

(Grant, Michael - Medo)
 
Cada dia é uma vida em miniatura, onde todo despertar é um pequeno nascimento, cada manhã fresca é uma pequena juventude e cada adormecer na noite é uma pequena morte. Para completar a analogia, poderíamos considerar o desconforto e a dificuldade de despertar como as dores do parto.
(Arthur Schopenhauer – “Aforismos para a Sabedoria de Vida
 
Entusiasmo é o termo grego utilizado para designar todo estado paradoxal de perda de si em proveito de uma potência – e nesse sentido também de uma alteridade – divina” (Pinheiro, “Nietzsche, Platão e o entusiasmo poético”, in Nietzsche e os gregos, 2006, p. 82.6). Entusiasmo significa literalmente transporte divino, entheos, inspirado por deus. E designava o estado do poeta na Grécia antiga: o “êxtase do poeta inspirado”.
No entusiasmo, o poeta, fora de si, não se encontra aí como sujeito mas em íntima alteridade, pois está em deus. Que deus?
Dionísio. É propriamente um estado dionisíaco. Ele perde sua identidade, sua individuação ao se deixar tomar pela fúria que acompanha a entrega ao trieb, dionisíaco.
O entusiasmo afeta o sujeito a ponto de aboli-lo em sua diferenciação como sujeito do significante, sujeito identificado. Esse desaparecimento do sujeito em prol da pulsão é o efeito do trajeto pulsional, pois, ao sair do corpo e retornar ao sujeito dando a volta no objeto pulsional, faz aparecer a estrutura acéfala da pulsão (Cf. Lacan, Seminário, livro XI, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, 1979, p. 169). O sujeito é, então, possuído pelo gozo da pulsão.
O poeta é aquele que se deixa tomar pelo deus com esse gozo hetero a ponto de se perder no que Nietzsche chama o Uno primordial
.
(Stylus, revista de psicanálise - nº 14 abril 2007, Amor, desejo e gozo)
 
 

A análise do prazer esclarece o tema, que ficou para ser decifrado, da sensualidade do homem, que precisa ser apreendido sob este ângulo a fim de se perceber o que o une à única experiência descarnada, que é a experiência mística. Creio que, ao tomar a sensualidade humana, como o fazem os autores da publicação dos carmelitas, em sua forma mais elevada — desejada por Deus, independente dos desvios que a macularam — nós nos engajamos numa via oposta à da iluminação do misticismo. A sensualidade limitada em seus aspectos lícitos dissimula os aspectos mortais que aparecem no vôo do zangão ou na tentação do religioso, e cujo sentido mais distante é dado na "morosa delectatio".
É verdade que a atividade genital "desejada por Deus", limitada ao casamento, e mais geralmente a sexualidade considerada natural ou normal, opõe-se, de um lado, a desvios contrários à natureza, e de outro, a toda experiência julgada culpada, carregada de pecados, adquirindo, por essa razão, um sabor mais amargo: a atração que tem o fruto proibido.
Freqüentemente, para uma alma pura, o desejo sexual lícito seria absolutamente puro. É possível, mas essa verdade parcial oculta uma verdade fundamental.
Apesar da reação comum que associa um elemento de vergonha à sexualidade, é racional e conforme ao julgamento da Igreja inscrever a sexualidade como uma função no plano das atividades necessárias. Existe no abraço um componente louvável de beleza que se opõe ao componente de vergonha exposto acima. O abraço é a manifestação e a forma mais feliz da vida. Não haveria nenhuma razão para lembrar a seu respeito o exemplo do zangão, para o qual o abraço é, ao mesmo tempo, apogeu e morte. No entanto, desde o começo, aspectos da sexualidade incitam à desconfiança. Popularmente, o orgasmo tem o nome de petite mort. As reações das mulheres são comparáveis em seu princípio às das fêmeas que tentam fugir à fatalidade do amor: diferentemente das do religioso na tentação, essas reações revelam a existência de um sentimento de apreensão ou medo, geralmente relacionado à idéia do contato sexual. Esses aspectos ganham uma confirmação teórica. O gasto de energia necessária ao ato sexual é enorme em qualquer lugar.
Não é preciso ir mais longe procurar a causa do medo que tem como objeto o jogo sexual. A morte, excepcional, é somente um caso extremo; cada perda de energia normal, realmente, não deixa de ser uma pequena morte, comparada à morte do zangão, mas, lúcida ou vagamente, essa "pequena morte" é ela própria motivo de apreensão. Em contrapartida, ela é por sua vez o objeto de um desejo (nos limites humanos, pelo menos). Ninguém poderia negar que um elemento essencial da excitação é o sentimento da perda do controle de si, da desordem. O amor não é ou é em nós, como a morte, um movimento de perda rápida, resvalando depressa para a tragédia, não se detendo senão na morte.
Tanto é verdade que entre a morte e a "pequena morte", ou o descontrole, embriagadores, a distância é pouca.
Esse desejo de se perder, que trabalha intimamente cada ser humano, difere entretanto do desejo de morrer na medida em que ele é ambíguo: trata-se, sem dúvida, do desejo de morrer, mas é, ao mesmo tempo, o desejo de viver nos limites do possível e do impossível, com uma intensidade sempre maior. É o desejo de viver deixando de viver ou de morrer sem deixar de viver, o desejo de um estado extremo que talvez só Santa Teresa tenha descrito com tanta força, ao dizer: "Morro de não morrer!" Mas a morte de não morrer não é precisamente a morte, é o estado extremo da vida; se eu morro de não morrer, é com a condição de viver: é a morte que, vivendo, eu experimento, continuando a viver. Santa Teresa sentiu-se transtornada, mas não morreu realmente do desejo que teve de se perder. Ela perdeu o controle de si, não fez senão viver mais violentamente, tão violentamente que conseguiu dizer para si mesma que estava perto de morrer, mas de uma morte que, exasperando-a, não fazia estancar a vida.

(GEORGES BATAILLE - O Erotismo)

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publicado às 21:33



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