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Porque para deliberar é preciso lidar com opostos. Neste campo, o tempo todo estamos nos ocupando com contradições, com uma gigantesca complexidade de situações, em conflitos de máximas e deveres.
 
 

 

As crises agravam as incertezas, favorecem os questionamentos; podem estimular a busca de novas soluções e também provocar reações patológicas, como a escolha de um bode expiatório. São, portanto, profundamente ambivalentes.
Para entender o que acontece e o que vai acontecer no mundo, é preciso ser sensível à ambiguidade. O que é a ambiguidade? Ela se traduz pelo fato de que uma realidade, pessoa ou sociedade se apresenta sob o aspecto de duas verdades diferentes ou contrárias, ou então apresenta duas faces, não se sabendo qual é a verdadeira. Tomemos o exemplo dos Estados Unidos: podemos ver neles a imagem da democracia, de um anteparo contra a ditadura, mas também do imperialismo, do intervencionismo no Iraque, do massacre das populações indígenas. Eles apresentam, portanto, esses dois rostos, e talvez um deles seja mais marcante que o outro em determinados momentos de sua história. Pascal tinha o senso da ambiguidade para ele, o ser humano traz em si o melhor e o pior. Descartes, não. Devemos ser pascalianos.
A segunda coisa necessária para esse entendimento é a ambivalência: quando um processo apresenta dois aspectos de valores diferentes e às vezes contrários, é ambivalente. Tomemos um exemplo na história da Europa ocidental: a partir do século XVI, a Europa conquista o mundo, a África, a América, coloniza esses continentes e se mostra cruel, exterminadora, escravagista. Simultaneamente, vale dizer, exatamente na época em que ela exerce sua crueldade nessas regiões do mundo, a Europa também é o único lugar onde se desenvolveram as ideias de direitos do homem, de fraternidade universal. Essa Europa, portanto, é ao mesmo tempo cruel e civilizada, dupla face de que dão testemunho, à sua maneira, dois grandes espíritos da época, o primeiro, por seu combate, o segundo, por seus escritos: Bartolomé de Las Casas, católico (de origem judaica), obriga a Igreja a reconhecer que os indígenas têm alma; Montaigne (cuja família paterna era marrana, donde sua experiência da diferença) exclama: “São chamadas bárbaras as pessoas de uma outra civilização. E nós somos mais ferozes que os canibais que comem os inimigos mortos, considerando que o que fazemos é torturar pessoas vivas.” Em sua face positiva, portanto, a Europa oferece uma mensagem de compreensão dos outros, do humanismo cristão que nasce da confluência do evangelismo com as ideias gregas. Embora nos primeiros séculos esse aspecto fosse muito secundário, a Europa transformou-se em defensora dos valores de liberdade. A ambivalência é assim integrada a um processo, como qualquer valor, podendo tornar-se mais ou menos importante.
Tomemos ainda como exemplo o processo de globalização, favorecido pela técnica e pelo desenvolvimento das comunicações, como a Internet e o telefone celular. Experimentamos uma ruptura temporal (1989-1990), com a implosão da União Soviética e a explosão do liberalismo na Rússia e na China. Esse duplo fenômeno levou à hegemonia da economia, do lucro e também dos Estados Unidos, processo que, por sua vez, gerou suas próprias ambivalências: criação de novas zonas de prosperidade, de novas classes médias na Índia, na China, no Brasil, mas também de novas zonas de miséria. A esse respeito, devemos estabelecer uma diferença entre a pobreza e a miséria: uma família que vive em um pequeno lote de terra com policultura e animais de criação é pobre mas tem um mínimo de dignidade e autonomia, ao passo que as pessoas tiradas do campo para serem jogadas em favelas se encontram em uma dependência absoluta, isto é, na miséria, a exemplo dos habitantes das favelas da América Latina, sempre em expansão. Podemos discutir longamente as vantagens e desvantagens dessa globalização, mas acredito que é a miséria que domina. O importante, contudo, é sua profunda ambivalência; esse processo não tem regulação interna — ao contrário dos antigos Estados, é um processo desmedido e incontrolável, que pode gerar crises. A globalização é a pior e a melhor das coisas.
É preciso ter sensibilidade para as contradições: quando chegamos, pelo estudo e pela análise, a duas verdades contraditórias, nosso hábito lógico consiste em mudar de raciocínio para eliminar a contradição. O que ocorre não apenas nos problemas políticos e sociais, mas também na física. É preciso assumir e transcender as contradições.

Entender o Mundo que nos espera
 
 A inadequação, com efeito, tem crescido constantemente entre nossos saberes parcelados, compartimentados entre disciplinas, e entre os problemas multidimensionais, transnacionais, globais, planetários. A divisão das disciplinas nos torna incapazes de apreender a complexidade, da palavra complexus, “o que é tecido junto”. O desafio da globalidade é um desafio da complexidade. Na história planetária, as interações e retroações entre os processos econômicos, políticos, religiosos, demográficos, científicos, técnicos, já incontáveis, estão constantemente aumentando. Ora, uma das tragédias do pensamento atual é que nossas universidades e escolas superiores produzem eminentes especialistas cujo pensamento é muito compartimentado. O economista enxerga apenas a dimensão econômica das coisas, assim como o religioso e o demógrafo nas suas respectivas áreas, e todos encontram dificuldade para entender as relações entre duas dimensões. A inteligência que sabe apenas separar quebra a complexidade do mundo em fragmentos isolados, diminuindo as chances de compreensão e reflexão. Assim, quanto mais os problemas se tornam planetários, mais se tornam impensados; quanto mais avança a crise, mais avança a incapacidade para pensá-la.
O conhecimento pertinente é capaz de situar toda informação em seu contexto e, se possível, no conjunto em que se insere. Da mesma forma, devemos conceber simultaneamente a retroação: um fenômeno circular, no qual o próprio efeito atua sobre a causa, e a recursão: um processo em que os efeitos e os produtos são necessários para sua própria produção e causa. A democracia, por exemplo, é nutrida por dois círculos recursivos: em primeiro lugar, os governantes dependem dos cidadãos, que dependem dos governantes. Em segundo lugar, a democracia produz cidadãos, que produzem a democracia. Estamos diante de círculos, círculos virtuosos nos quais dois contrários podem ajudar-se reciprocamente. Por exemplo, nas relações Israel/Palestina, Estados Unidos/Irã, nas quais, de ambos os lados, os mais extremistas é que vêm a ser favorecidos pelo processo conflituoso. Cada provocação de Bush favorecia a provocação de Ahmadinejad. Era o mais grandioso desses maniqueísmos: segundo a visão ocidental, um império do bem contra a Al Qaeda, o império do mal; e segundo a visão inversa, a Al Qaeda, o império do bem, contra os infiéis ocidentais. A luta dos dois impérios do bem impossibilita a compreensão de um pelo outro.
Trata-se, assim, de uma condição prévia: se não houver essas múltiplas sensibilidades para a ambiguidade, para a ambivalência (ou a contradição), para a complexidade, será muito pequena a capacidade de entender o sentido dos acontecimentos. A compreensão humana comporta o entendimento não só da complexidade do ser humano, mas também das condições em que são modeladas as mentalidades e praticadas as ações. As situações são determinantes, como demonstram as circunstâncias de guerra em que as virtualidades mais odiosas podem concretizar-se. Os terroristas, de certa maneira, vivem uma ideologia de guerra em tempos de paz.
Existe uma ética da compreensão que nos convida, antes de mais nada, a compreender a incompreensão, que tem numerosas origens: o erro, a indiferença ao próximo, a incompreensão entre culturas, a possessão por deuses, por mitos, por ideias, o egocentrismo, a abstração, a cegueira, o medo de compreender... Uma palavra sobre essa última incompreensão: compreender não é justificar, compreender o assassino não significa tolerar o assassinato que ele cometeu. A compreensão complexa comporta uma terrível dificuldade. Ao levar em conta as bifurcações, as engrenagens que levam ao pior ou ao melhor, e não raro a ambos, ela enfrenta constantemente o paradoxo da responsabilidade/irresponsabilidade humana.

*

A maior contribuição do século XX no terreno do conhecimento foi a noção dos limites de nosso conhecimento. A incerteza é onde nos movemos, não só na ação, mas também no conhecimento. A condição humana, assim, é marcada por duas grandes incertezas: a incerteza cognitiva e a incerteza histórica. Quando entram em ação as interações e interferências, não é possível ter certeza absoluta. A incerteza cognitiva é resumida nesta frase de um biólogo: “Para saber tudo o que acontece em um corpo seria necessário matá-lo, e então o que nele acontece deixa de acontecer.” É preciso aceitar pensar com certa incerteza. A incerteza histórica está ligada ao caráter caótico da história humana. Não podemos ignorar a grande revelação do século XX: nosso futuro não é teleguiado pelo progresso histórico. Simultaneamente à globalização econômica, uma outra globalização muito mais frágil se afirmou, a da democracia: muitos países que viviam sob ditadura se emanciparam; existem, é verdade, democracias vacilantes, violentas, corruptas, mas há avanços nos direitos do homem e da mulher. Para além das aparências, descobrimos também uma globalização plural.
A segunda globalização faz parte do mesmo processo que a primeira, ao mesmo tempo que lhe é oposta. É a globalização cultural, por sua vez extremamente ambivalente. Marx dizia, no século XIX, que o capitalismo, unificando o mundo pelo lucro, criaria condições de uma verdadeira literatura mundial. Hoje, temos acesso aos romances japoneses, chineses, e não apenas contemporâneos, mas também medievais.
Embora a indústria do cinema tenha aplicado uma extrema divisão do trabalho (o montador, o realizador...) e atendido a um imperativo de lucro, não deixou de produzir filmes de qualidade, às vezes obras-primas. Um criador pode impor sua obra, como Orson Welles, assim como pode ser varrido pelo sistema. A planetária difusão cinematográfica nos proporciona obras-primas do cinema coreano ou japonês. Por quê? Porque sempre existe necessidade de originalidade, de criação; e entre a invenção e a produção ocorrem, simultaneamente, conflito e colaboração. É o que define a complexidade: uma relação antagônica e complementar. Se a padronização passou a ser um fenômeno mundial, como evidenciam tantas séries de televisão produzidas atualmente, a originalidade também está presente: um notável estudo sobre a pizza mostrou de que maneira ela se transforma em cada país, integrando elementos culturais próprios.
A mestiçagem cultural pode ser criadora. Tomemos um exemplo que me toca particularmente, o do flamenco. Temos aí uma música que expressa a alma do povo cigano, uma música simbiótica, cheia de influências, indiana, árabe, judaica, celta... fundidas em uma música original. O flamenco estava em decadência na década de 1950, de tal maneira degradado que sua morte era prevista. Mas, se regenerou por influência de dois fatores: primeiro, graças à juventude andaluza, movida pelo desejo de uma volta às origens, às raízes culturais, e depois graças a gravadoras que, como a Ducretet Thomson, produziram antologias, puseram no mercado “compilações” que lhe permitiram conquistar aficionados em todo o mundo. Vemos, portanto, que o flamenco também deve sua regeneração à globalização. E, por sinal, outros fenômenos de mestiçagem se desenvolvem tangencialmente: o raï, o rock... Todos esses processos são ambivalentes. Condenar a globalização cultural como padronização, degradação, ou então louvá-la por sua capacidade de transmissão não é suficiente. Vivemos em processos ambivalentes que podem modificar-se, o que não significa que devemos apenas contemplá-los.

*

Poderíamos dizer que a nave espacial Terra é transportada por um quadrimotor: a ciência, a técnica, a economia e o lucro. Cada um desses motores é profundamente ambivalente. A própria ciência, que permitiu descobertas, conhecimentos extraordinários, gerando benefícios para a humanidade, também gerou armas de destruição em massa e agora concebe meios de manipulação genética. A ciência gerou um poder extraordinário ao se associar cada vez mais estreitamente à técnica, cujos aperfeiçoamentos propulsionam ininterruptamente a economia e transformam profundamente as sociedades. A técnica serviu para domesticar as energias materiais, mas também os seres humanos, que por sua vez interferem nas máquinas. Os espíritos formados por um modo de conhecimento que recusa a complexidade não são capazes de conceber a ambivalência fundamental inerente à atividade científica, na qual conhecimento e manipulação são duas faces do mesmo processo. Além disso, é difícil controlar a ciência, que sempre foi um canteiro de obras caótico; como as grandes descobertas nunca foram programadas, as regulações devem vir de outras fontes: do político, entre outros, que intervêm de maneira modesta, quando, por exemplo, proíbem a clonagem humana. Como não sentir medo? A produção de armas de destruição em massa se dissemina, se miniaturiza, cria um perigo cada vez mais pesado, tanto mais que entramos em um pré-período de guerra de civilizações, que, espero, não ocorrerá, no qual o maniqueísmo é transformado em princípio em que um grupo sem localização territorial, como a Al Qaeda, sonha explodir uma bomba atômica artesanal para eliminar cidades de perdição e infiéis. A degradação da biosfera tem prosseguimento, denunciada desde 1970 pelo Clube de Roma, ao passo que uma consciência ecológica leva muito tempo para se disseminar. O aquecimento global é acompanhado das ameaças que pesam sobre a vida oceânica, da diminuição da biodiversidade animal, do aumento da poluição urbana e da agricultura industrial, que multiplica pesticidas empobrecendo os solos e contaminando os lençóis freáticos. Essa degradação generalizada é gerada pelo nosso próprio processo de civilização, que também dá origem a antídotos, a formas de reparação. É muito bom que haja iniciativas de controle ambiental como as que ficaram conhecidas na França como Grenelle de l’Environnement, pois é importante desenvolver energias renováveis, limitar a poluição. Mas seria necessária uma reforma de maior envergadura. Foi-se buscar o quantitativo, esquecendo-se do qualitativo. Os economistas têm os olhos fixos apenas nos resultados numéricos, ignorando as realidades humanas, que envolvem sensibilidades, ódio, amor, paixões. O lucro é um processo descontrolado que também comporta sua própria ambivalência. Estamos envolvido sem um processo que tende para a catástrofe, não obstante as tentativas, aqui e ali, de salvar uma região, um rio... Em tais condições, o provável é catastrófico. Não sei sob que forma, talvez uma mistura de guerra e catástrofe ecológica. O provável é aquilo que, em determinado lugar e momento, projeta um observador inteligente, dispondo das melhores informações sobre o passado e o presente, para o futuro. O provável, portanto, é que caminhamos para o abismo. E, no entanto, sempre houve o elemento improvável na história humana. Seis séculos antes da nossa era, o imenso Império Persa quis absorver as pequenas cidades gregas, entre elas Atenas. Era para ter sido muito fácil, bastando para isso lançar em campo seu gigantesco exército. Mas, Atenas, com a ajuda de Esparta, rechaçou os persas na batalha das Termópilas. A cidade de Atenas foi destruída, até Salamina, mas lá os navios gregos armaram uma cilada para os persas, salvando o Estado de Atenas. E algumas dezenas de anos depois nasciam a democracia e a filosofia atenienses.
Eu mesmo vivi uma situação improvável: em dezembro de 1941, o exército nazista dominava a Europa e havia chegado às portas de Moscou. Mas eis que um inverno precoce enfraqueceu o exército alemão. Stalin, informado por um espião de que o Japão não atacaria, destaca uma parte de seu exército do Extremo Oriente e nomeia Yukov, que desencadeia uma contraofensiva em 5 de dezembro e rechaça o exército alemão; é a primeira derrota dos nazistas. Acontece que, no dia seguinte, o Japão ataca Pearl Harbor, provocando a entrada dos Estados Unidos na guerra. Em poucos dias, o provável diminui, o improvável começa a se desenvolver e se torna provável depois de Stalingrado. O futuro nunca é certo. Outro exemplo mais distante no tempo: o planeta era povoado por uma humanidade arcaica vivendo em pequenas sociedades de caçadores-coletores, sem Estado, sem agricultura, sem exército. Em dado momento, no Oriente Médio, na bacia do Indo e, depois, na China, no México, não se sabe mediante qual processo de dominação, de reagrupamento, nossas sociedades históricas foram criadas, com cidades, Estados, agricultura, um exército, classes sociais, religiões. Ocorreu uma espécie de metamorfose, uma transformação radical, como costuma ocorrer no mundo animal. Em uma primeira etapa, por exemplo, a lagarta se destrói, até o sistema digestivo, para melhor se tornar uma borboleta. Nós mesmos somos pequenas larvas no ventre de nossa mãe, antes de nos transformarmos em seres humanos, passando pelo teste extremamente duro do nascimento.

Arrisco a hipótese de que talvez tenhamos chegado a um momento de ruptura. O destino da humanidade acaso seria a história (um processo, justamente, que tem fim), que tem apenas 6.000 anos no fim das contas? Não teríamos chegado a uma etapa que serve de prelúdio a uma metamorfose da qual nasceria uma sociedade-mundo de novo tipo? O que caracteriza a metamorfose, como qualquer criação, é não ser previsível. Como imaginar o Réquiem de Mozart, mesmo dispondo eletrodos em sua cabeça, antes de sua criação? Naturalmente, falta-nos a consciência de humanidade planetária, que se encontra em estado germinal nas grandes religiões universalistas, assim como no humanismo ocidental, a qual ainda não se desenvolveu. A humanidade se concretizou pela comunhão de um destino em comum e agora se encontra diante de ameaças mortais. A metamorfose não é provável, apenas possível, e talvez distingamos a possibilidade de escapar dela. Não será uma salvação imediata, e certamente teremos de superar grandes dificuldades, empreender vários tipos de reformas, da sociedade, das mentalidades, dos valores... Por que não? Na história, vemos que os grandes acontecimentos começam de maneira minúscula: na Galileia, o cristianismo é sustentado por uma dúzia de apóstolos antes de se transformar em uma religião universal. Um profeta expulso de Meca refugia-se em Medina e vem a fundar uma outra grande religião. Um primeiro desvio no fluxo das coisas transforma-se em uma tendência, e depois em uma força histórica. Essa evolução também é complexa, paradoxal e ambivalente: todos os nossos fatores de desesperança trazem em si elementos de esperança: “Onde cresce o perigo, cresce também o que salva” (Hölderlin).

*

Ortega dizia: “Não sabemos o que acontece, e é justamente o que acontece.” Estamos condenados a avançar na ignorância, que é favorecida por esse pensamento parcelar que vê apenas fenômenos separados, incapaz de compreender suas relações.
Mas se preparar para esse mundo incerto não significa resignar-se. É preciso, pelo contrário, empenhar-se em bem pensar, elaborar estratégias, fazer apostas em plena consciência. Bem pensar significa tratar de contextualizar e globalizar nossos conhecimentos, como vimos, e também estar consciente da ecologia da ação. Primeiro princípio: toda ação, uma vez lançada, entra em um jogo de interações e retroações no meio em que se dá, e esse jogo pode desviá-la de seus fins e até mesmo levar a um resultado oposto ao que se esperava. Segundo princípio: as derradeiras consequências da ação são imprevisíveis. Os efeitos da ação dependem não só das intenções do ator, mas também das condições próprias do meio em que se desenrola. Ora, não é possível contemplar a totalidade das inter-retroações em um meio complexo como o meio histórico-social.
A estratégia se opõe ao programa, estabelece, como ele, um objetivo e hipóteses de ação, mas, ao contrário dele, modifica sua ação em função das informações recolhidas e do acaso. Traz em si a consciência da incerteza com que se vai deparar, comportando por isso mesmo uma aposta.
Acredito muito em uma política regenerada. É verdade que na França a política está muito esclerosada, tanto as mentalidades quanto os partidos, sugerindo que nada mais poderá sair daí; mas, ao mesmo tempo, estão em ação forças subterrâneas. Repensemos a metáfora de Hegel, sobre a velha toupeira que cava suas galerias subterrâneas e, um belo dia, volta à superfície. Existem muitas toupeiras trabalhando, tal como a jovem toupeira de 1968, e é difícil detectá-las. É preciso ter a mente aberta. É muito difícil conhecer o presente, movimentos imperceptíveis ocorrem na profundidade. O presente, o real, não é aquilo que parece estável. Ser realista, que utopia! É preciso estar aberto para o incerto, para o inesperado. É preciso ser sensível ao fraco, ao acontecimento que nos surpreende; é preciso estar pronto para repensar incansavelmente o estado do mundo.
Qual seria, então, a boa notícia? Uma conscientização da amplitude, da profundidade da complexidade, dando conta de um novo começo. Estamos em um período de crise planetária e não sabemos o que sairá disso; tudo aquilo que der conta da possibilidade de transcender essa crise será uma boa notícia. Creio que a complexidade favorece a ação, pois dá a medida dos verdadeiros riscos e das verdadeiras oportunidades. A ecologia da ação significa isto: no momento em que a empreendemos, ela nos escapa e pode transformar-se em seu contrário. Queremos levar a democracia ao Iraque e favorecemos o terrorismo; casamos, julgamos que vamos ser felizes e é o contrário. É preciso fazer como Pascal, uma aposta, e mudar de direção se necessário. Nossos antepassados caçadores-coletores viviam em um mundo incerto, sem garantias de encontrar caça, completamente sujeitos aos caprichos da natureza. A conscientização do risco pode estimular as defesas; é preciso apostar. Como as consequências de uma ação são incertas, a aposta ética, longe de abrir mão da ação por medo das consequências, assume essa incerteza, reconhece os riscos, elabora uma estratégia. A aposta é a integração da incerteza na esperança. É um erro acreditar que a ação só é possível através de uma visão simplista e maniqueísta da situação. A complexidade induz à temporização, suscita hesitação, pode por longo tempo representar um obstáculo para a ação, mas não impede de decidir. A incerteza estimula porque convoca a aposta e a estratégia. Não se deve, é verdade, avançar de maneira pulsional e irrefletida, mas é preciso agir. Aposta e estratégia, e adiante!

(Edgar Morin, Patrick Viveret - Como viver em tempo de crise?)
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para.
A vida não para não’.

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publicado às 12:08



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