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ENFOQUES SOBRE A TOLERÂNCIA

por Thynus, em 12.01.15
Todas as autoridades têm sua bastilha: quanto mais poderosa é uma instituição, 
menos humana. A energia de uma época mede-se pelos seres que nela sofrem, 
e é pelas vítimas que suscita que uma crença religiosa ou política se afirma, 
pois a bestialidade é a característica primordial de todo êxito no tempo. 
Sempre rolam cabeças onde prevalece uma ideia; 
pois só pode prevalecer à custa de outras ideias 
e das cabeças que as conceberam ou defenderam.
((EMIL CIORAN - BREVIÁRIO DE DECOMPOSIÇÃO)

Permanecendo inevitavelmente
presa ao saber como amiga ou inimiga, a fé
perpetua a separação na luta para superá-la:
seu fanatismo é a marca de sua inverdade, a
confissão objetiva de que quem apenas crê
por isso mesmo não mais crê. A má consciência
é sua segunda natureza.

(THEODOR W. ADORNO - DIALÉTICA DO ESCLARECIMENTO)
 

 

Sinais de vida: a crueldade, o fanatismo, a intolerância; sinais de decadência: a amenidade, a compreensão, a indulgência... Enquanto uma instituição se apoia sobre instintos fortes, não admite inimigos nem heréticos: os degola, os queima ou os encarcera. Fogueiras, cadafalsos, prisões!, não foi a maldade que as inventou, foi a convicção, qualquer convicção total.
Instaura-se uma crença? Mais cedo ou mais tarde a polícia garantirá sua “verdade”. Jesus – desde o momento em que quis triunfar entre os homens – devia prever Torquemada – consequência inelutável do cristianismo traduzido na história. E se o Cordeiro não previu o carrasco da Cruz, seu futuro defensor, merece então sua alcunha. Por meio da Inquisição, a Igreja provou que dispunha ainda de uma grande vitalidade; da mesma forma os reis com sua real vontade. Todas as autoridades têm sua bastilha: quanto mais poderosa é uma instituição, menos humana. A energia de uma época mede-se pelos seres que nela sofrem, e é pelas vítimas que suscita que uma crença religiosa ou política se afirma, pois a bestialidade é a característica primordial de todo êxito no tempo. Sempre rolam cabeças onde prevalece uma ideia; pois só pode prevalecer à custa de outras ideias e das cabeças que as conceberam ou defenderam.
A História confirma o ceticismo; no entanto, ela só existe e vive pisoteando-o; nenhum acontecimento surge da dúvida, mas todas as considerações sobre os acontecimentos conduzem a ela e a justificam. É o mesmo que dizer que a tolerância – bem supremo da terra – é também, ao mesmo tempo, o mal. Admitir todos os pontos de vista, as crenças mais díspares, as opiniões mais contraditórias, pressupõe um estado geral de cansaço e esterilidade. Chega-se a este milagre: os adversários coexistem – mas precisamente porque já não podem sê-lo: as doutrinas opostas reconhecem méritos umas às outras, porque nenhuma tem o vigor suficiente para afirmar-se. Uma religião se extingue quando tolera verdades que a excluem: e bem morto está o deus em nome do qual já não se mata. Um absoluto se desvanece: um vago vislumbre de paraíso terrestre se delineia..., vislumbre fugaz, pois a intolerância constitui a lei das coisas humanas. As coletividades só se consolidam sob as tiranias, e desagregam-se em um regime de clemência; então, em um sobressalto de energia, começam a estrangular suas liberdades, e a adorar seus carcereiros plebeus ou coroados.
As épocas de pavor predominam sobre as de calma; o homem se irrita mais pela ausência do que pela profusão de acontecimentos; assim, a História é o sangrento produto de sua repulsa ao tédio.

(EMIL CIORAN - BREVIÁRIO DE DECOMPOSIÇÃO)

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