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EM NOME DE ZEUS

por Thynus, em 17.07.15
Os Dez Mandamentos são extremamente
claros e definidos porque não foram
decididos em uma assembléia.

KONRAD ADENAUER, 1876-1967
 
 
A região que hoje chamamos Olímpia já era habitada no terceiro milênio a.C. O primeiro local sagrado naquela parte da Peloponésia ocidental foi dedicado à deusa Ge. Muito mais tarde, Olímpia se transformou na cidade-templo de Zeus. No ano de 776 a.C., ocorreram as primeiras competições em Olímpia, e temos um registro escrito com o nome do vencedor – “Coroibos de Elis”. As competições atléticas ocorriam a cada quatro anos durante um período de 1.168 anos, de 776 a.C. a 393 d.C. Regras rígidas foram estabelecidas, tanto para os competidores quanto para a audiência. Os atletas deveriam treinar pelo menos durante dez meses; eles também deveriam ser gregos livres que não tivessem cometido assassinato nem se comportado de uma maneira indecente em um local sagrado. Trinta dias antes do início dos jogos, os atletas se reuniam no campo de treinamento em Elis, a 57 quilômetros de Olímpia, onde ficavam morando juntos em habitações simples e recebendo a mesma comida. Os Jogos Olímpicos eram apenas para os homens; as mulheres e os escravos não tinham permissão nem mesmo para assistir, havendo até mesmo uma lei que dizia que qualquer mulher que fosse surpreendida assistindo aos jogos seria atirada do Monte Typaion. Por que essa implicância com as mulheres? Todos os participantes tinham de competir nus e, mais tarde, os organizadores os obrigaram também a treinar sem roupa. Por que tudo isso?
Tanto os juizes das competições quanto o público tinham de ter certeza absoluta de que os atletas participantes eram seres humanos normais, que não haveria trapaça e que todos teriam a mesma oportunidade. A palavra “atleta” na verdade deriva da palavra grega athlos e significa prêmio ou honra. E qual a relação de tudo isso com a história da Argonáutica? Fique um pouco mais comigo.
Até o 13° Jogo Olímpico em 728 a.C., uma única competição ocorria: a corrida de velocidade em um percurso de um estádio, uma distância de mais ou menos 200 metros. Foi somente em 720 a.C. que uma corrida mais longa foi acrescentada, em um percurso de dois estádios, cerca de 400 metros. O primeiro vencedor olímpico dessa corrida foi Acanto de Esparta. A partir de então, novos esportes foram incluídos em cada um dos Jogos Olímpicos. A história dos jogos foi minuciosamente pesquisada por vários historiadores. Heródoto, o “pai dos historiadores” (490-426 a.C.), lia pessoalmente trechos das suas obras em voz alta no Olímpia, e foi assim que ele se tornou conhecido dos seus compatriotas. O historiador grego Diodoro (cerca de 100 a.C.), autor de quarenta volumes de livros de história, visitou os 180 Jogos Olímpicos.
É fácil para mim utilizar a história dos Jogos Olímpicos para demonstrar que monstros, Titãs, “seres mistos” ou outros seres estranhos não participavam deles. Os competidores ficavam nus e nenhum ser híbrido ou hermafrodita jamais teria tido permissão para assistir aos jogos. Nenhum robô à la Talos tinha sido programado para proteger os inúmeros templos olímpicos que continham ouro e prata. Nenhum dragão que cuspia fogo guardava com olhos incansáveis as valiosas oferendas feitas aos deuses e nenhuma descendência “divina” corrompia os jogos. Pelo menos podemos ter certeza disso a partir de 776 a.C. Competições eram realizadas em Olímpia antes disso, mas não estão incluídas em nenhum registro histórico.
A mais antiga referência conhecida à Argonáutica encontra-se no quarto poema de Píndaro, que escreveu a história por volta de 500 a.C. Certamente não havia gigantes, Titãs ou outros descendentes dos deuses à solta naqueles dias, caso contrário teriam sido mencionados nos registros históricos de Olímpia. Eles também não existiam um quarto de milênio antes disso, nos primeiros Jogos Olímpicos. Não obstante, a história faz referência a deuses, robôs, ao Velocino de Ouro e a um dragão que nunca dorme. Por conseguinte, as primeiras pessoas que contaram a história da Argonáutica inventaram seus monstros ou os extraíram de fontes bem mais antigas. Não vejo nenhuma outra alternativa.
A invenção fantástica de um “vau falante” ou de um “homem de metal” não se encaixa facilmente na época de Píndaro e nem mesmo na de Apolônio. O mesmo podemos dizer do dragão que nunca dorme e que não tem necessidades físicas, cospe fogo e é imortal. Se essas figuras tivessem sido inventadas nas histórias fantásticas da época, nós teríamos conhecimento desse fato. Afinal de contas, na Grécia antiga, havia uma enorme quantidade de poetas e sonhadores. Um grande número das suas histórias resistiu aos milênios, mas nenhum deles menospreza as mentiras inventadas pelos outros. Assim sendo, certamente essas histórias precisam ser mais antigas do que os primeiros Jogos Olímpicos.
Quanto mais nos aprofundamos no nevoeiro da história humana, mais improváveis se tornam as invenções tecnológicas, como as mencionadas na Argonáutica. Nosso modelo evolucionário nos levaria a concluii que quanto mais recuássemos no tempo, mais simples seria o pensamento humano. Ou será que existe alguém que seriamente deseje propor a idéia de que os contadores de histórias pegaram suas tabuinhas de argila no instante em que a primeira escrita foi inventada? Acompanhe-me em uma viagem mental, que nos fará recuar 4.000 anos.
Estamos na cidade de Assur, que existiu cerca de 2.000 a.C. O desenvolvimento da escrita encontrava-se a todo vapor e as pessoas já tentavam riscar em tabuinhas de argila algumas leis decretadas pelo nosso hábil governante. Este exige de cada um dos seus subordinados que implemente de imediato as leis, em vez de julgar as coisas de acordo com o capricho do momento. A elaboração dessas “tabuinhas da lei” é muito difícil. Primeiro, a mistura correta de argila precisa ser comprimida em armações de madeira, e depois amassada e alisada. A seguir, o escriba traça linhas finas na argila com uma pedra afiada. Todo o processo já foi testado durante semanas, com a argila mole sendo gravada repetidamente com os sinais em forma de cunha. Às vezes, a ferramenta de pedra risca muito profundamente e a impressão fica muito larga na parte superior; outras vezes, uma pressão excessiva é aplicada. Ou então a mão do escriba treme. Com freqüência, a argila mole cede no lugar errado, ocultando um traço importante que transforma uma palavra em seu oposto — como “injusto” em “justo”.
Finalmente, as armações de madeira são colocadas ao sol para secar. Após algumas horas, podemos ver que a escrita já não parece correta porque o calor empena a armação. Além disso, muitas tabuinhas se quebram quando são removidas da armação.
Você pode ver, portanto, que em 2.000 a.C. escrever era ao mesmo tempo um processo exaustivo e uma séria responsabilidade. Poucos dominavam essa nova arte. Imagine então que aparece um sonhador que só tem uma coisa em mente: ele exige 5.000 tabuinhas para poder gravar nelas uma história inventada, um sonho, digamos — ou, como ela seria chamada um milênio mais tarde, um conto de fadas! Os sacerdotes, a tribo, o governante só permitirão tal coisa se a considerarem extremamente importante. E que tipo de história poderia ser importante a ponto de exigir que alguém passasse anos gravando-a na argila?
Apenas uma, sem dúvida, que descreva uma série de eventos antigos, poderosos e, é claro, verdadeiros, que precisam ser conservados para a posteridade. As mentiras e as invenções não são gravadas na argila — e os sonhos definitivamente também não.
E foi isso que aconteceu. Depois que a humanidade finalmente inventou a escrita, ou melhor, a aprendeu com os deuses, os textos registrados eram acordos comerciais e, mais tarde, decretos reais ou relatórios sobre guerras e batalhas. Os poucos especialistas que sabiam escrever, escolhidos a dedo, não usavam esse conhecimento para registrar tolices. As tabuinhas de argila não existiam para imortalizar as fantasias de qualquer sonhador. As únicas coisas escritas eram aquelas realmente importantes — inclusive as histórias a respeito dos deuses, das suas armas sobre-humanas e poder sobrenatural. Essas histórias já existiam e não foram inventadas de repente. Não havia lugar para uma literatura trivial ou escapista nos textos sagrados. Tanto os governantes quanto os sacerdotes se teriam recusado categoricamente a dar sua aprovação.
Por que então as descrições de uma misteriosa tecnologia dos deuses são encontradas entre os mais antigos registros escritos? O que tornou essas coisas tão importantes a ponto de serem escritas? A Epopéia de Gilgamesh foi escrita milhares de anos antes de Cristo, bem como as histórias dos primeiros imperadores chineses e seus dragões celestes. E, na versão mais antiga da história de Gilgamesh, escrita em tabuinhas de argila há 5.000 ou 6.000 anos, encontramos o robô Chumbaba, a “torre dos deuses”, a “porta que fala como uma pessoa” e os projéteis dos deuses, rápidos como o relâmpago. É claro que também ouvimos falar em uma jornada espacial, pois Gilgamesh é levado da terra e descreve o que vê de uma grande altitude.
Acho melhor parar por aqui; já explorei essas histórias em outros livros, que podem ser examinados por aqueles que desejem se aprofundar no assunto.1, 2
Há cento e noventa anos, o historiador Professor Dr. Ernst Curtius escreveu o seguinte:3 “A história não conhece a infância de nenhuma raça.” Isso é verdade, pois cada povo só começa a fazer um registro histórico depois de formar uma comunidade a respeito da qual algo pode ser escrito. Heródoto certamente não foi o primeiro historiador do planeta; a história foi escrita séculos e milênios antes dele. Heródoto foi uma pessoa erudita. Ele pesquisou meticulosamente as bibliotecas da sua época, pois sua curiosidade e interesse eram sempre crescentes, e ele queria descobrir a verdade a respeito dos deuses gregos.
Por sua cuidadosa pesquisa, ele descobriu as origens dos deuses gregos no Egito. Descobriu que os egípcios foram o primeiro povo a manter registros precisos a respeito dos seus deuses e reis, e que eles tinham conhecimento de festivais muito antigos que “apenas recentemente começaram a ser celebrados na Grécia”.4 Heródoto descobre no antigo Egito seus deuses gregos, junto com todos os ritos que lhes são dedicados, e não se sente nem um pouco culpado por ter-se aberto com relação a isso, embora seus devotos compatriotas facilmente pudessem ficar ofendidos. Heródoto declara com bastante naturalidade que ísis nada mais é do que o nome egípcio para Deméter. A deusa Atena e os deuses Hélio, Ares e muitos outros têm sua origem no Egito. No segundo livro das Histórias, a partir do capítulo 60, Heródoto descreve diversos festivais em homenagem a esses deuses e como eram celebrados no Egito. Ele sempre mantém uma perspectiva crítica, fazendo uma distinção entre suas experiências pessoais e as coisas que lhe foram contadas por terceiros. Ele também registra meticulosamente as coisas sobre as quais não quer escrever, seja por serem sexualmente ofensivas, seja por não acreditar no que lhe foi contado. Heródoto até mesmo explora a questão sobre o motivo pelo qual esses seres sobrehumanos são chamados de “deuses”. A resposta a que ele chega não dá margem a dúvidas: porque eles foram os primeiros mestres da humanidade e também porque “determinavam todas as coisas e dividiam tudo entre si”.
Heródoto também extrai contagens de anos das suas fontes egípcias capazes de nos causar uma grande surpresa. No capítulo 43 do seu segundo livro, ele escreve que Héracles era conhecido pelos egípcios como um deus muito antigo. Ele diz que 17.000 anos se passaram entre a época de Héracles e o reino de Amasis. A seguir, ele fornece dois números que perturbam a cabeça dos nossos especialistas. Para o Heródoto itinerante — e tudo isso, é claro, aconteceu por volta de 450 a.C. — os sacerdotes de Tebas mencionaram o nome de 341 gerações de governantes que eles haviam cuidadosamente registrado. De acordo com Heródoto, essas 341 gerações correspondem a 11.340 anos, e a partir de então “não houve mais deuses com forma humana” no Egito. Heródoto não estava meramente batendo papo com simples pedreiros ou comerciantes fofoqueiros. As pessoas com quem ele falou eram sacerdotes instruídos e quando, impressionado, ele perguntou a eles se suas afirmações eram verdadeiras, essa elite de sacerdotes confirmou que os 341 reis tinham sido pessoas “bem diferentes dos deuses’’ e, que antes deles, deuses haviam governado o Egito e vivido entre os seres humanos. (Quem quiser verificar essas afirmações pode ler o livro 2, capítulos 142 a 145, das Histórias de Heródoto.) E uma vez mais I leródoto nos garante que os egípcios sabiam de tudo isso “com certeza, porque eles continuamente computam os anos e os registram”. Os mesmos sacerdotes também leram para Heródoto, a partir de um livro, o nome dos 330 reis, junto com os períodos em que governaram, que se seguiram ao reinado do Faraó Vienes.
Os perspicazes exegetas, filólogos, arqueólogos e historiadores religiosos dos dias de hoje não conseguem aceitar a idéia desses enormes períodos de tempo. Antes do início da história escrita, eles só têm conhecimento do grande buraco negro da Idade da Pedra, durante a qual os seres humanos que descendiam dos macacos lenta e infalivelmente expandiram seu conhecimento. Eles aprenderam a usar instrumentos de pedra e pouco a pouco desenvolveram a linguagem. Eles formaram tribos para sua segurança, inventaram a ponta de flecha, a lança e finalmente o arco, e a certa altura descobriram como extrair o ferro da rocha. Nessa mesma época, eles ergueram gigantescas construções megalíticas. E, quando finalmente inventaram a escrita, imediatamente usaram estiletes de pedra para imprimir nas tabuinhas de argila histórias fantásticas com uma tendência tecnológica!
Nossos especialistas, que confinam o cérebro em intermináveis conferências e discussões, e que citam o tempo todo as obras uns dos outros a fim de “permanecer científicos”, não conseguem propor uma explicação melhor do que a psicológica. Eles escrevem frases como:5 “Colocar antes de meados do quarto milênio a cronologia das dinastias mais antigas é ridículo e claramente uma óbvia invenção.” Ou: “Um total absurdo”, ou: “Podemos deixar sem problemas esta passagem de fora, pois ela nada contém além de disparates absurdos.” Este tipo de ponto de vista defende com segurança a idéia de que “a história do antigo Egito só começou realmente por volta de 3.000 a.C.”6 Qualquer outra versão da história da humanidade é inconcebível, mesmo que os historiógrafos dos mais diversos povos forneçam datas concretas. O dogma sagrado da evolução não admite nenhuma outra alternativa.
A fim de explicar todas as incongruências, as pessoas inventam “anos lunares”, acusam os historiadores e historiógrafos de cometer erros com os números, de exagerar a natureza grandiosa dos seus reis ou de inventar tipos de calendário que na verdade nunca existiram — como o calendário Sothis ou Sirius para os reinos faraônicos. E o que acontece à nossa tão elogiada “abordagem científica” se simplesmente desprezarmos todas as datas que um tão grande número de escribas e historiógrafos registrou com tanto cuidado? Heródoto está longe de ser o único a incluir datas e períodos nas suas histórias. No meu livro anterior,7 apresentei números comparativos dos mais diversos lugares. A conclusão a ser tirada não é que os antigos tivessem problemas para contar e sim que simplesmente não queremos reconhecer a realidade daquela época.
Os filósofos gregos Platão (427-347 a.C.) e Sócrates (470-399 a.C.) ainda são considerados, inclusive pela nossa cultura extremamente adiantada, como pensadores ilustres e perspicazes. Seus tratados enchem milhares de páginas e eles se esforçavam o tempo todo para chegar à verdade. Quem quer que leia os Diálogos de Platão descobrirá o verdadeiro significado da filosofia e da dialética. Em seu diálogo intitulado As Leis, Platão inicia uma conversa com um hóspede vindo de Atenas, com Cleinas de Creta e o lacedemônio Megillos. Esses homens também discutem os tempos antigos e o ateniense diz o seguinte:8
Se fizermos um exame mais atento, descobriremos que as pinturas e esculturas criadas há dez mil anos — e estou me referindo a um período de tempo preciso e não usando o termo no sentido vago que geralmente lhe é conferido — não são nem mais belas nem mais feias…
Por que o grego enfatiza o fato de estar se referindo a um período específico de tempo de dez mil anos? Porque os gregos consideravam todos os números acima de dez mil algo que podia variar entre “grande” e “infinito”. No livro 3 do mesmo Diálogo, os homens falam abertamente a respeito da destruição de culturas anteriores.
Está claro que o conhecimento dessas civilizações extintas era evidente por si mesmo naqueles dias e não apenas com relação a pequenas nações dizimadas em um ou outro momento pela guerra ou desastre natural. De modo nenhum. As pessoas tinham conhecimento de uma catástrofe global causada por um grande dilúvio. Podemos ler com detalhes na obra de Platão a respeito da erradicação de cidades e países inteiros e dos pequenos grupos que sobreviveram nas regiões montanhosas. Esses sobreviventes, diz ele, haviam preservado a arte da cerâmica, viviam da caça e eram capazes de fabricar cobertores e armas simples, pois podiam confeccioná- los sem o uso do ferro. Por outro lado, diz ele, o uso dos metais lhes foi ensinado pelos deuses “para que a raça humana, no meio das dificuldades que estavam passando, obtivesse uma força e um ímpeto renovado para se desenvolver”.9
Podemos ler a respeito da maneira pela qual as cidades das planícies e à beiramar foram destruídas e as minas de metal ficaram submersas, o que tornou impossível a obtenção de minérios. Todas as ferramentas também foram perdidas, bem como uma grande parte do conhecimento, inclusive a “arte da política”. As gerações seguintes, escreve Platão, logo esqueceram de que modo muitos milênios haviam se passado.
Muitas pessoas interpretam esse Diálogo como uma espécie de suposição, como se Platão estivesse dizendo: “Vamos supor que isso aconteceu, que o mundo foi arruinado e as pessoas tiveram de recomeçar do início, como isso seria.” No entanto, esse ponto de vista não tem muita utilidade, visto que a menção a culturas extintas não se restringe a As Leis. E o ateniense afirma explicitamente que se está referindo a um número exato de “dez mil anos”.
Mas por que tal catástrofe teria ocorrido? Em a Política de Platão lemos assombrados a respeito de:10
…o milagre da inversão do nascer e do pôr do sol e dos outros corpos celestes. Onde hoje eles se levantam, eles uma vez se punham, e nasciam do outro lado… Isso parece absurdo, mas na nossa época adquire outra dimensão. Simplesmente imagine um globo e faça-o girar sobre o próprio eixo para obter nossos dias e noites. Agora incline o eixo e deixe o globo continuar com a mesma rotação anterior – em outras palavras, sem parar o giro e invertê-lo. O que acontece? Os habitantes da terra têm a impressão de que o sol mudou seu trajeto. É claro que isso não aconteceu, mas o fato de o eixo da terra ter mudado de direção faz com que as pessoas tenham essa impressão. Além disso, uma mudança no eixo da terra também provocará inevitavelmente terríveis inundações. Desde que aprendemos que o campo magnético do nosso planeta se modifica, uma mudança no eixo da terra tem estado dentro dos limites da possibilidade.
O poeta Hesíodo viveu na Grécia séculos antes de Platão. Várias epopéias, poemas e fragmentos de seus trabalhos sobreviveram aos milênios. Sua obra mais conhecida é Teogonia, que foi escrita entre 650 e 750 a.C.11 Nela ele menciona seres terríveis que certa vez habitaram a terra. Os próprios deuses os haviam criado: figuras pavorosas “com cinqüenta cabeças com enormes membros pendurados nos ombros.” 12 O dragão que cuspia fogo também já faz parte da coleção de seres estranhos de Hesíodo. Apolônio, que viveu trezentos anos mais tarde, não pode, por conseguinte, ter inventado o dragão na Argonáutica.
…dos ombros do horrível e serpeante dragão saíam cem cabeças, cujas línguas escuras estremeciam e se lançavam eni todas as direções. De cada par de olhos das cem cabeças a luz cintila e arde… quando ele fixa os olhos, seu olhar queima como fogo. E cada uma das aterradoras cabeças tem sua própria voz retumbante, uma assombrosa multiplicidade de sons…13
Também podemos ler na Teogonia de Hesíodo a respeito de como a deusa Quimera, de quem obtivemos a palavra “quimera” ou “ser misto”, deu à luz “um monstro que resfolegava fogo”.14 O monstro possuía três cabeças, a de um leão, a de uma cabra e a de um dragão. A cabeça de dragão “resfolegava o ardor terrível de um fogo que fulgia intensamente”.
Uma vez mais não está claro de onde Hesíodo obteve essa informação. Supõe-se que ele também tenha usado fontes egípcias originais. Seus relatos são por demais vívidos e precisos, e seu caráter excessivamente tecnológico, para que eles tenham surgido na sua época. Em seu livro Works and Days15 ele escreve que os deuses criaram quatro raças antes de criar a raça humana:
…Primeiro os deuses, os que vivem nas alturas do Olimpo, criaram uma raça de ouro de homens muito discursadores…
A citação anterior foi traduzida de uma versão alemã de 1817. O professor Voss traduziu a frase do grego como “os que vivem nas alturas do Olimpo”. Em versões mais recentes da mesma passagem, encontramos uma perspectiva levemente diferente: “… [deuses] que vivem em casas celestes”.16
Vou colocar lado a lado essas duas traduções, separadas uma da outra por apenas 150 anos, para que você possa compará-las e tirar suas conclusões:
1817
Primeiro os deuses, os que vivem nas alturas do Olimpo, criaram uma raça de ouro de homens muito discursa- dores. Estes eram governados por Crono, que na época reinava no céu. E eles viveram como os deuses, com suas almas recebendo constantes cuidados…
1970
Deuses imortais que vivem em casas celestes primeiro criaram a raça de ouro de frá¬geis seres humanos. Foi na época de Crono, quando ele ainda reinava nos céus. Eeles viveram como deuses, sem ter nenhuma preocupação no coração…
O grego antigo que alguns de nós talvez tenhamos aprendido com dificuldade no colégio não é suficiente para julgar qual das versões é mais precisa. Embora o sentido geral das duas traduções seja de um modo geral o mesmo, existe uma diferença fundamental entre “alturas do Olimpo” e “casas celestes”, e entre “governados por Crono” e “na época de Crono”. Como será a tradução no ano 2100? Depois da “raça de ouro” os deuses criaram uma segunda raça, uma raça inferior, uma “raça de prata”. Esta raça ainda foi criada pelos mesmos deuses, os que “moram nas alturas do Olimpo”, ou, quem sabe, “moram em casas celestes”. Essa “raça de prata” era de uma ordem inferior à raça de ouro, tanto na forma quanto na atitude mental, e era formada por ‘’molengões” mimados pelas mães.
Depois então veio:17 “…uma terceira raça de pessoas barulhentas”. Elas tinham “uma grande força” e “dos seus ombros saíam grandes membros”. Supõe-se que essa raça era empedernida e obstinada, e suas ferramentas de agricultura eram feitas de metal. Mas parece que essa raça também desapontou, de modo que Crono criou uma quarta raça: a dos heróis ou semideuses.
Segundo Hesíodo, nós, modernos, pertencemos à quinta raça, a raça de ferro. Somos uma mistura do “bem com o mal” e sentimos alegria e dor. Mas quando as coisas degenerarem a ponto de crianças não mais se parecerem com os pais, anfitriões não mais acolherem com prazer os hóspedes e irmãos não mais amarem uns aos outros, nossa raça também será destruída em nome de Zeus.
Hesíodo apresenta uma descrição vívida e detalhada da batalha travada entre deuses e Titãs, inclusive dos pormenores das armas envolvidas. Embora os Titãs tivessem sido criados pelos deuses, tiveram de desaparecer da face da Terra. Uma terrível luta ocorreu, na qual até mesmo o deus Zeus esteve envolvido, lançando dos céus grandes relâmpagos explosivos, projéteis que fizeram os mares ferver, incendiaram extensas regiões e subjugaram a Terra. A descrição do massacre feita por Hesíodo cobre muitas páginas, mas vou transcrever apenas um trecho da tradução de 1817:
Também em cima, os Titãs consolidaram seus esquadrões… ruidosamente a terra estremeceu e a abóbada celeste retumbou… e diretamente do céu e do Olimpo investiu subitamente, com um raio, o Trovejador. Golpes desceram em sucessão, retumbando e lançando fogo… chamas sagradas se entrelaçaram… a terra fértil que brotava se incendiou e as grandes florestas tombaram diante da fúria do fogo… depois, os ventos sagrados também se incendiaram e até os olhos dos mais fortes foram cegados… como se a abóbada celeste descesse e se aproximasse da terra, o ruído mais alto e retumbante se manifestou… os deuses enfurecidos avançaram em direção à desordem, os ventos rodopiaram e sopraram turbulentos, espalhando poeira e destruição… Zeus então enviou seu sublime míssil… e um terrível clamor se levantou…
Essa batalha não foi travada com recursos terrestres. A epopéia indiana O Mahabharata18 descreve um episódio bastante semelhante, mas que conta com armas ainda mais terríveis. Também nela, duas raças diferentes de deuses travam uma batalha entre si:
A arma desconhecida é um relâmpago reluzente, um terrível mensageiro da morte, que transforma em cinzas todos aqueles que pertencem ao Vrishni e ao Andhaka. Os corpos consumidos pelo fogo ficaram irreconhecíveis. Os que conseguiram escapar com vida perderam o cabelo e as unhas. Potes de barro se quebraram sem motivo, os pássaros ficaram brancos.
Em pouco tempo a comida se tornou venenosa. O relâmpago tombou na Terra e se transformou em fina poeira.
E o que disse Gilgamesh, quando seu amigo Enkidu morreu com muito sofrimento depois do encontro com o monstro divino Chumbaba? “Terá sido o hálito venenoso da besta celeste que o atingiu?”
 Todas as versões de O Mahabharata disponíveis em alemão são editoradas e mutiladas. Como não sou capaz de ler sânscrito, tenho de recorrer às versões em inglês em muitos volumes. As semelhanças com Hesíodo são por demais marcantes e simplesmente não podem ser desprezadas.
Foi como se os elementos tivessem sido libertados. O sol girava em círculos e, ardendo com o calor da arma, o mundo cambaleou em chamas. Os elefantes, chamuscados pelo fogo, corriam desvairados de um lado para o outro… a água ficou quente, as bestas morreram… o ribombar das chamas fez com que as árvores caíssem uma após a outra como em um incêndio na floresta… Cavalos e carruagens romperam em chamas… milhares de carruagens foram destruídas e depois um profundo silêncio caiu sobre a Terra… um terrível espetáculo se apresentou aos olhos. Os cadáveres dos que tombaram estavam desfigurados pelo insuportável calor… nunca antes vimos arma tão terrível, nunca antes ouvimos falar em tal arma.
Este também é o lugar ideal para mencionar outra remissão recíproca a Gilgamesh:
Os céus bradejaram, a terra clamou em resposta. O relâmpago se acendeu, o fogo subiu flamejante, choveu a morte. A luminosidade desapareceu, o fogo foi extinto. Tudo que fora atingido pelo relâmpago se transformou em cinzas.
Todas essas armas de destruição em massa — quer descritas por Hesíodo, em O Mahabharata ou na Epopéia de Gilgamesh – foram usadas em épocas anteriores ao início da história escrita. Se as batalhas dos deuses tivessem ocorrido em uma “época histórica”, teríamos relatos precisos com datas. Como este claramente não é o caso, elas devem ter ocorrido nos tempos pré-históricos — ou na imaginação. Eu entendo o ponto de vista dos especialistas que fizeram comentários sobre esses antigos textos antes de 1945. Mas depois do final da Segunda Guerra Mundial, depois de Hiroshima e Nagasaki, deveríamos ter um pouco mais de sabedoria. Hoje sabemos do que os “deuses” são capazes.
Os 24.000 dísticos de O Ramayana também representam um tesouro para a revelação das atividades e habilidades tecnológicas pré-históricas dos deuses. Embora a versão escrita de O Ramayana date do século 111 ou IV a.C., seu conteúdo procede de fontes desconhecidas. O herói da história é Rama, o filho do rei, cuja esposa Sita é raptada pelo demoníaco gigante Ravana e levada para a ilha de Lanka — uma reminiscência da causa da Guerra de Tróia. Com a ajuda do rei dos macacos (e muito apoio tecnológico), Rama consegue recuperar a esposa.19
Um maravilhoso veículo que sobe no ar é detalhadamente descrito. Ele parecia uma pirâmide voadora e decolava na vertical. Ele tinha a altura de um prédio de três andares e voou de Lanka (Sri Lanka ou Ceilão) para a índia. A máquina voadora percorreu, portanto, mais de 3.200 quilômetros. Havia espaço dentro dessa pirâmide voadora para vários passageiros e ela continha algumas câmaras secretas. Quando ela subiu do chão conduzindo Rama e Sita, ouviu-se um terrível ruído. E feita uma descrição de como a máquina faz as montanhas estremecerem e trepidarem, e toma o rumo do céu ao som de trovões, mas também incendeia edificações, campos e florestas. Em 1893, décadas antes de Hiroshima, o Professor Hermann Jacobi fez o seguinte comentário:20 “Não existe nenhuma dúvida de que essa descrição se refere simplesmente a uma tempestade tropical.”
Como afirmei anteriormente, deveríamos ser um pouco mais sábios depois de Hiroshima. No entanto, os comentários que os especialistas ainda fazem a respeito desses textos antigos me fazem sentir como se estivéssemos presos na época errada. Está claro para mim que grande parte do que os historiógrafos da antiguidade registraram não teve origem na sua macabra imaginação, tendo certa vez sido realidade — mesmo que esses horríveis eventos não tenham ocorrido na ocasião em que os poetas e historiadores os descreveram. Se eles tivessem efetivamente testemunhado de perto esses acontecimentos, de qualquer modo, provavelmente não teriam sido capazes de escrever a respeito deles, pois todos estariam mortos. Os historiógrafos não eram testemunhas oculares; eles descreviam coisas que outros haviam visto, ou das quais haviam ouvido falar, de lugares distantes, e depois contavam para seus descendentes, talvez depois de visitar as regiões incendiadas e as cidades atingidas pela devastação. Ou talvez depois de sobreviventes da periferia da batalha terem narrado suas aterradoras experiências a outros que não estiveram envolvidos nos acontecimentos.
Esse tipo de informação, passada adiante à moda chinesa, por meio de sussurros, nunca pode ser exata. Esse fato é ainda mais verdadeiro se levarmos em consideração que nem as testemunhas oculares nem os historiógrafos posteriores tinham a menor idéia a respeito dos modernos sistemas de armamentos. O que mais poderiam eles fazer além de atribuir o que não entendiam a divindades sobrenaturais? Afinal de contas, aos olhos deles, esses seres eram “deuses’’ — pois o que mais poderiam ser? Existe também uma clara distinção em toda a literatura da antiguidade entre os fenômenos naturais e as armas dos deuses.
Em sua Teogonia, Hesíodo também volta a atenção para os Ciclopes.
Imaginava-se que sua estatura fosse semelhante à dos deuses, mas eles só tinham um olho no meio da testa, o que lhes conferiu o nome de “olho redondo”: “O único olho deles era redondo como um círculo e era encravado no meio da face.”21
Poderíamos pensar que os Ciclopes devem ter realmente sido produto da imaginação, visto que nunca houve criaturas com um só olho, mas não estou tão certo disso. Desde o século XVII, existem casos documentados de abortos fortuitos de fetos com um único olho. Além disso, a genética moderna verificou que um único gene é responsável pelos nossos dois olhos. No primeiro estágio fetal dos vertebrados, classe a que pertencemos, desenvolve-se inicialmente uma espécie de faixa de células sensíveis à luz. Se a função do gene “Pax-6” não fosse ativada, essa conglomeração sensível à luz deixaria de se dividir em duas áreas separadas e todos seríamos ciclopes. Só Deus sabe que tipo de experiências genéticas os deuses imaginaram — e de onde os historiógrafos tiraram a idéia dos ciclopes.
 O grego Hesíodo também menciona carros voadores em várias passagens, como em Fragmento 30, no qual Zeus desce do firmamento acompanhado por relâmpagos e trovões. Diz- se também que o antigo governante da Lídia tinha acesso a uma impressionante tecnologia. Ele se chamava Gyges e era originalmente um pastor. Heródoto escreve que Gyges viera, ainda jovem, para o palácio de Candaules e se tornara amigo do governante. Certo dia, Candaules insistiu com Gyges para que se escondesse no seu quarto de dormir para admirar a beleza da sua esposa quando ela se despisse. Gyges fez o que foi pedido, mas a esposa do governante notou o voyeur e no dia seguinte exigiu que ele matasse seu marido, caso contrário ela revelaria a todo mundo o ocorrido, e Gyges perderia a vida. Se ele matasse Candaules, ela o tornaria rei da Lídia — e foi isso que aconteceu. Dizem que Gyges possuía uma máquina que o tornava invisível. Platão escreve a respeito disso em seu diálogo O Estado. Certo dia, quando Gyges ainda era pastor, ocorreram uma grande tempestade e um terremoto, e a terra se abriu. Assombrado, o jovem Gyges espiou dentro do grande buraco que se abrira no chão diante dele. Ele entrou em depressão e:22
…viu, além de outras coisas maravilhosas, um cavalo de ferro oco com janelas. Gyges olhou para dentro e viu um cadáver, aparentemente maior que o de um ser humano. Ele nada vestia além de um anel de ouro em uma das mãos. Gyges então tirou o anel do dedo do cadáver e saiu do buraco…
O anel podia se mover, e Gyges o girou. Ao se encontrar de novo com seus companheiros pastores, ele de repente percebeu que eles não o viam. Dependendo da maneira como ele girava o anel, ele ficava visível ou invisível, mas mesmo quando invisível, ele conseguia ouvir e ver tudo o que se passava ao seu redor. Esse incrível anel deve ter feito com que ele se sentisse extremamente tentado a inspecionar os aposentos da sua rainha. Mas ele deve ter feito algo errado, do contrário ela não o teria notado. E alguém que podia ficar invisível ao seu bel-prazer não deve ter tido muita dificuldade em se tornar o governante da Lídia.
O conto de Gyges é a mais velha história conhecida sobre um voyeur. Ele pode ser pura fantasia, pois quem não gostaria ocasionalmente de poder se tornar invisível? Mas por que toda aquela descrição de uma cavidade subterrânea que continha o esqueleto de um gigante e um cavalo de metal com janelas? De certo modo, essa história lembra a de Aladim, que precisava apenas esfregar sua lâmpada maravilhosa a fim de obter tudo que quisesse.
Os contos de fadas são assim denominados porque coisas fictícias acontecem neles. Os relatos de armas aterradoras utilizadas nos tempos pré-históricos não se parecem nem um pouco com eles. Em primeiro lugar, porque eles descrevem uma tecnologia que somente agora reconhecemos; em segundo lugar, porque contos de fadas não teriam sido gravados em tabuinhas de argila milênios atrás, por razões que já apresentei; e terceiro, porque as armas dos deuses não aparecem nas narrações de um único povo ou nação.
Existe ainda outro motivo pelo qual a essência da história Argonáutica não tem sua origem na Grécia: as constelações.
A leste da constelação do Cão Maior — fácil de achar no céu noturno porque a brilhante estrela Sirius pertence a ela — também encontramos o aglomerado de Argo, ou “nave celeste”, que é relativamente difícil de ser percebido, porque se situa muito baixo ao sul, e na primavera volta a desaparecer à noite. Dizem que o Argo foi colocado no firmamento pela deusa Atena, que também tornou o navio insubmergível e equipado com o vau falante. Mas essa constelação já era conhecida como “nave celeste” pelos antigos babilónios.2* O mesmo é verdadeiro com relação a Áries. Os gregos derivaram a constelação de Áries do Velocino de Ouro. Eles acreditavam que Frixo e sua irmã Hele haviam certa vez voado da Europa para a Ásia no Velocino de Ouro. Hele caiu do Velocino e mergulhou no mar, e é por isso que o canal ali existente é chamado de Helesponto. O carneiro (Áries), contudo, havia se libertado da sua pele de ouro e voara para o firmamento, onde se tornou uma constelação. No entanto, de forma análoga, há muito Áries já era conhecida dos babilônios.
Segundo a lenda, Pégaso, o cavalo grego alado, carregou nas costas a demoníaca Quimera, que tinha cabeças de leão, cabra e dragão. No entanto, essa constelação também já existia milênios antes de Apolônio. O mesmo é verdadeiro com relação à constelação de Touro e ao aglomerado das Plêiades. É fácil demonstrar que os poetas gregos derivaram suas constelações de povos mais antigos e apenas posteriormente revestiram-nas com seus próprios heróis. Podemos ter certeza disso simplesmente porque algumas coisas que os gregos adotaram não eram mais aplicáveis nem mesmo na época deles. Por exemplo, em seu livro Works and Days, Hesíodo avisou que nos quarenta dias nos quais as Plêiades não são visíveis as viagens de navio deviam ser evitadas. Ele diz que o período no qual elas desaparecem é sempre marcado na região do Mediterrâneo por violentas tempestades no mar (as chamadas tempestades de equinócio). No entanto, de um ponto de vista astronômico, essa afirmação já não era mais correta na época de Hesíodo. Na verdade, ela “fora aplicável de 4.000 a 2000 a.C., em uma época na qual o pôr helíaco das Plêiades caía aproximadamente nas semanas que se seguiam ao equinócio da primavera’’.24 Assim sendo, Hesíodo tinha necessariamente de estar recorrendo a fontes mais antigas. Os heróis da Argonáutica navegam o Rio Erídano, que os especialistas modernos tentam situar no norte da Itália. Mas os textos gregos continuamente relacionam esse Erídano com as constelações de Aquário e de Órion. Os astrônomos da antiga Babilônia o viam da mesma maneira, o que é demonstrado por uma tabela astronômica descoberta na biblioteca de tabuinhas de argila de Assurbanipal. E de onde vem o dragão, que também era admirado no firmamento muitas eras antes de os poetas gregos entrarem em cena? Ele aparece nas tabuinhas sume- rianas. Dizem que um ou outro deus mostrou as constelações a um sacerdote e até mesmo as desenhou em uma tabuinha. Entre elas estava o dragão celeste de muitas cabeças. Isso me faz lembrar de imediato as chamadas “jornadas celestes” empreendidas pelo profeta antediluviano Enoque. Neste caso, também foi um “anjo” que fez para ele o mapa do firmamento:25
Vi as estrelas do céu e vi como ele chamava todas pelo nome. Vi como elas eram avaliadas em uma escala precisa de acordo com a força da sua luz, devido à sua amplitude e ao dia em que aparecem.
O mundo das lendas gregas estava sempre relacionado com as estrelas fixas, mas as constelações estelares, aliadas às histórias e idéias enigmáticas a elas associadas, já existiam milênios antes disso. Dizia-se que Prometeu ensinara a humanidade a observar o nascer e o pôr das estrelas. Ele também ensinou aos homens a escrita e diversos ramos do conhecimento e da ciência. Já descrevi a criatura marítima Oannes, que fez exatamente a mesma coisa. Diodoro da Sicília narra algo bastante semelhante em seu primeiro livro, ou seja, que os primeiros seres humanos aprenderam sua linguagem, a escrita e seu conhecimento com os deuses.26 Encontramos exatamente a mesma coisa entre os antigos egípcios,27 japoneses,28 tibetanos,29 maias, incas… Apenas a nossa cultura não se interessa por essas antigas tradições e relatos. É claro que estamos acima dessas bobagens!
Não existe a menor dúvida de que os poetas e historiadores gregos tomavam como base antigas histórias e narravam as versões que criavam a partir delas na sua terra para “torná- las suas”, revestindo-as com deuses e paisagens gregas. Mas a essência dessas histórias, seja em a Argonáutica, seja nos relatos feitos por Hesíodo da batalha entre deuses e Titãs, não se reporta de modo algum à Grécia. Não obstante, acredito que os descendentes dos deuses efetivamente deixaram seus vestígios na região geográfica da Grécia antiga. Vamos ver agora que vestígios poderiam ser esses.

(Däniken, Erich von - A odisséia dos deuses: a história alienígena da Grécia Antiga)


NOTAS
Daniken, Erich von, Der Götter-Schock, Munique, 1992.
Daniken, Erich von. The Return of the Gods, Element Books, 1997.
Curtius, Ernst, Griechische Geschichte. Dem Prinzen Friedrich Wilhelm von l’reussen gewidmet, Berlim, 1857.
Feix, Josef (ed.), Herodot — Historien, Vol. II, Munique, 1988.
Rostovzeff, Michael, Geschichte der Alten Welt, Wiesbaden, 1941.
Bengtson, Hermann, Griechsiche Geschichte von den Anfängen bis in die römische Kaiserzeit, Munique, 1950.
Return of the Gods, páginas 79-82.
Platão, The Dialogues (a tradução desta passagem foi feita do alemão por M. Barton).
Platão, Politics.
Ibid.
West, L. M., Hesiod’s Theogony, Oxford, 1966.
Voss, Heinrich, Hesiod’s Werke und Orpheus der Argonaut, Viena, 1817.
Ibid.
Schirnding, Albert von, Hesiod — Theogonie, Werke und Tage, Munique e Zurique, 1991.
Ver nota 12.
Marg, Walter, Hesiod — Sämtliche Werke/ Theogonie, Erga Frauenkataloge, Zurique e Stuttgart, 1970.
Ver nota 12.
Roy Potrap, Chandra, Tlie Mahabharata, Drona Parva, Calcutá, 1888.
Dutt, Nathan M., The Ramayana, Calcutá, 1891.
Jacobi, Hermann, Das Ramayana, Bonn, 1893.
Ver nota 14.
Platão, The State (a tradução desta passagem foi feita do alemão por M. Barton). Jeremias, Alfred, Handbuch der Altorientalischen Geisteskultur. Astronomie und Astrosophie, Berlim e Leipzig, 1929.
Ibid.
The Book of Enoch (traduzido por M. Barton).
Wahrmund, Adolf, Diodor von Sizilien, Geschichts Bibliothek, Livro 1, Stuttgart, 1866.
Daniken, Erich von, Die Augen der Sphingx, Munique, 1991.
Florenz, Karl, Japanische Mythologie, Tóquio, 1901.
Feer, Léon, Annales du Musée Guirnet, extraits ilu Kandjour, Paris, 1883.

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