Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Filósofo alemão, pai da fenomenologia, que desenvolveu um método filosófico para descobrir essências por meio da redução eidética.
 
Pode-se dizer que toda a vida filosófica de Husserl, da Filosofia da Aritmética (1891) as conferências sobre a Crise das ciências europeias (1935), é dominada pelo sentimento de uma crise da cultura. É, portanto, possível afirmar com Merleau-Ponty que a fenomenologia nasceu de uma crise e sem dúvida também que essa crise é ainda a nossa. "A fenomenologia se apresentou desde o seu início como uma tentativa para resolver um problema que não é o de uma seita: ele se colocava desde 1900 a todo o mundo, ele se coloca ainda hoje. O esforço filosófico de Husserl é, com efeito, destinado em seu espirito a resolver simultaneamente uma crise da filosofia, uma crise das ciências do homem e uma crise das ciências pura e simplesmente, da qual ainda não saímos".
(ANDRÉ DARTIGUES - O QUE É A FENOMENOLOGIA?)
 
Husserl foi um pensador de alta qualidade. Ele advoga a tese de que o observador deveria se colocar diante do fenômeno de estudo de maneira pura, ingênua. Portanto, não deveria utilizar uma teoria como suporte da interpretação, pois sua utilização contaminaria o processo de interpretação, reduzindo o fenômeno a elemento da teoria, circunscrevendo-o apenas dentro das possibilidades da teoria, contraindo seu caráter original.
(Dr. Augusto Jorge Cury - Inteligência Multifocal)
 
Vivemos numa sociedade saturada de informações, mas que carece da formação de pensadores. No passado, quando a informação era escassa e sua veiculação reduzida, surgiram grandes pensadores nas ciências. Na Filosofia, houve grandes pensadores que produziram teorias complexas, originais e inteligentes, tais como Sócrates, Platão, Aristóteles, Agostinho, Hume, Bacon, Bruno, Descartes, Spinoza, Kant, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Locke, Hegel, Comte, Marx, Nietzsche, Kierkegaard, Husserl e tantos outros. 
Atualmente, com a multiplicação do conhecimento, 
a expansão quantitativa das universidades e o acesso facilitado
às informações, deveríamos ter multiplicado a cadeia de pensadores nas ciências, mas provavelmente não é isso que tem acontecido. Há, sem dúvida, ilustres pensadores na atualidade; porém, creio que muitos deles concordam que a grande maioria dos que cursam uma universidade e fazem uma pós-graduação, se tornam espectadores passivos do conhecimento, retransmissores do conhecimento, e não pensadores capazes de criticar e expandir o conhecimento que incorporam ou produzir novas teorias.
(Dr. Augusto Jorge Cury - Inteligência Multifocal)
 
Toda consciência, diz Husserl, é sempre “consciência de ” ou consciência de alguma
coisa, isto é, toda consciência é um ato pelo qual visamos um objeto, um fato,
uma idéia. A consciência representa os objetos, os fatos, as pessoas. Cada
representação pode ser obtida por um passeio ou um percurso que nossa
consciência faz à volta de um objeto. Essas várias representações são
psicológicas e individuais, e o objeto delas, o representado, também é individual
ou singular.
Por exemplo, diz Husserl, quando quero pensar em alguém, como Napoleão,
posso representá-lo ganhando a batalha de Waterloo, prisioneiro na ilha de Elba e
na ilha de Santa Helena, montado em seu cavalo branco, usando o chapéu de três
pontas e com a mão direita enfiada na túnica.
Cada uma dessas representações é singular: por um lado, cada uma delas é um
ato psicológico singular que eu realizo (um ato de lembrar, um ato de ver a
imagem de Napoleão num quadro, um ato de ler sobre ele num livro, etc.) e, por
outro, cada uma delas possui um representante singular (Napoleão a cavalo,
Napoleão na batalha de Waterloo, Napoleão fugindo de Elba, etc.). No entanto,
embora sejam singulares e distintas umas das outras, todas possuem o mesmo
representado, o mesmo significado, a mesma significação ou a mesma essência:
Napoleão.
(Marilena Chaui - Convite à Filosofia)

O filósofo Husserl
criou uma filosofia chamada fenomenologia. Essa palavra vem diretamente da
filosofia kantiana. Com efeito, Kant usa duas palavras gregas para referir-se à
realidade: a palavra noumenon, que significa a realidade em si, racional em si,
inteligível em si; e a palavra phainomenon (fenômeno), que significa a realidade
tal como se mostra ou se manifesta para nossa razão ou para nossa consciência.
Kant afirma que só podemos conhecer o fenômeno (o que se apresenta para a
consciência, de acordo com a estrutura a priori da própria consciência) e que não
podemos conhecer o noumenon (a coisa em si). Fenomenologia significa:
conhecimento daquilo que se manifesta para nossa consciência, daquilo que está
presente para a consciência ou para a razão, daquilo que é organizado e explicado
a partir da própria estrutura da consciência. A verdade se refere aos fenômenos e
os fenômenos são o que a consciência conhece.
Ora, pergunta Husserl, o que é o fenômeno? O que é que se manifesta para a
consciência? A própria consciência. Conhecer os fenômenos e conhecer a
estrutura e o funcionamento necessário da consciência são uma só e mesma
coisa, pois é a própria consciência que constitui os fenômenos.

(Marilena Chaui - Convite à Filosofia)

 
 
Afenomenologia constituiu a tendência dominante na filosofia continental do século XX e, ainda hoje, continua influenciando os pensadores dessa linha. Por conta de seu papel em sua formulação, Edmund Husserl é o filósofo mais influente desde Immanuel Kant. Sem Husserl, não haveria Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty ou uma centena de outros pensadores, incluindo Hans-Georg Gadamer e Jacques Derrida; não haveria existencialismo, hermenêutica ou pós-estruturalismo.
Husserl tem o privilégio singular de enumerar entre seus discípulos uma santa. Edith Stein (1891-1942), uma fenomenóloga que foi assistente de Husserl, se converteu do judaísmo para o catolicismo romano, tornou-se freira e foi morta em Auschwitz. Ela foi canonizada em 1998 pelo papa João Paulo II, que, ainda com o seu nome de batismo, Karol Józef Wojtyła (1920-2005), havia estudado Husserl na universidade e publicado A pessoa de ação: uma contribuição para a antropologia fenomenológica (1969). Dois dos alunos celebrados de Husserl – Martin Heidegger e Hannah Arendt – tornaram-se o mais conhecido par de amantes secretos na história da filosofia desde Abelardo e Heloísa: Heidegger tornou-se um nazista, e Arendt, que era judia, fugiu da Alemanha para salvar sua vida.

Da matemática à fenomenologia
O momento mais significativo para a filosofia ocidental pós-Kant aconteceu quando Gottlob Frege (1848-1925) e Husserl tomaram caminhos distintos no estudo da aritmética. A busca de Frege por uma fundamentação analítica a priori da aritmética baseada na lógica conduziu ao desenvolvimento da filosofia analítica, a tendência dominante nas universidades anglófonas. Por outro lado, o livro de Husserl A filosofia da aritmética (1891) foi criticado por Frege por seu psicologismo (Frege se opunha ao uso que Husserl fazia da psicologia descritiva em conjunto com uma análise lógica, em seu esforço de entender o conceito do número). Leituras modernas, no entanto, sugerem que a divergência de opinião entre Frege e Husserl não era tão grande. Estudiosos modernos apontam para uma explícita afirmação de Husserl em A filosofia da aritmética: “Nossa atividade mental não constrói relações; elas simplesmente estão lá, e quando se dirige interesse a elas, elas são notadas exatamente como qualquer outro conteúdo. Atos autenticamente criativos capazes de produzir qualquer conteúdo novo... são absurdos do ponto de vista psicológico... o ato não pode de maneira alguma criar seu conteúdo.”
A formação de Husserl como matemático foi essencial para o desenvolvimento de sua filosofia madura e para nossa compreensão dela. Seu afastamento do estudo da matemática constituiu uma abertura da pesquisa lógica para um novo mundo de experiências, desde as emoções humanas até a total vida do mundo (Lebenswelt). Ao formular seu método fenomenológico, Husserl buscou criar uma fundamentação para a filosofia como ciência rigorosa. A tradição analítica que descende de Frege, incluindo Russell e Wittgenstein, tentou reduzir a filosofia a um punhado de preocupações lógicas que, com efeito, acabou com a filosofia aplicada ao mundo das preocupações humanas. Husserl tomou a direção oposta, utilizando sua metodologia radical para investigar o mundo em que vivemos, assim como todos os fenômenos que ele contém (incluindo nós mesmos e nossos atos mentais). O título das suas Investigações lógicas (2 vols, 1900, 1901) indica o propósito desse projeto.
A mente de Husserl teve sempre uma inclinação científica. Seus primeiros estudos em Leipzig foram em astronomia e ótica, e depois, em Berlim, ele estudou matemática com Leo Königsberger (1837-1921) e Karl Weierstrass (1815-97). Após o doutorado em matemática, estudou filosofia com Franz Brentano. Brentano e Husserl foram atraídos para o pensamento cristão em direções diferentes. Brentano tornou-se padre jesuíta, mas deixou a Igreja por conta da questão da infalibilidade papal. Husserl era um judeu que se converteu ao luteranismo. Brentano havia reintroduzido a ideia de intencionalidade, de São Tomás de Aquino (1225-74), como um conceito filosófico central, e Husserl o desenvolveria como a pedra angular do método fenomenológico. A visão de Husserl da intencionalidade descreve a relação entre consciência e seus objetos, e pode ser formulada assim: consciência é sempre consciência de alguma coisa.
Husserl é o iniciador eterno por excelência. Ele não tentou desenvolver um sistema de pensamento. Concentrou-se, em vez disso, no método. A fenomenologia fornece uma maneira de fazer perguntas e abrir o caminho para investigações filosóficas a respeito de qualquer sujeito (ou objeto) concebível. As primeiras pesquisas de Husserl estavam interessadas nos atos de percepção e na própria consciência. No outro extremo da escala, sua aluna Hannah Arendt usou o método fenomenológico em suas grandes análises históricas e políticas As origens do totalitarismo (1951) e A condição humana (1958). Entre esses dois polos de diferentes tipos de projeto fenomenológico, está Ser e tempo, de Martin Heidegger, que estuda a ontologia em seu aspecto temporal.

Redução fenomenológica
O lema de Husserl era Voltar às coisas mesmas! Por “coisas”, ele não se referia somente a objetos como mesas e cadeiras, mas também às relações, categorias, ideias, o conteúdo dos nossos pensamentos. Sua fenomenologia está preocupada em pensar sobre o pensamento por meio da redução fenomenológica. René Descartes (1596-1650) é frequentemente considerado o pai da filosofia moderna. Se assim for, então Husserl pode ser visto como o filho que sucedeu a Descartes e se tornou o pai da filosofia pós-moderna. Husserl levou o cogito ergo sum (Penso, logo existo) de Descartes vários passos adiante em sua investigação sobre pensar a respeito do pensamento (ou experiência) com sua redução fenomenológica.
O método de Descartes de dúvida radical consistia em suspender a fé em Deus e no mundo material para depois reintegrá-los ao conhecimento após estabelecer a si mesmo como alguém que raciocina. Justo no ponto em que Descartes inicia seu restabelecimento de Deus e do mundo material, Husserl faz uma pausa e introduz uma nova etapa no processo de redução. No lugar da suspensão da crença de Descartes, Husserl nos pede para “suspender” os objetos estudados. Esta suspensão é um processo que Husserl chamou de epoché, um termo utilizado pelo epicurista Metrodoro de Lâmpsaco, o Jovem (331-278 a.C.) e depois desenvolvido por Arcesilau (315-240 a.C.), que era o sexto chefe da academia de Platão (428/7-348/7 a.C.) e a força por trás do ceticismo acadêmico. Por epoché, Husserl se refere à suspensão de todos os preconceitos a respeito do objeto de estudo. Isto é chamado de redução eidética, o método pelo qual a essência das coisas pode ser estudada (o termo vem da palavra grega eidos, que significa “essência” ou “forma”). Husserl foi ainda mais longe e fez do próprio cogito um objeto de reflexão; isto, ele chamou de redução fenomenológica transcendental.

Husserl e Kant
O desenvolvimento empreendido por Husserl do conceito kantiano de ego transcendental perturbou alguns de seus primeiros seguidores, como Edith Stein, Max Scheler (1874-1928) e o filósofo e teórico literário polonês Roman Ingarden (1893-1970). O que havia levado esses alunos e muitos outros a estudar com Husserl em seus primeiros anos como professor, em Göttingen, havia sido o fato de que ele fornecia uma alternativa para o idealismo kantiano e neokantiano que havia guiado grande parte da filosofia alemã no século anterior. A fenomenologia inicial de Husserl, segundo apresentada em Investigações lógicas, focava o objeto, e não o sujeito (Volta às coisas mesmas!). Ela substituía o idealismo de Kant por um interesse renovado pela escolástica, primeiramente revivida por Brentano e depois desenvolvida por Husserl. Em 1916, Husserl se mudou para Freiburg, onde seu foco principal tornou-se o ego transcendental.
No último dos seus trabalhos publicados em vida, A crise das ciências europeias (1936), Husserl foi cuidadoso em afastar sua fenomenologia do idealismo kantiano. Ele escreveu: “Nossas reflexões críticas sobre Kant já nos tornou claro o perigo de conclusões impressionantes mas ainda obscuras ou, se se quiser, a iluminação de conclusões puras na forma de vagas antecipações... e isso também tornou compreensível o modo como ele foi forçado em direção a uma construção conceitual mítica e a uma metafísica perigosamente hostil a toda ciência autêntica.” N’A crise, Husserl ainda criticou a filosofia pelo que ele considerava sua forma cada vez mais estreita, empírica, analítica e naturalista. Husserl defendia que era uma tarefa essencial da filosofia reconhecer e estudar as realidades mentais e espirituais que existem independentemente do mundo físico. Para ele, o estudo dessas realidades por meio da fenomenologia era uma empreitada verdadeiramente científica que daria origem a “uma transformação total da tarefa do conhecimento”.

Husserl e os nazistas
Husserl se aposentou do cargo de professor de filosofia em Freiburg em 1928 e foi sucedido por seu aluno Martin Heidegger. Em 1933, Heidegger aderiu ao partido nazista e foi nomeado reitor da Universidade de Freiburg. Heidegger referendou um decreto de 1933 banindo não arianos do serviço público. Husserl foi isento disso por conta da cláusula que reconhecia o serviço militar prestado por seus dois filhos na Primeira Guerra Mundial. No entanto, após as Leis de Nuremberg de 1935, Husserl foi privado de sua cidadania alemã e banido do ensino. Seus filhos emigraram para os Estados Unidos, mas ele recusou a oferta de um cargo na Universidade da Carolina do Sul. Husserl morreu na Alemanha em 1938. Sua filosofia do espírito e seu próprio sentido de espiritualidade forneceram um foco moral raro na Alemanha nazista, mas é sensato imaginar que se Husserl tivesse vivido até 1942, ele teria sido enviado a um campo de concentração nazista.
Husserl foi um dos grandes metodologistas do pensamento ocidental. Ele forneceu os fundamentos para inúmeras e importantes pesquisas filosóficas, e toda a tradição da filosofia continental estará para sempre em dívida com ele.
Nós mesmos seremos dirigidos a uma transformação interna pela qual ficaremos frente a frente – em experiência direta com – a dimensão há muito sentida mas constantemente ocultada do “transcendental”. A base da experiência, revelada em sua infinidade, tornar-se-á então o solo fértil de uma filosofia de trabalho metódico, com a autoevidência, além disso, de que todos os concebíveis problemas filosóficos e científicos do passado estarão destinados a serem apresentados e resolvidos a partir dessa base. (Edmund Husserl, A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental, 1936)
 (Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:58



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D