Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




E o Verbo se fez carne

por Thynus, em 08.11.16

 E o Verbo se fez carne e habitou entre nós

(Jo. 1, 14)

 

É essencial, ter uma ideia mais ou menos exata da argumentação com a qual o cristianismo vai romper radicalmente com a filosofia estóica. Para tanto, é preciso antes que você saiba, do contrário não compreenderá nada, que na versão francesa dos Evangelhos que contam a vida de Jesus, o termo LOGOS, diretamente tomado aos estóicos, é traduzido pela palavra “Verbo”. Para os pensadores gregos em geral, e para os estóicos em particular, a ideia de que o logos, o “Verbo”, possa designar outra coisa além da organização racional, bela e boa do conjunto do universo não tem rigorosamente nenhum sentido. Para eles, supor que um homem, qualquer um, mesmo o Cristo, seja o logos, o “Verbo encarnado” segundo a fórmula do Evangelho, é puro delírio: é atribuir o caráter de divindade a um simples humano, enquanto o divino, você se lembra, só pode ser algo de grandioso, já que se confunde com a ordem cósmica universal, mas em hipótese alguma com uma pessoa, com uma pequena pessoa particular, quaisquer que sejam seus méritos.
(Luc Ferry - Aprender a Viver)
.
Ele veio para o que era seu
 
O que é a verdade? “É o Logos”, responderia Heráclito.
Antes de explicar o que é o Logos, também chamado Verbo, convém contar quem foi Heráclito. Nascido na cidade grega de Éfeso, por volta de 535 a.C., nos primórdios da filosofia, quase nada se sabe sobre ele. Sua biografia é baseada nos fragmentos sobreviventes de seus textos, uma criação ficcional coerente com seu conhecido modo de pensar.
Heráclito era misantropo, ou seja, não gostava de conviver com gente; aliás, não gostava de quase nada que gente geralmente gosta. Foi assim o primeiro filósofo típico, pois nada mais típico num filósofo do que deplorar os hábitos, inclinações e gostos da maioria, do que descrer no homem, pelo menos no homem comum. Os efésios correspondiam ao sentimento daquele sábio esquisito: detestavam-no, apesar de admirarem sua inteligência. Não o compreendiam, como pouco o compreenderão as gerações subsequentes até nós. Heráclito era obscuro em seu pensamento.
Costuma-se opor Heráclito a um contemporâneo seu, Parmênides, o pai da epistemologia (teoria do conhecimento). O efésio teria defendido o devir (vir a ser) como um fluxo contínuo e única realidade, pois tudo é movimento, enquanto seu colega Parmênides veria no ser, em oposição ao não ser, a verdade possível. Confuso, não? Era essa mesma a intenção, mas na verdade os dois filósofos são complementares, não opostos, e as questões colocadas por eles permanecem em debate entre os pensadores de nosso tempo, tendo muito influenciado a filosofia ocidental. Heráclito, ao explicar o Cosmos, chegou ao Logos, uma instância reunidora, constante, abrigando o conflito, a convergência e a divergência.
O Logos, para Heráclito, só é acessível ao homem realmente investigador, não ao comum mortal, que dorme mesmo quando está acordado, simplesmente vive. “Viver, simplesmente viver, meu cachorro faz isso muito bem”, dizia o também filósofo e poeta brasileiro Alberto da Cunha Melo, decidido a pensar, não apenas passar pelo fluxo contínuo da vida.
Para Parmênides, a vida só tem graça se for possível se admirar com o conhecimento antes velado, agora revelado ao filósofo. É a busca da revelação. Como também era poeta, ele vê as moças, filhas do Sol, guiando o carro até a morada da deusa reveladora da verdade. No único caminho, os véus vão saindo da frente de seus rostos, revelando o Ser, pois só há ser, o não ser não é, o não ser não há. Se fosse, ele seria. O não ser é, portanto, uma ilusão, em oposição à verdade do Ser. E qual é essa verdade? Bem, Parmênides é que acompanhou as moças até a deusa, não eu, portanto não sei, ou melhor, dependeria de uma Revelação.
Estou simplificando muito o pensamento de Parmênides e Heráclito. Para os fins deste livro, porém, basta saber que a oposição entre o “vir a ser” do segundo e o “ser” do primeiro é apenas aparente. A possibilidade de conciliar as duas posições ficará clara quando o Verbo (Logos) se fizer carne uns quinhentos anos depois: Jesus, o Ser que anuncia o vir a ser.
Até ir parar no Evangelho, pelas mãos de João, como definição da Revelação, Jesus Cristo, o Logos terá percorrido um caminho promissor, sendo aperfeiçoado por Platão e pela seita filosófica estoica, que o define como o Verbo do Uno, o pensamento de Deus, pois Deus pensa, não passa a vida dormindo. Por isso, Jesus anuncia: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (João, 14:6)
O centro da pregação de Jesus é o caminho para o Reino dos Céus, o que, na definição de Heráclito, “transmutando-se, repousa”. Na vida eterna, decerto. O vir a ser anunciado por Jesus corresponde à Salvação, à qual muitos serão chamados, poucos os escolhidos, porque não compreendem o Verbo de Deus, como se pode constatar na parábola do semeador.
Como Heráclito, Jesus utiliza metáforas e outros artifícios retóricos e literários para revelar a verdade, a essência do Ser, do Pai que tudo governa. Não um Criador, pois Ele, Jesus, não o nomina assim, embora possa estar subentendido ao não negar valor de revelação às Escrituras judaicas, que, tal como os mitos de criação religiosos gregos, delimitam um ato divino de criação do mundo. Para Heráclito, não há Criador, tudo sempre existiu, está em transformação e sempre existirá. As pouco esclarecedoras referências ao Gênesis judaico por Jesus combinadas com o título de Verbo encarnado e a farta utilização de parábolas com linguagem obscura à compreensão imediata irão logo provocar confusão, a primeira delas de grande importância atendendo pelo nome de Marcião.
Antes de falar de Marcião, convém traçar outro paralelo entre Heráclito e Jesus. Assim como os efésios não gostavam de seu filósofo, mal sabendo eles que um dia ele seria muito famoso, também os povos de Israel (judeus e galileus, basicamente, no século I) não deram muita atenção a Jesus, não podendo adivinhar a fama futura do Nazareno. Não, não foram eles que o mataram, fique claro. A crucificação é obra exclusiva de Pilatos, o governador da Judeia (Herodes Antipas governava a Galileia), e de Caifás, sumo sacerdote e uma espécie de prefeito de Jerusalém. A menção no Evangelho a uma claque popular apoiando a condenação de Jesus confirma a impopularidade do Nazareno entre os judeus, mas esse apoio não implica responsabilidade objetiva, restrita àquelas duas autoridades.
Igualmente convém esclarecer que não entrarei na polêmica sobre a existência ou não do Jesus histórico. Nunca se saberá ao certo, mas a maioria dos historiadores tem sua historicidade como provável. Ainda se assim não fosse, quando há ideologia ou religião envolvidas, cada um se convence do que quer ser convencido, não mudaria nada. Terreno a ser evitado ainda é a história do cristianismo no século I. O livro Atos dos Apóstolos e as cartas de São Paulo convencem muito menos que o Evangelho como documentos históricos, apresentando problemas quanto à confiabilidade dos relatos. De mais a mais, meu compromisso com você, leitor, é tratar o Evangelho segundo a filosofia, não o Novo Testamento todo, muito menos a Bíblia completa, embora haja necessidade de me referir a ela aqui ou ali.
A menção do historiador Públio Cornélio Tácito a uma perseguição de Nero aos cristãos no ano 64 de minha parte merece pouco crédito. Assim como se demonstrou ser forjada a menção do historiador judaico Flávio Josefo a Jesus, parece-me que se quer forçar a história para provar uma sucessão apostólica ininterrupta do bispado de Roma (papado) a partir da designação de Jesus a São Pedro como líder de uma igreja nascente cristã. Tácito teve a intenção de colar em Nero todos os defeitos imagináveis. Criou uma lenda do mal, muito mais lenda do que verdade, pois Nero não colocou fogo em Roma nem deu mostras maiores de crueldade ou demência em relação a outros imperadores. Governou com cálculo político e foi bastante popular. De resto, é improvável que o cristianismo já estivesse difundido na capital do império durante seu governo.
Acredite quem quiser, portanto, na legenda de Nero perseguidor de cristãos, não me importa se aconteceu ou não, pois nada mudaria no texto do Evangelho, composto entre os anos 60 e 110, segundo a maior parte dos historiadores, nem na história do cristianismo, que só adquire relevância para o Ocidente em meados do século II. Se Jesus Cristo é um fenômeno do século I, o cristianismo começa para valer no século II. Antes fora uma tentativa tênue e malsucedida de convencer os adeptos da religião judaica de que Jesus era o messias previsto nas Escrituras do povo de Israel.
A rigor, a ortodoxia cristã — fundada numa igreja apostólica, ou seja, representante direta por sucessão do comando delegado pelo próprio Jesus — e católica (universal) só será estabelecida no primeiro concílio, em Niceia, em 325, assembleia reunida sob os olhos e ouvidos do mais ilustre cristão de seu tempo: o imperador do império unificado do Ocidente e do Oriente, Constantino. Estavam presentes pelo menos três centenas de bispos, representantes de igrejas da Hispânia à Síria.
Niceia definiu, por ampla maioria, que Jesus era o Logos de Deus, sendo também a segunda pessoa da Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo). Sobre a Trindade, conto um diálogo rápido, ocorrido enquanto eu pesquisava para este livro e me encontrei com um amigo presbiteriano, Marcos, estudioso de dogmas cristãos de longa data, num restaurante:
— Finalmente, entendi a Trindade — disse eu.
— Quem foi que lhe explicou? — perguntou ele.
— C. S. Lewis — respondi.
— Então ele mentiu, pois até hoje não encontrei ninguém que entendesse a Trindade. A Trindade foi uma fórmula para combater heresias, desnecessária para a fé cristã em si. Que Jesus fosse Deus, está no Evangelho. Que o Espírito Santo fosse espírito de Deus, ou seja, uma manifestação de Deus, também está no Evangelho. Que Deus é Deus...
— Sim, mas que Deus? O de Abraão ou o dos estoicos? — interrompi.
Tal qual Pascal, ele respondeu, altivo: “O de Abraão, é claro.” Claro para ele, pois para um próspero comerciante e bom filósofo e líder religioso da cidade de Sinop, então um movimentado porto da costa do Mar Negro, não estava nada claro quem era o Deus mencionado por Jesus no Evangelho e por São Paulo em suas cartas. O nome do comerciante filósofo era Marcião. Seu pai teria sido bispo de uma comunidade cristã etnicamente grega.
Marcião era rico, poderoso e influente na Igreja de Roma, para onde viajara a fim de se reunir com o bispo local (papa) e outras autoridades eclesiásticas entre 142 e 144. Até aquela data, o cristianismo não tinha um cânone. Conta-se que o Evangelho era lido nas assembleias das cidades gregas, mas nenhuma cópia dessa época sobreviveu para comprovar tal alegação. A propósito, a contagem mais recente de evangelhos (2002), feita por Charles W. Hedrick, dá conta de um total de 34 evangelhos antes de Niceia, sendo oito completos: dos quais quatro seriam descartados como apócrifos, sete fragmentários, quatro supostamente completos, mas conhecidos apenas por menções em fontes antigas, dois hipotéticos (fontes-base para a escrita dos Evangelhos) e treze apenas mencionados vagamente na Antiguidade. Desses, é certo que Marcião leu o de Lucas.
Da leitura do Evangelho e de algumas cartas atribuídas a São Paulo, Marcião concluiu algo mais ou menos óbvio: “mal” e “mundo” são sinônimos na pregação de Jesus Cristo. Como Jesus representa o Deus do bem, e o Deus de Abraão é antropomórfico demais, ou seja, apresenta defeitos e qualidades, à imagem e semelhança do homem. O Deus a que Jesus se referia só podia ser outro: o Uno dos estoicos, uma inteligência universal absoluta, perfeita e sinônima de tudo que se poderia chamar de bem, Ser Supremo, em oposição ao mal. Enquanto o Deus de Israel, Criador do céu, da terra e do homem, esse malvado imperfeito, só podia ser o demiurgo (deus inferior) mencionado por Platão.
Marcião odeia o mundo, e o faz de uma perspectiva infantil, dualista. Para ele, a passagem do profeta Isaías não precisa de interpretação, é reveladora por si: Deus é do mal. Não se sabe o que fez Marcião odiar tanto a vida como ela é, além da natural inclinação de filósofo para tal. Aliás, não se sabe quase nada sobre ele, pois seus escritos não foram preservados. Sabe-se dele por seus inimigos, os inimigos que iriam esboçar a primeira ortodoxia filosófica da igreja cristã, como Santo Ireneu de Lyon, movidos justamente pela necessidade de combater o marcionismo.
Uma forma de dualismo é colocar bem e mal em campos opostos, como o joio e o trigo do Evangelho. A propósito, Jesus ora é dualista, ora é monista, e caberá à Igreja, no futuro, optar pelo monismo, mas sem muita convicção, pois o fiel comum será sempre dualista, é universalmente a forma de pensamento mais simples, mais fácil de compreender, daí os extremo-orientais serem fãs do yin-yang, e o budismo apresentar como sinônimos perfeitos “desejo” e “mal”.
O chamado gnosticismo cristão englobou muitas correntes dualistas. A inspiração tanto podia vir do zoroastrismo, uma religião dualista iraniana, quanto dos diálogos de Platão (gnostikós = intelectual; gnôsis = conhecimento). A filosofia de Platão não é assim tão rasa, mas dá margem a essas interpretações populares. Aliás, nem sempre populares. Kant é um dualista erudito. Marcião é contado pela ortodoxia cristã como um dos muitos líderes gnósticos que proliferaram nos primórdios do cristianismo, mas Joseph Hoffmann, historiador contemporâneo, discorda, enxergando no marcionismo algo mais: uma negação do que se transformaria na tradição judaico-cristã, negação que segue em curso em nossos dias (Schopenhauer teve a mesma opinião, alinhando-se a Marcião). Ou seja, o marcionismo não apenas teria sobrevivido, como ganhado força em tempos recentes com a idealização de um Jesus humanista, Logos do amor, somente do amor, desvinculado de uma tradição baseada no temor a um Deus severo.
Na segunda metade do século II, estabelecida a separação entre a Igreja de Roma e a igreja de Marcião, a vitória de uma ou de outra não estava garantida. O sucesso do marcionismo foi instantâneo. O grego de Sinop estabeleceu como cânon o Evangelho de Lucas com várias passagens cortadas e algumas cartas de São Paulo reescritas, com destaque para Gálatas, em que o apóstolo parece romper com a Lei judaica. Marcião poderia ter fundado uma grande religião não fosse por uma esquisitice: todos os fiéis deveriam preservar o celibato, nada de sexo, nem para a reprodução, muito menos para o prazer. Era uma negação radical ao “Crescei e multiplicai-vos” ditado pelo demiurgo (Deus inferior) no livro do Gênesis. Para agradar a Deus, era necessário desagradar ao demiurgo. Se este mandava procriar, não procriemos. Sem filhos, sem continuadores da nova religião.
Não tinha como ter futuro uma negação tão radical do mundo e do homem. Mesmo assim, o marcionismo sobreviverá como igreja até o século IV nos confins da Síria. Enquanto isso, colocada no campo oposto, a Igreja de Roma escolhe o que colocar no cânon (lista oficial) do Novo Testamento, mantendo o Antigo e o cristianizando através de citações, pelo menos 350 delas. Nos Evangelhos canônicos, há um evidente exagero nessa tentativa de conciliação. Jesus por vezes parece um ator de um roteiro escrito por profetas judaicos. Monta num jumentinho porque assim fora profetizado. Na cruz, diz ter sede não porque quisesse água, mas para “se cumprir a Escritura”, e lhe dão vinagre, pois assim estava escrito no Velho Testamento.
Por que colocar o Velho Testamento, judaico, em pé de igualdade com o Novo Testamento, cristão, se os judeus representavam menos de 10% da população do Império Romano e já no século II a esmagadora maioria do rebanho cristão fosse etnicamente grega ou italiana? Adicionalmente, os filósofos que emprestariam prestígio à seita cristã vinham das seitas estoica e neoplatônica, não do judaísmo.
Em primeiro lugar, não dava para violentar tanto o personagem Jesus. Ele não se intitula salvador da humanidade, mas messias judaico, anunciado nas Escrituras e esperado como o líder que conduziria as tribos de Israel ao Reino de Deus, uma espécie de estado terreno de felicidade geral, paz e prosperidade. Se Lhe dissessem que Ele seria o Verbo de Deus de uma religião universal, com sede em Roma, Jesus ficaria surpreso. As noções de Logos, livre-arbítrio e pecado original não estão em seu discurso.
No século XX, Jesus seria reinterpretado por filósofos e acadêmicos não cristãos de diversas maneiras, a partir de descobertas sobre o povo a quem se dirigiu e as terras por onde caminhou no século I. Quase todos concordam com o fundamentalismo judaico do personagem histórico. A mais audaciosa iniciativa, e a meu ver um tanto delirante, foi o Jesus Seminar, que reuniu inicialmente trinta acadêmicos, em 1985, para determinar o que Jesus disse e o que não disse. Hector Avalos ridiculariza o grupo, pois “simplesmente selecionou os versículos que concordam com o que o Jesus Seminar pensa que Jesus pensou”.
John Dominic Crossan, um dos mais destacados expoentes do Jesus Seminar, acabou reconhecendo o caos instalado pelas tentativas de adivinhar qual a mensagem principal do Filho de Deus:
Há um Jesus retratado como revolucionário político por S. G. F. Brandon (1967), como ilusionista por Morton Smith (1978), como um galileu carismático por Geza Vermes (1981, 1984), como um rabino galileu por Bruce Chilton (1984), como um hilelita ou protofariseu por Harvey Falk (1985), e como um profeta escatológico por E. P. Sanders (1985)… Mas essa variedade atordoante é um constrangimento acadêmico. É impossível evitar a suspeita de que a pesquisa pelo Jesus histórico é um local bastante seguro a partir do qual se pode fazer teologia e chamá-la de história para fazer uma autobiografia e chamá-la de biografia.1
É quase certo que os primeiros líderes judeus do “movimento Jesus” não tinham ideia das implicações de associar o messias judaico com a alta filosofia grega, com a sofisticação dos conceitos de Logos e Uno de estoicos e neoplatônicos. O “erudito” São Paulo, mesmo que tenha existido e escrito todas as cartas a ele atribuídas, era um erudito para padrões judaicos e, mesmo entre os judeus, muito aquém de Fílon de Alexandria, filósofo contemporâneo de Jesus. São Paulo não seria capaz de sustentar um debate com Plotino ou Galeno sobre Logos, Cosmos ou Uno, embora tenha mencionado o primeiro desses conceitos em suas cartas. Diante deles, São Paulo pareceria um judeu crédulo e supersticioso, pelo menos tão crédulo e supersticioso quanto os adoradores de Diana ou Mercúrio.
A mitologia grega, absorvida pelo mundo helênico, incluindo a Itália romana, a Gália e o Egito, transformara-se em religião popular havia alguns séculos, mas as principais seitas filosóficas, como estoicismo, neoplatonismo e epicurismo, contrapunham às crenças inocentes e politeístas dessa fé a ideia de um deus criador ou regente do Universo, às vezes único, às vezes dualista (Deus × demiurgo). Nenhum filósofo ousava atacar diretamente as crenças do vulgo. Questionar os deuses do panteão greco-romano seria negar a base da cultura do império, porém a vanguarda do pensamento buscava o monoteísmo racional, algo que pudesse corresponder ao Logos, ao Uno ou ao Noûs de Platão.
Deus de Abraão, chamado Javé, a quem Jesus chama simplesmente Pai ou Deus, pois o Evangelho foi todo escrito originalmente em grego, era um modelo bastante imperfeito de monoteísmo aos olhos dos filósofos greco-romanos. Um tipo ciumento, irascível, mais passional do que Zeus ou Apolo. Para piorar, as Escrituras judaicas vinham numa linguagem prosaica, popularesca, impregnada de um dualismo primário. O escrito mais antigo do Velho Testamento é o Cântico de Débora (Juízes, 5), escrito entre 1100 e 1000 a.C. Nele, a israelita Débora exalta o “Senhor”, Deus de Israel, e fala de combates militares e divisão de despojos de guerra, conflito pelo velho e repetitivo motivo para as guerras entre todos os povos primitivos: saque, roubo, confisco.
De seu lado, o judaísmo, a partir do advento do helenismo, implantado por Alexandre, o Grande, no século IV a.C., tornara-se proselitista, queria converter gregos, egípcios, etíopes, romanos e siríacos para o Deus único, Criador do céu e da terra (a ideia de Cosmos ou Universo lhes era estranha). Não deu muito certo, mas os romanos acabaram por respeitar as crenças dos israelitas e muitos imperadores fariam decretos para garantir a liberdade de culto dessa gente devota e simples. Eis talvez a palavra-chave: “simples”.
Ora, ao lado dos filósofos-senadores, de um Sêneca ou Galeno, eruditos de vastas relações aristocráticas, havia centenas ou milhares de filósofos andarilhos de barba por fazer, sujos e malvestidos, pregando o “coração simples” ao povão e às classes médias. Os judeus, por sua vez, não tinham filósofos entre eles, a não ser que queiramos chamar de filósofos os cerca de 6 mil fariseus, estudiosos das Escrituras, mas será preciso muito boa vontade para equipará-los aos andarilhos greco-romanos, versados em Platão, Epicuro, nos sofistas e nos cínicos, seguidores do lendário filósofo-pobre coitado Diógenes de Sinop, a mesma cidade de Marcião, só que vivendo cinco séculos antes e tendo se mudado para Atenas. Os judeus não tinham filósofos até surgir Jesus, que pregava o quê? O “coração simples”, ora. E, de quebra, revogando a parte mais chata do Deus de Israel – as leis cerimoniais, complicadíssimas, que incluíam severas restrições alimentares e queimar um dia de trabalho na semana: o sábado (os romanos nesse tempo não tinham folga semanal, elas se davam apenas nos feriados cívicos e religiosos).
Jesus validava os dez mandamentos da Lei recebida de Deus por Moisés, exceto o sábado. O ditado divino basicamente continha normas negativas e elementares: não roubar, não matar, não arrumar confusão com o vizinho por causa da mulher dele, não mentir, não cultuar muitos deuses, só um. Tudo que um “coração simples” precisava. Dava para conciliar bem com os ideais dos filósofos do Ocidente, não dava?
Não foi só isso, não apostemos demais em narrativas encadeadas. Jesus deu sorte. A igreja contou com a sorte, pois tanto os gregos do povo andavam atrás de religiões de mistérios, vindas do Oriente, como os filósofos e os imperadores andavam endurecendo as leis quanto à moral sexual, ponto de honra para os cristãos desde o início. O fato de os judeus escolherem outro messias (Simão bar Kokhba), de este levantar armas contra os romanos e de os cristãos terem ficado ao lado do Império só engrandeceu esses últimos aos olhos dos chamados gentios (não judeus, da perspectiva judia).
O cristianismo pouco a pouco se tornou uma religião de classe média, de gente bem-comportada, e ganhou a simpatia dos filósofos, tanto dos eruditos entre eles como dos maltrapilhos, e dos pobres comuns, mantidos por um fluxo de esmolas constante graças ao mandamento cristão da caridade, colocado efetivamente em prática pelos fiéis, entre os quais se contavam muitas viúvas ricas. Houve perseguições dirigidas a eles ou terá sido o tão propagandeado martírio dos cristãos outro mito associado à igreja primitiva? A questão merece um longo parêntese.
O direito romano não impunha crenças religiosas e o sincretismo com religiões orientais estava em alta. Alguns cristãos procuraram o martírio voluntariamente com objetivos de propaganda, mas a maior parte dos relatos é lenda. A perseguição não faz sentido do ponto de vista do paganismo, sistema religioso pouco dogmático, fragmentário e sem hierarquia pastoral. Faz menos sentido ainda do ponto de vista do Estado.
Os judeus foram perseguidos? Não por exercer o judaísmo, mas porque a província da Judeia sublevou-se, porém a perseguição restringiu-se aos insurretos. O livro O mito da perseguição, de Candida Moss, evidencia que os cristãos nunca foram vítimas de perseguição sustentada e dirigida, mas toda vez que um cristão era executado, e se executavam muitos, até por pequenos delitos, era contado como mártir.
Alguns poucos grupos cristãos eram subversivos. As autoridades os viram como perigosos pela subversão em si, não por suas práticas religiosas. O livro de Candida Moss é parcial, pois sua intenção, um tanto forçada, é atingir a direita cristã americana, mas de fato o que a historiografia sabe não corrobora uma ampla perseguição direcionada aos cristãos, até porque esses não tinham razões para a sedição política.
Quanto aos judeus perseguindo cristãos no século I, muitas seitas competiam entre si, e, em Antioquia, muito tempo depois, São João Crisóstomo teria a concorrência vigorosa de rabinos e outros líderes. Matavam-se por isso? Bem, não era um tempo pacífico como o nosso, não era preciso muito para uma discussão acabar em morte, mas também nada sistemático, arquitetado por alguma “cúpula” judaica, tem registro histórico ou mesmo plausibilidade. A propósito, a história de São Paulo como perseguidor de cristãos a serviço dos fariseus ou do Sinédrio é muito bem refutada por Hyam Maccoby, renomado historiador judeu do século XX.
Minha tese favorita para justificar os casos documentados de martírio é o caráter milenarista (escatológico, que espera o “fim do mundo”) de certas comunidades cristãs, mal geridas pelos bispos e divididas em seitas amalucadas. Os milenaristas querem se fazer ouvir e não raramente são guiados por personagens paranoicos, que procuram conflitos, alguns para pôr à prova sua crença de que o combate será a senha para a vinda do salvador sobrenatural.
O dito de São Jorge (“Crede em Cristo e eu matarei o vosso perseguidor”) não era ainda associado ao santo da Capadócia nos tempos do império, mas sua elaboração posterior dá conta em retrospectiva do espírito de alguns cristãos do século III, período que registra eventuais perseguições, seguramente por coincidir com a grande expansão do culto cristão. Tertuliano, entre outros, insistiu que não havia outro meio de alcançar a salvação exceto pelo derramamento do próprio sangue cristão. A propósito, esta é a opinião do antropólogo Jack David Eller:
Com efeito, as novíssimas (aspirantes a) tradições possuem problemas de autenticidade colossais e por conseguinte frequentemente chegam a extremos radicais para dissimular seu caráter de novidade e para se vincularem a alguma história venerável.2
O que fez os cristãos chegarem a 10% da população do império no início do século IV foi a propaganda do “coração simples”. A moral sexual rígida, embora com justa razão os estoicos tardios a reivindiquem como invenção sua, também era mais observada entre os cristãos.
Era uma arma de propaganda, baseada num princípio que Nietzsche identificaria como “a crença segundo a qual uma pessoa que constitui uma exceção nesse ponto igualmente constituirá uma exceção em outros aspectos”. Haveria sempre muitos celibatários a orgulhar a comunidade cristã por esse comportamento. Como se sabe, nada melhor para um coração “simples” ou “puro” do que evitar sexo; não apenas os filósofos acham isso.
Em todo o império, os gregos foram os que mais aderiram ao culto cristão. Não por acaso, como explica o especialista português em cultura grega Delfim Ferreira Leão:
Daqui resulta a vertente marcadamente ritual e legalista da religião grega e até, de alguma forma, o seu pendor contratual: ao cumprir os preceitos, o crente espera obter a correspondente proteção divina. O maior representante do legalismo era o oráculo de Apolo em Delfos, cuja importância ultrapassava a ação das diferentes divindades próprias de cada polis e dos cultos locais, afirmando-se assim como uma das mais expressivas manifestações de pan-helenismo já desde as épocas arcaica e clássica. No entanto, a Grécia conhecia ainda, no plano geral, outra grande tendência religiosa, que pressupunha uma iniciação e, por conseguinte, um maior envolvimento pessoal: as correntes mistéricas.3
Tanto o “legalismo” como as “correntes mistéricas” encontram correspondência nas práticas cristãs, regulares, constantes, repletas de mistérios, como a Eucaristia, por exemplo.
Se estava dando certo, a conversão do imperador Constantino, em 312, após um sonho revelador, será a sorte definitiva com que sonhavam os cristãos. Os pagãos nunca assumiram uma atitude hostil frente à ortodoxia cristã. Nunca houve uma turba de adoradores de Mercúrio depredando uma igreja ou destruindo uma imagem sacra cristã. Se o Estado passava a apoiar a fé em Jesus Salvador, o único perigo restante para a ortodoxia era os que brigavam para se tornar eles próprios a ortodoxia. E no século IV o sonho de dez entre dez filósofos e líderes religiosos era liderar a nova religião triunfante, era poder representar a ortodoxia da fé do imperador. Como registra Paul Veyne, em 312 a religião tolerada era o cristianismo. Em 324, tolerava-se o paganismo. Não por muito tempo, pois não seria preciso, a adesão seria voluntária e relativamente rápida. Quanto aos cristãos entre si, conto só um episódio. Em 366, o lusitano Dâmaso fez-se papa numa briga de verdade contra Ursino, também pretendente ao trono de São Pedro. Contaram-se 137 mortos nos confrontos entre os partidários de um e de outro.
O Deus de Abraão pegou carona nesse sucesso todo, mas não lhe neguemos qualidades. Quem melhor do que um deus ciumento, mas zeloso pela sorte de seus filhos, especialmente dos pobres entre eles, para substituir os deuses do panteão popular, para passar a cuidar da Providência particular necessária ao sujeito que dorme?
Sim, hoje há muita contestação ao caráter do Deus de Israel por conta de seu militarismo nada politicamente correto. Li dezenas de tentativas de conciliação entre o Jesus de amor e disposições rigorosas ou beligerantes do Antigo Testamento feitas por apologistas cristãos, de Ulrico Zuínglio a William Lane Craig, de Gino Iafrancesco, que escreveu um livro só para tratar do tema, a Bento XVI. Todas são explicações muito boas, mas a mim basta constatar a atual situação do Estado de Israel para dar razão ao Deus de Moisés e Abraão.
Com o Hamas de um lado, o Hezbollah de outro, o Irã e a Turquia logo adiante, o ideal é contar mesmo com um deus armado até os dentes e disposto a disparar. Se alguém (curdo, xiita, cristão ou judeu) tivesse a chance de penetrar um acampamento do grupo terrorista Estado Islâmico, estando apoiado por Deus, talvez não “deixasse vivo nada que respirasse”, como ordena Javé no livro Deuteronômio (20:16). Antes que algum sunita radical reclame, é bom consultar o Alcorão, a propósito. Como disse Jesus: “Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão.” (Mateus, 7:5) Antigamente era assim, a espada era a melhor arma de convencimento religioso. Ainda é desse jeito para boa parte dos muçulmanos.
A meu ver, a descrição de Deus de Israel pelo filósofo da religião Jaco Gericke sintetiza bem a questão da bondade ou maldade divina no judaísmo:
O problema do mal é um pseudoproblema em vários textos do Antigo Testamento, em que Javé não era nem onipotente nem onibenevolente. Além disso, a capacidade de fazer o mal no sentido de ser destrutivo era de fato uma propriedade enaltecedora no teísmo antigo. Javé é poderoso exatamente porque ele pode fazer o mal quando deseja, seja ele natural, moral ou metafísico (veja Êxodo, 4:11; Lamentações, 3:38; Isaías, 45:7; Amós, 3:6; Eclesiastes, 7:13-14 etc.). Os crentes de antigamente não eram tão mimados como os de hoje que acreditam que um deus tem que ser perfeitamente bom (leia-se “com uma interface amigável para o usuário”) para ser digno de adoração. O que tornava um deus divino era seu grande poder (o que não é o mesmo que onipotência), não sua prestação de serviços focada no cliente, seus valores familiares ou sua consideração pelos direitos humanos.4
Antes de Gericke, Nietzsche também ironizava a passagem do forte Javé do Velho Testamento para o Deus bonzinho do Novo, situando bem as circunstâncias históricas:
Sem dúvida, quando um povo entra em colapso; quando sente esvair-se para sempre a fé no futuro, a sua esperança na liberdade; quando a submissão se lhe afigura de primeira utilidade e as virtudes dos servos se insinuam na consciência como condições de sobrevivência, então há também que mudar o seu Deus. Torna-se agora sonso, medroso, humilde, aconselha a “paz de alma”, a ausência do ódio, a indulgência, até o “amor” aos amigos e aos inimigos. Moraliza constantemente, rasteja para a caverna de cada virtude privada, faz-se o Deus de toda a gente, torna-se simples particular, cosmopolita... Outrora, representava um povo, a força de um povo, tudo o que de agressivo e sedento de poder existe na alma de um povo: agora é simplesmente o Deus bom...5
Não que Deus de Israel não pudesse evoluir, e aí regressamos ao tema do cristianismo triunfante, como relata Paul Veyne:
O gigantismo do deus judeu permitirá que ele um dia assuma a função de fundamento e de autor da ordem cósmica e do Bem, função desempenhada pelo deus supremo no pálido deísmo dos filósofos gregos. Tendo dois ou três objetos de amor sobrenatural, Deus, o Cristo e mais tarde a Virgem, a religião cristã, se usarmos de rigor, é politeísta, mas que importa? Essas figuras divinas nada têm em comum com os deuses antigos, ainda que sejam figuras pessoais (e até mesmo corporais, até Santo Agostinho). [...] O cristianismo é um politeísmo monista.6
O cristianismo, em sua evolução, estará pronto para ordenar e doutrinar a totalidade da Europa e, partir do século XV, o planeta todo. Porque é uma filosofia, a mais bem-dotada de pensadores de todos os tempos, e porque é todo o resto, menos o poder temporal, mas este, aliado, representa o Deus do cristianismo, lapidado por Santo Agostinho a partir do Deus do Antigo Testamento e também dos conceitos filosóficos greco-romanos sobre o Criador. É um ser gigantesco, superior ao mundo que Ele criou. “Ator de um drama cósmico em que a humanidade põe em jogo sua salvação”, como observa Paul Veyne.
Aos filósofos, a moral dos filósofos, os dogmas de difícil compreensão, como a Trindade. Aos crentes comuns, a adesão por inércia e a manutenção do “toma lá, dá cá”, apenas substituindo os velhos deuses pelos novos santos ou mesmo por um deus muito humano, o de Israel vertido em criador e gestor universal.
Importa que tudo o que está no Evangelho guarda coerência. Se há ambiguidades, não há contradições insolúveis, e as próprias ambiguidades são sinal de coerência, pois uma coerência absoluta é sinal de história fantástica, perde em verossimilhança um relato minucioso e rigorosamente encadeado. O Evangelho, em assim não o sendo, ganha em credibilidade. Mas isso não elimina a possibilidade de uma invenção.
Jesus seria personagem de ficção de uma peça dirigida pelo Deus de Israel a partir do roteiro previamente elaborado pelos profetas da nação? Que mal haveria se O fosse? De modo nenhum isso exclui a revelação, ela não precisa de “carne e osso”, a não ser como uma boa historinha auxiliar. Deus seria mais inteligente e mais prático se revelasse os ensinamentos de Seu Logos a alguém como São Paulo, como o próprio São Paulo alega, através de uma voz vinda do céu, perto de Damasco, do que esperando trinta anos desde a concepção numa virgem de um homem completo para só então revelar a verdade a uma plateia aleatória espalhada em torno do Mar Morto e do rio Jordão.
Assim, se fosse possível me provarem que Jesus não existiu como indivíduo de “carne e osso”, isso me tornaria mais propenso a acreditar numa revelação, não menos. Pelo princípio da economicidade, Deus não precisava ter tanto trabalho, intervir em suas próprias leis físicas tantas vezes, desde o deslocamento de uma estrela para guiar magos do Oriente até interferir no livre-arbítrio de um sujeito chamado Judas Iscariotes para passar Sua mensagem.
Caso a revelação seja um mito, como propôs Ernst Renan, estarei, como bem constatou C. S. Lewis, diante de um charlatão, de um mágico capaz de simular truques que se fazem passar por milagres extraordinários, aproveitando para estabelecer regras morais, usando o santo nome de Deus indevidamente. Devo também reconhecer, nesse caso, que a desconfiança dos fariseus em relação a ele era mais do que justa, diria até sábia ou, pelo menos, fundamentada num bom senso inquestionável. Corresponderia, afinal, à imagem que tanto Fílon de Alexandria quanto Flávio Josefo, fontes judaicas bastante confiáveis e históricas, tinham dos fariseus, uma espécie de partido de oposição intelectual ao status quo do período. Deles descenderá a admirável tradição rabínica, capaz de enfrentar ódios e oposições terríveis por 2 mil anos até poder voltar o povo judeu à terra prometida pelo Deus de Israel a seus filhos.
Todas essas suposições, embora eu as esteja traduzindo em linguagem própria, não estou inventando do nada, pois cada uma delas e outras tantas mais foram aventadas no período que vai de meados do século I ao final do século IV, algo que podemos chamar “era das heresias”. E o que é heresia? É um conceito cunhado pelas escolas filosóficas greco-romanas para indicar desvios indevidos do reto caminho a ser percorrido por aquela filosofia específica, visando sobretudo a não invalidar seus pressupostos bem estabelecidos e não ir tão distante a ponto de atravessar a porteira de uma escola filosófica rival, perdendo com isso a própria identidade.
A identidade do “movimento Jesus”, por estar baseada num mestre que pouco impacto causou na Israel de seu tempo e indecisa entre a filosofia e as gentes gregas e a filosofia e as gentes judias, era um grande problema. Daí talvez terem surgido tantas heresias e, na direção contrária, ter-se empreendido tão grande esforço para estabelecer uma ortodoxia — portanto, uma “verdade” que pudesse servir de base a uma nova filosofia e a uma nova fé. Convencer não os gregos e troianos, pois àquelas alturas os troianos não existiam mais, mas os gregos e os judeus, e fazer isso ao mesmo tempo só complicava o que já não era fácil. Nisso eles acabariam cedendo em prol dos gregos e dos romanos, mas não ainda quando escrevem o Evangelho, pois ali estão falando mais aos judeus do que aos gregos. Paradoxalmente, agradarão com a série biográfica de Jesus mais estes do que aqueles.
As religiões vencem não porque são mais lógicas, mais afeitas às ideias dos filósofos de vanguarda, assim como os pretendentes não conquistam os corações das moças porque são capazes de resolver complicados teoremas. Saber escrever bons poemas tem seu valor, mas não resolve a parada. As religiões vencem porque seduzem e, uma vez que coloquem sua aliança no dedo dos fiéis, são capazes de equilibrar o exercício da autoridade com uma resposta adequada e recíproca às manifestações de ternura.
O cristianismo não venceu nem se impôs porque era a crença moldada pelos estoicos e neoplatônicos a partir de alta metafísica e do Logos original de Heráclito; não triunfou porque soube transformar um filósofo pobre, nascido entre os bárbaros (do ponto de vista greco-romano, os judeus eram “bárbaros”), na revelação viva do Uno através de Seu Logos. Isso lhe deu uma autoridade que pode e deve ter influenciado a adesão da efetiva autoridade política. Mas não lhe garantia sucesso duradouro e o deixava à mercê dos humores dos príncipes deste mundo. Era preciso se tornar uma religião popular, chegar ao namoro, ao amor e ao casamento com os fiéis. Quem nos socorre com a fórmula é mais uma vez Paul Veyne:
Ora, diante do gosto popular em matéria de música, de literatura e de arte, a atitude erudita é frequentemente um desdém farisaico e irônico. O mesmo se dá em relação à religião popular. Diante das multidões que via em seu tempo se acotovelar nas igrejas, Joseph de Maistre perguntava: “Quantos aqui realmente rezam?” Transformado em religião de todos, o cristianismo perdeu na multidão seu fervor elitista e retomou o ritmo que tinha sido o do paganismo: o de uma crença tranquila que tinha momentos mais piedosos ao sabor do calendário ritual, e não mais o ritmo de uma piedade que ama e da qual se sente permanentemente o calor no coração. À paixão amorosa sucedeu a ligação conjugal.7
— O que é a verdade? — perguntou Pilatos a Jesus.
— Eu sou (João, 14:6) — respondera de véspera o Logos do Cosmos, Heráclito a confirmar Parmênides.
Jesus é o caminho, a verdade e a vida.
É a verdade porque Ele É, o mundo inteiro conta o tempo a partir de seu nascimento. Se Pilatos não sabia, deveria ter perguntado a Parmênides, pois Parmênides testemunhou os véus das filhas do Sol caírem no caminho para a morada da deusa verdade. Teriam elas revelado Jesus? Pelo menos os descendentes de Parmênides, os gregos fundadores e mantenedores da sociedade aberta, acreditaram na Revelação do Evangelho.
Jesus é o caminho, pois se transformou no devir, no vir a ser do mundo, na marca mais notável dessa exceção histórica fantástica chamada Ocidente, e hoje tudo é Ocidente, e amanhã continuará sendo, pois marcas assim não se apagam. A trilha segue aberta, abrigando o conflito, a convergência e a divergência, como previra Heráclito.
Mas e a vida? E esse terceiro componente da equação Jesus não previsto por Heráclito nem por Parmênides?
A vida é o homem e o homem dorme, eventualmente pensa, busca a verdade e, ao buscá-la, acaba na misantropia, acaba descrendo do Homem. Atente o leitor para estas passagens do Evangelho, ditos de Jesus:
João, 2:23. Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram no seu nome, à vista dos milagres que fazia. 24. Mas Jesus mesmo não se fiava neles, porque os conhecia a todos. 25. Ele não necessitava que alguém desse testemunho de nenhum homem, pois Ele bem sabia o que havia no homem.
João, 3:19. Ora, este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois as suas obras eram más.
João, 7:7. O mundo não vos pode odiar, mas odeia-me, porque eu testemunho contra ele que as suas obras são más.
Para Schopenhauer, talvez baseado numa leitura apressada dessas passagens, na coincidência entre “mundo” e “mal” no Evangelho, nos Vedas e no Tipitaka, o paganismo greco-romano foi uma fé otimista, enquanto o budismo, o hinduísmo e o cristianismo traziam o pessimismo inerentemente a seus sistemas de crenças. Vê nisso uma diferença fundamental.
Logo Schopenhauer, compartilhar da vertigem dualista de Marcião? Engano. Descrer no homem é a mais refinada forma de otimismo. É acreditar que tudo está por fazer, que pode ser feito, que pode alcançar o Logos enquanto ciência natural. Era isso que buscavam Heráclito e Parmênides, não uma religião popular, que desprezavam.
Descrer no homem é acreditar na história. A história é feita dessa manifestação do homem intuída pelos romanos chamada persona (máscara), ideia aproximada da crença védica em avatares (para eles, Jesus é um avatar de Deus), são as ilusões que nos fazem interagir e agir no vir a ser infinito, como intuíra Heráclito.
Se descremos no homem é porque constatamos que é difícil reconhecer nele o ser, a essência no interior da persona, a verdade de cada um, pois ela está em movimento, é vir a ser. Heráclito não disse exatamente que não se entra duas vezes no mesmo rio. O rio é o mesmo, as águas é que nunca são as mesmas. Jesus não está interessado no “ser” do homem, mas no vir a ser por Ele anunciado. Por isso, o ama. Amar é dar atenção a, é acreditar no vir a ser, não no ser, pois este somente a deusa verdade conhece, e Jesus não a representa. Quem a representa é o homem, esse eterno caminhante ao encontro da deusa verdade.
Há quem, também numa leitura apressada, enxergue dualismo no sistema de oposições de Heráclito ou na alternância ser × não ser de Parmênides. Engano. Eles podiam ser obscuros, mas não eram mimados como os politicamente corretos de hoje, descritos neste capítulo por Jaco Gericke. O fato de haver movimento, para Heráclito, não desfaz outra de suas conclusões: “Todas as coisas são um.” O Ser é um. Seu oposto é ilusão.
A verdade eu não sei o que é, mas sei o que é a ilusão, e é adorável. Não há como amar a verdade, pois o que se ama é o movimento das águas, que nunca são as mesmas. O que fascina no homem são suas possibilidades, seu vir a ser.
Heráclito, em sua misantropia militante, foi às montanhas para se isolar, alimentando-se apenas de plantas. Jesus foi levado ao deserto, onde jejuou, teve fome, o tentador Lhe sugeriu transformar pedras em pães, e Ele disse: “Nem só de pão vive o homem, mas da Palavra...” De ideias, de sondar os mistérios do Logos.
Heráclito não teve fome. Teve crises de hidropisia. Na época, os médicos não sabiam que hidropisia é sintoma e não uma doença em si. Heráclito pediu que eles transformassem uma inundação (hidropisia é inchaço por retenção de líquido) em seca, mas eles não sabiam como fazer. Como os doentes da Judeia e da Galileia, recorreu a um curandeiro, que, não conhecendo o método de Jesus de expulsar demônios, recomendou que o filósofo se enfiasse numa poça de estrume, pois o calor poderia fazer evaporar os líquidos retidos. Conta um historiador que Heráclito morreu sufocado em esterco de vaca. Iria ressuscitar na forma de ideias, essas pedras no caminho humano que são o vir a ser dos que, como Jesus, semeiam o Verbo, a Palavra.
 
(Aurélio Shommer - O Evangelho segundo a Filosofia)

NOTAS:
1. Gottfried Leibniz in Nicholas Jolley (1995), p. 18 — tradução livre.
2. Stephen Hawking, 1994, p. 77.
3. Santo Agostinho, 1996, p. 322.
4. Voltaire, 2000, p. 10.
5. Voltaire, 2011, p. 75.
6. Mestre Eckhart, por Girardi, 2015, p. 12.
7. Friedrich Nietzsche, 1997, p. 16.
8. Gottfried Leibniz, 1977, p. 9

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:09



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D