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O desejo da mulher de permanecer ao lado do homem depois do orgasmo (ou orgasmos) é muito mais forte quando ela está apaixonada. Porém, existe sempre, desde que aquele homem lhe agrade. Isso porque o orgasmo da mulher é mais prolongado, mas, acima de tudo, porque ela sente a necessidade de ser desejada, de agradar de modo contínuo, duradouro. A separação do homem lacera, interrompe essa continuidade. Uma vez que o prazer na mulher se manifesta como necessidade de continuidade, a interrupção não pode significar outra coisa a não ser desinteresse, rejeição.
Estamos diante de uma estrutura temporal, diversa nos dois sexos. Há uma preferência profunda do feminino pelo contínuo e uma preferência profunda do masculino pelo descontínuo (A explicação mais racional do fenômeno é a apresentada por Lillian B. Rubin: Intimate strangers, Nova York, Harper Colophon, 1983. Rubin lembra que a mulher, de modo diferente do homem, não se deve diferenciar do seu objetivo primário de amor e de identificação, que ê a mãe. Essa experiência leva-a a experimentar um senso de continuidade com as pessoas que ama. Ela tende à fusão e, às vezes, à confusão com o amado). Quando as mulheres dizem que apreciam a ternura, os carinhos, e que por isso mesmo os preferem ao ato sexual, não se referem apenas ao aspecto tátil, sensível da experiência. Indicam a necessidade de atenção amorosa prolongada, de interesse contínuo com relação à sua pessoa. A prevalência do tátil é somente uma manifestação dessa mais profunda prevalência do contínuo.
(...) O desejo de continuidade da mulher se manifesta de vários modos. A mulher aprecia os atos que significam a continuidade do interesse. Um telefonema, um elogio, flores. Em geral, a mulher ama também as palavras amorosas, as carícias, os abraços, o interromper e o recomeçar. Está sempre à procura da compreensão amorosa, íntima, tranquila, suave, do idílio. Não apenas esporadicamente, nos intervalos de tempo roubados a outras atividades, mas por longuíssimos períodos, como numa eterna lua-de-mel.
Naturalmente a mulher envolvida numa atividade profissional, que se realiza no trabalho, que tem sempre pouquíssimo tempo livre e muitas coisas a fazer, acaba por assumir, com o correr do tempo, uma postura masculina. Porém, no mais profundo de seu íntimo, também ela deseja poder abandonar-se a uma doçura prolongada, em que não existam tempo nem horário.
Como quando se deixa beijar pelo sol, estendida na praia. Porque lhe agrada ficar bronzeada e desejável, mas também porque o sol é como um amante que lhe dá prazer e ternura.
Provavelmente, é por esse motivo que a maior parte das mulheres deseja, no homem, uma ereção prolongada. Porque significa que ele ficou excitado pela sua beleza, que a deseja de modo contínuo, duradouro. Porque o abraço amoroso e o êxtase da fusão dos corpos duram por um longo tempo, horas e horas, e não são lacerados imediatamente pela interrupção, pela descontinuidade. O homem acha que a mulher adora seu pênis ereto, o deus Priapo. Na verdade, o que ela deseja é a permanência do interesse amoroso, da ternura, do abandono, da paixão. São esses os alimentos que nutrem seu erotismo, seu prazer. A ejaculação precoce é irritante, não por si mesma, mas por representar um desinteresse masculino e pelo estado de agitação, de frustração e de apatia que esse distúrbio provoca no homem.
Se a mulher não se sente amada, desejada, seu renovado esforço de sedução fica frustrado, e ela então experimenta uma sensação de vazio, de inutilidade, de desespero. Como se não existisse mais. E reage com raiva. Isso se verifica constantemente no casamento ou na convivência. A mulher imagina que vivendo junto com o homem amado realizará a continuidade do erotismo. Julga que a descontinuidade do comportamento masculino depende de fatores externos, de dificuldades materiais, de compromissos profissionais. Não consegue acreditar que seja um fator natural, próprio da masculinidade. Enfim, que seja a característica de seu desejo. Vivendo sempre juntos, pensa ela, esses impedimentos poderão ser removidos. Dormindo na mesma cama, fazendo juntos a primeira refeição matinal, comendo à mesma mesa, batendo papo à noite, haverá todo o tempo necessário para realizar a continuidade erótica. O tempo passado juntos é imaginado como um tempo erótico completo,  compacto, um tempo amoroso. A realização, que no homem acontece através do esplendor do encontro, aqui é procurada no prolongamento do encontro, no preenchimento erótico de toda a duração. Na erotização da continuidade temporal.
Na vertente masculina do erotismo, ao contrário, o que conta é a intensidade do encontro sexual. O encontro erótico é, para ele, um tempo luminoso, subtraído da vida comum. Tem, portanto, um princípio e um fim. Ele sabe que voltará à vida rotineira. O encontro luminoso é como uma área liberada e liberante, uma experiência regeneradora de que sai enriquecido, reforçado, feliz, realizado. Reingressa no mundo do dia-a-dia mais seguro, mais forte. Até mesmo no enamoramento a relação amorosa é uma sequência de encontros luminosos.
Além disso, o homem experimenta com mais frequência que a mulher o instante de eternidade. Este não é um intervalo temporal. E um estado particularíssimo, exterior ao tempo. Quando o instante de eternidade desaparece, reaparece o tempo. Mas o valor desse instante é superior ao tempo. A sua lembrança (saudade) faz com que o tempo pareça apenas um obstáculo, uma falha, uma distração de nossa verdadeira natureza, que é viver no eterno. Exatamente como na experiência do místico, para o qual Deus se revela somente em gotas de eternidade.
O homem enamorado experimenta, às vezes, um sentimento de profunda tristeza pensando que o divino momento que vive está destinado a desaparecer, a perder-se no tempo. Olha então para o céu azul, para as plantas ou pedras, sabendo que aquela perfeição representa o eterno. No máximo, lhe será concedido recordar aquela experiência divina. Mas será como uma imagem desbotada.
Ao contrário do instante de eternidade, o encontro luminoso é um fragmento de tempo, uma ilha de experiência que pode ser recordada como um acontecimento, modificável pela fantasia.
Também o homem enamorado continuará, durante a separação, a pensar em sua amada. Às vezes, sentirá mesmo um desejo lancinante. Se imagina tê-la perdido, sentirá uma saudade dolorida. Em geral, porém, quando a cumprimenta, mesmo que esteja emocionado, sente-se cheio de vida. O encontro luminoso o torna mais audaz. Partindo, está certo de tornar a encontrá-la e procura somente merecer seu amor. A lembrança dela mora em seu coração, despertando-lhe arrojo, coragem. Enquanto trabalha, pensa nela. Se a sente sua, ela lhe faz companhia, lhe dá forças, alegra-o. No homem, a memória preenche a descontinuidade da presença.
Se o homem não está enamorado, o desejo de rever aquela mulher dependerá da beleza do encontro. Se este foi luminoso, desejará encontrá-la outra vez. E, se o milagre se repete, desejará encontrá-la ainda mais uma vez. Se o encontro não acontece, se nele se insinuam problemas, rancores, a amargura do cotidiano, diminui seu desejo de rever a mulher. Porque, por mais profunda, luminosa e extasiante que tenha sido a experiência erótica, não é suficiente para construir uma relação permanente. Somente o toque maravilhoso do enamoramento cria o irreversível. A sedução feminina tende a isso, mas o enamoramento profundo é um acontecimento raro, improvável. Além do mais, a mulher custa a reconhecê-lo com segurança. Tende a confundir o apaixonamento com a continuidade temporal física, coisa válida para ela, mas não para o homem. Procura obtê-la então com súplicas, ou duplicando a sedução erótica. Mas, assim fazendo, é obrigada a repetir seu esforço e torna-se cada vez mais insegura. A sedução feminina deve renovar-se para exorcizar o descontínuo que existe no homem.

(Francesco Alberoni - O Erotismo, Fantasias e realidades do Amor e da Sedução)

publicado às 19:32


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