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DÚVIDAS SOBRE A MORTE

por Thynus, em 10.06.15
 

O que é a morte? Talvez eu já me tenha feito essa mesma pergunta centenas e centenas de vezes, por milhares e milhares de anos, tal como qualquer outra pessoa que já tenha passado por este mundo. Será morrer apenas deixar de existir? Será sentir meus olhos serem fechados por um beijo úmido e sensual? Como será ter a certeza de que a visão de um rosto amigo é a última desta vida antes que sobrevenha a escuridão trazida pela morte? Poderá ela ser um corcel veloz e nervoso, um raro pássaro, uma fênix ou até mesmo uma dádiva? Talvez... quem sabe! Mas é muito provável que ela seja apenas, em meio à escuridão de meus olhos fechados, para os quais não mais reúno forças para abrir, a carícia de sentir minha alma ser confortada pelas asas de um beija-flor que vem beber das minhas últimas lágrimas...
Ninguém poderia saber, na verdade, o que é ser imortal e, pior ainda, ser o primeiro deles. Tirando-se o romantismo, fica a dor. Pois eu amei muitas pessoas e as vi irem-se embora, deixando no solo do meu coração e nas miragens de meu cérebro apenas saudades, lembranças que teimam, com o passar do tempo, em confundir-se com nuvens. Eu estive à beira de seus leitos, chorei de amargura por não mais poder tê-las junto a mim, sobre este mundo, sob estas estrelas, andando comigo num verde campo sob a esplêndida e magnífica luz do sol, da lua e das estrelas. E eram pessoas tão queridas... tão importantes, que acalentavam sonhos e visões que nunca mais serão conhecidos.
Seus sorrisos, suas lágrimas, os pensamentos lindamente construídos e articulados, de uma forma única em toda a história deste nosso planeta, mas que se mostram irremediavelmente... perdidos. O conforto mínimo era o de apenas saber que suas almas estavam livres e que seus corpos iriam novamente integrar-se à terra de onde vieram. Assim era naqueles tempos... como até hoje ainda é a bem da verdade.
Felizmente, a dor não é para mim uma senhora avassaladora e cruel porque eu ainda sou daqueles que acreditam nas boas coisas da vida e, por que não, da própria morte. Para mim, que já vivi tanto, que tenho minha alma tão envelhecida, a morte não é um fim, apesar de nunca tê-la experimentado, ao que me lembre. Será que perdi muito? Como dizia meu avô de alma, há centenas e centenas de anos no passado, é bem provável que sim! Como ele, também acredito que ela nos dê a chance, através de um benfazejo esquecimento, de ter como amigos os inimigos que tive ou fiz, de uma forma ou de outra, criando-os como ator ou... espectador.
Então, o que é a morte? Bem certo uma nova forma de ver o que nunca desaparecerá, de ver minhas marcas, a dor no meu corpo. É como ver a sombra lenta do falcão sobre a relva, acalentada pela brisa e pelo sol de inverno. Apesar de todas as dúvidas que me atormentam, e que sei em nada alterarão o curso do cansado rio frente ao tempo inclemente, tenho a certeza de que não é tão fútil, tanto quanto sei que a vida também não o é.
Talvez, pensando assim, o velho conto que ouvi há muito tempo na querida Terra, que comparava a eternidade a uma bolha de sabão, e de que ainda me lembro, seja muito próprio. Se assim não o for, que fique então apenas como um registro esquecido de um tempo não mais lembrado pela maioria: Leve e preguiçoso, espaçoso... Escoar como globo no ar parado. Não haverá vendaval, é sabido! Apenas benfazejas correntes de sopro vagarão. Como ter a certeza de que não se passará por tormentas algum dia? Em paz no fim da tarde vermelha de inverno, langoroso no ar como um gato boiando nos telhados fuliginosos ao lado das chaminés adormecidas, escôo. Como é tediante ser eterno a levitar no ar! Não haverá a benfazeja morte? Dizem sobre o estouro, mas sinto que são apenas lendas... antigas lendas de tempos que nunca vivi.
Como são distantes da realidade! Nunca morrer, essa é a lei! E o ar se tornará escuro e o brilho e as cores irão, transparentes sob a lua amarela destacada do negro fundo, se transmudando! Mas, deixar de estar assim, em um nunca morrer e...
 — Pô! — xingou o menininho jogando no chão o canudinho de mamona com o qual fizera lindas bolhas etéreas de sabão que lançara ao ar revolto. — Que pena!!! Essas bolinhas são tão bonitas, mas duram tão pouco! Não quero mais brincar com elas, são muito bobas. Estouram muito depressa! — desabafou enquanto corria ao encontro de sua mãe, que, cantando suave para a vida, estendia lençóis no varal, brancos como neve e cheirosos como flores da manhã.
"Contribuição de Sorran a este romance, no ano de 2891, sabidamente o homem mais velho da humanidade, que também ficou conhecido como Enoc Vidallonga, Joshua Ruster Conel, Maltus Sandlers..."

 (MIKAEL LENYER - A Raça Divina, Vol. 1,Da Selva à Civilização Mundial)
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publicado às 10:32



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