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Na obra de Hesíodo, que foi a primeira a fazer sua narração, o mito da idade de ouro se confunde com o das cinco idades ou, melhor dizendo e seguindo à letra o texto grego, das “cinco raças” humanas. Pois, antes de tudo, é disso que se trata: Hesíodo nos descreve cinco humanidades diferentes, cinco tipos humanos que se teriam sucedido no correr do tempo, mas que, a títulos diversos, podemos também achar que permanecem mais ou menos possíveis na atual humanidade.
O mito inteiro gira ao redor da questão das relações entre hybris e diké (Como Jean-Pierre Vernant mostrou de maneira magistral. É nele que me inspiro para o essencial da interpretação desses três mitos) traça uma linha divisória fundamental entre as vidas humanas em harmonia com a justiça e o cosmos ou, pelo contrário, as existências entregues à hybris, ao orgulho e ao descomedimento. Às vezes dizem que esse poema de Hesíodo foi inspirado por circunstâncias reais. Isso talvez seja parcialmente verdadeiro. Hesíodo acabava, em sua própria vida, de passar por terrível provação, uma grave divergência com o irmão, Perses, a quem o poema se dirige: em seguida à morte do pai, Perses teria exigido uma parte maior da herança familiar (pecando, desse modo, por hybris). Ele inclusive corrompe as autoridades encarregadas da condução do processo, para que lhe deem razão. Em tais condições, é normal que o poema que o irmão lhe dirige trate de justiça, de diké. Mas Hesíodo, juntando esse problema particular à teogonia e à cosmologia, amplia o tema, de forma que a obra não se limita, de maneira nenhuma, a tratar do seu caso pessoal. Pelo contrário e de maneira geral, partindo da perspectiva que é a da ordem cósmica organizada sob a égide dos deuses, ele entra na questão da oposição entre a vida boa, uma vida em acordo com a diké, e a vida má, a vida submetida à hybris. Entretanto, apesar da aparência de um tratado de moral, o poema de Hesíodo vai muito mais longe. Ele é o primeiro a abordar a questão que nos interessa primeiramente após a cosmogonia e a teogonia, depois do nascimento do mundo e do nascimento dos deuses: o nascimento da humanidade tal como a conhecemos hoje. A meta fundamental, para nós mortais, é compreender por que estamos aqui e o que vamos poder fazer nesse mundo divino e ordenado, é verdade, mas no qual nossa existência mortal tem apenas, ao contrário da dos deuses, um tempo bem curto, que precisamos preencher da melhor forma que pudermos.
Vou começar contando, de modo sucinto, o mito das cinco raças e depois veremos, mais demoradamente, os sublimes mitos de Prometeu e de Pandora, a primeira mulher, antes de tentarmos enfim perceber os significados que têm essas narrativas fundamentais, em termos de sabedoria de vida para os seres humanos.
O mito da idade de ouro e as
“cinco raças” humanas
No início, então, temos a idade de ouro, uma época feliz ao extremo, pois os homens vivem ainda em comunidade de bom entendimento com os deuses. Nessa época, eles são fiéis à diké, são justos. Isso significa que se abstêm da importuna hybris, que leva as pessoas a quererem mais do que lhes cabe e assim ignorar, ao mesmo tempo, o que elas são e em que consiste a ordem do mundo. Nessa época, conta ainda Hesíodo, os homens dispõem de três privilégios maravilhosos, privilégios com os quais, tenho certeza, ainda hoje você gostaria de poder contar. Em primeiro lugar, não têm necessidade alguma de trabalhar para ter uma profissão, nem mesmo para se sustentar. A natureza é tão generosa que por conta própria lhes dá — como no Jardim do Éden, o famoso paraíso perdido do mito bíblico de Adão e Eva — todo o necessário para viverem agradavelmente: os frutos mais deliciosos da terra, rebanhos gordos e em quantidade, fontes de água fresca e rios acolhedores, um clima suave e constante, ou seja, eles têm o que comer, beber, vestir e aproveitar a vida sem preocupação alguma. Além disso, não conhecem o sofrimento, nem a doença, nem a velhice e, desse modo, vivem protegidos dos males que em geral, estragam a vida humana, amparados das desgraças que se abatem sobre cada um de nós, quase cotidianamente, nos dias atuais. E por fim, apesar de serem mortais, pode-se dizer que eles morrem “o menos possível”, sem dor nem aflição, “como se caíssem no sono”, diz Hesíodo. Se eles “quase não são mortais” é porque, simplesmente, não têm medo dessa morte que chega num piscar de olhos, sem fazer história, de forma que se sentem bem próximos dos deuses, com os quais, aliás, compartilham a vida cotidiana.
Quando tal raça, um dia, acaba desaparecendo, “oculta pela terra”, na expressão de Hesíodo, esses homens, na verdade, não morrem completamente. Tornam-se o que os gregos denominam daemon. Preste atenção, porém, a palavra não tem para eles nada do sentido negativo que acabou ganhando na tradição cristã e com o qual estamos hoje em dia habituados; pelo contrário, são espíritos amigos e justos — comparáveis, se quisermos continuar a analogia com a tradição cristã, a “anjos da guarda” —, capazes de distinguir entre hybris e diké, entre o mal e o bem, entre o descomedimento e o justo. Graças a esse notável discernimento, eles recebem de Zeus o insigne privilégio de dividir as riquezas em função das boas e das más ações dos homens. Percebe-se que mesmo após a morte esses seres continuam, de certo modo, a viver e a viver bem, uma vez que, transformados em daemons/anjos da guarda, eles se mantêm entre os vivos, sobre a terra e não embaixo, nas trevas, como os maus que são punidos pelos deuses (1)
Vem então a idade de prata, com o reino de uma raça de homens pueris e maus, seguida pela idade de bronze, também detestável, povoada por seres terríveis e sanguinários, e depois a idade dos heróis, guerreiros, mas valorosos e nobres, que terminam seus dias na “ilha dos bem-aventurados”, onde a vida em tudo se parece com aquela da idade de ouro. Deixo de lado essas descrições (2) e parto diretamente para a última idade, a idade de ferro, quer dizer, nossa época e nossa humanidade. E quanto a isso, dessa vez a descrição de Hesíodo é, por assim dizer, apocalíptica. O período, com certeza, é o pior de todos. Nessa idade de ferro, os homens não param de penar e de sofrer; para eles, não há alegria alguma que não venha acompanhada por dor, favor nenhum que não implique, como o reverso da medalha, um mal. Os homens não somente envelhecem a toda velocidade, mas ainda precisam trabalhar duramente para ganhar o seu sustento. E estamos apenas no início dessa era; as coisas podem piorar. Por quê? Simplesmente porque essa humanidade vive em hybris, em completo descomedimento, não se limitando mais, como no caso dos homens de bronze, à brutalidade guerreira, mas contaminando todas as dimensões da existência humana. Tomada por inveja, ambição e violência, ela não respeita a amizade, os juramentos nem a justiça, sob forma alguma, de modo que os homens correm o sério risco de ver os últimos deuses a ainda viver na terra e em sua proximidade partirem em definitivo para o Olimpo. Estamos nos antípodas da bela idade de ouro, quando os seres humanos viviam em comunidade amiga com os deuses, sem trabalhar, sem sofrer e (quase) sem morrer. Os homens dessa idade decadente se encaminham para a catástrofe; se insistirem nesse caminho, como a rixa com o irmão fez Hesíodo acreditar, não haverá sequer o bem no reverso da medalha, mas apenas o mal dos dois lados e, no final de tudo, a morte sem remédio. São as últimas e devastadoras misérias da vida tomada pela hybris, a vida em desacordo com a ordem cósmica e (é tudo uma coisa só) a existência sem respeito pelos deuses.
Esse mito levantou inúmeras questões e continua ainda a levantar. Ocasionou uma incrível pluralidade de interpretações. Mas uma, dentre todas as outras, se realça com uma espécie de evidência: como e por que a humanidade passou da idade de ouro à idade de ferro? De onde vem tal declínio, tal derrelição? Assumindo outra linguagem, a da Bíblia — que neste caso se encaixa perfeitamente —, como explicar essa “expulsão” de um “paraíso” para sempre perdido? São essas, justamente, as interrogações que os mitos de Prometeu e de Pandora, inseparáveis um do outro, respondem diretamente. Mais uma vez, deixemo-nos guiar pelos dois poemas de Hesíodo, Teogonia e Os Trabalhos e os Dias, antes de evocarmos algumas apresentações diferentes e mais tardias da mesma narrativa mítica, principalmente as de um filósofo, Platão, e um trágico, Ésquilo.

O “crime” de Prometeu e sua punição com o envio à terra de Pandora, a primeira mulher e “maior infortúnio para os homens que trabalham”
Ao lermos o poema de Hesíodo, compreendemos facilmente que os mitos de Prometeu e de Pandora tentem explicar os motivos da passagem da idade de ouro para a idade de ferro. São eles que, pondo entre parênteses as três idades intermediárias, procuram mostrar como a humanidade passou de um extremo a outro. É claro, tal passagem parece, à primeira vista, catastrófica. No entanto, é de nós que se trata, de nosso lugar singular, totalmente original no coração do universo dos elementos e dos deuses. E é a partir desse lugar que será preciso colocar o problema da existência humana, do caminho que precisamos buscar e, se possível, encontrar, nesse mundo. É impossível refletir sobre a sabedoria dos mortais sem levar em consideração sua situação única, mesmo que à primeira vista desastrosa, no meio do cosmos.
Para compreender bem tudo isso, preciso lhe falar um pouco do personagem que tem aqui o papel principal, ou seja, Prometeu. Ele frequentemente é apresentado como um dos Titãs. A verdade é um pouquinho diferente, pois ele não pertence à geração de Cronos. Na realidade, é apenas filho de Titãs. Mais precisamente, um filho de Jápeto (um dos irmãos de Cronos) e de Climena, uma linda oceanina “de belos tornozelos”, isto é, uma das inúmeras filhas do mais velho dos Titãs, Oceano. Em grego, o nome Prometeu tem um significado bem eloquente. Quer dizer “aquele que pensa antes”, isto é, aquele que tem astúcia e inteligência, como, por exemplo, dizemos de um jogador de xadrez que está sempre “uma jogada à frente” do adversário. Ele tem três irmãos cujos destinos são funestos — sem dúvida por sequelas da guerra de Zeus contra os Titãs, que fez com que a prole destes últimos não vivesse propriamente numa atmosfera de santidade: primeiro Atlas, condenado por Zeus a sustentar o céu na sua cabeça, com a ajuda dos seus braços “incansáveis”; depois Menoitios, a quem o senhor do Olimpo rapidamente fulmina, por achá-lo arrogante, cheio de hybris e meio intrépido demais para não ser perigoso; e finalmente Epimeteu. O nome Epimeteu também tem um significado, mas exatamente o inverso do de Prometeu. Em grego, pro quer dizer “antes” e epi, “depois”. Epimeteu é aquele que só pensa “depois”, que age sem refletir e está sempre uma jogada atrás, o lerdo que em francês se diz ter um “espírito de escada”, quer dizer, lento e pesadão. Ele se torna o principal instrumento da vingança de Zeus contra Prometeu e contra os homens — vingança que, justamente, vai fazê-los passar da idade de ouro para a idade de ferro. Mas não vamos antecipar as coisas.
No momento em que começa a cena que nos interessa, estamos numa vasta planície, onde os homens vivem ainda em perfeita harmonia com os deuses: a planície de Meconé. Pelas próprias palavras de Hesíodo, eles ali vivem “protegidos, distante dos infortúnios, sem trabalhar duramente, sem sofrer as tristes doenças que fazem com que os homens morram” e “cedo envelheçam na infelicidade”. Pode-se facilmente reconhecer, na descrição, a idade de ouro. Era ainda a boa época. Um dia, por algum motivo que Hesíodo não diz, Zeus resolve “acertar as pendências entre os homens e os deuses”. Na verdade, trata-se de dar continuidade à construção do cosmos; assim como Zeus repartira convenientemente o mundo entre seus pares, os deuses, reservando-lhes os respectivos e justos lugares, distribuindo, como diria mais tarde o direito romano, “a cada um o seu”, da mesma maneira é preciso decidir qual parte do universo cabe aos humanos, qual, por assim dizer, será o lote dos mortais. Pois, nesse momento, é do que se deve tratar. Com esse intuito, para claramente determinar o que, de um lado, passa a ser dos deuses e, do outro, dos homens, Zeus pede a Prometeu que sacrifique um boi e o reparta de maneira justa, para que tal divisão sirva, de certa maneira, como modelo para as futuras relações entre deuses e homens.
É então gigantesco o que está em jogo, e Prometeu, acreditando fazer o bem, com a finalidade de ajudar os homens — dos quais, dizem, sempre tomara a defesa contra os olímpicos, talvez por ser descendente dos Titãs e, como tal, nem tão amigo dos deuses da segunda geração —, tenta enganar Zeus: ele separa duas metades e coloca sob o couro do animal os bons pedaços de carne, os pedaços que os homens gostariam de comer. O couro, é claro, não é bom de se comer, e para garantir o golpe e ter certeza de que essa primeira metade seria bem repugnante e não pudesse ser escolhida por Zeus como a parte destinada aos deuses, ele a enfia inteira no estômago pouco apetitoso do boi sacrificado. Por outro lado, ele amontoa os ossos brancos, meticulosamente limpos e consequentemente incomíveis para os homens, arrumando-os delicadamente sob uma bela camada de gordura bem lustrosa e apetitosa! Lembro que Zeus, já tendo devorado Métis, a astúcia, é o deus mais inteligente de todos e não poderia cair na artimanha de Prometeu. Ele muito evidentemente a percebe e, mesmo louco de raiva com a tentativa, finge cair na armadilha — já saboreando a terrível vingança que prepara contra Prometeu e, no mesmo embalo, contra os humanos que o deus acredita estar inteligentemente favorecendo nessa negociata. Zeus escolhe então o monte de ossos brancos escondidos sob a gordura lustrosa e deixa os bons cortes de carne para os humanos.
Note, de passagem, que  (É um tema muito precisamente esclarecido por Vernant, uma vez mais) Zeus não chega a fazer qualquer esforço ao deixar a carne para os homens, e por um excelente motivo: os deuses do Olimpo nunca comem carne! Eles exclusivamente comem e bebem ambrosia e néctar, os únicos alimentos que convêm aos Imortais. É um ponto capital que, por si só, já anuncia boa parte das misérias futuras da humanidade que sai da idade de ouro por culpa de Prometeu. Somente quem está fadado a morrer precisa se alimentar com carne e pão, por exemplo, que regeneram as forças. Os deuses se alimentam por prazer, por diversão, apenas pela delícia dos pratos; os homens se alimentam antes de tudo por necessidade e, se não se alimentarem, morrem ainda mais rapidamente do que, de qualquer maneira, vai acontecer um dia ou outro. Deixar a carne para os humanos e dar os ossos aos deuses é, na verdade, confirmar o fato de que eles são mortais, rapidamente cansados pelo trabalho, sempre em busca de alimento, e na falta disso definham, sofrem, adoecem e morrem muito rapidamente de fome — coisas que os deuses, evidentemente, ignoram.
Mesmo assim, Prometeu tentara enganá-lo para favorecer os homens, é o que pensa Zeus, furioso. Para puni-los, não lhes dá mais o fogo que vem do céu, com o qual os homens se aquecem e, principalmente, cozinham a comida de que precisam para viver. Para os gregos, o cozimento é um dos sinais da humanidade do homem, o que mais clara e exatamente o situa entre os deuses e os animais, pois os deuses não precisam se alimentar, e os animais comem alimentos crus. E a humanidade perde essa sua especificidade quando Zeus lhes retira o fogo. Pior ainda, com uma segunda punição, “Zeus”, diz Hesíodo de maneira um tanto enigmática, “tudo escondeu”.Na verdade, seu significado é que em vez dos frutos da terra se oferecerem em plena luz e em qualquer estação ao apetite do homem, como na idade de ouro, os grãos passam a estar enterrados e será preciso trabalhar para tirar da terra alimentos consumíveis. Torna-se necessário lavrar e semear para que o trigo germine, e depois ceifar, moer e assar para fabricar o pão. Ou seja — e é um ponto crucial —, com o nascimento do trabalho, atividade das mais desagradáveis, começa a expulsão do mundo paradisíaco.
Por isso Prometeu comete um segundo desvio, um segundo crime de lesa-majestade: ele simplesmente rouba de Zeus o fogo e o entrega aos homens! A fúria do senhor do Olimpo sobe ao extremo, com sua ira sem limites. Para esperteza, esperteza e meia; ele resolve também inventar uma armadilha — e que armadilha — para punir os protegidos de Prometeu, os homens! Manda que Hefesto fabrique com urgência, usando água e terra, a estátua de uma jovem “que todos amem”, uma mulher pela qual os imbecis humanos se apaixonem loucamente! Toda uma plêiade de deuses dão a ela um talento, uma graça, um charme: Atena ensina a arte de tecer, Afrodite oferece a beleza absoluta e o dom de suscitar o desejo “que faz sofrer” e provoca “a inquietação que deixa prostrado o homem”. Ou seja, Pandora, pois é dela que se trata, é a sedução em forma de mulher. Hermes, o deus da comunicação e do comércio, que é astucioso, mas também sedutor e meio trapaceiro quando necessário, acrescenta um “coração de cadela e maneiras sonsas”. Ou seja, a jovem em questão sempre haverá de querer, como explica Hesíodo, “mais do que o bastante” — é o que significa esse “coração de cadela”. Ela será insaciável, em todos os sentidos: comida, dinheiro, presentes, sempre querendo mais, mas também, é claro, em matéria sexual, com um apetite igualmente ilimitado. Seu gozo, potencialmente, nunca acaba — no que se refere àquilo em que o homem, diga ele o que disser para parecer mais interessante, logo se sente esgotado. Quanto às “maneiras sonsas”, isso significa que Pandora pode seduzir qualquer um, pois tem todos os argumentos, todas as manhas e as mais deliciosas mentiras. Para completar o quadro encantador, Atena a enfeita com roupas sublimes, Hefesto confecciona para ela um diadema de inimitável sofisticação, outras divindades, como as Graças, chamadas Horas, filhas de Zeus e Têmis, a deusa da persuasão, lhe concedem também alguns dons, de forma que no final, como Zeus com um riso perverso diz para si mesmo, os infelizes humanos nada vão poder, rigorosamente nada, contra tal armadilha, contra essa “peste para os homens que trabalham”, contra essa mulher sublime em aparência, temível na realidade, que vai “alegrar-lhes o coração” a ponto de, “tão contentes”, os bobalhões “apreciarem o próprio mal”.
Não deixe de notar a semelhança entre a astúcia de Prometeu e a de Zeus. Termo a termo elas se confrontam; como sempre, no cosmos harmonioso, a punição deve corresponder ao erro. Prometeu tenta enganar Zeus servindo-se das aparências — disfarçando ossos incomíveis sob a gordura apetitosa e, inversamente, escondendo a boa carne no horrível estômago do boi? Não há de ser nada! Zeus também utiliza a miragem das ilusões. Pandora tem toda a aparência externa de uma promessa de felicidade, mas, no fundo, é a rainha das dissolutas, podendo ser tudo, menos um presente!
A moça deslumbrante, pura fatalidade, tem um nome — “Pandora” — ao mesmo tempo esclarecedor e muito enganador. Significa em grego: aquela que tem todos os dons — porque, diz Hesíodo, “todos que tinham sua casa no Olimpo lhe concederam um dom” —, a menos que signifique, como acham alguns, “aquela que foi dada aos homens por todos os deuses”. Pouco importa, aliás. Fato é que as duas leituras são boas: Pandora aparentemente tem todas as virtudes possíveis e imagináveis, pelo menos em termos de sedução (ou de moral, coisa que, como você sabe, é algo bem diferente). Além disso, foi de fato enviada aos homens pelo conjunto dos olímpicos, que os querem punir.
Zeus, então, dá vida à sublime criatura e, em seguida, pede a Hermes que a conduza a Epimeteu, o bobo que primeiro age e depois pensa, quando já é tarde demais e o mal está feito. Prometeu, no entanto, havia prevenido o irmão; dissera-lhe que não aceitasse, sob pretexto algum, um presente dos deuses do Olimpo, pois sabe que eles querem se vingar dele e também dos homens. Mesmo assim, é claro que Epimeteu cai na esparrela e se apaixona como um louco por Pandora. Não apenas dela nascerão outras mulheres que, como ela, irão arruinar, em todos os sentidos da palavra, a vida dos homens, mas, além disso, ela ergue uma estranha “jarra” (que na mitologia logo se chamará “caixa de Pandora”) dentro da qual Zeus se dera o trabalho de colocar todos os males, todas as desgraças e todos os sofrimentos que devem se abater sobre a humanidade. Apenas a esperança fica presa no fundo do funesto recipiente! E isso pode ser interpretado de duas maneiras. Pode-se primeiro achar que os humanos não poderão sequer se agarrar a alguma esperança, visto que ela não saiu da caixa. Pode-se também entender, o que me parece mais adequado, que a eles resta a esperança, o que está longe de ser uma vantagem concedida por Zeus. De fato, não se engane: a esperança, para os gregos, não é um bom presente. É inclusive uma desgraça, uma tensão negativa, pois esperar é continuar carente, é desejar o que não se tem e, consequentemente, estar de certa maneira insatisfeito e infeliz. Quem espera se curar é porque está doente, quem espera ser rico é porque é pobre, de forma que a esperança é mais um mal do que um bem. Seja como for, cito como Hesíodo descreve a cena em Os Trabalhos e os Dias. Vou transcrevê-la, pois ela claramente indica os laços que unem nossos três mitos (e faço alguns comentários entre parênteses):
Prometeu, no entanto, tinha-lhe dito (a Epimeteu, então) que nunca aceitasse um presente de Zeus Olímpico e o devolvesse, temendo que algum mal se abatesse sobre aqueles que morrem (os mortais = os homens). Mas ele (ainda Epimeteu) aceitou e, mal teve nas mãos o seu infortúnio, compreendeu (como pode ver, ele compreende atrasado, tarde demais). Naquele tempo, as tribos de homens viviam na terra protegidos, distante das infelicidades, sem trabalhar duramente, sem sofrer tristes doenças que fazem os homens morrer (temos aqui o mito da idade de ouro e, como se pode também observar, é com a vinda de Pandora que os homens saem desse período); os que têm que morrer cedo envelhecem na infelicidade [...] A mulher, então, com as suas mãos, erguendo a tampa da jarra, espalhou o mal entre os homens, causando-lhes penas cruéis (essa jarra logo se torna a famosa “caixa de Pandora”, Hesíodo não diz de onde veio nem como chegou, mas o certo é que Zeus foi quem a encheu com seu detestável conteúdo). Somente a esperança permaneceu em sua casa indestrutível no interior, para aquém das beiradas da jarra, sem escapar para fora; pois antes disso a tampa voltou a fechar a jarra, como era a intenção de Zeus da
égide (a palavra vem do grego aigos, que quer dizer cabra e designa o célebre escudo de Zeus, fabricado com a pele da cabra Amalteia, que dizem ser impossível de se perfurar com flechas). Com isso, 10 mil sofrimentos se espalharam entre os homens (pois Zeus tinha posto na “caixa de Pandora” todos os males possíveis e imaginários para punir os homens — doenças de todo tipo, dores diversas, medo, velhice, morte etc.); a terra está repleta de infelicidade, o mar também; as doenças entre os homens, algumas durante o dia, outras à noite, viajam por capricho próprio, trazendo aos homens o infortúnio sem nada avisar, pois Zeus, prudente, tirou-lhes a voz (todos esses males nos caem em cima sem que possamos prever nem prevenir). Não é possível, então, se esquivar do que planejou Zeus (quer dizer, punir os humanos mortais).
Aí temos como, então, por causa de Pandora, ou por ela, saímos da idade de ouro.
A essa punição terrível, que parece apenas de forma indireta visar a Prometeu, pois não o atinge pessoalmente e sim a quem ele queria defender e proteger, isto é, os humanos, se acrescenta outra que, agora sim, concerne diretamente ao filho de Jápeto: ele é dolorosamente acorrentado no alto de uma montanha, e Zeus todos os dias envia uma gigantesca águia para lhe devorar o fígado. Pois o fígado de Prometeu é imortal e volta a crescer à noite, de forma que o suplício atroz pode recomeçar de maneira incessante. Mais tarde, muito mais tarde, Prometeu seria, por fim, liberto por Héracles. Uma lenda tardia, bem posterior ao texto de Hesíodo, conta que Zeus chega a jurar pelo Estige — um juramento impossível de se desfazer — que nunca soltaria Prometeu do seu rochedo. Mas Zeus tem muito orgulho das façanhas de seu filho, Héracles, e não quer desaprová-lo. Para também não se contradizer, Zeus aceita que Prometeu seja liberto, mas deveria sempre carregar consigo um pequeno pedaço de pedra daquele rochedo, preso num anel! Dizem que esse pequeno arranjo com o céu deu origem a uma das nossas joias mais comuns: o anel enfeitado com uma pedra preciosa.
Mas voltemos aos humanos e à sua nova condição, claramente delineada pelo mito de Pandora. Podemos tirar daí três lições que você deve agora tentar compreender e guardar, para melhor apreciar o que virá depois.
Três lições filosóficas dos mitos de Prometeu e Pandora
Primeiro, se Pandora for de fato a primeira mulher, como Hesíodo insiste, isso quer dizer que na época da idade de ouro, antes da famosa divisão do boi feita por Prometeu em Meconé, os homens então viviam sem mulheres. De certo havia já feminilidade no mundo, bem-representada por uma miríade de divindades femininas, mas os mortais eram exclusivamente masculinos. O que implica, em consequência, que eles não nasciam pela união de um homem e uma mulher, mas apenas pela vontade dos deuses e por meios que estes escolhessem (é possível que diretamente da terra, como outras narrativas mitológicas nos levam a crer). O ponto é crucial, pois o nascimento a partir da união sexual do homem com a mulher vai tornar os mortais realmente mortais. Você se lembra de que, na idade de ouro, eles não morriam por inteiro ou, melhor dizendo, morriam o menos possível; desapareciam de forma gradual, durante o sono, sem aflição nem sofrimento e sem nunca pensar na morte. Além disso, depois de desaparecerem, permaneciam de certa maneira em vida, pois se tornavam daemons, anjos da guarda encarregados de distribuir aos homens as riquezas, de acordo com o mérito de cada um. Com o surgimento de Pandora, os mortais se tornam totalmente mortais, e isso, por um motivo de real profundidade: é que o tempo, tal como o conhecemos, com sua sequência de males — velhice, doenças, morte —, realmente nasce. Você se lembra de Urano e, depois dele, Cronos, que não queriam deixar os filhos viver em pleno dia. Urano os deixava trancados no ventre de Gaia, a mãe, enquanto Cronos simplesmente os devorava até que a mãe de Zeus, Reia, enganando-o, lhe deu um engodo a engolir, uma pedra enrolada em panos, no lugar do filho. A verdadeira razão para tanta vontade de impedir que os filhos viessem à luz fica clara. Não se trata apenas de prevenir um eventual conflito no qual o rei em exercício poderia perder o poder, destronado pelos próprios herdeiros, mas, mais profundamente, trata-se de colocar obstáculos ao tempo, à mudança e, por conseguinte, impedir essa forma de morte que a sucessão das gerações simboliza. O cosmos ordenado e estável é o ideal para qualquer soberano precavido, e a filiação, a sucessão de filhos, implica sempre a ruína dessa bela permanência. Conclui-se que já a partir dali a abertura para a descendência passava a estar decididamente colocada. Vê-se com isso que as crianças ocupam uma posição no mínimo ambígua: nós as amamos, é claro, mas elas simbolizam também nossa perdição — o que mostra que os gregos parecem menos sentimentais e talvez um pouco menos simplistas do que nos tornamos hoje em dia.
Em segundo lugar, como na Bíblia, a saída da idade de ouro vem acompanhada por uma funesta calamidade: o trabalho. Dali em diante, de fato, será preciso que os homens ganhem seu pão com o suor do rosto, e isso por pelo menos duas razões. A primeira, eu já disse: Zeus “tudo escondeu”, ele enterrou no chão os frutos que servem de alimento ao homem, principalmente os cereais com os quais se fabrica o pão, de forma que ele vai precisar se esforçar para se alimentar. Mas há também a encantadora Pandora e, com ela, diz a Teogonia, da qual cito um pequeno trecho, “a raça e as tribos das mulheres, grande flagelo para os mortais”:
Elas moram com os homens e da pobreza maldita não querem a companhia (mais claramente, não aguentam a pobreza): precisam mais do que o bastante. É como nas colmeias, em que as abelhas engordam os zangões e tudo se passa desfavoravelmente para elas; o dia inteiro, até o pôr do sol, trabalham e fazem seus favos de cera branca, enquanto eles permanecem no fundo da colmeia. É a fadiga do outro que eles armazenam em suas panças.
Não é muito feminista, concordo, mas a época de Hesíodo não é a nossa. De qualquer forma, está terminada aquela bela idade de ouro em que os homens podiam todo dia rejubilar-se com os deuses e se alimentar com toda inocência, sem nunca se sacrificar às necessidades da dura labuta. Mas o pior, se podemos assim dizer, é que a mulher, evidentemente, não é um mal absoluto.
Seria simples demais, e essa é a terceira lição do mito: a vida humana é trágica nesse sentido de não haver o bem sem o mal. O homem, como quis Zeus com seu triste sorriso, é totalmente driblado, preso na armadilha sem saída possível. Pois se ele evita se casar, para que seu patrimônio não seja como o das abelhas, a quem Hesíodo o compara, devorado pelos zangões (a mulher que sempre quer mais do que o bastante), sem dúvida ele pode, mesmo trabalhando menos, acumular maior riqueza. Mas para quê? Para quem se daria a tanto trabalho? Sem contar que quando morrer, não tendo filhos, nenhuma descendência, as riquezas acumuladas acabarão nas mãos de vagos parentes distantes que pouco lhe interessam! Ele morre uma segunda vez, por assim dizer, pois, sem descendentes, nada seu sobreviverá. Um mortal à segunda potência, de certa forma! Ele tem, então, que se casar, se quiser herdeiros, mas novamente então a armadilha se fecha para ele — ao que se acrescenta ainda o fato de que os filhos podem ser maus, o que configura a pior das desgraças para um pai! Resumindo, num ou noutro caso, o bem vem inevitavelmente acompanhado de um mal ainda maior.
É claro, o texto de Hesíodo parece tremendamente misógino — e é por esse ângulo, por exemplo, que ele é lido na maioria das universidades americanas. As associações femininas que hoje prosperam no meio acadêmico certamente levariam Hesíodo à justiça, e ele com certeza seria condenado e proibido de ensinar. Mas podemos também entender que os tempos mudaram, que nossa época não é a de Hesíodo e que, para além das palavras que chocam, deve-se principalmente ligar o que ele diz à questão da morte. Pois essa, com toda evidência, é a infelicidade suprema que se abate sobre os homens que na idade de ferro não morrem mais, se posso assim dizer, como no bom e velho tempo da idade de ouro. À nova vida que a mulher dá — quando se passa do nascimento a partir da terra, decidido e organizado pelos deuses, ao nascimento por união sexual — corresponde uma nova morte, antecedida por sofrimentos, trabalhos, doenças e todos os males associados à velhice e que os seres humanos da idade de ouro desconheciam.
Por isso, de novo, impõe-se a questão crucial, subjacente a todo o universo da mitologia que vemos se estabelecer com Hesíodo: o que é uma vida boa para os mortais? Contrariamente ao que em seguida farão as grandes religiões, a mitologia grega não promete a vida eterna nem o paraíso. Apenas tenta, como a filosofia por ela anunciada, ser lúcida com relação à nossa condição. O que fazer senão viver em harmonia com a ordem cósmica ou então, se quisermos evitar a morte anônima, tentar ser célebre pela glória heroica? Como Ulisses, devemos nos convencer de que semelhante vida pode inclusive ser preferível à imortalidade.
Mas vejamos, por enquanto, o final da história, tal como foi imaginada ou pelo menos contada depois de Hesíodo.
Os motivos da expulsão da idade de ouro: o mito de Prometeu visto por Platão e Ésquilo
Tenho certeza de que com o senso de justiça que as crianças têm, você deve ter se perguntado: afinal, por que os humanos foram punidos por um crime que não cometeram? Houve hybris por parte de Prometeu, tudo bem, pois ele quis desafiar os deuses e enganá-los, escondendo os bons pedaços de boi sob aparência repugnante, e dando aos pedaços ruins um aspecto apetitoso. Mas o que fizeram de errado os homens, nesse caso específico? E por que seria assim tão necessário colocá-los em seu lugar de mortais, como fez Zeus, não tendo eles nada a ver com isso e sem culpa alguma? Ao contrário de alguns mitógrafos contemporâneos, pessoalmente sinto sempre um certo constrangimento em continuar, como se fosse normal, uma história contada por Hesíodo, no século VII a.C., completando-a com um texto escrito em um contexto totalmente diferente, mais de três séculos depois. No caso, o texto em que Platão trata do mito de Prometeu, em seu diálogo intitulado Protágoras — nome de um dos maiores sofistas da sua época. Não é por nos dirigirmos a um público
mais amplo, incluindo crianças, que podemos fazer qualquer coisa. Mudam não apenas a época — três séculos não são pouca coisa! —, mas também o registro, pois passa-se da mitologia à filosofia. Com isso claramente especificado, o olhar filosófico de Platão, apesar de completamente diferente do de Hesíodo, propõe dos seus poemas uma perspectiva ao mesmo tempo esclarecedora e plausível: Prometeu não roubou apenas o fogo de Hefesto, roubou também, segundo Platão, as artes e técnicas de Atena, de forma que o homem corre o sério risco, um dia ou outro, de se achar igual aos deuses. E nesse caso a humanidade terá, sem sombra de dúvida, sua vez de pecar por hybris! É bem possível que já fosse o que estava em jogo, desde a planície de Meconé, no momento da divisão do boi sacrificado.
De fato, segundo Protágoras, pelo menos da maneira como Platão o põe em cena em seu diálogo, não se pode compreender direito o desacordo entre os homens e os deuses sem relembrar toda a história, voltando à época em que os homens ainda não existiam, época, então, em que na terra havia apenas deuses.
Um belo dia, por algum motivo que Protágoras não esclarece (quem sabe se entediavam sozinhos?), os deuses resolvem criar o conjunto dos mortais, isto é, animais e homens. Começam a trabalhar animados e fabricam com terra, fogo “e tudo que se pode misturar com a terra e o fogo” figurinhas, estatuetas de formas diversas. Antes de lhes dar vida, pedem a Epimeteu e a Prometeu que distribuam as diferentes qualidades para cada uma. Com insistência Epimeteu pede ao irmão que deixe para ele a parte inicial do trabalho — e começa com as espécies animais desprovidas de raciocínio. Qual o seu método? Epimeteu não é tão burro quanto se diz, e a distribuição das qualidades inclusive se passa de maneira bem hábil. Ele constrói um “cosmos”, um sistema perfeitamente equilibrado e viável, dando a cada espécie animal possibilidades de sobrevivência com relação às demais. Por exemplo, no caso de animais miúdos, como o pardal ou o coelho, ele dá ao primeiro asas para poder fugir dos predadores, e ao segundo, rapidez na corrida e tocas para se esconder em caso de perigo. Veja como Protágoras descreve o trabalho de Epimeteu:
De modo geral, sua distribuição consistiu em dar chances iguais. E em tudo que imaginava, seu cuidado foi o de evitar que alguma raça se extinguisse. Mas uma vez dados os meios para escapar das mútuas destruições, ele imaginou para todas uma defesa cômoda com relação às variações de temperatura que vêm de Zeus: vestiu-as com uma espessa pelagem ou também sólidas carapaças, que protegem do frio, mas são igualmente eficazes contra tórridos calores, sem contar que ao dormir isso constituiria também um cobertor próprio, fazendo parte de si mesmo. A determinada raça ele calçou com cascos córneos, outras, com garras sólidas e desprovidas de sangue. Em seguida escolheu alimentos diferentes para as diferentes raças: para algumas a relva brotando no chão, para outras, os frutos das árvores, para outras ainda, raízes; a algumas concedeu que sua alimentação fosse a carne de outros animais, mas atribuiu a estas uma fertilidade restringida, dando abundante fertilidade às que se despovoariam com isso, salvaguardando desse modo as suas espécies.
(continua)

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