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Os cientistas em geral não gostam de admitir, principalmente em público, mas às vezes eles são tão parciais quanto a torcida do Corinthians vendo um jogo do Palmeiras. E nem é por mal: certos vieses inconscientes são difíceis de combater – como o fato de que a comunidade científica é esmagadoramente masculina e, portanto, tem uma tendência inata a pensar com a própria cueca. Nos últimos tempos, por exemplo, os biólogos ficaram de queixo caído ao descobrir que certas espécies de pato contam com os machos mais, digamos, bem-dotados do reino animal. Com quase 45 centímetros de membro, para ser mais exato. (Imaginem os convites para fazer um filme pornô com alguma ex-BBB ou ex-namorada de jogador de futebol.) Ninguém sabia muito bem o porquê de tanto exagero. “É para intimidar os outros machos”, diziam alguns. “É para lançar o esperma o mais longe possível”, afirmavam outros. Adivinha se alguém foi ver o que as fêmeas de pato achavam disso? Bem, finalmente se deram a esse trabalho. (Coincidência ou não, foi uma equipe científica liderada por uma mulher. Como queríamos demonstrar.) E a anatomia das moças revelou que elas estão longe de ser receptáculos passivos da exuberância masculina. Pelo contrário: ao que tudo indica, as genitálias dos bichos estão envolvidas num combate evolutivo de proporções épicas, no qual machos e fêmeas buscam preservar seus interesses com unhas e bicos. A nossa guerra dos sexos em torno do controle remoto da TV é fichinha, nobre leitor. Mas, como no caso humano, tudo começa por causa da monogamia.

Acontece que várias espécies de patos e assemelhados formam casais fiéis, que cuidam juntos do ninho... durante uma estação reprodutiva. É a chamada monogamia serial, já que os bichos tendem a trocar de parceiro a cada ano. (Particularmente, eu preferiria o termo “monogamia-Hollywood” para designar esse tipo de vida marital, mas talvez não soe muito científico.)

Contudo, o fato de que uma Margarida já achou o seu Donald não é o suficiente para manter certos machos sequiosos de sexo longe dela. Sem a menor preocupação com a moral e os bons costumes, eles se aproveitam das ausências do pato titular para forçar a pobre patinha a ceder a seus desejos sórdidos. Os cientistas usam a sigla inglesa FEPC (“cópula forçada extra-par”) para designar esse comportamento. (É, tucanaram o estupro.)

O estranho nessa história toda é que os membros gigantes dos patos machos estão longe de ser a regra entre as aves. Na verdade, só 3% das espécies do grupo apresentam alguma coisa parecida com um pênis; as outras parecem se virar muito bem com um simples buraquinho. Parece haver uma correlação clara entre membros masculinos barrocos e FEPCs: os machos com genitálias mais elaboradas são justamente os pertencentes a espécies nas quais o estupro é mais comum. Assim, seria um mero caso de “quem tem o maior ganha”? Afinal, o macho com o falo mais avantajado teria mais chances de fertilizar as fêmeas, por bem ou por mal.

O caso parecia quase encerrado, mas a americana Patricia Brennan, do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Yale, resolveu dissecar e medir as estruturas vaginais das fêmeas de 16 espécies da família dos patos. Os resultados estão descritos num artigo publicado na revista científica “PLoS One”, uma das mais importantes do mundo. Surpresa: as garotas parecem estar revidando a sacanagem masculina – e revidando pesado.

O primeiro dado obtido por Brennan parece meio óbvio: quanto mais comprido o membro do macho, mais comprida é a vagina. Mas não é que ela simplesmente cresça de tamanho. O pênis das aves (quando existe) é um tanto diferente do humano: no caso dos patos, é uma estrutura em forma de sacarolhas com uma espécie de canaleta na parte de cima. O esperma é despejado por fora do órgão, e não por dentro dele, deslizando por essa canaleta. O dado curioso é que, enquanto o “saca-rolhas” masculino tem espirais no sentido anti-horário, a vagina das patas se espirala no sentido contrário, ou seja, em sentido horário. É como se a anatomia delas dificultasse de propósito a penetração. Calma, fica pior ainda. A análise cuidadosa feita por Brennan mostra que o órgão feminino está cheio de bolsas na sua parte mais funda, perto do local onde o óvulo é fecundado. São verdadeiros becos sem saída, aparentemente feitos para impedir que o membro do macho fique totalmente “ereto” e consiga depositar o esperma do bicho no lugar certo. Os espermatozoides presos nessas bolsas provavelmente têm muita dificuldade de atingir o óvulo e produzir patinhos. De novo, a correlação entre complicação vaginal e FEPCs é clara: quanto mais tarados os machos da espécie, mais contorcidas as genitálias femininas.

As fêmeas têm um motivo muito bom para se dar ao trabalho de contra-atacar. Afinal, elas escolhem seus pares por suas qualidades como futuros papais, por sua capacidade de proporcionar a elas filhotes fortes e sadios, e é por isso que passam a estação reprodutiva inteira com eles. É muito injusto que um qualquer se aproveite delas e ainda consiga espalhar seus genes de malandro com isso.

E o mais impressionante é que a estratégia feminina, pelo menos em algumas espécies, parece estar funcionando. Estudos genéticos revelaram que, embora os estupros correspondam a cerca de um terço de todos os acasalamentos, só três em cada cem patinhos nascidos são frutos da malandragem masculina.

Como as fêmeas dão um jeito de conseguir isso ainda é um mistério. Brennan diz acreditar que elas conseguem contrair a vagina e levar o esperma do macho indesejado até as regiões “beco sem saída”, das quais o sêmen é expelido. (Já posso ver a manchete em capas de revistas femininas: “É de enlouquecer: Margarida ensina suas técnicas de pompoarismo!”)

Resumo da ópera: nossa espécie não está sozinha na quantidade de aparentes besteiras que faz por causa de um sexozinho. A chance de passar os genes adiante por meio dessa técnica tão interessante é, pelo menos do ponto de vista biológico, o passaporte para a imortalidade. Machos e fêmeas batem cabeça porque, por definição, suas táticas nesse jogo são diferentes, e o resultado às vezes é essa espiral maluca de ataques e contra-ataques. C’est la guerre.

 

(Reinaldo José Lopes - Evolução: Além de Darwin, O que sabemos sobre a história e o destino da vida)

 

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publicado às 22:37



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