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Dois lobos no coração

por Thynus, em 29.01.16
“Todos os seres sensíveis se desenvolveram pela seleção natural de maneira que as sensações agradáveis lhes servissem de guia, especialmente o prazer gerado pela sociabilidade e pelo amor familiar.”
(Charles Darwin)
 
Quem vence?

Certa vez, ouvi uma história sobre uma índia anciã americana, a quem se perguntou como havia se tornado tão sábia, feliz e respeitada. Ela respondeu: “Em meu coração, vivem dois lobos: um lobo do amor e outro do ódio. Tudo depende de qual deles eu alimento a cada dia”.
Essa lenda me dá certo arrepio. É, ao mesmo tempo, despretensiosa e esperançosa. Primeiro, o lobo do amor é muito estimado, mas quem de nós também não possui um lobo do ódio dentro de si? Ele está presente tanto em guerras distantes quanto ao nosso redor, na ira e na agressividade que dirigimos até mesmo a quem amamos. Segundo, a história sugere que todas as pessoas são capazes com base em ações cotidianas – de estimular e fortalecer a empatia, a compaixão e a bondade e também de dominar a hostilidade, o desprezo e a agressividade.
O que são esses lobos e de onde vêm? E o que devemos fazer para alimentar o lobo do amor e matar o do ódio? Este capítulo trata da primeira pergunta; os próximos dois exploram a segunda.

A EVOLUÇÃO DO RELACIONAMENTO
Embora o lobo do ódio renda mais manchetes, o do amor tem sido cuidadosamente educado pela evolução para ser mais forte – e mais fundamental para sua natureza mais profunda. No longo caminho desde as minúsculas esponjas dos mares primitivos até a humanidade de hoje, relacionar-se bem com outros membros da espécie tem sido de grande ajuda para a sobrevivência. Durante a jornada dos últimos 150 milhões de anos da evolução animal, as vantagens das habilidades sociais foram provavelmente o fator mais influente no desenvolvimento do cérebro. Houve três avanços da maior importância, e você se beneficia deles todos os dias.

Vertebrados
Os primeiros sinapsidas viveram há cerca de 180 milhões de anos; 30 milhões de anos depois, vieram as primeiras aves (essas datas são aproximadas devido a incertezas nos registros fósseis). Os mamíferos e as aves encararam desafios de sobrevivência semelhantes aos que os répteis e os peixes enfrentaram – hábitat hostil e predadores ferozes. Contudo, proporcionalmente ao peso corporal, os mamíferos e as aves têm cérebro maior. Por quê? Os répteis e os peixes geralmente não criam seus filhotes – na verdade, às vezes, até os comem! – e é típico viverem sem um parceiro. Já os mamíferos e as aves criam seus filhotes e, em muitos casos, formam casais, alguns para a vida toda.
Usando a linguagem fria da neurociência evolucionária, as “exigências computacionais” de selecionar um bom par, compartilhar os alimentos e cuidar dos filhotes demandaram maior processamento neural em mamíferos e aves (Dunbar e Shultz 2007). Um esquilo ou um pardal têm de ser mais espertos que um lagarto ou um tubarão: mais capazes de planejar, comunicar-se, cooperar e negociar. Essas são as habilidades corretas que os casais humanos descobrem ser essenciais ao se tornar pais, sobretudo se quiserem permanecer unidos.

Primatas
O próximo passo significativo na evolução do cérebro ocorreu com os primeiros primatas que surgiram, mais ou menos 80 milhões de anos atrás. Sua característica determinante era e é a grande capacidade de socializar-se. Os macacos, por exemplo, passam até um sexto de seu dia catando piolhos em outros membros do bando. Curiosamente, em uma espécie estudada – os macacos-de-gibraltar –, os que ficavam catando liberavam mais estresse do que os que tinham os pelos escarafunchados (Schutt et al. 2007). (Tentei usar esse argumento para conseguir mais cafuné de minha esposa, mas até agora não deu certo.) O fator evolucionário preponderante é que, tanto para os primatas machos quanto para as fêmeas, o sucesso social – que reflete a capacidade de relacionamento – gera mais descendentes (Silk 2007).
Na verdade, quanto mais sociável é uma espécie primata – avaliada por fatores como tamanho da prole, quantidade de parceiros que ficam se afagando e complexidade hierárquica –, maior é o córtex em comparação com o restante do cérebro (Dunbar e Shultz 2007; Sapolsky 2006). Relacionamentos mais complexos requerem cérebros mais complexos.
Além disso, apenas os grandes macacos – a família mais moderna de primatas, que inclui os chimpanzés, os gorilas, os orangotangos e o homem – desenvolveram células fusiformes, um tipo singular de neurônio que sustenta aptidões sociais avançadas (Allman et al. 2001; Nimchinsky et al. 1999). Grandes macacos, por exemplo, costumam consolar membros do bando que estão chateados, embora esse tipo de comportamento seja raro entre outros primatas (de Waal 2006). Assim como nós, os chimpanzés riem e choram (Bard 2006).
As células fusiformes são encontradas somente no córtex cingulado e na ínsula, o que indica que essas regiões – e suas funções de empatia e autoconsciência – passaram por pressão evolutiva intensa nos últimos milhões de anos (Allman et al. 2001; Nimchinsky et al. 1999). Em outras palavras, os benefícios dos relacionamentos ajudaram a orientar a evolução recente do cérebro dos primatas.

O homem
Por volta de 2,6 milhões de anos atrás, nossos ancestrais hominídeos começaram a fazer utensílios de pedra (Semaw et al. 1997). Desde então, o cérebro triplicou de tamanho, mesmo usando cerca de dez vezes mais recursos metabólicos do que a quantidade equivalente de músculo (Dunbar e Shultz 2007). Esse aumento desafiou o corpo feminino a também evoluir, com a finalidade de possibilitar que bebês com cérebro maior saíssem pelo canal vaginal (Simpson et al. 2008). Dados seus custos biológicos, esse rápido crescimento deve ter conferido muitos benefícios à sobrevivência – e muito do que foi adicionado é usado para processamentos sociais, emocionais, linguísticos e conceituais (Balter 2007). O homem, por exemplo, tem muito mais neurônios fusiformes do que os macacos de grande porte; eles criam um tipo de via expressa de informação que sai do córtex cingulado e da ínsula – duas regiões cruciais para a inteligência social e emocional – para outras partes do cérebro (Allman et al. 2001). Embora um chimpanzé adulto se saia melhor que uma criança de dois anos no processo de descoberta do mundo físico, esse pequeno ser humano já é muito mais sabido no que se refere a relacionamentos (Herrmann et al. 2007).
Esse processo de evolução neural pode parecer árido e remoto, mas ele se esgotou de diversas maneiras nas lutas diárias de vida e morte por parte de seres como nós. Por muito tempo, até o advento da agricultura, há cerca de dez mil anos, nossos ancestrais viveram em grupos de caça e coleta, em geral, com menos de 150 membros (Norenzayan e Shariff 2008). Eles se desenvolveram principalmente no próprio bando, enquanto saíam em busca de comida, evitavam predadores e competiam com outros bandos por recursos escassos. Nesse meio hostil, os indivíduos que cooperavam com outros integrantes do grupo viviam mais e deixavam mais descendentes (Wilson 1999). Além disso, bandos que trabalhavam melhor em equipe superavam os outros na obtenção de recursos, na sobrevivência e na transmissão de genes (Nowak 2006).
Até mesmo pequenas vantagens reprodutivas em uma única geração acumulam-se significativamente com o passar do tempo (Bowles 2006). Ao longo de cem mil gerações desde o surgimento das primeiras ferramentas, aqueles genes que promoveram aptidões de relacionamento e tendências cooperativas imprimiram seus traços na constituição genética da população humana. Os resultados podem ser vistos hoje nas bases neurais de muitas características essenciais da natureza humana, incluindo altruísmo (Bowles 2006; Judson 2007), generosidade (Harbaugh, Mayr e Burghart 2007; Moll et al. 2006; Rilling et al. 2002), preocupação com a reputação (Bateson, Nettle e Robert 2006), justiça (de Quervain et al. 2004; Singer et al. 2006), linguagem (Cheney e Seyfarth 2008), perdão (Nowak 2006) e moralidade e religião (Norenzayan e Shariff 2008).

CIRCUITOS DE EMPATIA
Poderosos processos evolutivos configuraram o sistema nervoso para produzir as aptidões e inclinações que promovem relacionamentos cooperativos, alimentando um grande e amável lobo no coração. Construindo-se sobre essa sociabilidade geral, as redes neurais relacionadas estimulam a empatia, a capacidade de sentir o estado interior de outra pessoa, necessária em qualquer tipo de intimidade verdadeira. Quando não há empatia, seguimos a vida como formigas e abelhas, esbarrando em outras pessoas, mas fundamentalmente sozinhos.
O ser humano é, de longe, a espécie mais empática do planeta. Nossas notáveis habilidades dependem de três sistemas neurais que simulam ações, emoções e pensamentos de outra pessoa.

Ações
Redes nos sistemas perceptivo-motores do cérebro são acionadas quando uma pessoa realiza uma ação e quando vê alguém desempenhando a mesma ação, o que dá a você uma sensação igual a que essa pessoa está tendo no corpo (Oberman e Ramachandran 2007). De fato, essas redes espelham o comportamento dos outros, daí o termo neurônio espelho.

 Emoções
A ínsula e os circuitos relacionados são ativados quando você passa por emoções fortes como medo ou raiva e quando você vê outras pessoas sentindo essas mesmas emoções, principalmente se forem pessoas queridas. Quanto mais consciência você tem de seus estados emocionais e corporais, mais sua ínsula e o córtex cingulado anterior (CCA) são ativados – e melhor é sua capacidade de reconhecer o estado de outras pessoas (Singer et al. 2004).
Na verdade, as redes límbicas que produzem seus sentimentos também apreendem os sentimentos alheios. Como resultado, deficiências na expressão de emoções – como em quem sofreu um AVC – muitas vezes também afetam o reconhecimento das emoções em outras pessoas (Niedenthal 2007).

Pensamentos
Os psicólogos empregam o termo teoria da mente (TDM) para se referir à capacidade de imaginar os processos internos de alguém. A TDM envolve estruturas pré-frontais e lobo-temporais que são bem recentes no processo evolutivo (Gallagher e Frith 2003). As habilidades da TDM surgem durante o terceiro ou o quarto ano de vida e não se desenvolvem totalmente até a completa mielinização – o isolamento dos axônios que acelera os sinais neurais ao longo deles – do córtex pré-frontal no fim da adolescência ou até vinte e poucos anos (Singer 2006).
Esses três sistemas – rastreando as ações, emoções e pensamentos de outras pessoas – ajudam-se mutuamente. Por exemplo, a ressonância sensório-motora e límbica com as ações e emoções alheias lhe dá muitos dados para o processamento característico da teoria da mente. Então, uma vez que você forma uma suposição baseada em fatos – geralmente em apenas alguns segundos –, experimenta-a no corpo e nos sentimentos. Trabalhando juntos, esses sistemas o ajudam a compreender, de dentro para fora, como é ser outra pessoa. No próximo capítulo, ensinaremos diversas maneiras de fortalecê-los.

AMOR E VÍNCULO
À medida que o cérebro humano evoluiu e aumentou de tamanho, o período da infância passou a durar mais (Coward 2008). Consequentemente, os bandos hominídeos foram obrigados a desenvolver maneiras de manter seus integrantes unidos por muitos anos, pois, segundo o provérbio africano, tinham de preservar “uma aldeia inteira para educar uma criança” e, então, passar adiante os genes do bando (Gibbons 2008). Para isso, o cérebro adquiriu circuitos elétricos e neuroquímicos poderosos para gerar e manter o amor e o vínculo.
Esse é o fundamento físico sobre o qual a mente construiu suas experiências de romance, angústia e afeto profundo, bem como seus laços com os familiares. Obviamente, o amor vai muito além do cérebro: a cultura, o sexo e a psicologia pessoal também têm grande influência. No entanto, muitas pesquisas em neuropsicologia do desenvolvimento trouxeram esclarecimentos sobre por que o amor pode tomar rumos tão errados – e como endireitá-los.

Amar é bom
O amor romântico está presente em quase todas as culturas humanas, o que nos leva a concluir que está enraizado em nossa natureza biológica – e também bioquímica (Jankowiak e Fischer 1992). Embora as endorfinas e a vasopressina estejam envolvidas na neuroquímica da união e do amor, o papel mais determinante é exercido provavelmente pela oxitocina (Young e Wang 2004).
Esse neuromodulador (e hormônio) produz sentimentos de afeto e carinho, e está presente em mulheres e homens, mas em maior quantidade nas primeiras. A oxitocina estimula o contato “olhos nos olhos” (Guastella, Mitchell e Dads 2008); aumenta a confiança (Kosfeld et al. 2005); suprime a excitação da amígdala cerebelar e promove comportamentos de aproximação (Petrovic et al. 2008); e deixa as mulheres mais propensas a comportamentos que envolvem cuidado e proteção, como defender a prole, em situações de estresse (Taylor et al. 2000) – tal reação também é conhecida pelo termo em inglês tend-and-befriend. Redes neurais distintas lidam com paixões fugazes e relacionamentos de longo prazo (Fisher, Aron e Brown 2006). Em seus estágios iniciais, é normal que um relacionamento romântico seja dominado por recompensas intensas, muitas vezes inconstantes, que usam expressivamente redes neurais envolvidas com a dopamina (Aron et al. 2005). Mais adiante, o relacionamento segue gradualmente para realizações mais estáveis que contam com a oxitocina e os sistemas relacionados. Mesmo assim, entre casais juntos há muito tempo e que ainda estão profundamente apaixonados, pequenas cutucadas contínuas de dopamina mantêm estimulados os centros de prazer do cérebro de cada um dos parceiros (Schechner 2008).

Perder um amor dói muito
Além de buscar o prazer do amor, tentamos evitar o sofrimento de terminá-lo. Quando há um rompimento, parte do sistema límbico das pessoas envolvidas é acionada – a mesma parte que é ativada quando são feitos investimentos de alto risco que podem acabar muito mal (Fisher, Aron e Brown 2006). A dor física e a dor social têm como base sistemas neurais sobrepostos (Eisenberger e Lieberman 2004): pode-se dizer, literalmente, que a rejeição dói.

Filhos e vínculos
Quando associados com outras influências – como psicológicas, culturais e circunstanciais –, esses fatores neurobiológicos frequentemente resultam, compreensivelmente, em bebês. Nesse caso, também, a oxitocina incentiva a criação de laços, sobretudo na mãe.
As crianças evoluíram para ser amadas; e os pais, para amar, uma vez que ligações fortes favorecem a sobrevivência na natureza. O sistema de apego conta com diversas redes neurais – que lidam com empatia, autoconsciência, atenção, controle de emoções e motivação – para tecer fortes ligações entre a criança e os pais (Siegel 2001). As experiências recorrentes que uma criança pequena tem com seus cuidadores passam por essas redes neurais, moldando-as e, portanto, configurando a maneira como a criança se relaciona com os outros e se sente em relação a si. Espera-se que dê tudo certo – mas essas experiências ocorrem numa idade em que as crianças estão mais vulneráveis; e seus pais, geralmente mais estressados e exaustos (Hanson, Hanson e Pollycove 2002), o que cria desafios internos. O relacionamento humano entre pais e filhos é singular no reino animal, e tem um poder particular de determinar como cada um de nós busca e expressa o amor quando adulto; no próximo capítulo, aprenderemos a lidar com as formas como você pode ter sido afetado.

O LOBO DO ÓDIO
Nosso passado evolutivo exclusivo nos tornou incrivelmente cooperativos, empáticos e amorosos. Então, por que a história do homem é tão cheia de egoísmo, crueldade e violência?
Fatores econômicos e culturais sem dúvida têm um papel nisso. Contudo, passando por diversos tipos de sociedade – caçadoracoletora, agrária e industrial; comunista e capitalista; oriental e ocidental –, na maior parte dos casos, a história é basicamente a mesma: lealdade e proteção para “nós” e medo e agressividade em relação aos “outros”. Já vimos como essa postura em relação a “nós” faz parte de nossa natureza. Agora vamos analisar como o medo e a agressividade se desenvolvem contra os “outros”.

Odioso e brutal
Por milhões de anos, nossos ancestrais foram expostos à fome, a predadores e a doenças. Para piorar, as oscilações climáticas trouxeram períodos terríveis de seca e eras do gelo, intensificando a competição por recursos escassos. De modo geral, essas condições adversas mantiveram as populações hominídeas e humanas essencialmente niveladas, a despeito de aumentos potenciais de 2 por cento ao ano (Bowles 2006).
Em meios hostis como aqueles, era vantajoso para nossos ancestrais, do ponto de vista reprodutivo, ser cooperativo dentro do próprio grupo, mas agressivo em relação a outros (Choi e Bowles 2007). A cooperação e a agressividade evoluíram de maneira sinérgica: bandos com maior cooperação entre seus membros obtinham melhor resultado quanto à agressividade, e a agressividade entre bandos demandava cooperação dentro dos bandos (Bowles 2009).
Assim como a cooperação e o amor, a agressividade e o ódio também envolvem diversos sistemas neurológicos. Veja a seguir.
• Na maior parte dos casos, a agressividade é uma resposta à sensação de ameaça, que inclui até mesmo sentimentos sutis de inquietação ou ansiedade. Pelo fato de a amígdala ser preparada para registrar ameaças e ser cada vez mais sensibilizada por aquilo que “concebe”, muitas pessoas se sentem cada vez mais ameaçadas com o passar do tempo. E, portanto, mais agressivas.
• Quando o sistema SNS/HPA é ativado, se você escolhe lutar em vez de fugir, o fluxo sanguíneo aumenta nos músculos de seus braços para bater, ocorre a piloereção, quando os pelos ficam eriçados, levando-o a ficar mais ameaçador em relação a um possível agressor ou predador, e o hipotálamo pode – em caso extremo – desencadear reações de raiva.
• A agressividade está relacionada com a alta taxa de testosterona – tanto em homens quanto em mulheres – e à baixa serotonina.
• Sistemas de linguagem nos lobos temporal e frontal esquerdo trabalham com processamentos visuais-espaciais no hemisfério direito para classificar os outros como amigos ou inimigos, pessoas ou coisas sem importância.
• A agressividade “hostil” – em que há grande ativação do SNS/HPA – frequentemente domina a regulação pré-frontal das emoções. A agressividade “instrumental” envolve pouca ativação do SNS/HPA e usa prolongada atividade pré-frontal. O resultado dessa dinâmica neural nós conhecemos muito bem: cuide bem dos “seus” e tema, despreze e ataque os “outros”. Pesquisas revelam que a maioria dos bandos modernos que caçavam e colhiam – que oferecem fortes indícios dos meios sociais onde nossos antepassados se desenvolveram – mantinha-se em constante conflito com outros grupos. Essas lutas, ao mesmo tempo em que não tinham o impacto e o terror das guerras atuais, eram, na verdade, muito mais letais. Um a cada oito homens morria em conflito, contra um a cada cem nas guerras do século XX (Bowles 2006; Keeley 1997).
O cérebro ainda possui essas habilidades e tendências. E está a serviço nas rodinhas formadas no pátio da escola, na política da empresa e na violência doméstica. (A competição saudável, a assertividade e a defesa veemente de alguém ou de uma causa importante diferem muito da agressividade hostil.) Numa escala maior, nossas tendências agressivas abastecem o preconceito, a opressão, a limpeza étnica e a guerra. Muitas vezes, essas inclinações são manipuladas, como na demonização dos “outros” na clássica justificativa para o controle autoritário. Porém, essas manipulações não seriam nem de perto tão bem-sucedidas se não fosse pelo legado da agressividade entre grupos em nossa história evolutiva.

O que ficou de fora?
O lobo do amor enxerga um vasto horizonte, com todos os seres fazendo parte do círculo “nós”. Esse círculo encolhe para o lobo do ódio, de modo que apenas seu país, sua tribo, seus amigos ou familiares – ou em caso extremo somente ele mesmo – são considerados “nós”, cercados por multidões ameaçadoras de “outros”. Na verdade, às vezes o círculo fica tão pequeno que uma parte da mente tem ódio da outra parte. Por exemplo, já tive pacientes que não conseguiam se olhar no espelho porque se achavam muito feios.
Existe um ditado zen segundo o qual nada fica de fora da consciência, nada fica de fora da experiência, nada fica de fora do coração. Conforme o círculo diminui, surge naturalmente a questão: o que é deixado de fora? As pessoas do outro lado do mundo, seguidoras de outra religião, ou os vizinhos de cujas opiniões políticas a pessoa discorda? Ou parentes complicados, ou velhos amigos que a magoaram? Poderia ser qualquer um que seja considerado inferior ou que seja usado apenas como um meio para determinado fim.
Assim que alguém exclui uma pessoa do círculo do “nós”, a mente/cérebro automaticamente começa a desvalorizá-la e a justificar o tratamento inadequado de sua parte (Efferson, Lalive e Feh 2008). Isso deixa o lobo do ódio agitado e em movimento, a uma pequena distância da agressão ágil. Pense em quantas vezes por dia alguém fica de fora do círculo, sobretudo de maneira sutil: “Ele não é da minha classe social”, “Não é meu tipo” e assim por diante. Note o que acontece em sua mente quando você se livra conscientemente dessa distinção e, em vez disso, se concentra no que existe em comum entre você e outro, o que os torna “nós”. Ironicamente, uma resposta para “O que ficou de fora?” é o lobo do ódio em si, que costuma ser renegado ou subestimado. Por exemplo, não fico à vontade ao admitir que me sinto bem quando o mocinho mata o bandido em um filme. Querendo ou não, o lobo do ódio está vivo e bem dentro de cada um de nós. É fácil ouvir a notícia de um assassinato horrível em outro estado ou de um ato de terrorismo e tortura do outro lado do mundo – ou mesmo de formas mais amenas de maus-tratos contra pessoas conhecidas – e balançar a cabeça, pensando: “O que há de errado com essas pessoas?” Só que essas pessoas, na verdade, somos nós. Todos nós temos o mesmo DNA básico. Não reconhecer a agressividade como parte de nossas características genéticas constitui certa ignorância – que é a raiz do sofrimento. De fato, como vimos há pouco, os intensos conflitos entre grupos auxiliaram a evolução do altruísmo em cada grupo: o lobo do ódio ajudou a dar à luz o lobo do amor.
O lobo do ódio está profundamente incrustado no passado evolutivo do homem, bem como no cérebro de cada pessoa atualmente, pronto para se manifestar diante de qualquer ameaça. Ser realista e honesto a respeito dele – e de suas origens impessoais, evolutivas – faz surgir a compaixão por si mesmo. Seu lobo do ódio precisa ser amansado, é certo, mas não é culpa sua se ele fica à espreita nas sombras de sua mente, e ele provavelmente o aflige mais do que qualquer pessoa. Além disso, admitir sua existência incita uma prudência muito útil em situações nas quais você se sente maltratado ou agitado (discutir com o vizinho, disciplinar uma criança, reagir a uma crítica no trabalho) –, e o lobo começa a acordar.
Quando você assiste ao noticiário da noite – ou ouve as crianças brigando –, às vezes tem a impressão de que o lobo do ódio dominou a existência humana. Da mesma forma como a súbita excitação do SNS/HPA se destaca contra um pano de fundo de ativação parassimpática em repouso, nuvens negras de agressividade e conflito chamam mais atenção do que o imenso “céu” de união e amor pelo qual elas passam. Contudo, na verdade, a maioria das interações tem uma qualidade cooperativa. O homem e os outros primatas constantemente reprimem o lobo do ódio e reparam seus danos, retornando a uma linha de relacionamentos razoavelmente positivos entre si (Sapolsky 2006). Na maioria das pessoas, na maior parte do tempo, o lobo do amor é maior e mais forte que o do ódio.
Amor e ódio vivem e se embolam em todo coração, assim como filhotes se engalfinhando em uma gruta. Não dá para matar o lobo do ódio; a aversão contida em tal atitude, na verdade, criaria aquilo que você está tentando destruir. Mas você pode vigiar o lobo com cuidado, mantê-lo preso e limitar seus sobressaltos, seu senso de justiça, descontentamentos, ressentimentos, desprezos e preconceitos. Ao mesmo tempo, alimente e estimule o lobo do amor. Veremos como fazer isso nos dois próximos capítulos.

 (Rick  Hanson com Richard Mendius - O Cérebro de Buda, neurociência prática para a felicidade)
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