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O marxismo é uma religião?

 

O comunismo foi uma forma de ressentimento. Foi um fundamentalismo político moderno, um engajamento num projeto histórico absoluto. Creio que o volume que surpreende, que capta melhor esta fome de transcendência que está na base da ideologia comunista é Os demônios, de Dostoievski. Igualmente, o romance póstumo confiscado pela Securitate por tantos decênios, de Dinu Pillat teve como fonte de inspiração Os demônios. Asteptând ceasul de apoi [ 3 ] (Editora Humanitas, 2010) constitui uma variante dos Bálcãs, mas contra os Balcânicos. Os pregoeiros de Pillat são, como observa Cosmin Ciotloş na revista România literară, os legionários, mas são também comunistas.

O totalitarismo comunista, como organização social, política, cultural, econômica é caracterizado por três elementos. Em primeiro lugar, pela recusa à memória. A aversão, a hostilidade diante da memória o faz mnemófobo. Ele age, por todas as suas instituições, para a destruição da memória. Em segundo lugar, é uma organização que procura a destruição dos valores, e, neste sentido, é axiófobo. E, não em último lugar, detesta o espírito, portanto é uma organização de tipo noofóbica. Portanto, o comunismo é mnemofóbico, axiofóbico e noofóbico.

Neste contexto, a memória, assim como nos ensinou também Monica Lovinescu, é uma forma de terapia e, em igual medida, uma forma de profilaxia. O passado foi e é ainda falsificado a olhos vistos. Assim como nos opomos às tendências negacionistas e revisionistas, e merecidamente, fazemos em relação ao Holocausto, é nossa obrigação opormo-nos às tendências negacionistas e revisionistas em relação ao que foi o comunismo. O comunismo fez milhões e milhões de vítimas, o comunismo representou o Mal na história. O mal é uma categoria teológica, é uma categoria moral, mas no século XX o Mal passa a ser uma categoria política. No século XX talvez seja a primeira vez em que o Mal é institucionalizado politicamente e passa a ser ideologia que inspira experimentos de engenharia social em massa. Não é qualquer tipo de mal, mas um Mal que falsifica o Bem em nome da felicidade universal. Esta experiência histórica foi soberbamente resumida por Leszek Kolakowski na fórmula “o diabo na história”. Esclareço que esta expressão não é pura e simplesmente uma metáfora, ela é a definição sintética da realidade que marcou fundamentalmente a vida de tantos povos. Dito de maneira simples, trata-se de tragédias resultantes das ambições ilimitadas e inconsideradas de forçar o curso da história em nome de uns ideais abstratos destinados a levar a comunidades políticas desenvolvidas, totalmente não contraditórias.

Escrevi muito no curso dos anos acerca do problema das sombras e dos fantasmas, dos espectros. Na verdade, os fantasmas aparecem no meio da madrugada e nos assolam continuamente. Há espectros que olham para o futuro e os que vêm do passado. O espectro que olha para o futuro é, evidentemente, o encarnado nas primeiras linhas do Manifesto do Partido Comunista. “Um espectro ronda a Europa: o espectro do comunismo”. Assim começa um dos mais famosos livros da história do pensamento político, que Leszek Kolakowski chamou o mais importante panfleto político já escrito. Um documento que continua a inspirar as energias, as paixões, o fanatismo. Outro espectro é o do fascismo, mas ele vem do passado. O Manifesto formulou a substância de uma ideologia cujo escopo principal foi a transformação da sociedade, da economia, da cultura e, não por último, da natureza humana.

O marxismo foi, antes de tudo, um projeto demiúrgico fixado acerca da destruição da sociedade burguesa fundamentada no culto da propriedade privada. Procurou transcender uma sociedade irremediavelmente reificada para preparar as forças sociais revolucionárias para o confronto final que traria consigo “o salto do império da necessidade para o império da liberdade”. Para Marx, a convicção de que a História é governada por leis equivaleu ao fato de estas leis poderem ser conhecidas. Em consequência, a sua Weltanschauung [ 4 ] foi necessariamente científica, não utópica, distinguindo-se assim de qualquer outra forma anterior de socialismo.

Para Marx, a aspiração à revolução tinha o papel de derrubar, de mudar completamente. Tratava-se de uma revolução apocalíptica, um cataclismo. Esta revolução é, segundo escrevia Raymond Aron, mais do que uma explosão social, uma simples substituição de um regime por outro. O escopo é de fato uma completa derrubada dos valores. É uma revolução antropológica e, o que é mais importante, uma renovação da condição humana. A revolução comunista não se ocupa apenas de economia. A ênfase colocada no materialismo é uma que deve mudar mais profundamente a parte das infraestruturas emocionais, sentimentais, psicológicas das necessidades humanas. Por que credes que em regimes comunista se colocava a ênfase no controle sobre o corpo humano? Por que credes que se chegava ao problema da alimentação racional? Ferenc Fehér, Ágnes Heller e Gyögy Márkus enfatizaram corretamente que o cerne da existência no comunismo e a essência deste sistema era a ditadura sobre as necessidades humanas. Não podes construir o homem apenas pela educação, tens de apelar também para a base do homo economicus, que é fundamentada no princípio da propriedade privada.

François Furet, num livro favorito de Monica Lovinescu, O passado de uma ilusão (Editora Humanitas, 1996), afirma que a relação direta entre fascismo e comunismo encontra-se no coração do século XX. O espectro do comunismo olha para o futuro, o espectro do fascismo vem do passado. Um é primordialista, outro é antiprimordialista – uma hipótese de trabalho. Considero, portanto, que o verdadeiro conflito do século XX foi o dentre as democracias liberais e seus rivais totalitários. Esses dois totalitarismos, no fundo da sua experiência histórica simultânea, situaram-se entre uma “intimidade negativa” no contexto europeu de guerra e revolução. Representaram um ataque atroz contra a modernidade liberal e uma alternativa terrível a ela. O comunismo e o fascismo são gênios totalitários, são dois gêmeos totalitários. Não tens como falar do comunismo sem falares do fascismo, e vice-versa. Nasceram um do outro. Se no caso do comunismo dizemos que é uma patologia do universal, o nazismo, o fascismo representam uma patologia do particularismo. Essas duas grandes patologias atraíram seus adeptos à medida que conseguiram produzir o discurso mais contagioso, o mais persuasivo. Não contaram as verdades factuais, inclusive no nível dos nostálgicos.

Todos os grandes temas da religião cristã – a queda, a felicidade original, o reencontro, a expiação, o sujeito messiânico – se reencontram no mito histórico-escatológico do marxismo. É um discurso fundamental da modernidade que contrapõe as assim ditas forças da reação ao barbarismo e ao declínio dos que representam o progresso histórico. Promete a salvação por intermédio da destruição de um sistema percebido como sendo baseado na dominação, na exploração e na alienação. Nesta visão soteriológica, o proletariado é o salvador da humanidade ou, assim como Marx afirmou na sua própria juventude, a classe-Messias da história. O comunismo como religião secular é, portanto, um projeto transcendental. Promete uma mutação cósmica, a transformação da condição humana. Na verdade, uma imagem famosa: o salto do império da necessidade no da liberdade. E ao proletariado cabe a missão de encarnar a figura do herói messiânico. A salvação nasce exatamente desta cesura total, em que ao proletariado volta à missão de encarnar a figura do herói messiânico. A ideologia marxista-leninista constituiu-se com base neste messianismo revolucionário.

O marxismo funda-se no culto da razão da história, ambas sacralizadas, baseia-se na convicção de que pode ser construído como modelo mental que configura, inventa as leis da história. Com base no conhecimento dessas leis, os adeptos do comunismo estão na situação de não errar nunca, porque dominam os princípios da História. O grande historiador americano Martin Mallia afirma: “Qual é a diferença entre os comunistas e os primeiros cristãos: os primeiros cristãos sabiam que criam; os comunistas criam que sabiam”. Isto se traduziria no princípio da inelutabilidade, da infalibilidade epistêmica do comunismo. O comunismo não pode errar. A linha do partido é inevitavelmente a correta, indiferente de quanto oscile. Na verdade, a linha do partido foi sempre uma linha senoidal. Há uma piada famosa dos anos de 1930, que encontramos nas memórias de Arthur Koestler: “P: Quem é que se desvia do partido? R: O que se desvia do partido é um tipo que corre, corre, corre e não olha nunca para trás, para ver se o partido virou à direita ou à esquerda.” O escopo leninista supremo foi a eliminação (a extinção) da política pelo triunfo do partido como personificação de uma vontade geral exclusiva, mesmo eliminacionista/exterminista. Em condições de uma certeza monista, o reconhecimento da falibilidade é o começo da extinção de qualquer fundamentalismo ideológico.

O marxismo fundamenta-se no culto da razão mediata pelo agente messiânico da História. Fundamenta-se no culto da ciência, da tecnologia e do progresso. No caso do comunismo podemos aceitar a posição de François Furet, que chamava o comunismo uma patologia do universalismo. A filosofia marxista postula o papel do proletariado como agente histórico universal. Daqui também a significação do tema internacionalista, respectivamente como revolução de Marx é, tem de ser, e não pode deixar de ser assim do que global. O marxismo nasceu no século XIX, como resposta à crise da modernidade burguesa. Assim como disse Marx, os filósofos, em especial os que se ocupam do drama do político, não aparecem como cogumelos depois da chuva, mas em condições precisas. Marx foi dos primeiros filósofos que se ocuparam do drama do político. A visão central do marxismo foi a de uma comunidade perfeita, destinada a suprimir antes de tudo a “alienação”, tema que vem de Hegel e de toda a filosofia romântica alemã.

A atração exercida pela doutrina marxista depende de uma estrutura metafórica profunda, do que Alvin Gouldner chamou certa vez a matriz paleossimbólica desta filosofia. O que Karl Popper sublinhava então quando falava da tensão entre a dimensão profética, a oracular e a positivista-cientificista do coração do marxismo. O marxismo exprime a revolta contra a moralidade burguesa. O ateísmo encontra-se mesmo no coração deste projeto que diviniza uma humanidade definitivamente emancipada. As religiões seculares são, em suma, antirreligiões. Colocam neste mundo a salvação da humanidade, num futuro mais ou menos distante e sob a forma de uma ordem social que passa a ser inventada. A promessa universalista do comunismo alimentou por decênios a fascinação pela utopia social, portanto, para a soteriologia do marxismo. O século curto que acabou de terminar é uma longa história de descarrilamentos dos que estão em permanente procura da comunidade perfeita, da Sião da humanidade.

Outro ponto de que quero tratar é o problema da mística da revolução, da fraternidade e do fim de qualquer forma de injustiça. Qual é a vocação do comunismo? Como o comunismo chega a convencer? Não creio que resolveremos o problema levantado neste ensaio se afirmarmos pura e simplesmente que foi algo aberrante. O comunismo tem de ser discutido como uma forma de pensamento, uma forma mental. Milhões e milhões de homens não podem compartilhar todos, uma aberração. É mais simples dizeres: é uma aberração, uma demência, e com isso encerramos a discussão. O comunismo foi parte da espiritualidade moderna do Ocidente, da tradição deste nos últimos três séculos. Qual é a idéia-premissa do comunismo? É a luta contra a injustiça, o igualitarismo, que se encontra como outro mito fundamental no coração do projeto socialista. O comunismo é uma utopia coletivista-igualitária que exerceu uma fascinação para o militarismo, especialmente para os intelectuais revolucionários. Por que tantos homens “caíram” no comunismo? O segredo é, diz Aleksander Wat em discussão com Czeslaw Milosz: la fraternité. Em conseqüência, liberté, egalité, mas a mais importante na tríade respectiva é a fraternidade. Gerações inteiras de intelectuais marxistas apressaram-se em aniquilar a própria dignidade e autonomia nesta corrida apocalíptica para a obtenção das certezas últimas. Toda a tradição do racionalismo cético ocidental foi sacrificada no altar da unidade no credo, sob o impacto da iluminação trazida do Kremlin. A época da razão culminou no universo congelado do terror racionalizado.

Igualmente, no coração das religiões seculares encontra-se o maniqueísmo. Vemo-lo também no caso do marxismo, onde é, sem dúvida, muito menos elaborado. É muito mais fácil fazeres uma análise da ideologia nazista, pelo simples fato de que, segundo dizia uma saudosa professora de história da filosofia, Florica Neagoe, numa discussão privada que tivemos em Bucareste no começo dos anos de 1970: “os nazistas não deram nenhum grande filósofo”. Isso em caso de não aceitarmos a aberração de que Heidegger foi um filósofo nazista. Heidegger foi um pensador que, por motivos que podem ser discutíveis aqui e ali, num dado momento, namorou o nacional-socalismo. No caso do marxismo temos que ver com a divinização da humanidade, de um lado, mas também, por outro lado, a divinização da humanidade em frontes opostos: a humanidade boa e a humanidade má. A humanidade má é destinada praticamente do ponto de vista político, e a predestinada, do ponto de vista conceptual. Um papel importante no livro de Ernst Nolte acerca da guerra civil européia é a citação do líder bolchevique da organização de Petrogrado, que haveria de ser executado em 1936, Grigore Zinoviev, que no começo do Terror Vermelho afirmava: “Construiremos o socialismo a qualquer preço. Construiremos o socialismo mesmo se o preço for o extermínio de 10 milhões de pessoas”. Creio que a Rússia, na respectiva época, tinha 100 milhões de pessoas. Lênin lê essa afirmação e fica um pouco horrorizado com ela. Mas acrescenta: “Certamente, mas não anunciemos”. O problema de Lênin era não tornar pública essa questão, o resto era aceitável. Na ideologia bolchevique, uma humanidade foi considerada inferior, obsoleta, ultrapassada pela História. Era formada dos predestinados, levados à condição de vermes, de insetos.

Três elementos explicam o sucesso extraordinário das religiões seculares: o milagre, o mito e a magia. A percepção maniqueísta acerca da humanidade permitiu a santificação da violência. A violência passa a ser o elemento absoluto. O Manifesto do Partido Comunista impõe de fato o culto da violência, celebra a violência, exalta, exulta a violência. A história de todas as sociedades humanas é apresentada exatamente como uma história da luta de classe. Absolutamente falsa do ponto de vista antropológico. Mas a luta de classe passa a ser mito político, e este não precisa ser verdadeiro, funcionando por credibilidade, não por veracidade. A credibilidade do mito político gera a capacidade de utilizar as energias revolucionárias e de fazer os homens sair para a rua. O primado da libertação fez que a violência, santificada como ato libertador, fosse situada no coração do projeto marxista. Mais tarde, o leninismo usou e abusou dessa filosofia do Aufhebung histórico-revolucionário. Impôs o primado do partido de vanguarda, em condições de ausência de um proletariado maduro numa Rússia sub-desenvolvida industrialmente. Como gnose política, a filosofia bolchevique propôs o oposto do que Marx enfatizou em seus escritos de juventude, ou seja, o desenvolvimento espontâneo da consciência de classe. Assim como Lukács, para Marx, a classe revolucionária era a encarnação da totalidade, criando para si, dessa forma, as premissas para chegar à verdade histórica. Mas para Lênin, o partido preenchia tal função. Esta diferenciação foi o ponto de partida para as diferenças essenciais entre o marxismo soviético e o ocidental, do conflito entre Lênin e Rosa Luxemburgo, até o final do século passado.

Que acontece com a tradição de Marx até Lênin e, principalmente, como explicarmos a ideologia sectária do bolchevismo? De modo evidente, o comunismo não foi uma religião explícita. O leninismo provém do encontro entre uma tendência autoritária do marxismo, o voluntarismo marxista, o culto da violência e a hybris histórica do radicalismo revolucionário russo, do qual escreve tão profundamente Dostoievski em Os demônios. Lênin é o asceta revolucionário por excelência, o filho do século XX. Igualmente, o século passado pertenceu a Lênin. Começou com a ruptura entre o bolchevismo e o menchevismo, com o livro célebre Que fazer? que é em si uma réplica tardia do romance homônimo, excepcional documento político, de Tchernicheviski. A pedagogia pressuposta nesta obra antecipa o transformismo antropológico radical de Makarenko. A personagem de Tchernicheviski, Rahmetov, não suporta o enfraquecimento. De modo similar, quando colocam num gramofone a Appassionata para Lênin para escutar, diz ele: “Para, se ouvir mais, enlouqueço!” Não consegue; diante da beleza reage com susto. A beleza tem de ser barrada. Vai para Paris, passa um ano ali, não visita nenhum museu da cidade, a não ser o dos partidários da Comuna de Paris. De um lado, Lênin demonstra um altruísmo exaltado, mas de outro lado, um desejo de culpar a todos os que não se submetem a este gênero de altruísmo.

Assim como mencionei, há duas direções na mensagem de O Manifesto do Partido Comunista que antecipam as elaborações futuras da teoria marxista. De um lado, é a ênfase colocada no desenvolvimento autônomo, orgânico da consciência de classe. De outro lado, temos a glorificação e o culto da violência. A perpetuação de tal dicotomia na história e evolução do marxismo põe em evidência o problema central desta filosofia política: o da moralidade da práxis revolucionária. O Manifesto demonstra a ambivalência letal da emancipação consagrada pela violência: em nome da democracia proletária autêntica, as liberdades formais devem ser suspensas, e mesmo reprimidas. Para atingir um nível alto de moralidade, que transcende a hipocrisia burguesa, a moralidade tradicional deve ser ab-rogada. O marxismo pretende deter os freios do destino da humanidade, porque afirma que tem a solução para as agonias e as ansiedades milenares da sociedade. Não creio que existiu alguma vez outro projeto revolucionário impregnado de uma pretensão profética mais ampla ou de um sentimento mais maciço de predestinação carismático-histórica. Deste ponto de vista, o mito “do partido de tipo novo” de Lênin é um eco fiel do mito de Marx da classe predestinada, que passa a levar a salvação da humanidade para além de suas próprias condições subjetivas.

Em The Road to Terror, afirmam Oleg Naumov e Arch Getty: “Para os bolcheviques, a existência foi um subgrupo da existência da multidão, da existência no quadro do partido, e a vida do partido prevalecia acima da própria vida física. Mesmo o suicídio, o mais pessoal dos atos, tinha uma significação política à parte para os bolcheviques.” Nikolai Bukarin é o caso clássico de vítima que glorifica o torcionário. Pede perdão a Stálin pelos crimes de pensamento que cometera. Stálin manteve em seu escritório pessoal, até o dia de sua morte, as cartas de Bukarin. Encontravam-se entre os poucos objetos preciosos de Stálin. A coleção de cartas do melhor amigo, a quem condenara à morte e executara. Bukarin escreve a Stálin, implorando que lhe poupasse a vida, assegurando-lhe seu devotamento total, glorifica a “paciência angélica” de Stálin. Nisso consta o mecanismo grotesco que se chamou crítica e autocrítica.

Nikolai Bukarin nasceu em 1889, sendo 19 anos mais moço do que Lênin. Provinha de uma família russa de intelectuais, tinha estudos de filosofia. Lênin simpatizava muito com ele. A relação é muito próxima e ele é praticamente o filho de Lênin. Passa a ser, no exílio, o redator-chefe do Pravda. Seus escritos, entre os quais ABC do comunismo, são muito importantes para a tradição filosófica marxista. Houve também polêmicas significativas entre Lênin e Bukarin. Mas depois de 1917, passa a ser membro do Escritório Político, muito próximo de Stálin. Depois de 1926 é nomeado presidente da Internacional Comunista, até 1929, depois do quê, é eliminado como oposicionista desviante de direita. É nomeado redator-chefe de Izvestia e membro suplente do Comitê Central. Foi um dos autores da Constituição stalinista de 1936. É enviado a Paris para localizar o arquivo histórico Marx-Engels. Depois da chegada ao poder dos nazistas na Alemanha, o Partido Social-Democrata Alemão, possuidor do arquivo, decide tirá-lo da França, com a correspondência e tudo. Bukarin recebe pessoalmente de Stálin a missão de recuperar o arquivo. Em Paris encontra-se também com um dos seus amigos. Há discussões muito interessantes, que provam que Stálin é absolutamente demente e que, existe a famosa fórmula, “não é um ser humano, não é um homem como nós”. E, no entanto, porque sua esposa tinha ficado em Moscou – ela era muito mais jovem que ele (sobreviveu juntamente com o filho de Bukarin depois dos anos de Gulag) –, volta e, em 1937, é preso, inquirido e, por fim, confessa. Confessa no terceiro e mais espetaculoso processo de Moscou de 1938. Parcialmente, é a personagem central do romance de Arthur Koestler conhecido como O Zero e o infinito ou Escuridão ao meio-dia. Koestler não tinha como ler as cartas de Bukarin a Stálin. Foram publicadas no período de glasnost e perestroika e foram citadas em The Road to Terror. A confissão de Bukarin é muito interessante, porque ele diz num dado momento: “A história universal é o tribunal supremo”. Em outras palavras, ali veremos quem foi criminoso e quem não foi. E afirma ainda num dado momento: “Somos o estado socialista e saúdo o fato de não seguirmos os métodos da Inquisição medieval”. Esta era uma alusão clara ao princípio de Vischinski conforme o qual a confissão do acusado tem valor documental e probatório. Segue o modelo da Inquisição. Numa carta de 10 de dezembro de 1937, Nikolai Bukarin escreve de sua cela em Lubianka a Stálin: “Preparo-me para partir deste vale de lágrimas e não nutro a teu respeito, do partido e da causa, senão um grande amor infinito”.

Stálin prepara-se para matá-lo, ele sabe que vai morrer, e a última coisa que escreve a Stálin é “um grande amor infinito”. “Adeus para sempre e lembra-te com amor de teu infeliz N. Bukarin”. Se é para tomarmos algures o conceito de religião secular, não creio que possa ser encontrado um texto que apresente melhor o mito, a magia e o milagre e, por que não, o eros da tentação totalitária. É um amor profundo.

O problema aqui não é nem de inteligência, nem de erudição. Nosso problema é como, por que e em que condições se pode chegar a esse estado de êxtase coletivo que não podemos encontrar senão no quadro de algumas formas de experiência religiosa. De oportunismo e compromisso não nasce o sistema de crença comunista. Stálin dizia a Djilas: “Olha o mapa, eles não vão aceitar nunca que é vermelho.” Ele crê até o final que este mapa é vermelho. Ora bem, tratava-se do que se chama um salto para uma crença no momento respectivo. Nisto consta a fenomenologia do radicalismo político do século XX, um século que prendeu György Lukács ou Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre ou Ernest Hemingway, para dar apenas alguns exemplos, no que Hannah Arendt chamou “as grandes tempestades ideológicas do século XX”. No comunismo, tudo veio da ideologia. O grupo designado para o extermínio, desclassificação ou para a marginalização tinha obtido seu lugar na sociedade com base numa predestinação histórica pressuposta, identificada pelo agente messiânico, o Partido, que, a seu turno, representava a classe-Messias, o proletariado.

O bolchevismo acrescenta algo novo às mitologias revolucionárias do século XIX: a inclusão do poder num tipo de representação que define o partido como entidade mágica. A glorificação do estatuto predestinado do partido, juntamente com a insistência obsessiva sobre as formas conspiradoras de organização (“as células” revolucionárias) e com um culto de arregimentação fanática geraram uma nova forma de radicalismo político, irreconciliável com a tradição liberal individualista ocidental ou, ao menos a esse respeito, com o socialismo democrático (liberal) anti-autoritário. Iuri Piatakov, um dos favoritos de Lênin da geração jovem da velha guarda bolchevique, exprimiu esta identificação nos termos mais dramáticos: “Sim, considerarei preto algo que senti e considerei branco, uma vez que fora do partido, fora do acordo com o partido, não existe vida para mim.” Foi executado em 1937. O absolutismo ideológico, a sacralização do escopo supremo, a suspensão das faculdades críticas e o culto da linha de partido como expressão perfeita da vontade geral foram incorporados no projeto bolchevique original. A subordinação de todos os critérios morais convencionais diante do escopo supremo de obtenção de uma sociedade sem classe constituiu o principal problema do leninismo. Este compartilhava com o marxismo o que Steven Lukes chamava “a visão emancipada de um mundo em que os princípios que protegem um ser humano de outro já não serão necessários”. Considero que este desmantelar do indivíduo e da moralidade pressuposta pela assunção da autonomia da própria personalidade representa a chave de entendimento do efeito magnético exercido pelas religiões seculares no século XX.

O declínio do marxismo como estratégia de transformação radical da sociedade significou o fim da época do radicalismo. Mas ao mesmo tempo o componente utópico do marxismo mantém a sua relevância e influência. A durabilidade deste último é explicável por intermédio da pretensão cientificista da doutrina. O marxismo subordinou o imperativo ético à sua ambição hiper-racionalista e ultrapositivista. Para Marx, o não reconhecimento da validade de seus postulados foi o mesmo que a cegueira histórica, que a alienação ideológica do sujeito, que “a falsa consciência”. Todos os que não conseguiram interiorizar os axiomas do marxismo passaram a ser advogados do status quo, as vítimas alienadas dos mistificadores ideológicos. O Manifesto do Partido Comunista foi o texto sacro que proclamava a legitimidade moral da revolução total. Neste sentido, prescreve o marxismo como o substituto secular da religião tradicional. O seu milenarismo explica o magnetismo deste texto. Impôs o marxismo como doutrina do novo heroísmo romântico, do coletivismo inflamante. Abre a epopeia do conflito irremediável no quadro da sociedade humana, a fonte justificativa de esperança e de ilusões dos que escolheram o caminho radicalmente transformista. Em última instância, ligado a sua materialização concreta na história, O Manifesto é, também, o ponto de partida da terrível engenharia social extremista do século XX. É o documento em que Marx e Engels proclamaram aos adeptos o caminho imutável em direção ao novo Jardim do Homem. Mas é le livre de chevet [ 5 ] do extremismo de esquerda assolado pelo sonho apocalíptico da libertação universal da humanidade.

Concluindo, para parafrasear Žižek (que a seu turno imita Heidegger, esquecendo, convenientemente, que este último se referia à sua própria afirmação do nazismo no ano de 1933), houve ou não uma grandeza histórica do bolchevismo? Pessoalmente, creio que a grandeza histórica não pode ser separada da ética. Deste ponto de vista, faço parte do grupo, provavelmente anacrônico, daqueles para quem a grandeza dos desfiles nacional-socialistas ou bolcheviques não pôde convencê-los do valor moral do que acontece. O bolchevismo, em qualquer de suas encarnações, procurou a criação de um corpo social perfeitamente homogêneo, a liquidação do cidadão e do espírito cívico. Parafraseando Lênin, o comunismo teve como objetivo a limpeza da terra de todos os insetos danosos. Não creio que o tipo de religião secular que encontrei, o fascismo ou o comunismo, tenham ainda um futuro. Ideologicamente desapareceram, mas não pereceram a recusa de deliberação democrática e o desprezo pelos “valores sentimentais burgueses”.

 

(VLADIMIR TISMĂNEANU - do comunismo,O destino de uma religião política)

 





2 Uma primeira versão deste texto foi apresentada no quadro das conferências “Monica Lovinescu” do Instituto de Investigação dos Crimes do Comunismo e a Memória do Exílio Romeno (IICCMER), no mês de junho de 2010. O autor agradece a Florin Soare pela transcrição e uma primeira edição.



3 Esperando a hora da morte – NT.



4 Em alemão, no original, “visão de mundo” – NT



5 Livro de cabeceira – NT



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  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D