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Dionísio, ou desejo

por Thynus, em 04.11.14

"Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance."

(Fernando Pessoa)

 

O coração é no Ocidente o símbolo da emoção. Dionísio é o deus das emoções. Emoção é o que dá fogo, o que dá intensidade aos sentimentos humanos. O coração palpita pela influência do fogo. O que faz nosso coração palpitar de felicidade ou medo, nos faz sentir um aperto no coração ou um calor que alastra do coração é a emoção.

[...] os deuses em sua previdência lhe reservaram [ao coração] um socorro: o pulmão, exangue e mole, cheio de buracos como uma esponja sobre a qual o coração pode à vontade saltar e acalmar-se. (DETIENNE, 1988, p.104)

O coração está tão ligado ao mito de Dionísio que no momento em que o deus é desmembrado e fervido, o que resta de sua essência é seu coração. Este é o órgão que primeiro se move no embrião, e o último órgão a cessar na morte. (DETIENNE, 1988) O coração tem como função jorrar a vida, assim também é o phállos, símbolo de Dionísio. O phállo possui a mesma característica que o coração, é um órgão autônomo, que pulsa, que jorra.

Dionísio é o mestre da fecundidade animal e humana, ele é denominado phalenos (FORTUNA, 2005). Mas Dionísio não possui o monopólio do falo, já que este símbolo também está ligado a Afrodite, Pã e especialmente a Príapo. A procissão do phállos tem um importante lugar nas festas gregas em geral. (FORTUNA, 2005)

O falo e o coração apresentam a mesma potência de Dionísio, uma potência vital da natureza, que também é contemplada no símbolo do vinho que jorra - em Olímpia havia uma festa onde “Dioniso encontra um teatro para sua epifania. Sob dupla forma: um touro salta para o sacrifício; de repente o vinho enche as cubas intactas” (DETIENNE, 1988, p.95-96) -. O falo não está representando uma parte do corpo masculino, ele transcende o corpo, assim como o vinho ultrapassa os limites de um simples complemento de um banquete. (SISSA; DETIENNE, 1990) O coração, o falo e o vinho estão servindo de metáfora à onipotência de Dionísio, sua força vital, a efervescência da vida que jorra, salta, dança.

(MARIANA CARDOSO PUCHIVAILO - UMA FERIDA DOCE, UM MAL SUAVE: A SABEDORIA DIONISÍACA NO CUIDADO À SAÚDE MENTAL)

 

O falo é a marca da falta e, em geral, da diferença, e, em particular, da diferença sexual. Como a marca da falta, refere-se ao fato de que o sujeito não está completo em si mesmo.
(Teresa Brennan - "Para Além do Falo")

 

O Grande Hierofante dos Magos explicou a Circuncisão. O membro viril é considerado como especialmente consagrado ao Criador, seja como símbolo, seja como conduto do poder e dos desejos divinos a serem cumpridos. Antigamente, para se tornar o juramento de uma pessoa, ela devia colocar a mão sobre o Falo do ser a quem fazia o voto ou a promessa. Hoje jura-se sobre a cruz.

(Jorge Adoun - Do Sexo à Divindade

 

A partir da psicanálise sobretudo (mas não somente a partir dela), considera-se a sociedade ocidental, de origem judaico-cristã, como uma sociedade falocrata (phalo = pênis; krathós = poder) e patriarcal (sob o poder do Pai). O falo (isto é, o pênis como objeto simbólico), representado consciente e inconscientemente como origem de todas as coisas (poder criador), como autoridade (a Lei como lei do Pai) e sabedoria, é aquilo que a mulher não possui e deseja. Marcada por uma falta ou carência originária, por uma lacuna, a mulher seria um ser que sexualmente se caracterizaria pela inveja do pênis, enquanto o homem, rival do Pai, seria sexualmente marcado pelo medo da perda do pênis, isto é, pelo medo da castração. Em nossa sociedade, portanto, a repressão sexual operaria a partir daquela inveja e daquele medo. Pouco a pouco, os estudiosos acabaram generalizando essa idéia para todas as sociedades patriarcais.

(MarilenaChaui – “Repressão Sexual”)

(Esta fábula reaparece, ampliada e completada, no Livro II de De Augmentis Scientiarum)
 
 
Narram [os poetas] que Sêmele, amante de Júpiter, fê-lo proferir o juramento inviolável de satisfazer-lhe um desejo, qual quer que fosse. Pediu então que ele a possuísse sob a mesma forma com que possuía Juno. A conseqüência foi que a jovem pereceu incinerada em seu abraço. A criança que trazia no ventre foi recolhida pelo pai e costurada em sua coxa, até cumprir-se o tempo da gestação. O peso obrigava Júpiter a manquejar; e a criança, por causar-lhe dor, recebeu o nome de Dioniso. Depois de nascer, foi enviada a Prosérpina, que dela cuidou por alguns anos; mas, quando cresceu, seu rosto se parecia tanto com o de uma mulher que era difícil saber de qual sexo era. Além disso, morreu e ficou sepultado por certo tempo, para logo voltar à vida. Em sua primeira juventude, Dioniso descobriu e disseminou a cultura da vinha, bem como a composição e o uso do vinho, até então desconhecido. Já famoso e ilustre, subjugou o mundo inteiro e avançou até os limites extremos da Índia. Era conduzi do num carro puxado por tigres, tendo à volta uns demônios deformados e saltitantes chamados Cóbalos, Ácrato e outros. Também as Musas se uniram a ele. Tomou para esposa Ariadne, a quem Teseu traíra e abandonara. Tinha por árvore sagrada a hera. Creditam-lhe ainda a invenção e instituição de cerimônias e ritos sagrados, que eram, no entanto, fanáticos e corruptos, além de crudelíssimos. Detinha o poder de excitar o frenesi. Pelo menos dois varões ilustres, Penteu e Orfeu, sucumbiram às mãos de mulheres enlouquecidas em suas orgias, que os fizeram em pedaços – o primeiro por ter subido a uma árvore a fim de espiá-las, o segundo enquanto tangia a lira. Muitas das ações desse deus confundem-se com as de Júpiter.
A fábula parece tratar dos costumes, e de fato nada melhor se encontra na filosofia moral. Sob os traços de Baco descreve-se a natureza do Desejo, ou paixão e perturbação. Com efeito, a mãe de todos os desejos, ainda os mais perniciosos, outra não é que o apetite e o anseio por bens aparentes; sua concepção se dá sempre por uma promessa ilícita, feita antes de ser medida e ponderada. Mas quando a paixão se aquece, a mãe (isto é, a natureza do bem), incapaz de suportar-lhe o calor, é devorada pelas chamas. A própria paixão, de início, permanece na alma huma na (que é seu pai, representado por Júpiter), sobretudo na parte baixa, qual se fora na coxa, sendo ali nutrida e ocultada. A tal ponto punge, incomoda e deprime a alma que suas resoluções e ações como que claudicam. E mesmo depois que cresce e se transforma em atos, por indulgência e costume, fica durante algum tempo aos cuidados de Prosérpina – ou seja, busca locais secretos e mantém-se oculta como sob a terra. Mas então, rompendo todos os entraves do pudor e do medo, faz-se ousada e assume ou a máscara de alguma virtude ou, insolentemente, a própria infâmia. Com verda de se diz que toda paixão inflamada é de sexo duvidoso, pois tem ao mesmo tempo a força do homem e a fraqueza da mulher. Diz-se também com igual verdade que Baco voltou à vida depois de morrer: as paixões parecem às vezes adormecidas e extintas, mas delas não se pode fiar ainda que hajam sido sepultadas porque, fornecidos o pretexto e a ocasião, ressurgem.
Formosa parábola, a da invenção do vinho. De fato, as paixões descobrem seus próprios estimulantes com muita sagacidade e engenho. E nada do que conhecemos é tão vigoroso e eficiente quanto o vinho para excitar perturbações de todo tipo, das quais é como que o combustível comum. Com idêntica finura se representou a Paixão como subjugadora de províncias e empreendedora de conquistas sem fim. Ela jamais se contenta com o que possui, mas vai adiante com insaciável apetite, à cata de novos triunfos. Tigres são mantidos em suas cocheiras e recebem o jugo de seu carro – pois logo que a Paixão deixa de avançar a pé para deixar-se conduzir por rodas, celebrando sua vitória sobre a razão, passa a mostrar-se cruel, selvagem e impiedosa para com tudo o que lhe barra o caminho. Jocosamente foram colocados aqueles demônios ridículos a dançar à volta do carro: com efeito, toda paixão produz nos olhos, na boca e no corpo movimentos indecorosos, incontidos e disformes. Quando um homem, sob a influência da paixão – cólera, petulância, amor etc. –, parece grande e imponente a seus próprios olhos, aos olhos dos outros parece desagradável e ridículo. Convém igualmente que as Musas integrem o cortejo, pois quase não há paixão que não encontre uma doutrina para incensá-la. Assim a majestade das Musas se rebaixa graças à leviandade do engenho humano, transformando aqueles que deveriam ser os guias da vida em meros seguidores de suas paixões.
Nobre é a parte da alegoria que representa Baco consagrando o seu amor a uma mulher abandonada por outro homem. Verdadeiramente, a paixão busca e apetece aquilo que a experiência rejeitou. E saibam todos quantos, no afã da busca e da indulgência, estão prontos a pagar qualquer preço pelo gozo de seus afetos, que independentemente do objeto pretendido – honra, fortuna, amor, glória ou sabedoria –, cortejarão coisas rejeitadas, coisas que muitos homens experimentaram e, após a experiência, deitaram fora com desgosto.
Tem também seu mistério a consagração da hera a Baco. Essa planta apresenta, com efeito, duas propriedades: floresce no inverno e sobe espalhando-se pelas coisas – árvores, paredes, edifícios. Quanto à primeira, toda paixão desabrocha e ganha forças ante a proibição e a resistência (como por uma espécie de antiperístase), tal qual se dá com a hera ante o frio do inverno. Quanto à segunda, a paixão dominante espraia-se por sobre todos os atos e resoluções humanas, insinuando-se neles e com eles se mesclando. E não causa espanto que os ritos supersticiosos sejam atribuídos a Baco, já que todo afeto insano cresce nas religiões depravadas, nem que o frenesi seja por ele despertado, porquanto toda paixão é em si mesma uma loucura breve – e, quando veemente e obstinada, termina em desfaçatez. O dilaceramento de Penteu e Orfeu apresenta um evidente significado alegórico: a bisbilhotice e a advertência salutar são, ambas, odiosas e intoleráveis a uma paixão obstinada.
Finalmente, a confusão das pessoas de Baco e Júpiter pode ser entendida como uma parábola. Os feitos de rara distinção e mérito procedem às vezes da virtude, da razão clara e da magnanimidade, outras (embora possam ser celebradas e aplaudidas), de alguma paixão latente ou desejo oculto. Por isso, as proezas de Baco não se distinguem facilmente das de Júpiter.

(Francis Bacon - A sabedoria dos antigos)

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