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DIONÍSIO: O MITO

por Thynus, em 01.12.15
"Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance."
(Fernando Pessoa)
 
Os gregos e romanos surgem como bastante liberais. Em Pompéia
existem gráficos e pinturas que tratam das atividades sexuais, expressadas
com mais naturalidade e menos inibição do que hoje em dia. O falo (pênis),
personificação do deus Facsinus, era venerado como símbolo da fertilidade e
da abundância. Esculpido em vários tamanhos e diversos materiais, esse
símbolo era excluso de qualquer conotação obscena, e encontrava-se tanto nas
habitações particulares como nos edifícios públicos.
Na Grécia, a mitologia e os costumes dos gregos estavam impregnados
por envolvimentos sexuais. Zeus foi um dos deuses mais notáveis neste campo.
Pai de diversos deuses e semideuses, ele pode ser entendido como uma força
masculina fertilizadora. Outros deuses também se tornaram símbolos da sexualidade:
“Vale pensarmos em Dionísio, deus da embriaguez e do
vinho. Suas festas e ritos tomaram a Grécia e Roma,
gerando festas alegres, orgiásticas e de fertilidade. Vale
também pensar que as Bacantes - sacerdotisas do
romano Baco, identificado a Dionísio - levavam o sexo a
um ponto animal: mais uma vez o sangue poderia correr
juntamente com o gozo em ritos mágickos e religiosos” 
(Luna,2008).
Os gregos são vistos como os mais liberais, pelo menos é a visão que a
maioria do Ocidente tem sobre este povo. “O sexo era natural, divino e sempre
era realizado como forma de adoração. Não era descriminado e o senso de
pudor não existia porque não havia o “não-divino” na sexualidade grega”
.
(Crowley e Ligvori,2008)
.(José Amilton da Silva - O OLHAR DAS RELIGIÕES SOBRE A SEXUALIDADE
 
 
 
 
“Momentos mudos. Pré-pensamento. Deles é que é feito o mito.” 
(SEABRA, 1992, p.27)

Segundo Seabra (1992) o mito dá forma a tentativa arcaica e perene de responder às questões sobre o universo, o mundo, e o próprio ser. O termo grego μυθος (mytos) significa dizer, falar, contar. É a tentativa de dizer o indizível, de falar sobre algo maior, do sagrado, do misterioso, dos deuses. (idem) Este encontro com o sagrado deve ser respeitado, Seabra (idem) utiliza a palavra Awe (pronunciada como Oh) como o som que transmitiria a emoção dessa vivência sagrada. A autora também coloca que são momentos que emudecem o indivíduo. Então talvez o silêncio possa nos dizer também da sonorização deste encontro.
O sagrado é numinoso é um mysterium tremendum, contém um elemento de terror e tremor. (SEABRA, 1992) Os gregos chamavam a mudança do humor causada pelo contato com o sagrado de orgh (orguê), palavra que representa uma grande concentração de energia; era dessa força que ficavam possuídas as Bacantes, as sibilas e o oráculo de Apolo. Segundo Seabra, o mistério está na característica do sagrado, pois este é o radicalmente diferente, o desconhecido. Este caráter misterioso exerce grande atração, causando fascínio. A autora coloca que o espírito humano sente necessidade desta experiência, do outro, do incompreensível.
A emoção de temor, fascínio e deslumbramento diante o incompreensível levou o ser humano a balbuciar seus primeiros sons que se tornaram vocábulos e que geraram os nomes dos deuses:
 Assim, o vermelho no céu na hora em que vai surgir o sol recebe nomes muito semelhantes em várias línguas indo-européias e no próprio sânscrito. Em inglês é dawn – pronuncia-se “dóhn” – som muito primário, próprio de infantes, que traduz o espanto arcaico diante do espetáculo do sol nascente. A emoção se expressa num som que evolui para a palavra, que designa tanto o fenômeno quanto o deus que nele se personifica. E, justamente com o nome do deus, uma história começa. (SEABRA, 1992, p.31)
Os mitos eram transmitidos da Grécia Antiga através de cantos que lhes soavam, lhes davam vida através de sons, silêncios e palavras. (NIETZSCHE, 2008) Então, apesar do mito de Dionísio estar aqui sendo apresentado na forma escrita, tente, você leitor, ler, o mito imaginando seus sons, seu canto, suas imagens visuais, cheiros, sensações, mas principalmente sua música, a musicalidade forjada no momento de sua criação. Pois é através dela que poderemos entrar profundamente no que é o mito deste deus.
Dionísio (Zagreu) é filho de Zeus e da deusa Perséfone, Rainha do Submundo. Um dia a deusa Deméter chegou à Sicília, vinda de Creta, junto estava sua filha, a deusa Perséfone, filha de Zeus. Deméter planejava chamar a atenção do grande deus, para que ele percebesse a presença de sua filha. Deméter descobriu próximo à fonte de Kyane, uma caverna, onde escondeu Perséfone. Pediu-lhe, então, que fizesse com um tecido de lã, um belo manto, bordando nele o desenho do universo. Desatrelaram de sua carruagem duas serpentes e Deméter as colocou na porta da caverna para proteger sua filha. Zeus aproximou-se da caverna e, para entrar sem despertar desconfiança na deusa, disfarçou-se de serpente, na presença da serpente, a deusa Perséfone concebeu do deus. (KERÉNYI, 2002)
Perséfone deu luz a Dionísio na caverna, onde ele foi amamentado e cresceu. Também na caverna o pequeno deus passava o tempo com seus brinquedos: uma bola, um pião, dados, algumas maçãs de ouro, um pouco de lã e um zunidor. Entre seus brinquedos havia também um espelho, que o deus gostava de fitar, encantado. Zeus tinha a intenção de que o menino dominasse o mundo. (BRANDÃO, 1990)
O menino foi descoberto por Hera, esposa de Zeus, que queria vingar-se da nova aventura do marido. Assim, quando Dionísio estava se olhando distraído no espelho, dois titãs enviados por Hera, pintados com argila branca, aproximaram-se de Dionísio pelas costas e, aproveitando a ausência de Perséfone, mataram-no, despedaçaram-no, colocando-o em um caldeirão e começaram a comer o deus, comeram-no inteiro exceto o seu coração, que foi salvo por Atena (ou Deméter, em outras versões). (BRANDÃO, 1990) Zeus abateu os titãs com seu raio vingador e os reduziram a cinzas, dessas cinzas foi formado o homem, que contém em si uma parte divina proveniente de Dionísio e uma parte oposta procedente de seus inimigos, os titãs. (NIKASIOS, s/d).
Orfeu (apud NIKASIOS, s/d) tem uma segunda versão do mito na qual Atena enviou o coração de Dionísio para o Éter e, lá, ele se tornou um sol ardente. Da exalação do corpo de Dionísio vêm as almas humanas que sobem aos céus.
Zeus refez seu filho através de seu coração e o deu para Sêmele engolir. Sêmele era princesa de Tebas, filha de Cadmo e Harmonia. A etimologia de seu nome é traco-frígio e tem o significado de “terra” (KRETSCHMER apud BRANDÃO, 1991). Hera descobriu a relação entre seu marido e Sêmele e se transformou em ama da princesa, aconselhou-a a pedir que seu amante se apresentasse em todo o seu esplendor.
Espero que seja mesmo, mas não posso deixar de duvidar. Nem sempre as pessoas são quem dizem ser. Se ele é, na verdade, Jove [Zeus], faze-o dar uma prova disso. Pede-lhe para vir vestido com todo seu esplendor, tal como anda no céu. Assim, acabará qualquer dúvida. (BULFINCH, 2002, p.196)
Apesar de Zeus ter tentado avisá-la, ele já havia jurado pelas águas do Rio Estige que jamais iria contrariar seus desejos, e assim, se apresentou. Sêmele morre queimada diante a glória de Zeus que insiste em verificar durante o sexto mês de gestação. Zeus pegou o feto do ventre de Sêmele e o colocou em sua coxa. (BRANDÃO, 1990) Assim nasce o segundo Dionísio, o Dionísio Tebano que aparece em Elêusis como Iaco. Hermes o leva às escondidas para Ino, irmã de Sêmele, criá-lo. Dionísio é criado pela família como uma menina (ALVARENGA et al, 2007).
Hera irritada enlouquece Ino e Àtamas, seu marido. Ino joga seu filho, Melicertes, em um caldeirão de água fervendo, enquanto Àtamas matava seu filho mais velho, Learco, confundindo-o com um veado. Ino então se atira ao mar com o cadáver de Melicertes e Àtamas é banido de seu reino. Em outras versões: Ino, Àgave e Autônoe (irmãs de Sêmele) enlouquecidas matam seus filhos (KERÉNYI, 2002). Os deuses, compadecidos, transformaram Ino em uma deusa marinha com o nome de Leucotéia, e seu filho em um deus com o nome de Palêmon. Em algumas versões foi Afrodite, que era aliada da família de Cadmo por sua filha Harmonia, que foi ao encontro de Poseidon para pedir que se torna-sem divindades marinhas. (BRANDÃO, 1990)
Zeus então transformou seu filho num bode e pediu para Hermes o levar ao monte Nise para que ele ficasse aos cuidados das Ninfas, Sátiros e Musas que lá habitavam uma sombria e profunda gruta. (FORTUNA, 2005) A gruta em que Dionísio vivia era cercada de vegetação e em suas paredes haviam galhos de videira com maduros cachos de uvas. Um dia Dionísio colheu alguns cachos de uva e os espremeu numa taça de ouro, inventando o vinho. (NANNI; NEHEMY, 2007) Todos então passaram a beber vinho sempre e dançar vertiginosamente ao som dos címbalos - instrumento de percussão formado por dois pratos -. (FORTUNA, 2005)
Sileno surge na juventude de Dionísio como seu tutor, além de companheiro fiel e o mais velho sábio e beberrão dos seus seguidores. Com auxílio de Sileno, Dionísio se humanizou de suas vivências instintivas titânicas, humanizando sua animalidade, atualizando sua estrutura patriarcal e seus limites psíquicos. Humanizou sua natureza dionisíaca selvagem, conectando-a com o sentido da realidade imediata, levando-o a ler e diferenciar as emoções (BRANDÃO, 1991). Assim surge um Dionísio mais sábio, mais harmônico.
Dionísio sempre andava em bando peregrinando por diversos lugares (Trácia, Índia, Tebas, Beócia, Frigia, Ilha de Argos e de Naxos, Egito, Jônia, Conrinto, Ática (cidades-estado da Grécia). (FORTUNA, 2005)) ensinando o canto, a dança, a arte de beber e o cultivo de certas vegetações, principalmente a vinha. Além de seus companheiros sátiros, ninfas, musas e Sileno, haviam também as mênades, canéforas e o deus Pã9, que o acompanhavam durante suas peregrinações na juventude Dionísio continuou sofrendo inúmeras perseguições. (FORTUNA, 2005)
Enquando Dionísio estava passando pela Frígia a deusa Réia, sua avó, instruiu-o e seus ritos religiosos. (BULFINCH, 2002) Com ela, ele aprende suas próprias cerimônias, suas teletaí - cerimônia de iniciação nos Mistérios de Dionísio (LÓPEZ-PEDRAZA, 2002) -, recebe suas vestimentas (traje bacante), stolê. Esta vestimenta consiste no tirso, a hera, a veste longa e a nébride - a nébride é a pele de um animal esfolado pendurada num pau que está inserido num recipiente - por cima. Quem aceita esta vestimenta será atingindo por uma leve demência. (DETIENNE, 1988).
As cerimônias de iniciação de Dionísio necessitavam de certos ruídos, sons e música, assim como as iniciações de outros deuses. Nas de Dionísio eram utilizadas flautas, tambores, crepundias (argolas de marfim ou pequenos chocalhos), além dos gritos, cantos e palavras entoadas pelas mênades. (BRANDÃO, 1990)--- Dionísio conquistou as Índias, onde ficou vários anos com seu bando durante sua juventude, utilizando para conduzí-los: tirsos e tambores no lugar de armas. (FORTUNA, 2005) Depois de uma grande vitória militar na Índia, Dionísio vai até o Hades, resgatar sua mãe Sêmele e a leva ao Olímpo. (NANNI; NEHEMY, 2007)
Ao navegar de Icaria para Naxos, ele entrou em um navio pirata tirreano. Os piratas, entretanto, ignoravam a identidade do deus, e pretendiam vendê-lo como escravo na Ásia. Quando percebeu que estavam indo para outra direção, Dionísio fez brotar heras pelo navio e transformou o mastro em uma grande serpente. Ouvia-se o som de flautas, e o doce aroma do vinho podia ser sentido por toda a embarcação. Os piratas enlouqueceram, e atirando-se ao mar foram transformados em golfinhos.
Eugène Delacroix - o outono - Baco encontra Ariadne
 
Na ilha de Naxos Dionísio casou com Ariadne que foi abandonada por Teseu. Ariadne ganhou dele uma tiara de ouro e diamantes feita por Hefestos, que posteriormente se torna uma constelação, chamada Ariadne. (BRANDÃO, 1991). Ela é a única mulher que Dionísio amou.
Ariadne morreu no parto. (LÓPEZ-PEDRAZA, 2002) Dionísio desceu ao Hades para imortalizar Ariadne (ALVARENGA et al, 2007), depois a levou ao Olímpo (BRANDÃO, 1991).
Dionísio então se dirigiu à Trácia, onde Licurgo, rei dos Edônios, foi o primeiro a insultar Dionísio e expulsá-lo. Dionísio soube da intenção de Licurgo de lhe matar através de Carope, pai de Orfeu. Então Dionísio, ainda adolescente, mas já possuído pela loucura sagrada fugiu e se refugiou sob as ondas do mar salgado, onde Tétis o acolheu em seu seio tremendo e totalmente acovardado pela perseguição do homem, enquanto suas mênades foram feitas prisioneiras, juntamente com os sátiros (em algumas versões elas foram mortas). (BRANDÃO, 1991) Dionísio enlouqueceu Licurgo, que matou seu filho com um machado, pensando estar cortando uma videira. Quando acabara de cortar os membros do filho, desfez-se o encanto do deus. O deus tornou a terra improdutiva, causando a revolta dos seus súditos, então eles o ataram a cavalo que o despedaçaram, pois haviam ouvido que enquanto Licurgo estivesse vivo a terra não mais daria frutos. Dionísio recompensou a ajuda de Carope dando-lhe o reino dos trácios e o instruindo nos ritos secretos ligados aos seus mistérios. (BRANDÃO, 1990)
Dionísio volta à Tebas através do mar. Homens, velhos, crianças e principalmente mulheres, quando souberam da chegada de Dionísio correram para recebê-lo e participar da marcha triunfal à vitória na Índia. (BULFINCH, 2002) O Rei Penteus tentou por um fim à desordem causada pelo deus, tentando prendê-lo. Sua tentativa foi infrutífera, pois os seguidores de Dionísio impediam a prisão do deus.
Penteu tentou espionar o culto de Dionísio, mas foi avistado por sua mãe, Àgave, que participava junto com as mênades. Cega pelo deus, Àgave pensou estar vendo um javali gigante, e chamou as demais mulheres para correrem atrás dele. Assim que o alcançaram, despedaçaram-no. Sua mãe percebeu horrorizada que não era um javali que haviam desmembrado, mas sim seu filho. Após o seu enterro, Àgave, juntamente com seus parentes deixou Tebas, em exílio. (BRANDÃO, 1991)
Depois de Tebas, Dionísio foi para Argos, e por que eles não quiseram honrá-lo, ele fez as mulheres ficarem loucas, e elas carregaram seus filhos no colo até uma montanha e os devoraram. (BRANDÃO, 1991) De Argo a Orcômeno - cidades da Grécia - Dionísio inflige a loucura às mulheres por recusarem as cerimônias de Dionísio. (DETIENNE, 1988)
Aos se recusarem a prestar culto a Dionísio, as três filhas do rei Preto de Argólia, as Miníades, foram vitimadas pela loucura. O rei pediu ajuda a Melampo, um renomado adivinho e purificador, mas não aceita sua cobrança. Então a loucura de suas filhas piora e se alastra a todas as mulheres do reino. Diante os prodígios apresentados pelo deus as três irmãs começam a se dedicar fervorosamente às cerimônias do novo deus, oferecendo o filho de uma das irmãs como sacrifício ao deus. Porém as bacantes de Orcômeno não se reconheciam na loucura assassina das Miníades. As Miníades começam a desejar por carne humana e se juntam aos bassárides - fanáticos por sacrifícios humanos nos altares de Dionísio, por vezes chegam a devorar-se mutuamente. (DETIENNE, 1988) -. (DETIENNE, 1988)
Além de ter se juntado à Ariadne, que foi o grande amor de sua vida, Dionísio teve com Afrodite um filho, chamado Príapo, deus da fertilidade e virilidade, que possuía um enorme falo. Nas procissões de quase todos os mistérios era utilizado phállos, era a forma mais pública de adoração e representar Dionísio. (HILLMAN, 2007)
Zeus sempre teve muito orgulho de Dionísio, o compreendia, e entendia sua importância à humanidade. Certa vez Aristaeus, descobridor do mel, e muito orgulhoso do seu feito, competiu com Dionísio, dizendo ser o mel maior benção que o vinho. Zeus julgou entre os dois e deu o prêmio a Dionísio. (KERÉNY, 2002)

UM DEUS DE FACES CALEIDOSCÓPICAS
Não é preciso apagar a luz
eu fecho os olhos e tudo vem
num Caleidoscópio sem lógica
eu quase posso ouvir a tua voz
eu sinto a tua mão a me guiar
pela noite a caminho de casa...
Quem vai pagar as contas
desse amor pagão
te dar a mão
me trazer à tona prá respirar
vai chamar meu nome
ou te escutar...
Me pedindo prá apagar a luz
amanheceu é hora de dormir
nesse nosso relógio sem órbita
se tudo tem que terminar assim
que pelo menos seja até o fim
prá gente não ter nunca mais
que terminar...
Caleidoscópio 

Dionísio é o deus do vinho, da loucura, da tragédia, das mulheres, das emoções, do frenesi, do corpo, do aqui-agora, do sossego. Um deus contraditório, que vive à margem. O deus das mil faces. (FORTUNA, 2005)
A cada movimento o caleidoscópio nos mostra combinações diversificadas. Assim é Dionísio com suas mil faces. Além disso, o caleidoscópio nos permite entender a fluidez dessa imagem arquetípica que propomos nos aproximar, imagens que o circulambulam que não podem ser capturadas. Então propomos aqui apresentar diferentes olhares e escutas em movimento, ressonâncias caleidoscópicas, um brincar de olhar e se aproximar sem tentar fechar ou concluir, não encerrando a amplitude da simbologia do mito na simplicidade das conclusões racionais. Tentemos ludicamente nos permitir desfazer as ordens cristalizadas e brincar com esses cristais, com novas pedrinhas e objetos de nosso caleidoscópio.
[...] eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica:
fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro.
Sou um coração batendo no mundo [...]
Clarisse Linspector - LISPECTOR, C. Água viva. Rio de Janeiro, 1973 -
Segundo Brandão (1991), a palavra Dioniso em grego, ainda não possui etimologia. Para Leeming (2004) o nome Dionísio se desenvolveu a partir de sons que o relacionam diretamente com Zeus: ‘parecido com Zeus’ ou ‘amamentado por Zeus’. Brandão (1991) coloca que em grego Baco que dizer “estar em transe, ser tomado de um delírio sagrado”.
Além de ser chamado por Dionísio ou Baco, este deus possuía mais três epítetos - substantivo, adjetivo ou expressão que se associa a um nome para qualificá-lo -. Iaco era como um avatar do deus que conduzia as procissões dos iniciados nos Mistérios de Elêusis. A palavra vem de Iakkhé ou “grande grito”, característica dos rituais iniciáticos. Brômios, a palavra quer dizer estremecimento, ruído surdo e prolongado, agitação. Refere-se aos estados de transe das procissões do deus e seus rituais estridentes. Zagreu diz de seu caráter mais místico que profano, rituais menos escatológicos, representa aspectos mais superiores deste deus, etimologicamente este nome quer dizer “o grande caçador noturno”. (BRANDÃO, 1991)
Dionísio é também chamado por outros nomes que podem nos auxiliar na aproximação deste deus. Com relação a suas potências Dionísio pode ser correlacionado a quatro nomes. Dionísio Kathársios é aquele que liberta (DETIENNE, 1988), ela representa o potencial purificador do deus (FORTUNA, 2005). Kadmêios seria a potência de libertação e purificação das cerimônias. (DETIENNE, 1988) Bakkhéios é a potência de Baco e de suas cerimônias, é o deus do delírio e do vinho ensandecedor. (FORTUNA, 2005) Meilíkhios é a potência do suave de Dionísio, do apaziguador, do harmonizador, do ameno. (DETIENNE, 1988)
Dionísio também recebe diferentes nomes dependendo das metamorfoses que encarna. Ele é o Líber quando representa o livre, o liberal. Evã quando representa o deus que é aclamado durantes seu ritual, suas sacerdotisas gritavam “Evoé Baco!” durante seus rituais como forma de reverenciar o deus. Nisohus quando é aquele que afugenta as mágoas. Bromius quando é o barulhento (FORTUNA, 2005). Também há Dionísio Eleutheréus que é o deus da possessão, este representa a chegada de Dionísio em Tebas, na pólis. (DETIENNE, 1988) Ele se caracterizava por ser o deus libertador, ele libertava a terra das amarras do inverno e livrava os homens do peso das preocupações e misérias da vida. (PELBART, 1989)
Uma das faces de Dionísio é como deus da vegetação (FORTUNA, 2005), contemplando todas as polaridades da natureza que sustentam as plantações e crescimento vegetal (sombra e sol, dia e noite, água e seca, subterrâneo e superfície, as estações do ano, entre outras). Além dessas polaridades, que também se relacionam ao símbolo da semente, há o elemento úmido também muito característico deste deus. Ele é “o que escorrega”, o que vai penetrando em tudo e se vai escorrendo como água. Dionísio também possui uma estreita ligação com o mar, é nele que o deus procura refúgio, é dele que o deus surge aos homens. (BRANDÃO, 1991).
Por ser um deus “escorregadio” ele possui a característica de surgir e desaparecer subitamente, e nisso também os trabalhadores da terra encontram identificação, pois reconhecem refletido no deus o broto que subitamente e em seu próprio tempo arrebenta a terra para surgir de maneira misteriosa. Ele está servindo de imagem da potência autônoma “cuja força natural irrompe de repente e que permanece incompreensível, rebelde a qualquer classificação” (DETIENNE, 1988, p. 95).
As constantes chegadas e partidas de Dionísio também estavam relacionadas a este colocar e tirar a máscara. A máscara é para Dionísio sua insígnia, ela tanto o esconde quando o revela. (DETIENNE, 1988) Ele possui um rosto a ser descoberto, uma imagem a ser desvendada, porém não capturada, Dionísio nunca É ele sempre ESTÁ. (FORTUNA, 2005) O “ser” está relacionado à condição permanente do viver, enquanto o “estar” refere-se à circunstância em que se vive (LÓPEZ-PEDRAZA, 2002), assim é Dionísio deus do Aqui-Agora, que está em constante movimento.
Ele é um deus não pode ser capturado, definido, ele nunca “é” alguma coisa que o homem vê nele, ele sempre “está”, pois é um deus nômade, que não permanece, está sempre em movimento. Isso reflete outra face deste deus, que reforça ainda mais seu ar enigmático, do desconhecido. Dionísio é um deus que simboliza as forças obscuras do inconsciente. (FORTUNA, 2005)
No contato com este deus há uma submersão, uma redenção, da consciência ao inconsciente. Seu mito, músicas, danças ritualísticas, comportamento e ideologia simbolizam as forças obscuras que surgem do inconsciente. E o mais importante, nos mostra como a psique vive este contato com o inconsciente de forma sagrada. (FORTUNA, 2005)
Mas Dionísio é também considerado um libertador das profundezas, um deus ctoniano, ou seja, que é das profundezas, que inicia e conduz almas. Esta face do deus é a que dirige a dança dos iniciados e a dos mortos. (FORTUNA, 2005)
Essa passagem pelas profundezas é entendida como uma fase de germinação, uma fase natural da psique, assim como faz parte do nascimento das plantas um período em que a semente está sob a terra. Isto é demonstrado na presença marcante de Dionísio nos Mistérios de Elêusis, que falam do processo iniciático de nascimento e morte.
No mito de Dionísio há diversas representações de seus rituais iniciáticos, que envolvem o fogo, a água, o vinho, a loucura. Segundo López-Pedraza (2002), as iniciações dionisíacas ocorrem ao longo de nossas vidas com o objetivo de propiciar movimento psíquico. Um processo vital para a psique. Para que se possam dar respostas para cada nova etapa da vida. E a estagnação faz com que a psique adoeça. A loucura dionisíaca é uma experiência vital no qual se produz o renascimento psíquico. (idem)
Não temas, chegou tua hora: crescer, crescer, mudar, porque movimento é vida, a imobilidade é morte e o risco vale a pena. - autoria: Maria Doval. Mulheres em ação. Edição de Lídia Maria Riba; Tradução de Adriana Toledo de Almeida. São Paulo: Vergara & Riba Editoras, 2005 -
Neste processo de manifestação inconsciente há uma regressão às formas caóticas primordiais da psique e há também sua dissolução, uma morte da organização psíquica em que o sujeito se encontrava. Segundo Fortuna (2005) Dionísio se apresenta como o deus dessas formas caóticas, desestruturadas da psique e também da extrema tensão psíquica dessa vivência. Segundo a autora (idem, p.34) “[...] a libertação dionisíaca pode ser espiritualizante ou materializante [...]”. Essa profunda energia da vida acessada através deste deus pode tanto expandir a espiritualidade quanto dissolver a psique.
Assim, é necessário que haja um cuidado no contato com esta divindade, pois Dionísio possui também uma face destrutiva, e o impacto deste encontro pode ser catastrófico. Dionísio pode desestruturar totalmente a psique, a dissociando. Vemos isto em alguns casos em que o encontro com as formas caóticas primordiais da psique é tão marcante que causa danos irreversíveis. Por estar ligado a este processo de desestruturação da psique, Dionísio aparece muitas vezes como “um mal” que atinge um grande número de pessoas. (DETIENNE, 1988) Como algo assustador, não usual, que arrebata os indivíduos. Como algo das profundezas que aparece à superfície, ou seja, como algo do inconsciente que se mostra à consciência. Os gregos entendiam as epidemias como sacrifícios oferecidos aos deuses. As epidemias aconteciam quando as potências divinas desciam à terra a habitando, nela permaneciam por um tempo “contagiando” aqueles que naquele lugar estavam. (idem)
Segundo Detienne (1988) os deuses migrantes são os que têm direito a essa forma de sacrifício, eles possuem suas estações ou são invocados. O deus mais epidêmico, segundo o autor, é Dionísio. Ele é um “deus que vem; aparece, manifesta-se, faz-se reconhecer” (idem, p.14), ele não possui templo ou santuário, em nenhum lugar está em casa. Quando aparece surge de forma misteriosa: “sua efígie cai do céu, sua nave surge na linha do horizonte do mar; a frente de um comando de mulheres ataca as portas da cidade, ou ainda, solitário, emerge das águas abissais de Lerna, na Argólida” (idem, p.14). Como está sempre em movimento, em constante transformação, Dionísio não programa suas chegadas como os outros deuses.
Por sua característica nômade, de sempre estar em movimento, em transformação, Dionísio é reconhecido como “o deus que vem de fora” aquele que “vem de Outro lugar” (DETIENNE, 1988, p.19). Dionísio está sempre sob a máscara do estrangeiro. Porém ele não é um deus bárbaro (mesmo muitas vezes aparentando isto com seus comportamentos e volatividade), pois nasceu de Zeus. (FORTUNA, 2005)
Dionísio protege aqueles que estão á margem da sociedade tradicional, ele simboliza o caótico, o perigoso, o inesperado e principalmente o que foge a razão humana. O difícil processo de entrada de Dionísio na pólis pode servir como metáfora do processo de aceitação do Outro, do estrangeiro. (ALVARENGA et al, 2007)
Ele é o deus dos democratas, porém não dos nobres, pois estes rechaçavam seu comportamento ideologia, sua condição nômade e mundana. (FORTUNA, 2005) Dionísio tinha dificuldade em ser aceito pela Pólis, seu mito demonstra isso nas diversas perseguições que sofreu ao entrar nas cidades-estado gregas. Ele atrai camponeses e intelectuais, políticos e ascetas, devotos contemplativos e os que se entregam às orgias. (FORTUNA, 2005)
Porém apesar de ser um deus que acolhia a todos, ele era o menos “político” dentre os deuses gregos. Ele permanece estranho à religião da família e da pólis, ele não se preocupava em se colocar nas disputas pela proteção das cidades helênicas. Sua religião colidia com a religião política dos Eupátridas - aristocracia governante da pólis - que se utilizavam dos deuses olímpicos tradicionais e despóticos, já que a religião de Dionísio punha em risco um estilo de vida e de valores. (BRANDÃO, 1991)
Dionísio Sphalêôtas, o deus “que faz naufragar”, representa a chegada do “deus que vem de fora”. Alguns pescadores de Metimma pescaram das profundezas do mar com suas redes uma máscara de oliveira. Esta máscara parecia representar algo divino, mas também estrangeiro, ela não se adaptava a nenhum dos deuses gregos. Os pescadores levaram a máscara até Pítia e ela revelou o nome do deus como Dionísio Sphalên. (DETIENNE, 1988)
Neste caso Dionísio não aparece sob a face de pavor do deus troiano, e sim uma face de enigma, que traz algo do estranho. Um estranho que conduz ao oráculo e que induz a interrogações sobre aquele deus estrangeiro. Há serenidade nesta imagem de Dionísio, mas é esta mesma face que se refere ao deus que faz tropeçar, o que faz naufragar, o que dá rasteiras, o que tira o chão.
Detienne (1988) traz como característica de Dionísio o entusiasmo do pé saltitante à malícia da rasteira. Ao mesmo tempo em que surge como potência para os saltos desarrazoados é também potência para a queda no dilaceramento da loucura assassina, que destrói completamente o sujeito e quem o rodeia. Além disso, o autor traz ligada a característica do saltar, o jorrar, que se unem em uma característica central deste deus que é constante em seus rituais: o efervescer.
Dioniso aparece em sua plenitude nas epifanias onde o fogo efervescente do vinho jorra com a mesma intensidade que a loucura sangrenta que afoga sua presa, possuída, levada pela coréia - Platão (apud DETIENNE, 1988) designa pelo nome de “coréia” a ginástica que engloba a dança e a música, o conjunto dos movimentos do corpo e dos movimentos da alma.-. Salto da mênade, erupção vulcânica do vinho: é talvez aí que se deixa entrever o ser de Dioniso, se é que seu poder de ilusão se pode prestar a autópsia. (DETIENNE, 1988, p.99)
O salto representa o pulsar da vida, é um princípio constitutivo do que vive é metaforizado na dança dionisíaca e no frenesi do corpo báquico que reflete os movimentos da alma. (DETIENNE, 1988) A dança do coração que bate no pé do diafragma, que dança sobre nossas entranhas, que palpita, se chama ‘salto’, pêdesis. Esta característica que acomete a muitos e em especial às mênades nasce do medo se elevando ao pavor. (idem) Segundo Platão (apud idem) em todo ser palpitante existe um princípio de palpitação que reside no coração. O coração é no ocidente o símbolo da emoção. Dionísio é o deus das emoções. Emoção é o que dá fogo, o que dá intensidade aos sentimentos humanos. O coração palpita pela influência do fogo. O que faz nosso coração palpitar de felicidade ou medo, nos faz sentir um aperto no coração ou um calor que alastra do coração é a emoção.
[...] os deuses em sua previdência lhe reservaram [ao coração] um socorro: o pulmão, exangue e mole, cheio de buracos como uma esponja sobre a qual o coração pode à vontade saltar e acalmar-se. (DETIENNE, 1988, p.104)
O coração está tão ligado ao mito de Dionísio que no momento em que o deus é desmembrado e fervido, o que resta de sua essência é seu coração. Este é o órgão que primeiro se move no embrião, e o último órgão a cessar na morte. (DETIENNE, 1988) O coração tem como função jorrar a vida, assim também é o phállos, símbolo de Dionísio. O phállo possui a mesma característica que o coração, é um órgão autônomo, que pulsa, que jorra.
Dionísio é o mestre da fecundidade animal e humana, ele é denominado phalenos (FORTUNA, 2005). Mas Dionísio não possuir o monopólio do falo, já que este símbolo também está ligado à Afrodite, Pã e especialmente a Príapo, a procissão do phállos tem um importante lugar nas festas gregas em geral. (FORTUNA, 2005)
O falo e o coração apresentam a mesma potência de Dionísio, uma potência vital da natureza, que também é contemplada no símbolo do vinho que jorra - em Olímpia havia uma festa onde “Dioniso encontra um teatro para sua epifania. Sob dupla forma: um touro salta para o sacrifício; de repente o vinho enche as cubas intactas” (DETIENNE, 1988, p.95-96) -. O falo não está representando uma parte do corpo masculino, ele transcende o corpo, assim como o vinho ultrapassa os limites de um simples complemento de um banquete. (SISSA; DETIENNE, 1990) O coração, o falo e o vinho estão servindo de metáfora à onipotência de Dionísio, sua força vital, a efervescência da vida que jorra, salta, dança.

Ruínas do Templo de Dionísio em Delos, Grécia

Segundo Detienne (1988), o vinho é um phármakon - o veneno e o remédio, a morte e a cura. (MARONI, 2005) - e possui poder iniciatório. Através do vinho o homem se supera ou se transforma em animal, descobre o êxtase ou se afunda na bestialidade. “[...] um fogo que se acende espontaneamente nas profundezas do líquido” (DETIENNE, 1988, p.63-64).
Este fogo do vinho propicia a alteração da consciência, a falta de censura, a indiscrição, o delírio. Dionísio é o deus dos comportamentos que fogem a lógica normal. É também por conta do vinho, que Dionísio é o deus dos dependentes químicos em geral, daqueles que usam de substâncias externas para “descarnar as sombras do interior” (FORTUNA, 2005, p.46). E como phármakons, estas substâncias, tal como o vinho, podem gerar vida ou tirar vida.
O vinho dá acesso mais imediato a Dionísio no corpo. A cultura dionisíaca do vinho compensa o sofrimento titânico diário e repetitivo da humanidade. (LÓPEZ-PEDRAZA, 2002) Porém o vinho pode também destruir a vida do sujeito. O vinho é perigoso se ingerido inadvertidamente. Segundo López-Pedraza (idem) para entrar em contato sem acabar em uma experiência extrema e trágica deve se passar por uma iniciação, por um cuidado e aprendizado de beber o vinho com moderação e consciência. Devemos procurar nos embriagar da loucura de Dionísio ‘adequadamente’ (adequado a nós mesmo), para que dela possa se explorar novas possibilidades sem perder-se enquanto ser.
 Enquanto deus do cultivo da vinha Dionísio está também como um deus civilizador, este cultivo é o percurso entre o selvagem e o cultivado que vemos no mito de Dionísio. Este deus deu ao homem o saber da criação do vinho bem temperado, que contrastava com o vinho selvagem que produzia dores violentas e até mesmo a morte a quem o bebe-se. Dionísio Orthós é o Dionísio da retidão, postura vertical. Assim como Deméter, que introduz o cultivo do trigo, ambos auxiliam na arte de viver.
Além do fogo e do vinho, a água também aparece no mito de Dionísio como um importante elemento do rito iniciático deste deus. Podemos ver isso em diversas partes do mito: quando ele é cozido em água fervente pelos Titãs, quando ele retorna a proteção do mar e a titã Tétis, durante suas cerimônias nas quais haviam muitos momentos de purificação pela água, como quando seus seguidores se jogavam ao mar antes ou depois de se entregarem às orgias báquicas. (BRANDÃO, 1991)
A energia efervescente de Dionísio não só ensinou aos homens o cultivo do vinho, como também iniciou a humanidade na arte da tragédia. Das danças, cantos e ritmos alucinados das procissões embebidas por vinho surgiu o teatro. (FORTUNA, 2005)
O teatro surge a partir do ditirambo. (FORTUNA, 2005) O ditirambo ou "hino em uníssono" é um canto coral alegre e sombrio, constituído de uma parte narrativa, recitada pelo cantor principal, ou corifeu, e de outra propriamente coral, executada por personagens vestidos de faunos e sátiros. Os sátiros tocavam tambores, liras e flautas e iam cantando à medida que dançavam em volta de uma esfinge de Dionísio. (NIETZSCHE, 2008)
À medida que o tempo ia passando, o Ditirambo foi evoluindo para a forma teatral perpassando pelo drama satírico. (BRANDÃO, 1991) Quem dirigia o ditirambo ia juntando gradualmente relatos de façanhas de heróis que tinham passado grandes tormentos pelo seu povo. Também as danças que no início seriam descontroladas e caóticas iam gradualmente passando a danças organizadas e elaboradas. Também se começa gradualmente a introduzir poesia no ditirambo. (idem)
É importante lembrar que Dionísio não é o deus somente da tragédia enquanto encenação cênica, mas o mais relevante a psique é o sentido trágico da vida que reside na tragédia e em Dionísio. (LÓPEZ-PEDRAZA, 2002) A nota trágica era criada “pela tensão entre essas forças – gozar apaixonadamente a vida e apreender claramente seu enquadramento inalterável” (KITTO apud SEABRA, 1992, p.44).
Dionísio é o deus do teatro principalmente por ser o deus que mistura as fronteiras do ilusório e do real, do mundo divino com o humano, que permite experimentar em seu ritual outras realidades. Uma das questões mais interessantes na ligação deste deus com o teatro é que Dionísio vive viceralmente, e não epidermicamente, superficialmente. Os seguidores de Dionísio tinham uma experiência emocional, vivida no corpo, durante seus rituais ou experiências religiosas. (LÓPEZPEDRAZA, 2002)
A tragédia grega seria, segundo Stanford (apud LÓPEZ-PEDRAZA, 2002) a arte das emoções. Dionísio passa por extremos da emoção, suas dores e amores são sempre abissais, vividas com muita profundidade e intensidade. (FORTUNA, 2005) Por vivenciar junto aos seus seguidores as emoções com tanta intensidade faz com que Dionísio seja também um deus de emoções ambivalentes. (LÓPEZ-PEDRAZA, 2002)
A emoção dionisíaca é que faz a conexão entre a alma e o corpo. Assim, a repressão das emoções pelo cristianismo reverberou em também uma repressão do corpo. E segundo Linforth (apud LÓPEZ-PEDRAZA, 2002) o corpo é sempre dionisíaco.
López-Pedraza (idem) aponta para uma questão importante com relação a vivência das emoções em Dionísio. Essa vivência não se dá somente através de emoções fortes e intensas. Lembremos de uma das mais importantes características de Dionísio: o sossego. “Com grande discrição e sossegadamente, Dioniso nos faz saber que se encontra justo ali, no corpo” (idem, p.44) A experiência religiosa de Dionísio é sentida no próprio corpo, na emoção particular do momento que está se vivendo. Porém a história tem distorcido os aspectos místicos e religiosos de Dionísio. (LÓPEZ-PEDRAZA, 2002)
O culto de Dionísio possui um sentido profundamente religioso onde há um esforço da humanidade para libertar sua alma dos limites terrenos. O mito de Dionísio simboliza o esforço de espiritualização da criatura viva. Apesar das perversões em seus rituais, ou mesmo através delas - já que estas trazem a eroticidade como “depuração e renascimento, transformação e revelação, eficácia catártica como fator preconizante do divino, isto é, uma copulação cósmica que vai da desordem total, do escatologismo absoluto, do obscurantismo bárbaro à ordem, ao equilíbrio” (FORTUNA, 2005, p.77) -, Dionísio une o mundo dos deuses com o do homem, rompendo a barreira do divino. Isto amplia a noção de alma, uma alma aparentada ao divino e mais real que o próprio corpo. Esta concepção se torna fonte primordial do espiritualismo grego. Em seus ritos celebrava-se o despertar do Dionísio-menino que metaforizava o desejo e a esperança de renovação espiritual. (FORTUNA, 2005)
Podemos verificar muitas similaridades a imagem de Dionísio e de Cristo. A imagem do deus-menino (NIKASIOS, s/d) como metáfora da esperança de renovação espiritual. A entrega do corpo de Dionísio em um caldeirão, que geralmente era simbolizado por um sacrifício animal, e seu sangue, que é o próprio vinho, são as partes de seu mito mais utilizadas nos rituais deste deus. Assim é também nos rituais cristãos onde se come o pão e bebe-se o vinho, como corpo e sangue de Cristo (idem) Além disso, a Dionísio era pedido a salvação, assim como a Cristo, com conotação de proteção e preservação. (LÓPEZ-PEDRAZA, 2002)
Porém no cristianismo foram rechaçados os aspectos sombrios, típicos dos deuses gregos. Assim, Dionísio enquanto deus harmático é aquele que potencializa, legitima e assume o pecado, o erro, a falta, o ultrapassar de limites terrenos; e ctônico, o deus das profundezas (FORTUNA, 2005), foi rechaçado. Os aspectos espirituais e simbólicos de seus ritos foram distorcidos, considerados impuros, não sagrados.
Segundo Fortuna (idem) Dionísio não comete hybris, ele “É” a própria hybris. Ele é o excesso por excelência, ele propõe justamente o extrapolamento das medidas humanas e divinas, transportando o homem para uma dimensão divina.
O paradigma judaico-cristão desconsiderdou a sabedoria e religiosidade das vivências relacionadas a Dionísio, mesmo este possuindo aproximações a própria imagem de Cristo. A amplitude das emoções não eram aceitas, as características harmáticas e ctônicas deste deus também não, tão pouco seus excessos. O cristianismo reprimiu muito as emoções ao censurarem a tragédia, eles condenavam o despertar da ravia, da dor, do frenesi e diversas outras emoções similares. (LÓPEZ-PEDRAZA, 2002)
O falo, que simbolizava o deus, foi erroneamente ligado a simplicidade do orgão masculino, assim com a sexualidade reprimida, novamente o deus é desvalorizado. Dionísio é um deus ctônico, da escuridão, e com o cristianismo tudo relacionado a escuridão, às profundezas da psique, era considerado maléfico. Porém pudemos verificar nas diversas faces caleidoscópicas deste deus aspectos importantes à psique. A metamorfose provocada pelo contato com esta figura divina é que permite o contato com o mundo dos deuses.

Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Eu quero dizer
Agora o oposto do que eu disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
É chato chegar
A um objetivo num instante
Eu quero viver
Nessa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre o que eu nem sei quem sou
Se hoje eu sou estrela
Amanhã já se apagou
Se hoje eu te odeio
Amanhã lhe tenho amor
Lhe tenho amor
Lhe tenho horror
Lhe faço amor
Eu sou um ator
Eu vou desdizer
Aquilo tudo que eu lhe disse antes
Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha velha velha velha velha
Opinião formada sobre tudo
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo

Raúl Seixas
Uma de suas faces de Dionísio é como o deus da transformação. Esta é uma importante faceta deste deus. Ele é responsável pelo hibridismo de dois mundos. (FORTUNA, 2005)
Mnesiteu, médico do século IV a.C, fez registro de que um oráculo da Pítia aconselhou alguns atenienses a denominarem Dionísio de “Provedor da Saúde” (Hugiátes). Dionísio funde o que está fragmentado, isolado, ressarci de energia o que está vazio de substância. (FORTUNA, 2005)
Aprofundaremos no próximo capítulo a relação entre Dionísio e nossa psique, procurando entender o porquê desta última face de Dionísio mencionada – “o provedor de saúde” – como Dionísio pode ser importante a nossa saúde psíquica.

(MARIANA CARDOSO PUCHIVAILO - UMA FERIDA DOCE, UM MAL SUAVE: A SABEDORIA DIONISÍACA NO CUIDADO À SAÚDE MENTAL)

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