Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Diário de Eva

por Thynus, em 21.09.17
Traduzido do original
 

Sábado Estou com quase um dia de vida agora. Cheguei ontem. Ao menos é o que parece. E deve ser isso mesmo, pois se houve um dia antes do de ontem eu não estava lá para ver, ou me lembraria dele. Mas pode ser, claro, que tenha havido um dia antes de ontem e eu simplesmente não tenha notado. Muito bem; vou ficar de olho, e se algum dia antes de ontem acontecer, vou tomar nota. É melhor começar direito e não deixar os registros ficarem confusos, meu instinto me diz que esses detalhes ainda vão ser importantes para os historiadores um dia. Me sinto como um experimento, exatamente como um experimento; seria impossível alguém se sentir mais como um experimento do que eu. Por isso começo a ficar convencida de que é exatamente isso que eu sou — um experimento e nada mais.
Se eu for mesmo um experimento, será que sou o único? Não, acho que não. Acho que o resto faz parte também. Sou a principal, mas acho que o resto também tem a ver com o assunto. Será que a minha posição está assegurada, ou devo ficar de olho e tomar cuidado? Prefiro ficar de olho. O instinto me diz que a vigilância eterna é o preço da supremacia. (Acho que essa é uma boa frase para alguém tão jovem como eu.)
Tudo está mais bonito hoje do que ontem. Na pressa de terminar ontem, as montanhas ficaram um pouco picotadas, e algumas planícies ficaram tão abarrotadas de lixo e sobras que o aspecto ficou meio desolador. Peças de arte nobres e belas não devem ficar sujeitas à pressa; e este majestoso novo mundo é mesmo um nobre e belo trabalho. E certamente maravilhoso, chegando quase à perfeição, apesar de ter sido feito em tão pouco tempo. Há estrelas demais em algumas partes e de menos em outras, mas isso pode ser remediado logo, sem dúvida. A lua se soltou ontem, e caiu fora do esquema — uma grande perda; me corta o coração pensar nisso. Não há nada entre os ornamentos e decorações comparável a sua beleza e acabamento. Devia ter sido mais bem fixada. Ah, se conseguíssemos pegá-la de volta.
Mas não dá para saber onde foi parar. Além do mais, quem a pegar vai escondê-la; sei disso porque faria o mesmo. Acho que poderia ser honesta em relação a tudo o mais, mas já descobri que a essência e o centro da minha natureza é o amor pelo belo, uma paixão pelo belo, e que não seria seguro confiar em mim em posse de uma lua que pertencesse a outra pessoa que não soubesse que ela estava comigo. Eu poderia abrir mão de uma lua que eu achasse durante o dia, pois teria medo de que alguém estivesse vendo; mas, se eu a achasse na escuridão, tenho certeza de que inventaria uma desculpa para não ter que dizer nada a respeito. Porque eu adoro as luas, elas são tão lindas, tão românticas. Gostaria que tivéssemos cinco ou seis delas; eu nunca mais iria dormir; não me cansaria nunca de ficar deitada sobre os musgos, olhando para elas.
As estrelas são bacanas também. Gostaria de ter algumas para pôr no cabelo. Mas acho que nunca vou conseguir. Você ficaria surpreso de saber como elas estão longe daqui, apesar de não parecerem tão distantes. Quando elas apareceram pela primeira vez, ontem à noite, tentei derrubar algumas usando um bambu, mas não era comprido o bastante, o que me deixou surpresa; então tentei atirar uns torrões nelas, até cansar, mas não consegui derrubar nenhuma. Deve ser porque sou canhota e não arremesso bem. Mesmo quando mirei numa outra, para ver se acertava finalmente a que queria, não consegui. Vi a mancha preta do torrão passar bem no meio daquele conglomerado dourado; fiz isso umas quarenta ou cinquenta vezes, mas passava de raspão; se tivesse aguentado um pouco mais, talvez conseguisse acertar uma em cheio.
Por isso chorei um pouco, o que é natural, suponho, para alguém da minha idade, e depois de descansar acabei pegando uma cesta e fui caminhando em direção à borda do círculo, lá onde as estrelas ficam perto do solo, achei que poderia pegar com as mãos. Isso seria melhor, daria para reuni-las com cuidado, de modo que não quebrassem. Mas era mais longe do que eu pensava, e acabei desistindo; estava tão cansada que não conseguia dar mais nem um passo. Além disso, tinha os pés muito inchados e doloridos.
Não pude voltar para casa; era muito longe, estava esfriando, mas achei uns tigres e me aninhei entre eles; foi adoravelmente confortável, seu hálito era doce e agradável, porque só comem moranguinhos. Nunca tinha visto um tigre antes, mas conheci logo pelas listras. Se conseguisse uma dessas peles, faria um belo vestido para mim.
Hoje já tenho uma noção melhor das distâncias. Andava tão louca para pegar tudo que achava bonito, tentava alcançar, ávida, mas quando algumas dessas coisas estavam fora do meu alcance ou, ao contrário, quando pareciam estar só a uns dois metros de distância — mas entre espinhos —, foi aí que aprendi uma lição. Fiz até um axioma, de cabeça — o meu primeiro: o experimento arranhado evita o espinho. Acho que está muito bom para alguém da minha idade.
Segui o outro experimento por aí, ontem à tarde, a distância, para tentar entender para que ele tinha sido feito. Mas não consegui descobrir. Acho que é um homem. Nunca tinha visto um, mas parecia ser, e tenho quase certeza de que era mesmo. Sinto que tenho mais curiosidade com relação a ele do que com relação aos outros répteis. Suponho que seja um, pois tem cabelo desgrenhado e olhos azuis e se parece com um réptil. Não tem ancas, se afina como uma cenoura, se abre como um guindaste; acho que é um réptil, mas pode também ser uma obra arquitetônica.
No começo tinha medo dele, e corria cada vez que ele se virava, com medo de que me perseguisse; aos poucos fui notando que a criatura só queria fugir; depois, quando minha timidez diminuiu, eu o segui por horas e horas, sempre uns vinte metros atrás, o que o deixou nervoso e infeliz. A certa altura, ele estava bastante preocupado e subiu numa árvore. Esperei um bom tempo, mas acabei desistindo e fui para casa.
Hoje, a mesma coisa. Por minha causa, subiu outra vez na árvore.
Domingo Esse ser ainda está lá em cima. Descansando, parece. Mas isso é um pretexto: domingo não é dia de descanso. O sábado é que foi escolhido para isso. Ele demonstra estar mais interessado em descansar do que em qualquer outra coisa. Eu ficaria cansada de tanto descansar. Me canso só de ficar sentada olhando para a árvore. Me pergunto para que afinal ele serve. Nunca o vejo fazendo coisa nenhuma.
Eles devolveram a lua ontem à noite, fiquei tão contente! Acho que foi muito honesto da parte deles. Ela escorregou e caiu de novo, mas não me incomodei; não é preciso se preocupar quando se tem vizinhos assim; eles vão pegar de volta. Gostaria de poder fazer alguma coisa para expressar minha gratidão. Gostaria de mandar algumas estrelas para eles, temos muito mais do que precisamos. Quer dizer, eu, não nós, pois dá para perceber que aquele réptil não se interessa por nada disso.
Ele não tem gostos refinados, nem mesmo é gentil. Quando fui lá ontem à noite, na hora do crepúsculo, ele tinha descido e estava tentando pegar aqueles peixinhos manchados que brincam no lago; tive que afugentá-lo com torrões para que subisse na árvore outra vez e os deixasse em paz. Fico pensando se é para isso que ele serve. Será que não tem coração? Não tem compaixão por essas pequenas criaturas? Será que foi projetado para um trabalho tão desumano? Parece que sim. Um dos torrões o atingiu atrás da orelha, e ele fez uso da linguagem. Fiquei emocionada, foi a primeira vez que ouvi alguém falar, além de mim. Não entendi as palavras, mas pareciam bem expressivas.
Quando descobri que sabia falar, fiquei mais interessada nele, pois eu adoro falar; falo o dia inteiro, até quando estou dormindo. Sou muito interessante, mas se tivesse alguém com quem conversar poderia ser duplamente interessante, e não pararia nunca se ele também quisesse conversar.
Se esse réptil for mesmo um homem, não poderá mais ser chamado de coisa, isso não seria gramatical, seria? Isso seria um ele. Pelo menos é o que eu acho. Nesse caso, teríamos que chamá-lo assim: no nominativo, ele; no dativo, lhe; no possessivo, seu. Bom, vou considerá-lo um homem e chamá-lo de ele até descobrir o que é de verdade. É mais prático do que ficar em dúvida.
Domingo da semana seguinte Passei a semana na cola dele, para nos conhecermos melhor. Eu é que tinha que ficar puxando conversa, porque ele era tímido, mas não me importei. Ele parecia feliz por eu estar próxima, e usei bastante o sociável “nós”, porque ele parecia gostar de se sentir incluído.
Quarta-feira Agora estamos nos acertando muito bem mesmo, e nos conhecendo cada vez mais. Ele não me evita mais como antes, o que é um bom sinal; demonstra que gosta de me ter por perto. Isso me agrada, eu me esforço para ser útil no que puder, de modo que seu apreço por mim aumente. Durante os últimos dois dias assumi a tarefa de nomear as coisas, o que lhe trouxe muito alívio, porque ele não leva muito jeito para isso. Evidentemente está muito grato. Não consegue pensar em nenhum nome racional para desmentir essa impressão de que lhe falta talento. Mas não deixo que perceba que estou ciente desse seu defeito. Sempre que aparece uma nova criatura eu já dou um nome, antes que ele tenha tempo de se expor com aquele silêncio desconcertante. Assim, já o poupei de muitos embaraços. Eu não tenho um defeito como esse. No momento em que ponho os olhos num animal, já sei o que é. Não preciso refletir nem por um segundo; o nome certo vem instantaneamente, como uma inspiração, e é isso que deve ser, uma inspiração, pois tenho certeza de que não estava dentro de mim nem meio minuto antes. Parece que só pelo formato da criatura e pelo jeito como ela age sei que animal é.
Quando o dodô apareceu, ele pensou que fosse um gato selvagem — eu vi nos seus olhos. Mas eu o poupei. Fui cuidadosa em fazer isso de maneira que não ferisse seu orgulho. Simplesmente falei de um jeito bem natural, como uma surpresa agradável, e não como se estivesse querendo lhe passar uma informação: “Ora, veja se não é um dodô!”. Então expliquei — sem que parecesse uma explicação — como eu sabia que era um dodô, e, mesmo percebendo que ele estava um pouco incomodado por eu saber que criatura era aquela, ficou evidente que ele me admirava. Que sensação prazerosa! E fiquei me lembrando disso, antes de dormir, com enorme satisfação. Como algo tão insignificante pode nos deixar tão felizes, especialmente quando nos sentimos merecedores.
Quinta-feira Minha primeira mágoa. Ontem ele me evitou e pareceu querer que eu não falasse mais com ele. Não pude acreditar, pensei que havia algum engano, eu adorava ficar com ele, e adorava ouvi-lo falar, por isso não conseguia entender por que tanta antipatia em relação a mim quando eu não havia feito nada. Mas essa sensação acabou se confirmando, então decidi ir embora e me sentei sozinha naquele lugar de onde o avistei pela primeira vez naquela manhã em que fomos feitos e eu não sabia ainda o que ele era e fiquei indiferente; mas agora esse lugar estava carregado de tristeza, e tudo ali me fazia lembrar dele; meu coração estava sofrendo. Eu não sabia muito bem por quê, pois era um sentimento novo, que eu jamais havia sentido, era um mistério que eu não conseguia decifrar.
Quando a noite chegou, não suportei mais a solidão e fui ao novo abrigo que ele construiu para perguntar o que eu tinha feito de errado e como repará-lo e fazer com que fosse amável comigo de novo. Mas ele me pôs para fora, na chuva; e foi essa a minha primeira mágoa.
Domingo Está tudo bem de novo e estou feliz; mas aqueles foram dias bem difíceis, e evito pensar neles.
Tentei pegar umas daquelas maçãs para ele, mas minha mira não é muito boa. Fracassei, mas acho que a boa intenção o agradou. Elas são proibidas, e ele diz que isso vai me prejudicar, mas se vou me prejudicar tentando agradá-lo, por que devo me importar com esse tipo de dano?
Segunda-feira Esta manhã eu lhe disse meu nome, na esperança de que ficasse interessado, mas ele não deu a mínima. É estranho. Se me dissesse seu nome, eu me interessaria. Acho que o som do nome dele seria mais agradável para meus ouvidos do que qualquer outro som.
Ele fala bem pouco. Talvez seja porque não é muito inteligente e, como é muito sensível com relação a isso, tenta disfarçar. É uma pena que se sinta assim, porque inteligência não é nada; é no coração que estão os valores. Gostaria de poder fazê-lo entender que um coração amoroso é riqueza mais que suficiente, e que sem isso o intelecto é pobreza.
Embora fale tão pouco, tem um vocabulário considerável. Esta manhã usou uma palavra surpreendentemente boa. Ele, claro, se deu conta disso, pois a usou duas vezes depois, tentando aparentar casualidade. Não se saiu muito bem, mas ainda assim demonstrou possuir alguma percepção. Sem dúvida essa semente pode germinar, se cultivada.
De onde ele tirou aquela palavra? Não me lembro de tê-la usado alguma vez.
Não, ele não mostrou o menor interesse pelo meu nome. Tentei disfarçar minha decepção, mas acho que não consegui. Saí e me sentei num montículo de musgos, com os pés na água. É para lá que eu vou quando necessito de companhia, quando quero ver alguém, conversar um pouco. Aquele lindo corpo branco pintado na água não é suficiente — mas é melhor que nada, é melhor que a solidão absoluta. Ele fala quando eu falo; fica triste quando eu fico; me conforta com sua compaixão; diz: “Não fique abatida, pobre menina sem amigos”. Ela é uma boa amiga para mim, minha única amiga, ela é minha irmã.
Na vou esquecer nunca, nunca mesmo, da primeira vez que ela me abandonou. Meu coração estava como chumbo dentro do corpo. “Ela era tudo o que eu tinha, e foi embora!” Em desespero eu disse: “Você parte meu coração; não consigo mais suportar esta vida!”, e escondi o rosto entre as mãos, desconsolada. Quando retirei as mãos do rosto, depois de um tempo, ali estava ela novamente, branca, brilhante e bonita, e eu me joguei em seus braços!
Senti então a felicidade plena; eu já conhecia a felicidade, mas nunca daquele modo, aquele êxtase. Nunca mais duvidei dela depois disso. Às vezes, ela ficava distante — talvez uma hora, às vezes o dia inteiro, mas eu esperava e não duvidava; eu dizia: “Ela deve estar ocupada, ou viajando, mas voltará”. De fato: ela sempre voltava. À noite, se estivesse escuro, não voltava, pois era uma criaturinha tímida, mas quando a lua aparecia ela vinha. Não tenho medo da noite, mas ela é mais jovem do que eu, nasceu depois de mim. Foram muitas as visitas que lhe fiz; ela é meu consolo e refúgio quando a vida está difícil — é isso que ela é.
Terça-feira Passei a manhã toda trabalhando para melhorar a propriedade, e fiquei longe dele de propósito, na esperança de que se sentisse sozinho e viesse ao meu encontro. E nada.
Ao meio-dia dei minhas atividades por encerradas e me entretive saltitando com as abelhas e as borboletas e me divertindo entre as flores, essas maravilhosas criaturas que captam o sorriso de Deus e o preservam! Eu as colhi e trancei em coroas e guirlandas e me vesti com elas enquanto lanchava — maçãs, obviamente; depois me sentei à sombra, ansiosa, esperando. Mas ele não apareceu.
Não faz mal. Não teria dado em nada mesmo, pois ele não gosta de flores. Ele as chama de lixo, e não consegue distinguir umas das outras, acha que por ser assim é superior. Não gosta de mim, não gosta de flores, não gosta da pintura do céu ao anoitecer — será que há algo de que ele goste afora construir cabanas onde se enfiar para se proteger da chuva boa e límpida, apalpar melões e selecionar uvas, para ver como esses frutos estão se desenvolvendo?
Coloquei um galho seco no chão e tentei fazer um buraco com a ajuda de outro galho, para testar uma ideia. De repente levei um susto. Uma película transparente e azulada surgiu do buraco; larguei tudo e corri! Achei que fosse um espírito, fiquei muito assustada! Olhei para trás, ele não estava me seguindo; então me escorei numa pedra e descansei, ofegante, e esperei até minhas pernas pararem de tremer, aí voltei com cuidado, alerta, olhando tudo, pronta para correr se fosse o caso; quando cheguei perto, afastei uns galhos de roseiras e espiei — desejando que o homem estivesse por ali, pois eu estava tão linda e atraente —, mas o espírito tinha desaparecido. Fui até lá; havia um punhado de um pó delicado, cor-de-rosa, no buraco. Coloquei o dedo nele para sentir a textura, gritei ai! e retirei o dedo. A dor foi cruel. Pus o dedo na boca e, pisando primeiro num pé, depois noutro, gemendo, eu logo aliviei a dor; então, cheia de interesse, comecei a examinar aquilo de novo.
Estava curiosa para descobrir o que era esse pó rosa. De repente o nome me ocorreu, embora nunca o tivesse ouvido. Era fogo! Impossível alguém estar mais certo sobre qualquer coisa neste mundo do que eu estava naquele momento. Então, sem hesitar, chamei aquilo de fogo.
Tinha criado algo que não existia antes; acrescentei algo novo aos inúmeros bens deste mundo; me dei conta disso e fiquei orgulhosa da minha invenção, queria correr e encontrá-lo para falar dela, talvez subisse em seu conceito — mas refleti e acabei desistindo. Não, ele não se interessaria. Ele perguntaria para que serve, e o que eu poderia responder, já que não era bom para nada, era apenas belo, meramente belo.
E assim suspirei e não fui. Pois não servia para nada; não servia para construir uma cabana, não ajudaria no desenvolvimento dos melões, não apressaria a colheita dos frutos; não tinha utilidade, era pura bobagem e vaidade; ele desprezaria minha invenção e diria palavras rudes. Mas para mim não era algo desprezível. Eu disse: “Oh, fogo, eu te amo, delicada criatura rosa, por ser belo — e basta!”, e quase o acolhi em meu peito. Mas me contive. E então me veio à cabeça outra máxima. Mas, como era tão parecida com a primeira, tive medo de que não passasse de plágio: “O Experimento queimado evita o fogo”.
Voltei à labuta, e quando obtive bastante pó de fogo outra vez, despejei sobre minha mão coberta com grama seca, na intenção de assim poder carregá-lo até em casa, para tê-lo sempre ao meu lado e poder brincar com ele; mas uma brisa atiçou o fogo, espalhando-o em minha direção; larguei tudo e corri. Quando me voltei, o espírito azul estava se elevando, se esticando e se espalhando como uma nuvem, e na hora pensei em um nome para ele — fumaça! —, e, palavra de honra, nunca tinha ouvido falar em fumaça.
Logo labaredas amarelas e vermelhas brilhantes ascendiam por entre a fumaça, e imediatamente eu as batizei de chamas, e eu estava certa de novo, apesar de serem as primeiras que surgiram no mundo. Elas subiram pelas árvores e flamejaram esplendidamente para dentro e para fora daquele vasto e crescente volume de fumaça; e só me restava bater palmas, rir e dançar em meu êxtase; era tudo tão novo e estranho, tão maravilhoso e belo!
Ele veio correndo, parou e olhou, mas não disse uma palavra.
E assim suspirei e não fui. Pois não servia para nada; não servia para construir uma cabana, não ajudaria no desenvolvimento dos melões, não apressaria a colheita dos frutos; não tinha utilidade, era pura bobagem e vaidade; ele desprezaria minha invenção e diria palavras rudes. Mas para mim não era algo desprezível. Eu disse: “Oh, fogo, eu te amo, delicada criatura rosa, por ser belo — e basta!”, e quase o acolhi em meu peito. Mas me contive. E então me veio à cabeça outra máxima. Mas, como era tão parecida com a primeira, tive medo de que não passasse de plágio: “O Experimento queimado evita o fogo”.
Voltei à labuta, e quando obtive bastante pó de fogo outra vez, despejei sobre minha mão coberta com grama seca, na intenção de assim poder carregá-lo até em casa, para tê-lo sempre ao meu lado e poder brincar com ele; mas uma brisa atiçou o fogo, espalhando-o em minha direção; larguei tudo e corri. Quando me voltei, o espírito azul estava se elevando, se esticando e se espalhando como uma nuvem, e na hora pensei em um nome para ele — fumaça! —, e, palavra de honra, nunca tinha ouvido falar em fumaça.
Logo labaredas amarelas e vermelhas brilhantes ascendiam por entre a fumaça, e imediatamente eu as batizei de chamas, e eu estava certa de novo, apesar de serem as primeiras que surgiram no mundo. Elas subiram pelas árvores e flamejaram esplendidamente para dentro e para fora daquele vasto e crescente volume de fumaça; e só me restava bater palmas, rir e dançar em meu êxtase; era tudo tão novo e estranho, tão maravilhoso e belo!
Ele veio correndo, parou e olhou, mas não disse uma palavra por vários minutos. Depois perguntou o que era. Ah, foi lamentável ele ter perguntado de modo tão direto. Tive de responder, claro, e respondi. Disse a ele que era fogo. Se ele se incomodou por eu saber e ele ter de perguntar, não foi culpa minha; eu não tinha a menor intenção de aborrecê-lo. Depois de uma pausa ele perguntou:
“Como foi que apareceu?”
Outra pergunta direta, mais uma resposta direta.
“Fui eu que inventei.”
O fogo se espalhava cada vez mais. Ele foi até a beira do lugar que estava em chamas e, olhando para baixo, disse:
“E o que é isso?”
“São pedaços de carvão.”
Pegou um para examinar, mas mudou de ideia e colocou de volta no chão. Foi embora. Não tem interesse por nada mesmo.
Eu, porém, estava interessada. Havia cinzas — de uma cor meio cinza e suave, delicadas e bonitas —, e de imediato eu sabia o que eram. E as brasas; eu conhecia as brasas também. Achei minhas maçãs e ajuntei-as, estava contente, porque ainda sou muito jovem e meu apetite é grande. Mas fiquei frustrada, elas tinham estourado e estavam podres. Aparentemente podres; mas na verdade não, estavam até melhores do que as cruas. O fogo é lindo; e acho que algum dia ainda vai ser útil.
Sexta-feira Eu o vi novamente, por alguns instantes; na segunda-feira passada, ao anoitecer, também, mas só por um momento. Esperava que ele me elogiasse por tentar melhorar a propriedade, minhas intenções eram as melhores e eu me esforcei bastante. Mas ele não estava satisfeito, deu meia-volta e foi embora. Ele também estava chateado por outra razão; tentei mais uma vez convencê-lo a não atravessar mais as cataratas. Isso porque o fogo me revelou uma nova paixão — bem nova mesmo, e marcadamente diferente do amor, da tristeza, e desses outros sentimentos que eu já conhecia — o medo. Era horrível! — queria nunca ter descoberto, me traz momentos obscuros, estraga a minha felicidade, me dá arrepios, tremores. Mas não consegui dissuadi-lo, ele ainda não descobrira o medo, e assim não tinha como me entender.

(Mark Twain - Diários de Adão e Eva) 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:42



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D