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Deus, rival do homem?

por Thynus, em 20.02.14

A palavra fé vem do latim fides, donde deriva também fiel, fidelidade, confiar, fiador, confiança, confidência. Crer vem de credere, donde deriva também credo, crença, crente, acreditar, credor, crédito. Até etimologicamente, ter fé não significa, portanto, em primeiro lugar aceitar um conjunto de afirmações doutrinais ou dogmas. A fé é, antes de tudo, a entrega confiada a Deus, Fonte originária de tudo quanto existe. Entregar-se-lhe confiadamente como sentido último de toda a realidade e da existência própria. Como um homem se entrega confiada e amorosamente a uma mulher, como um amigo confia num amigo. Mas cá está a pergunta inevitável: Deus terá crédito, a ponto de se poder realmente acreditar nele, sem ilusões? Quem quiser reflectir sobre a fé religiosa deverá meditar na relação amorosa humana, no que ela implica de confiança, de decisão racional e de crédito. Teria crédito um Deus em relação ao qual se pudesse dizer, como escreveu Ernst Bloch, que o homem pode e deve ser melhor que o seu Deus? Com este critério, é necessário, por exemplo, recusar o Deus que exigiu a Abraão o sacrifício do próprio filho. Segundo Kant, à pretensa voz divina que ordenava sacrificar Isaac, Abraão deveria ter respondido: "Que eu não devo matar o meu bom filho é absolutamente certo; mas que tu, que me apareces, sejas Deus, disso não estou certo, nem posso estar, mesmo que essa voz ressoasse desde o céu (visível)". Como é inadmissível um Deus que castigasse a humanidade inteira por causa de um pecado dos primeiros pais. Quem pode acreditar num tirano, num Deus mesquinho e sádico? Frequentemente, foi um Deus indecente e intolerável que os ateus justamente recusaram. Segundo Nietzsche, o Deus que objectiva o homem "tinha de morrer, porque via com olhos que viam tudo... (...) A sua piedade desconhecia o pudor: ele metia-se nos meus recantos mais sórdidos". A religião, que tem de ser, pela sua própria natureza, o espaço da nobreza humana e da sua dignificação, da liberdade e da libertação, da fraternidade sem limites, da beleza e alegria feliz, do perguntar simultaneamente humilde e ousado, foi frequentemente o lugar da mesquinhez reles, da indignidade, da exclusão, do opróbrio, do mau gosto, da superstição ridícula. No Decâmeron, de Bocaccio, um frade enumera algumas das relíquias que encontrou: uma unha de um querubim, alguns raios da estrela que apareceu aos Reis Magos, uma garrafa com o suor de S. Miguel quando combateu com o Diabo... Hoje, continuam as hóstias que sangram, os segredos, os corpos incorruptos... Pregações infantis, infantilizantes e totalitárias, sem apelo ao debate esclarecido, ao diálgo crítico e a decisões adultas, contribuíram para o presente "vale tudo" do niilismo moral e para que, para tomar as grandes decisões da sua vida, apenas 1% dos franceses tenha em conta as posições da Igreja. Feuerbach e os "mestres da suspeita" viram-se na necessidade de negar Deus, porque pensaram que Deus era um vampiro que se alimentava do sangue, dos direitos e da dignidade do homem. Sartre dizia que mesmo que Deus existisse era necessário negá-lo, para afirmar a liberdade humana, pois Deus e a liberdade do homem são incompatíveis. Impõe-se, porém, reconhecer que tudo isto não passou de um enorme equívoco. De facto, o Deus cristão não é um rival do homem, mas um companheiro. E a própria ideia de liberdade tem a sua raiz essencial na Bíblia.

 

(Anselmo Borges - Janelas do (In)Visível)

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publicado às 17:43



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