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Deus existe?

por Thynus, em 18.07.16
Aquilo cuja existência pudesse ser demonstrada não seria nem poderia ser Deus.
 
"Se a existência de Deus, se a imortalidade da alma não fossem senão sonhos, ainda assim seriam a mais bela de todas as concepções do espírito humano".
Robespierre   
 
As maiores prisões humanas são as muralhas das crenças.
Bellatore 
 

 
Será que Deus existe?

Uma das perguntas que julgo mais inúteis em filosofia é se Deus existe. Vou contar uma coisa para você. O filósofo Blaise Pascal (século XVII) inventou uma coisa que ficou conhecida como “aposta pascaliana”, que gente chique como o psicanalista Jacques Lacan (século XX) gostava de citar como metáfora para o final de análise (coisa tão difícil de ver quanto amor verdadeiro...). O psicanalista francês queria dizer com isso que um paciente que fez bem sua análise estaria na condição do crente de Pascal: a vida é uma questão de aposta e não segurança absoluta, coisa que neurótico sempre busca e nunca encontra (de novo, como o amor verdadeiro...).
Mas voltemos à aposta de Pascal. A ideia, no primeiro e mais citado momento de sua “aposta”, era mostrar para o descrente (o libertino, na linguagem de sua época) que ele era um sujeito sem informação e pouco racional, porque se o fosse, saberia que o mais racional e útil era apostar na existência de Deus. E por quê? Porque caso você apostasse em sua não existência, você viveria os poucos anos de sua vida terrena sem levar em conta a vontade de Deus, e depois toparia com o Eterno do outro lado cobrando tudo de errado que você fez aqui. Assim, você teria negado investir (apostar) na existência de Deus nos poucos anos que teve na Terra e seria obrigado a amargar uma eternidade de sofrimento do outro lado. Qualquer quantidade que você aposte contra o infinito é um nada, por isso o texto em que ele descreve sua aposta se chama “Infinito, nada”. O infinito é Deus e nós somos o nada.
Mas voltemos aos termos da aposta. Se você apostasse que Deus existe, e vivesse seus poucos anos aqui levando em conta a vontade de Deus, e tivesse uma vida “sem graça porque santinha”, e Deus não existisse, você não realizaria a perda, porque morreria e sua alma deixaria de existir; logo, você não tomaria consciência de que fez uma aposta errada. Se você apostasse na existência de Deus e Ele existisse, aí você seria recompensado com uma eternidade de leite e mel, bem ao contrário daquele descrente que não quis se limitar nesta vida, mas acabou por amargar uma eternidade de sofrimento.
Portanto, nesse primeiro e mais citado momento de sua aposta, Pascal estaria nos dizendo que o mais racional é apostar na existência de Deus porque o risco contrário seria muito pior (Pascal era um exímio jogador de dado, um verdadeiro viciado). O erro na aposta da Sua existência seria muito mais terrível do que o erro na aposta da Sua inexistência. A perda, aqui, seria muito maior que uma vida sem graça e santinha em nome de um Deus inexistente, uma vez que sua alma acabaria com o corpo e não tomaria consciência de sua aposta errada.
Existe um segundo momento da aposta menos citado e fundamental para o argumento de Pascal. Uma vez tendo ouvido o discurso do crente, que quer provar que a crença em Deus é mais racional em termos de probabilidade (Pascal é um dos fundadores do cálculo de probabilidades em matemática), o descrente diz que, mesmo reconhecendo a força lógica da aposta, não consegue crer em Deus. Ao que Pascal responde logo: a fé é fruto da graça divina, é sobrenatural, e não fruto de cálculo racional. Com isso, Pascal quer dizer que não adianta tentar provar a existência de Deus, porque não chegamos à fé pelo uso da razão e seus argumentos, mas sim pelo fato de Deus nos dar ou não a graça de ter fé Nele.
Concluímos, assim, que de nada adianta o uso da razão em assuntos da fé. Você pode ver pessoas brilhantes que têm fé e estúpidos que se acham o máximo porque não creem em Deus.
Claro que falar que crer em Deus é fruto da graça de Deus, é já crer Nele de alguma forma. Mas posso sair desse ciclo teológico e pensar que crer em Deus é mais fruto de causas extrarracionais como educação, traumas infantis, ambiente cultural familiar, ter um “cérebro de crente” do que pensar que crer em Deus é fruto de uma cadeia lógica de provas a seu favor. A mesma coisa vale para a descrença. Dito de outra forma, não acredito que crer em Deus seja uma coisa que você escolhe, assim como você escolhe uma marca de sabonete ou uma marca de carro com base na lógica custo-benefício. Acho que argumentos que tentam provar a existência de Deus são inúteis. Muita gente tenta provar a existência de Deus dizendo que o universo “necessita” de um princípio ordenador de tudo, o que eu julgo infantil como argumento. Tudo isto aqui pode ser fruto de um grande acaso num espaço de tempo inimaginável no qual os elementos se arrumam e desarrumam, e no meio deles nós surgimos e desaparecemos.
Deus existe? Eu nunca fui crente. Mas isso não me impede de julgar Deus uma hipótese elegante para a existência das coisas, uma vez que um ser como Ele me parece misterioso e interessante de conhecermos, ainda mais se for uma “pessoa”. Qualquer um de nós no lugar Dele já teria se matado. Ninguém suportaria a eternidade e tanto conhecimento acumulado (o conhecimento de tudo que existe), apesar de ficarmos atrás dela (a eternidade) nessas crenças no sobrenatural, na metafísica e no próprio Deus. O que me leva a perguntar: o homem é um ser racional? Como ele pode buscar tanto uma coisa (como a eternidade) de modo tão obsessivo e enlouquecer se a conseguisse? Então, repito: seria o homem um ser racional?

(Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos)
 
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publicado às 03:17



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