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Deucalião e Pirra

por Thynus, em 22.11.16
O homem prometeico é o homem da técnica, capaz de criar, inventar de maneira incessante, fabricar máquinas e artifícios capazes de um dia se libertarem de todas as leis do cosmos. É isso, muito exatamente, que Prometeu lhe dá, roubando o “gênio das artes”, ou seja, a faculdade de utilizar e até inventar todo tipo de técnica. Agricultura, aritmética, linguagem, astronomia: tudo isso serve ao homem para escapar de sua condição, se erguer com arrogância acima dos seres da natureza e, desse modo, perturbar a ordem cósmica ainda recente, que Zeus com tanta dificuldade conseguira construir! Resumindo, ao contrário das outras espécies vivas — aquelas das quais Epimeteu perfeitamente organizou a vida, de maneira a formar um sistema equilibrado e imutável, em tudo oposto ao que a humanidade formaria assim que estivesse capacitada às artes e às ciências —, a espécie humana é a única entre as mortais capaz de hybris, a única podendo, ao mesmo tempo, desafiar os deuses e perturbar e até mesmo destruir a natureza. E é isso, certamente, que Zeus não pode ver com bons olhos, ou o vê inclusive com um olho muito mau, se considerarmos as punições infligidas a Prometeu e aos humanos.
Daí a pensar em destruir a humanidade inteira, a distância é bem curta, e algumas narrativas mitológicas deram esse passo.
 
 
O mito de Deucalião e Pirra faz referência ao dilúvio, presente em quase todas as religiões e que retrata destruição do mundo devido à decadência dos valores humanos. Mas também revela que apesar das turbulências que possamos experimentar na vida, mesmo em meio ao caos, as nossas virtudes servem para que possamos nos reerguer. E com confiança, deixando todas as tristezas no passado, faremos germinar novas fontes de sabedoria que irão repovoar nossa consciência.
 

Zeus estava espantado com o ódio instaurado entre a humanidade e decidiu exterminar a espécie humana, certo de que esta fora o maior erro que os deuses haviam cometido. Convocado o conselho dos deuses, todos obedeceram e tomaram o caminho do palácio do céu. Esse caminho pode ser visto no céu em todas as noites claras, a chamada Via Láctea. Ao longo dele se acreditavam estar os palácios dos deuses.

Dirigindo-se à assembléia reunida, Zeus expôs as terríveis condições que reinavam na Terra e anunciou que iria destruir todos os homens e criar uma nova raça que fosse mais digna de viver e que soubesse melhor cultuar os deuses. Pensou em destruir com seus raios, mas percebeu que também colocaria em perigo os próprios deuses. Então Zeus decidiu inundar a terra.

O vento norte que espalha as nuvens foi encadeado. O vento sul foi solto e em breve cobriu todo o céu com uma escuridão profunda. As nuvens, empurradas em bloco, romperam-se. Torrentes de chuva caíram. As plantações inundaram-se. Pediu ajuda ao seu irmão Posseidon e este soltou os rios e lançou-os sobre a Terra. Sacudia-a com terremotos lançando o refluxo dos oceanos sobre as praias. Rebanhos, animais, homens, casas e templos foram tragados pelas águas.

De todas as montanhas, apenas a do Parnaso conseguiu ficar acima das águas. Nele o barco de Deucalião - o mais justo dos homens - e Pirra - a mais virtuosa das mulheres - encontrou refúgio. Zeus viu que apenas eles haviam sobrevivido e cessou a tempestade. Poseidon retirou as suas águas.

Em segurança, Deucalião e Pirra dirigiram-se aos deuses para saber como poderiam repovoar a terra criando uma nova raça. Entraram no templo ainda coberto de lama e rogaram à deusa que os esclarecesse sobre a maneira de agir naquela situação. O oráculo respondeu: - Saiam do templo com a cabeça coberta e as vestes desatadas e atirai para trás os ossos de vossa mãe - respondeu o oráculo.

Pirra ficou confusa com o que o oráculo disse. Deucalião pensou seriamente e chegou à conclusão de que se a Terra era a mãe comum de todos e as pedras seriam os seus ossos. Assim resolveram tentar. Velaram o rosto, afrouxaram as vestes, apanharam as pedras e atiraram-nas para trás. As pedras amoleceram e começaram a tomar forma humana. As pedras atiradas pelas mãos do homem tornaram-se homens e aquelas atiradas pelas mãos da mulher tornaram-se mulheres.
 

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