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Aristóteles foi considerado por alguns como o maior de todos os filósofos da história, e, paradoxalmente, por outros, como o mais sério obstáculo para que o Ocidente superasse as trevas da Idade Média. A explicação para essa ampla gama de visões é relativamente simples, pois ele é autor de uma obra muito vasta que foi adaptada pela Igreja Católica no século XIII, por Tomás de Aquino e seu mestre, Alberto Magno, considerados duas sumidades intelectuais em sua época, referências maiores na chamada “tradição escolástica”13.

Assim, superar essa visão implicava afrontar uma hierarquia rígida e uma autoridade consolidada pelas estruturas do poder político da Europa. No entanto, para entender o que havia a superar, é necessário compreender de que maneira o conhecimento produzido por Aristóteles significou um avanço, principalmente em sua época, mas, também, como seu legado passou a impedir o florescimento e a aceitação das ideias modernas.

 

O jovem estagirita

Aristóteles nasceu em 384 a.C. na cidade de Estagira, na extremidade norte do mar Egeu, filho de um influente médico do rei da Macedônia. Aos 17 anos foi mandado para Atenas, e estudou com o maior filósofo da época, Platão, que fundara uma escola diante do bosque de Academos, um herói da mitologia grega, por isso conhecida como Academia. O jovem estudante se destacou a ponto de ser prezado como seu melhor aluno, o que não o impediu de divergir do mestre de maneira muito profunda. No entanto, isso mesmo era, de certa maneira, prova de seu aprendizado verdadeiro, pois uma das lições mais significativas de seu mestre Platão se referia a refletir sobre as convicções mais profundas. Ele, ao assim proceder, acabara por discordar de lições básicas.

Na base da filosofia platônica reside a concepção de que a concretização das coisas só pode se dar por meio de um empobrecimento de sua existência abstrata. Assim, o círculo pode ser perfeito em pensamento, mas um círculo construído em madeira, por exemplo, jamais será perfeito. Por consequência, a observação das coisas do mundo a fim de desenvolvermos nossas ideias sobre ele era vista, por Platão, como uma simples perda de tempo. Um pensamento, para ser verdadeiro, deveria ser perfeito, o que implicava abandonar o mundo das coisas concretas e imperfeitas como fonte de modelos para nosso pensamento. O “pensar correto” era condição de criação das coisas verdadeiras, e não sua tangência com o mundo real.

Aristóteles passou a discordar de seu mestre e atribuiu ao mundo concreto e real papel decisivo para desenvolver o pensamento. Logo se tornaria um professor conhecido e respeitado, o que o levou a ser indicado, em 342 a.C., preceptor do filho do então novo rei da Macedônia, que haveria de ser Alexandre, o Grande. Este sempre reconheceu os ensinamentos de seu professor, que o levaram a grandes conquistas militares, resultando em retribuições generosas para que o mestre continuasse a desenvolver suas pesquisas e escrever livros. Acredita-se que Aristóteles tenha escrito de quatrocentos a mil livros, embora poucos tenham sobrevivido até nosso tempo. Isso significa que, muito provavelmente, a escola que ele fundou, e que se chamava Liceu, tinha uma vasta equipe de colaboradores, que devem ter constituído a primeira equipe de pesquisa da história. Fala-se em centenas de homens, que viajavam aos mais remotos pontos do mundo conhecido à época, coletando e desenhando espécimes. Assim, não é de se estranhar que sua contribuição mais duradoura tenha sido no campo da Biologia, abarcando aproximadamente a terça parte dos escritos que chegaram até nós.

As descrições zoológicas de Aristóteles eram coerentes com a forma de pensamento que desenvolvera, tributário do de Platão embora essencialmente distinto. Por exemplo, o pé da galinha, o do pato e o do gavião são parecidos, mas profundamente diferentes. Para ele, era fácil entender a razão disso, pois o pé do pato tinha a finalidade de impulsionar o animal na água; o da galinha, na terra; e o do gavião tinha a finalidade de agarrar alimento. Diversos filósofos haviam discutido a razão de possuirmos mãos tão especiais. Para Anaxágoras (498-428 a.C.), por possuir mãos tão prodigiosas, teríamos desenvolvido nossa inteligência e nos tornado os animais mais inteligentes do mundo. A resposta de Aristóteles era radicalmente oposta, pois dizia que a natureza nos dotara de mãos para que exercitássemos nossa inteligência. A finalidade das coisas explicava sua própria existência, no sentido de que os fins explicam os meios, e não ao contrário.

Outra conhecida passagem dá conta de sua oposição a outro filósofo pré-socrático, Empédocles (c. 490-430 a.C.), que argumentava que as partes dos animais, como seus pés, os habilitam a sobreviver, sendo que aqueles que não os possuíssem acabariam por morrer. Ele teria exemplificado com os dentes humanos: por que temos dentes incisivos e dentes molares exatamente nos lugares da boca mais apropriados para sua função? A resposta de Empédocles, que vivera muito antes de Aristóteles, era surpreendente, pois apontava justamente para uma explicação de feição “moderna”, conjugando a coincidência de tê-los e sua função. Ele dizia que, a cada geração, nascem animais com dentes adequados às suas necessidades e outros sem eles, mas apenas os que os possuem sobrevivem, numa surpreendente aproximação que recorda um programa “adaptacionista”. Já a resposta de Aristóteles reafirmava seu princípio de priorizar a finalidade, capaz de explicar os meios. Ele dizia que, estivesse Empédocles correto, seria possível observar algo muito diferente do que de fato se vê, ou seja, os animais nascem com os dentes de que necessitam – por exemplo, todos os cães nascem com grandes caninos e as ovelhas nascem sem eles –, e não o contrário, como exigia a teoria de Empédocles.14 A finalidade, e não o acaso, explicaria a perfeita adequação dos dentes ao alimento do animal.

O argumento causal a rivalizar com essa explicação, identificada com a supremacia da necessidade, é o do acaso. O estagirita diz que o argumento é sedutor e poderia confundir muitas pessoas, mas ele se fixa na questão constitutiva do ser. Não existe um cão que não seja identificável, em linhas gerais pelo menos, por seus dentes. Por mais que uma onda de frio ocorra no verão, isso não é suficiente para nos confundir sobre em que estação do ano estamos. Tampouco passaremos a definir o verão pela ocorrência de ondas de frio, que

mesmo que ocorram naquela época do ano, não chegam a ser parte constitutiva dela. Os fatos fortuitos não têm uma finalidade e, mesmo que ocorram, não se incorporam à natureza das coisas. Assim, eles não se confundem com os fatos que cumprem uma finalidade e se incorporam à natureza das coisas, passando a ser identificados com elas. Se os dentes cumprem uma função, têm uma finalidade, e, sendo assim, não podem ser creditados ao acaso. Eles se incorporaram ao ser e continuarão a constituí-lo naturalmente, o que contrariava a visão de Empédocles.

 

O entrave do finalismo aristotélico

Os animais estavam equipados com o que de melhor havia para sua sobrevivência e isso lhes conferia estabilidade em um mundo em constante movimento.15 E, assim, Aristóteles conseguiu organizar classificações, a partir dessas características estáveis, percebendo uma “ordem” no mundo, o que lhe permitia criar conhecimento de uma maneira rigorosa. Além de estudar as características externas, Aristóteles investigou o interior dos organismos, sendo provavelmente um dos primeiros estudiosos a dissecar animais para estudá-los. Além disso, ele admitia a geração espontânea de animais pequenos, identificando o animal com o tipo de matéria em meio à qual ele era gerado. Os animais que eram espontaneamente gerados em matéria mole, como a lama, eram, eles também, moles (como os vermes). Os que eram gerados em meio à areia, por exemplo, tinham carcaças e carapaças duras (os chamados “testáceos”).

Mas por que razão, então, sua influência é considerada tão danosa por alguns? Bem, inicialmente, deve-se reconhecer a convicção aristotélica de que as partes estavam perfeitamente ajustadas às necessidades do animal, sendo, por isso, reveladoras da finalidade para a qual foram supostamente criadas. Essa perspectiva, denominada “finalismo” ou “teleologia”, constitui por si uma grande dificuldade para o desenvolvimento da biologia moderna, como veremos adiante. A biologia aristotélica tem muito de descritivo e, por isso, resistiu ao tempo,16 mas seu recurso ao finalismo e sua aversão a outros fatores casuais colidem frontalmente com a compreensão moderna.

Além disso, coerente com sua maneira de conceber o mundo, Aristóteles conseguia explicações factíveis para a existência de praticamente tudo, o que acrescentava grande dificuldade para aqueles que pretendiam criticá-lo. Por fim, seu sistema tinha uma demanda lógica que o tornava especialmente palatável a hierarquias religiosas, pois não podia carecer de uma divindade. De fato, o Concílio de Trento declarou a versão de Tomás de Aquino de Aristóteles como a doutrina oficial da Igreja Católica (“tomismo”). A dominância cultural, intelectual e teológica do mestre estagirita se estendeu aos países protestantes e, embora a doutrina aristotélica tenha sido seriamente questionada na chamada “revolução científica”, como veremos no próximo capítulo, ela teve presença marcante no pensamento científico pelo menos até o século XIX. Os jesuítas introduziram, em 1586, a Ratio studiorum, que definia os textos-padrão para o ensino da filosofia aristotélica em seus colégios, a partir de sua sede vaticana, o Collegio Romano. Muitas escolas cristãs adotaram esse currículo, ainda que com adaptações. Os textos selecionados pelos jesuítas incluíam a descrição do mundo físico constituído pelos quatro elementos (terra, água, ar e fogo) e mencionavam o heliocentrismo de Copérnico, mas de maneira crítica. Muitos esforços foram empreendidos, a partir de 1600, a fim de conciliar as novas observações astronômicas e outras descobertas ao sistema ptolomaico-aristotélico, principalmente a partir do Collegio Romano.17 Da mesma forma, a Inquisição foi revigorada e passou a combater mais fortemente os oponentes dessa versão oficial. Giordano Bruno (1548-1600) acabou condenado por ela, por sustentar visões opostas à filosofia aristotélica tomista, em especial sua defesa da infinitude do universo18 e da possibilidade de vida em outros planetas.

 

A solidez do sistema aristotélico

As coisas do mundo teriam propriedades que poderiam ser reduzidas a quatro aspectos, oponíveis dois a dois. As coisas poderiam ser quentes ou frias, úmidas ou secas, em uma ampla gama de possibilidades entre esses extremos, ligadas a seus elementos constituintes. Estes, em nosso mundo, seriam também quatro: o fogo, a água, o ar e a terra. A lenha fria podia tornar-se quente ao perder água, por exemplo, caso fosse colocada no fogo. Vê-se que, quando começa a arder, ela perde água, que dela começa a porejar. Essa mudança libera o ar de seu interior, na forma de fumaça, e a terra que a constitui, que forma as cinzas. Assim, uma coisa fria e seca se tornaria quente e úmida. Essa era a visão tradicional dos quatro elementos na Grécia antiga, já presente em Empédocles, à qual Aristóteles havia acrescentado um quinto elemento, o éter (ou quintessência) presente de maneira imperceptível no céu, mas aparente ao se agregar, formando as estrelas e, em agregados maiores, os planetas, a Lua e o Sol.

Os cinco elementos tinham propriedades intrínsecas, que explicavam sua dinâmica. O fogo teria uma tendência natural para se mover para cima; a água, por outro lado, descia, mas permanecia por cima da terra. O ar tendia a subir, ficando acima da água, mas nunca alcançaria a altura do fogo. Assim, os elementos terrestres tinham movimento retilíneo, seja em sentido ascendente ou descendente. Um objeto constituído por grande quantidade de um elemento poderia ser mais pesado ou mais leve. Uma pluma é constituída de muito ar; isso explicaria o fato de se mover lentamente em direção à terra. Já uma pedra pequena possuiria grande quantidade do elemento terra, o que explicaria seu movimento rápido para baixo. Pedras pequenas se movimentariam mais lentamente para baixo; pedras mais pesadas, com mais elemento terra em sua constituição, se movimentariam mais rapidamente.

Esses movimentos naturais dos objetos do mundo poderiam ser alterados por alguma violência, os “movimentos forçados”, mas não se aplicariam aos objetos do céu. Estes seriam imperturbáveis, pois constituídos de um elemento distinto (o éter), o qual invariavelmente se movia de maneira uniforme, descrevendo uma trajetória perfeitamente circular. O círculo era visto como uma manifestação de perfeição, remetendo à ideia de divindade. As estrelas se moviam descrevendo um círculo perfeito. Os planetas constituíam um caso à parte e não por outra razão eram tidos, eles próprios, como divindades, capazes de superar as regras fixas dos astros ordinários.19

O movimento natural dos objetos acima da Lua era, pois, uma das características do universo e era visível: não há noite em que não se veja o movimento das estrelas e dos planetas, não há dia em que não mencionavam o heliocentrismo de Copérnico, mas de maneira crítica. Muitos esforços foram empreendidos, a partir de 1600, a fim de conciliar as novas observações astronômicas e outras descobertas ao sistema ptolomaico-aristotélico, principalmente a partir do Collegio Romano.17 Da mesma forma, a Inquisição foi revigorada e passou a combater mais fortemente os oponentes dessa versão oficial. Giordano Bruno (1548-1600) acabou condenado por ela, por sustentar visões opostas à filosofia aristotélica tomista, em especial sua defesa da infinitude do universo18 e da possibilidade de vida em outros planetas. 

 

A solidez do sistema aristotélico

As coisas do mundo teriam propriedades que poderiam ser reduzidas a quatro aspectos, oponíveis dois a dois. As coisas poderiam ser quentes ou frias, úmidas ou secas, em uma ampla gama de possibilidades entre esses extremos, ligadas a seus elementos constituintes. Estes, em nosso mundo, seriam também quatro: o fogo, a água, o ar e a terra. A lenha fria podia tornar-se quente ao perder água, por exemplo, caso fosse colocada no fogo. Vê-se que, quando começa a arder, ela perde água, que dela começa a porejar. Essa mudança libera o ar de seu interior, na forma de fumaça, e a terra que a constitui, que forma as cinzas. Assim, uma coisa fria e seca se tornaria quente e úmida. Essa era a visão tradicional dos quatro elementos na Grécia antiga, já presente em Empédocles, à qual Aristóteles havia acrescentado um quinto elemento, o éter (ou quintessência) presente de maneira imperceptível no céu, mas aparente ao se agregar, formando as estrelas e, em agregados maiores, os planetas, a Lua e o Sol.

Os cinco elementos tinham propriedades intrínsecas, que explicavam sua dinâmica. O fogo teria uma tendência natural para se mover para cima; a água, por outro lado, descia, mas permanecia por cima da terra. O ar tendia a subir, ficando acima da água, mas nunca alcançaria a altura do fogo. Assim, os elementos terrestres tinham movimento retilíneo, seja em sentido ascendente ou descendente. Um objeto constituído por grande quantidade de um elemento poderia ser mais pesado ou mais leve. Uma pluma é constituída de muito ar; isso explicaria o fato de se mover lentamente em direção à terra. Já uma pedra pequena possuiria grande quantidade do elemento terra, o que explicaria seu movimento rápido para baixo. Pedras pequenas se movimentariam mais lentamente para baixo; pedras mais pesadas, com mais elemento terra em sua constituição, se movimentariam mais rapidamente.

Esses movimentos naturais dos objetos do mundo poderiam ser alterados por alguma violência, os “movimentos forçados”, mas não se aplicariam aos objetos do céu. Estes seriam imperturbáveis, pois constituídos de um elemento distinto (o éter), o qual invariavelmente se movia de maneira uniforme, descrevendo uma trajetória perfeitamente circular. O círculo era visto como uma manifestação de perfeição, remetendo à ideia de divindade. As estrelas se moviam descrevendo um círculo perfeito. Os planetas constituíam um caso à parte e não por outra razão eram tidos, eles próprios, como divindades, capazes de superar as regras fixas dos astros ordinários.19

O movimento natural dos objetos acima da Lua era, pois, uma das características do universo e era visível: não há noite em que não se veja o movimento das estrelas e dos planetas, não há dia em que não se veja o Sol sempre com a mesma velocidade e a mesma trajetória perfeitamente circular. Esse movimento eterno e invariável do quinto elemento influenciaria o movimento dos outros quatro elementos, embora ele aparecesse sem a mesma regularidade. Esse quinto elemento, ao contrário dos demais, era imaterial, e seu movimento, uniforme e eterno, seria revelador de outra característica exclusiva: em vez de ser movido, ele seria motor. Ele, na verdade, seria o motor capaz de explicar, direta ou indiretamente, todos os demais movimentos que ocorriam abaixo da Lua. Algumas coisas seriam movidas indiretamente por ele, ou seja, por motores que receberam movimento dele. Em outras palavras, o motor celeste provocava movimento nas coisas ou nos motores que as movimentavam diretamente, os quais seriam, eles também, móveis. Assim, não só as coisas do mundo, mas também seus motores, se moviam. O único motor imóvel seria o motor primeiro, que Aristóteles reconhecia ser a causa primeira de tudo, por isso mesmo identificada com a figura de Deus. A teologia seria a forma suprema da Filosofia, ao debruçar-se sobre o motor de todas as coisas, aquilo que pode explicar todos os movimentos, todas as mudanças de proporções dos elementos.

É interessante que a teologia de Aristóteles não é resultado de uma experiência mística; ao contrário, é uma decorrência lógica do exercício puro da razão. Se não fosse necessário evocar Deus para explicar o mundo, como concluiu séculos mais tarde Laplace (1749-1827), então a Física seria a Filosofia mais elevada, diria o sábio estagirita.

 

A metafísica aristotélica

Os livros de Aristóteles sobre Física foram agrupados, muito depois de sua morte, sob o nome “Metafísica”, indicando uma certa forma de interpretá-los. Nossos sentidos poderiam nos ajudar a validar argumentos, por exemplo, ao observarmos um animal e descrevermos suas qualidades. No entanto, algumas coisas não poderiam ser vistas, e isso não nos impediria de, indo além da Física, tecer considerações sobre elas, o que constituiria, para os seguidores de Aristóteles, sua metafísica, ou a ciência das primeiras causas e princípios.

Na Física de Aristóteles, como vimos, os movimentos ganharam explicações e justificativas precisas e lógicas. Aliás, até a existência de Deus segue o mesmo caminho. Fenômenos que não podem ser observados são amparados igualmente por explicações meticulosas. A luz, por exemplo, encerrava outro dos grandes problemas que haveriam de ser enfrentados para alcançar visões modernas da Física. Empédocles argumentava que a luz se deslocava de um lado para outro, ou seja, que ela tinha uma velocidade. Aristóteles criticou duramente essa afirmação dizendo que ninguém era capaz de ver o deslocamento da luz, e que ela seria, portanto, “instantânea”, ou, em outros termos, de velocidade infinita. Mais tarde, Galileu analisará essa questão inclusive nos mesmos contextos. A observação do relâmpago e do trovão permite perceber a propagação da luz em grandes distâncias, ao mesmo tempo que resta entender sua relação com o som. Nem mesmo Galileu conseguiu perceber algum atraso entre a emissão da luz do relâmpago e seu reflexo em montanhas distantes, embora, como veremos adiante, tenha planejado um experimento engenhoso.20

O motor primeiro não era revelado pelos sentidos, da mesma forma que o quinto elemento, mas era possível tornar sua existência viável, por coerência com outros fenômenos e coisas. Mas, por vezes, era necessário realizar ajustes. Por exemplo, a partir de determinada altitude, o ar não conseguiria avançar, estando acima dele, como vimos, o fogo. Acima do fogo teria início o chamado “mundo supralunar”, preenchido apenas por éter, o quinto elemento cuja existência Aristóteles havia teorizado. No mundo sublunar ocorreriam fenômenos como a formação das nuvens, havendo uma limitação necessária entre a distribuição dos quatro elementos tradicionais e o quinto elemento. No entanto, havia dificuldades, por exemplo, na forma dos meteoritos ferrosos, ou seja, compostos do elemento terra, corpos que caíam do céu provocando incêndios, portanto compostos também do elemento fogo. Eles revelavam ser compostos simultaneamente de dois elementos presentes no mundo sublunar (terra e fogo). Ora, como corpo celeste, o meteoro deveria ser composto do elemento éter, e não de fogo e terra.

A saída, para Aristóteles, foi levantar a hipótese de que os meteoritos eram fenômenos sublunares, que se formariam de maneira semelhante às nuvens. Estas se formariam com a elevação do ar – como vimos, em sua tendência natural de movimento retilíneo ascendente – em combinação com a água, a qual tenderia a mover-se em direção à terra, o que explicava a chuva. Aristóteles conjecturou outra forma de elevação do ar, na ausência de água. Ao atingir o nível mais elevado, do fogo, haveria uma queima, e, caso elementos sólidos tivessem se elevado junto com o ar, da combustão resultariam os meteoritos e as estrelas cadentes. Caso a queima envolvesse apenas ar seco, se originariam os cometas. Esses fenômenos ocorreriam, portanto, todos no espaço sublunar.

Os fenômenos que envolviam o elemento terra, como vimos, naturalmente acabariam por se mover para baixo, para ocupar seu lugar natural. Os meteoritos e as estrelas cadentes tinham também uma explicação engenhosa para sua ocorrência, sempre no espaço sublunar. O espaço supralunar estava reservado para o mundo divino, com a perfeição do movimento circular, compondo eternamente um quadro perfeito e invariável. Os cometas e as “estrelas novas”, os meteoritos e as estrelas cadentes não poderiam fazer parte desse quadro eterno e perfeito, tido como “incorruptível”, mas a revolução científica logo perceberia a fragilidade dessa elaboração teórica, como veremos no próximo capítulo.

Todas essas explicações para os fenômenos do mundo, incluindo características observáveis e as imaginadas, compunham uma metafísica muito coerente, que estava, por sua vez, assentada em um complexo e elaborado estudo das causas. Além de estudar a causalidade dos fenômenos, Aristóteles desenvolveu ainda um método para criar conhecimento seguro, no qual era possível criar uma verdade desconhecida a partir de outras duas verdades conhecidas, o silogismo aristotélico. O estudo da causalidade e os silogismos dedutivos e indutivos fogem (infelizmente) ao escopo deste livro. Uma das causas aristotélicas é a causa final, a base do finalismo. De qualquer forma, cabe apenas dizer que o método silogístico será questionado por Francis Bacon, e as causas finais por René Descartes (1598-1650), outro grande pensador da revolução científica.

 

O enfraquecimento do sistema aristotélico

Mais importantes, para as finalidades deste livro, são alguns dos principais problemas que haveriam de ser enfrentados por aqueles que viveram o renascimento da razão e se depararam com novas possibilidades de pensar o mundo, ao mesmo tempo em que encontravam firmes obstáculos teóricos. Particularmente, a física de Aristóteles, com suas explicações sobre os movimentos, mostrava o que ocorria em um mundo imóvel, onde os quatro elementos – terra, água, ar e fogo – têm tendências naturais de se deslocar para cima ou para baixo.

A ideia de uma Terra imóvel era absolutamente necessária para Aristóteles, pois os movimentos dos astros eram circulares, portanto perfeitos, e eternos. Por serem assim, constituíam evidências da existência de uma divindade, uma necessidade básica em qualquer teologia. Quando a alta hierarquia católica declara, no Concílio de Trento, o tomismo aristotélico como doutrina oficial católica, a evidência concreta no mundo supralunar em constante movimento circular, perfeito e imutável, passa a ser um dos dogmas do catolicismo, justificando a relação entre razão e fé.21

Os pensadores da revolução científica, ao contrariar esse quadro teórico e dizer que a Terra girava, transformaram as estrelas e o Sol em astros fixos, sem movimento, em lugar de descreverem círculos perfeitos. De certa forma, questionavam um dogma que se tornara central no catolicismo, pois, ao questionar as evidências do poder divino, pareciam questionar a existência do próprio Deus. Além disso, a Terra passava a ter movimento circular, invertendo a localização da perfeição e da divindade, convertendo seus pecadores habitantes em seres perfeitos e divinos, o que a Inquisição entendia como pura heresia. Mas a rotação de nosso planeta não aniquilaria apenas o movimento circular dos objetos do mundo supralunar, tornando-os corpos etéreos imóveis e inertes, como também simplesmente acabaria com o movimento retilíneo dos quatro elementos do mundo sublunar. Sua causa desapareceria, eis que era o movimento do mundo supralunar que respondia pelo movimento dos quatro elementos do mundo sublunar. Além disso, suas trajetórias retas passariam a ser curvilíneas, pois uma gota de chuva, por exemplo, ao cair deixaria uma nuvem em movimento circular e não atingiria o solo imediatamente abaixo dela, mas o que teria estado pouco antes a leste. Ao jogar uma pedra para o alto, arremessando-a exatamente na perpendicular, veríamos sua queda a oeste do ponto de lançamento, devido ao movimento da Terra.

No século XIV, quando as artes militares começaram a incluir canhões de curto alcance nos navios de guerra, por exemplo, as trajetórias retilíneas ainda explicavam os tiros certeiros. Mas, com a artilharia de longo alcance, com obuses impulsionando petardos a maior distância, o estudo do movimento começou a ser crítico para o cálculo balístico. Segundo a física de Aristóteles, os projéteis subiriam em linha reta até que terminasse a influência da perturbação violenta da detonação da pólvora. Terminado o movimento forçado, teria início o movimento natural de queda em linha reta, perpendicularmente ao solo, descrevendo, assim, uma trajetória triangular. O triângulo retângulo seria a representação aristotélica do percurso do projétil, com o ângulo reto sinalizando o ponto de impacto junto ao solo.

Não é difícil imaginar que os generais dos primeiros batalhões de artilharia não estivessem nada contentes com a geometria aristotélica nos campos de batalha. A rotação do planeta acrescentava uma complicação nada desprezível a esse quadro. Segundo Aristóteles, inimigos a leste seriam mais difíceis de atingir, ao passo que os canhões deveriam alcançar alvos mais distantes se estes estivessem a oeste. Pelas leis aristotélicas de movimento, enquanto a bala de canhão estivesse viajando pelo ar, o alvo estaria se afastando (se localizado a leste) ou se aproximando (se a oeste), o que não era confirmado pelos artilheiros. De fato, um dos primeiros problemas práticos que Galileu enfrentou, como veremos, foi a trajetória balística, um problema militar que a poderosa República de Veneza tinha interesse em resolver antes dos otomanos.

Justamente na época que denominamos Renascimento, o Ocidente estava mudado. A concepção aristotélico-ptolomaica de universo conseguira suprir necessidades práticas, principalmente ligadas ao calendário, mas não dava conta de uma série de novas demandas, entre elas as da cinemática e da cartografia. O desenvolvimento da navegação precisava urgentemente de mapas mais precisos, o que era impossível sem uma nova astronomia, imprescindível para determinar com precisão as coordenadas geográficas. As artes militares e a engenharia, no novo contexto das manufaturas, traziam também demandas que a tradição escolástica era incapaz de satisfazer. Galileu Galilei iria enfrentar Aristóteles, desde sua matemática até sua astronomia, e toda a hierarquia católica se veria ameaçada com as novas ideias.

 

(Nélio Bizzo - Pensamento Científico, A natureza da ciência no ensino fundamental)

 

NOTAS:

13  A escolástica foi um movimento reformador cristão iniciado por Santo Agostinho (345-430 d.C.), que buscou reinterpretar os ensinamentos do cristianismo à luz do pensamento ocidental, conciliando fé e razão. As primeiras escolas eclesiásticas foram fortemente influenciadas por essa tradição, profundamente abalada pelo Renascimento e pela Reforma protestante.

14  V. IRWIN, T. H. Aristotle’s First Principles. Oxford: Clarendon Press, 1988, em especial p. 105 e seguintes (“Disputes about teleology”).

15  Esta era uma nítida influência do platonismo incorporada por Aristóteles.

16  Darwin se referiu elogiosamente a Aristóteles, como “um dos maiores, se não o maior dos observadores”, embora admitisse um conhecimento indireto, apenas a partir de fontes secundárias e comentaristas. V. GOTTHELF, A. Darwin on Aristotle. Journal of the History of Biology, 1999, 32(1): 3-30.

17  SARGENT, R-M. Aristotelianism. In: OLBY, R. C.; CANTOR, G. N.; CHRISTIE, J. R. R.; HODGE, M. J. S. Companion to the History of Modern Science. Londres; Nova York: Routledge, 1990, 1081 p., p. 44-45.

18  Esta era uma das retificações de Tomás de Aquino, pois Aristóteles originalmente acreditava que o universo não havia tido um início, o que contrariava a descrição da criação do mundo ex novo (criado a partir do nada) presente no Gênesis.

19  O próprio nome “planeta” é indicativo de sua trajetória no céu, pois significa “astro errante”.

20  V. FILONOVICH, S. R. The Greatest Speed. Moscou: MIR Publishers, 1986.

21  O tomismo tem como um de seus fundamentos a certeza de que se pode confiar à razão a tarefa de demonstrar os preâmbulos da fé (preambula fidei), ou seja, o conjunto de verdades cuja demonstração é necessária para a própria fé, entre as quais se encontra, em primeiro lugar, a existência de Deus. O movimento perfeitamente circular do espaço supralunar e a perfeição dos seres vivos seriam justamente provas da existência de um ser superior. (Cf. ABBAGNANO. Diccionario de filosofía. Bogotá: Fondo de Cultura Econômica, 1997, p. 943 e 1143-1144).

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