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1
Domiciano, irmão do magnânimo Tito, era um imperador cruel. Menos espetaculoso que Nero, mais abjeto. Ao acordar, permanecia horas a sós no quarto, imóvel, à espreita, esperando que uma mosca pousasse ao seu alcance, e então seu braço descia como um raio e ele a transpassava com um estilete. De tanto treinar, tornou-se um ás nessa modalidade esportiva. Gostava de comer sozinho, vagar à noite pelo palácio, escutar atrás das portas. Só se interessava por uma mulher se pudesse roubá-la de outro homem, de preferência um amigo, mas ele não tinha amigos. Era perigoso, diz Juvenal, conversar com ele sobre o tempo que estava fazendo. Com um temperamento assim, não admira ter perseguido muita gente, mas o objeto principal de sua perseguição eram os filósofos. Detestava os filósofos. Epicteto, uma das grandes figuras tardias do estoicismo, é apanhado na rede. Os cristãos também, mas com os cristãos já era rotina: usual suspects. No crime, Domiciano não apreciava a rotina, nem que lhe ditassem o modus operandi. Queria vítimas próprias, não as de Nero, e, além de persegui-las, saber a quem perseguia. Fez questão de se informar sobre a natureza exata do perigo representado pelos cristãos. Diziam: rebeldes, quem diz rebelião diz líder e, como o líder morrera sessenta anos atrás, Domiciano ruminou que o perigo, se havia algum perigo, vinha forçosamente de sua família. Com toda a sua perversidade, tinha das coisas uma visão tão arcaica e mafiosa quanto Herodes, capaz de massacrar centenas de crianças inocentes para se livrar de um descendente de Davi. Ordenou então que procurassem os descendentes de Jesus.
Despachada para a Judeia, a polícia imperial encontrou dois de seus sobrinhos-netos, netos de seu irmão Judas. Eram pobres camponeses, membros daquelas comunidades remotamente oriundas da igreja de Jerusalém que sobreviviam na orla do deserto, à margem da margem de um país condenado por seu deus e por Roma. Ignorando tudo a respeito do que acontecia no mundo em nome de seu tio-avô, tinham conservado ritos vagos, tradições vagas, uma vaga lembrança das palavras de Jesus. Devem ter receado por suas vidas quando os soldados romanos apareceram em sua aldeia perdida, os prenderam, transferiram para Cesareia e embarcaram para Roma. Lá, foram recebidos pelo imperador, cujo nome sequer deviam conhecer. Era o imperador, era César, tudo que pressentiam é que, para pessoas como eles, era perigoso comparecer perante ele.
Domiciano adulava antes de torturar: interrogou-os cortesmente. Descendiam de Davi? Sim. De Jesus? Sim. Acreditava que ele reinaria um dia? Sim, mas sobre um reino que não é deste mundo. E do que viviam, enquanto isso? De uma plantação que ambos possuíam, ocupando um hectare, que valia nove mil denários. Cultivavam-na sozinhos, sem empregados, rendia justo com que sobreviver e pagar o imposto.
Eram tão dignos de pena que comoviam, aqueles dois judeuzinhos aterrados, com as mãos calejadas, apresentados ao imperador como perigosos terroristas. Talvez, excepcionalmente, Domiciano não estivesse de lua nesse dia. Talvez não lhe apetecesse fazer o que esperavam dele. Mandou-os de volta para casa, livres, e não me admiraria que, pelo prazer de surpreender, houvesse mandado degolar os que à sua volta o pressionavam para reprimir os cristãos.
Os cristãos… Coitados. Nenhum perigo, nenhum futuro. Assunto encerrado, pensou o imperador. Podemos arquivar o processo.
Dezenove séculos mais tarde, hesito em arquivá-lo.
2
Quase ao mesmo tempo que o de Lucas, outro Evangelho era escrito na Síria, para uso dos cristãos do Oriente. Dizia-se que seu autor era Mateus, o coletor de impostos que se tornara um dos Doze. Dizia-se também que por trás de Mateus se escondia nosso velho conhecido Filipe, o apóstolo dos samaritanos. Os historiadores, claro, não acreditam nem em Mateus nem em Filipe. Veem nesse relato antes a obra de uma comunidade do que de um indivíduo, e, neste caso preciso, concordo com eles, pois esse Evangelho, que é o preferido da Igreja, que ela colocou em primeiro lugar no cânone do Novo Testamento, é igualmente o mais anônimo. Dos outros três, fazemos uma ideia, talvez falsa, mas uma ideia. Marcos é o secretário de Pedro. Lucas, o companheiro de Paulo. João, o discípulo preferido de Jesus. O primeiro é o mais virulento, o segundo, o mais amável, o terceiro, o mais profundo. Mateus, por sua vez, não tem lenda, rosto, singularidade, e, no que me diz respeito, depois de passar dois anos de minha vida comentando João, dois traduzindo Marcos e sete escrevendo este livro sobre Lucas, tenho a impressão de não conhecê-lo. Embora possamos ver nessa ofuscação a apoteose da humildade cristã, outra razão da preeminência de que goza Mateus é que, ao longo de todo o seu Evangelho, ele se esmera em mostrar que o bando de pés-rapados recrutados por Jesus era organizado, disciplinado, hierarquizado, em suma, que já era uma igreja. Talvez seja o mais cristão dos quatro: é também o mais eclesiástico.
Isso vinha bem a calhar. A partir da teia tecida por Paulo, alguma coisa que a Antiguidade não conheceu ganhava forma: um clero. Cristo é o enviado de Deus, os apóstolos, os de Cristo, os padres, os dos apóstolos. Esses padres são chamados presbíteros, o que significa simplesmente os antigos. Logo passarão a ser subordinados aos epíscopos, que se tornarão os bispos. Logo dirão que o bispo, enquanto o papa não vem, representa Deus na Terra. Centralização, hierarquia, obediência: viemos para ficar. O fim do mundo não está mais na ordem do dia. É por isso que Evangelhos começam a ser escritos e a Igreja se organiza.
Por mais três séculos ainda, essa Igreja restará uma sociedade secreta, clandestina, caçada. O horrível Domiciano perseguiu-a por capricho, sem lógica, mas seus sucessores o fizeram com conhecimento de causa. Esses sucessores eram todos bons imperadores. Trajano, Marco Aurélio, Adriano, por exemplo, eram imperadores filósofos, estoicos, tolerantes: o que a Antiguidade tardia deu de melhor. Proibindo o cristianismo, martirizando seus adeptos, esses bons imperadores não se enganavam de alvo. Amavam Roma, que desejavam eterna, e pressentiam que aquela seita obscura era um inimigo tão temível para Roma quanto os bárbaros aglutinados nas fronteiras. “Os cristãos”, escreve um apologista, “não diferem em nada dos outros homens. Não vivem à parte, conformam-se a todos os costumes, só intimamente seguem as leis de sua república espiritual. Estão no mundo como a alma no corpo.” Como a alma no corpo, bonitas palavras, mas também como os extraterrestres na pacata comunidade de Vampiros de almas, o velho filme de ficção científica paranoica: camuflados em amigos, vizinhos, indetectáveis. Esses mutantes queriam devorar o império a partir de seu âmago, tomar o lugar, mediante um processo invisível, de seus súditos. E assim fizeram.
3
Nos anos 20 do século II, sob o reinado do virtuoso Trajano, havia em Éfeso um ancião conhecido como presbítero João, isto é, João, o antigo. Ninguém sabia mais sua idade. A morte parecia tê-lo esquecido. Era infinitamente respeitado. Alguns asseguravam tratar-se do discípulo preferido de Jesus. Último homem vivo a tê-lo conhecido, e, quando interrogado, ele não dizia o contrário. Dirigia-se àqueles que o cercavam como “meus filhinhos”. Não cansava de lhes repetir: “Meus filhinhos, amai-vos uns aos outros”. Toda a sabedoria resumia-se a esse mantra. Um dia, ele acabou morrendo. Enterraram-no ao lado de Maria, mãe de Jesus, que também diziam ter morrido em Éfeso. Aproximando o ouvido de seu túmulo, ouvia-se o ancião respirar, parece, baixinho e regularmente, feito uma criança dormindo.
Alguns anos após sua morte, o Evangelho segundo João apareceu em Éfeso, onde agora ninguém duvidava tratar-se do testemunho do discípulo que Jesus amava. Outras igrejas, contudo, duvidaram. Uma feroz controvérsia estendeu-se até o século IV, com alguns postulando que João era o Evangelho definitivo, anulando as rústicas tentativas anteriores, outros, que não só era uma falsificação, como uma falsificação eivada de heresia. O cânone terminou por decidir. João escapou por um triz da sorte dos apócrifos, aos quais poderia juntar-se nas trevas exteriores tamanho o estranhamento e as diferenças entre o seu texto e os três Evangelhos aceitos unicamente. É, para sempre, o quarto.
Isso é um mistério, quem escreveu esse quarto Evangelho.
A rigor, é possível aceitar que João, filho de Zebedeu, pescador galileu nervosinho mas de quem Jesus gostava muito, tornou-se, após a morte deste, uma das colunas da igreja de Jerusalém e, mais tarde, o jihadista judeu que escreveu o Apocalipse. Mais difícil é aceitar que o autor do Apocalipse, cujas linhas sem exceção transpiram ódio aos gentios e a todo judeu que pactue com eles, tenha sido capaz, mesmo quarenta anos mais tarde, de escrever um Evangelho saturado de filosofia grega e violentamente hostil aos judeus. No Evangelho de João, Jesus chama a Lei desdenhosamente de “vossa Lei”. A Páscoa é a “Páscoa dos judeus”. Do jeito que ele conta, a história inteira se resume ao embate entre a luz e as trevas, e os judeus fazem o papel das trevas. E agora?
Agora eis o roteiro mais plausível: João, filho de Zebedeu, João, o apóstolo, João, o autor do Apocalipse, terminou efetivamente sua longa vida em Éfeso, cercado pelo respeito das igrejas da Ásia. A Ásia era então a região mais devota do império. O mais reles medicastro de aldeia era visto como deus, e todas as profissões de fé se misturavam. Renan, que não gosta nem do quarto Evangelho nem do que os historiadores chamam de “o círculo joânico”, descreve um ninho de intrigas, fraudes carolas e traições em torno da última testemunha viva, um ancião vaidoso que perde o juízo e se insurge violentamente porque os Evangelhos em circulação não lhe dão o papel que ele afirma ter desempenhado. Pois, afirma ele, ele era discípulo preferido, aquele a quem Jesus confiava suas alegrias e sofrimentos. Ele sabe tudo: o que Jesus pensava e o que efetivamente aconteceu, tim-tim por tim-tim. Marcos, Mateus e Lucas, esses compiladores mal informados, dizem que Jesus não foi a Jerusalém a não ser no fim, para morrer. Mas ele ia lá o tempo todo!, exalta-se João: foi lá que ele fez a maioria de seus milagres! Dizem que na véspera de sua morte instituiu esse rito do pão e do vinho pelo qual seus adeptos o rememoram. Mas ele fez isso muito tempo antes! Fazia isso o tempo todo! O que ele fez na última noite foi lavar os pés de todos e, isso, sim, era novo, e João fala de um lugar confiável, pois passou aquela última noite à direita de Jesus, a cabeça em seu ombro. Dizem, pior ainda, que Jesus morreu sozinho, que todos os seus companheiros debandaram. Ora bolas, ele estava lá, ele, João, ao pé da cruz! Jesus agonizante inclusive lhe recomendou sua mãe! Essas recordações, devido à sua idade avançada, são confusas, mas os que as escutam acreditam piamente que ouvem a verdade, a verdadeira, ignorada ou travestida pelos relatos de Marcos, Mateus e Lucas. Cumpre divulgar essa verdade. Isso caberá a quem arrancar mais coisa do velho, ocupando junto a ele o cargo de secretário. Caberá a quem for, para João, o que Marcos foi para Pedro.
A diferença é que Marcos era um secretário escrupuloso. João não teve essa sorte. Teve outra. A de arranjar um secretário genial. Não é impossível esse secretário chamar-se João; talvez, com a chegada da idade, tenham terminado por confundi-lo com o próprio apóstolo. João, o apóstolo, João, o antigo: na penumbra e no incenso de Éfeso, não se sabe mais quem é quem. Um fala, o outro escuta, e assimila de tal forma o que ouviu, adiciona-lhe tão intimamente sua poderosa personalidade e sua vasta cultura filosófica, que o primeiro, pudesse lê-lo, jamais teria reconhecido o que o segundo escreveu sob seu nome. Pois, embora não se saiba nada a respeito de João, o antigo, presume-se que era um filósofo, e, se judeu, um judeu totalmente helenizado. Talvez, com cinquenta anos de intervalo, alguém como aquele Apolo rival de Paulo, em Corinto: um discípulo de Fílon de Alexandria, um neoplatônico: tudo o que o apóstolo João odiava.
A fusão dos dois Joões, o apóstolo e o antigo, faz do quarto Evangelho uma mistura estranha. Por um lado, fornece informações tão concretas sobre as passagens de Jesus pela Judeia que os historiadores terminaram, de má vontade, por julgá-lo mais confiável que os outros três. Por outro, atribui-lhe discursos que impõem uma escolha: ou Jesus falava como em Marcos, Mateus e Lucas, ou falava como em João, mas é difícil aceitar que ele pudesse falar como fala em Marcos, Mateus e Lucas e, ao mesmo tempo, como fala em João. A escolha é feita sem piscar: ele fala como em Marcos, Mateus e Lucas. Inclusive isso é o que mais depõe a favor do valor histórico dos Evangelhos, o estilo oral comum aos três e tão singular — poderíamos dizer inimitável, se Lucas não tivesse se especializado em imitá-lo. Frases curtas, formas claras, exemplos pinçados na vida cotidiana. Em João, por contraste, discursos compridos, compridíssimos sobre as relações de Jesus com seu pai, o combate da sombra e da luz, o Logos descido na terra. Sequer um exorcismo, sequer uma parábola. Não restou mais nada de judeu. O verdadeiro João, João, o apóstolo, teria ficado horrorizado: as palavras a ele atribuídas lembram muito as cartas tardias de seu grande inimigo Paulo. E, como nas cartas tardias de Paulo, há lampejos extraordinários, pois o falso João, João, o antigo, era um escritor extraordinário. Sua narrativa é aspergida por uma luz sobrenatural de despedida, suas palavras ressoam como um eco vindo da outra margem. As bodas de Caná, a samaritana no poço, a ressurreição de Lázaro, Natanael sob a figueira, tudo isso é cara dele. Também é cara dele a frase de João Batista: “É necessário que ele cresça e eu diminua”, e aquela de Jesus aos devotos prestes a apedrejar a mulher adúltera: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra”. É dele, por fim, a fala misteriosa que decidiu minha conversão, em Levron, há vinte e cinco anos:
Em verdade, em verdade, te digo:
Quando eras jovem,
tu te cingias
e andavas por onde querias;
quando fores velho,
estenderás as mãos
e outro te cingirá
e te conduzirá aonde não queres
.
4
Quando cursava história, tive de redigir uma monografia sobre um tema de minha escolha. Como eu era ao mesmo tempo bastante ignorante em história e grande conhecedor de ficção científica, escolhi um tema sobre o qual estava certo de saber mais que toda a banca reunida: a ucronia.
A ucronia consiste em ficções sobre o tema: e se as coisas tivessem acontecido de outra forma? E se o nariz de Cleópatra tivesse sido mais curto? E se Napoleão tivesse vencido Waterloo? Durante minhas pesquisas, percebi que um grande número de ucronias gira em torno dos primórdios do cristianismo. Isso nada tem de espantoso: se procurarmos na trama da história o ponto de ruptura que causará a mudança máxima, não encontraremos melhor. Roger Caillois, por exemplo, entrou na cabeça de Pôncio Pilatos quando este viu-se à frente do caso Jesus. Ele imagina seu dia: os mais ínfimos incidentes, encontros, alterações de humor, um pesadelo, tudo que faz a alquimia de uma decisão. No fim, em vez de ceder aos sacerdotes, que pretendem executar aquele obscuro e agitado galileu, Pilatos tem uma luz. Diz não. Não vejo nada a censurá-lo, liberto-o. Jesus volta para casa. Continua a pregar. Morre muito velho, cercado de grande reputação de sabedoria. O cristianismo não existe. Caillois pensa que isso não é mau.
Essa é uma das maneiras de resolver o problema: na fonte. Caso contrário, a outra grande fenda temporal é a conversão de Constantino.
Constantino era imperador no início do século IV. Enfim, um dos quatro coimperadores que dividiam entre si o Oriente e o Ocidente, visto que o império, de tanto crescer, havia se tornado uma coisa complicada, inadministrável, infiltrado pelos bárbaros, que agora formavam o grosso das legiões. Um quinto ladrão também pretendia ser imperador. Ele conquistara parte da Itália, Constantino defendia seu trono. Uma grande batalha se anunciava nas cercanias de Roma, entre seus exércitos e os do usurpador. Na noite anterior a essa batalha, o deus dos cristãos lhe apareceu em sonho e lhe prometeu a vitória caso se convertesse. No dia seguinte, que era 28 de outubro de 312, Constantino vencia a batalha e, em decorrência dessa vitória, o império passava a ser cristão.
Isso levou um pouco de tempo, claro, as pessoas tiveram que ser avisadas. O fato é que, em 312, o paganismo era a religião oficial, o cristianismo, uma seita meramente tolerada, e dez anos depois era o contrário. A tolerância mudara de lado, dali a pouco é o paganismo que não é mais tolerado. De mãos dadas, a Igreja e o império perseguiram os últimos pagãos. O imperador gabava-se de ser o primeiro dos súditos de Jesus. Jesus, que, três séculos antes, fracassara em ser o rei dos judeus, tornou-se o rei de todo mundo, menos dos judeus.
A palavra “seita”, em terreno católico, tem um sentido pejorativo: é associada a coação e lavagem cerebral. No sentido protestante, que perdura no mundo anglo-saxão, uma seita é um movimento religioso ao qual o indivíduo adere por iniciativa própria, diferentemente de uma igreja, que é um meio em que se nasce, um conjunto de coisas em que se crê porque outros creram antes: pais, avós, todo mundo. Numa igreja, acreditamos no que todo mundo acredita, fazemos o que todo mundo faz, não questionamos. Nós, que somos democratas e amigos do livre-arbítrio, deveríamos pensar que uma seita é mais respeitável que uma igreja, mas não: questão de semântica. O que aconteceu com o cristianismo depois da conversão de Constantino é que a frase do apologista Tertuliano, “Ninguém nasce cristão, torna-se um”, deixou de ser verdadeira. A seita virou uma igreja.
A Igreja.
Essa Igreja envelheceu. Seu passado é carregado. Não faltam argumentos para criticá-la por ter traído a mensagem do rabi Jesus de Nazaré, a mais subversiva que jamais existiu na terra. Mas criticá-la por isso não é criticá-la por ter sobrevivido?
O cristianismo era um organismo vivo. Sua expansão transformou-o numa coisa absolutamente imprevisível, o que é normal: quem gostaria que uma criança, por mais maravilhosa que fosse, não mudasse? Uma criança que continua criança é uma criança morta, ou, no melhor dos casos, retardada. Jesus era a tenra infância desse organismo, Paulo e a Igreja dos primeiros séculos, sua adolescência rebelde e apaixonada. Com a conversão de Constantino, começa a longa história da cristandade no Ocidente, ou seja, uma vida adulta e uma carreira profissional feita de pesadas responsabilidades, grandes êxitos, poderes imensos, cumplicidades e erros vergonhosos. O Iluminismo e a modernidade decretam sua aposentadoria. A Igreja perdeu o interesse, está manifestamente superada, e é difícil dizer se sua longevidade, da qual somos testemunhas mais que indiferentes, tende mais para a decrepitude rabugenta ou para a sabedoria luminosa que, eu em todo caso, desejamos para nós ao pensarmos na própria velhice. Conhecemos tudo isso na escala de nossa vida. Será que o adulto que faz uma grande carreira no mundo traiu o adolescente que ele foi? Será que faz sentido erigir a infância em ideal e passar a vida lastimando a perda da inocência? Claro, se Jesus pudesse ver a igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, e o Sacro Império Romano Germânico, e o catolicismo, e as fogueiras da Inquisição, e os judeus massacrados porque mataram o Senhor, e o Vaticano, e a condenação dos padres operários, e a infalibilidade pontifícia, e também mestre Eckhart, Simone Weil, Edith Stein, Etty Hillesum, ficaria pasmo. Mas qual criança, se desdobrássemos à sua frente seu futuro, se pudesse compreender de verdade o que ela sabe desde muito cedo de maneira puramente abstrata, que um dia ela será velha, velha como essas velhas que espetam quando as beijamos, qual criança não ficaria boquiaberta?
O que mais me espanta não é a Igreja ter se afastado tanto do que era na origem. Ao contrário, é que, mesmo não conseguindo, ela se atribua como ideal ser-lhe fiel. O que estava na origem nunca foi esquecido. Nunca deixaram de reconhecer sua superioridade, de procurar um retorno como se a verdade estivesse lá, como se o que subsistisse do bebê fosse a melhor parte do adulto. Ao contrário dos judeus, que projetam a consumação no futuro, ao contrário de Paulo, que, muito judeu nisso, preocupava-se pouco com Jesus e só pensava no crescimento orgânico e contínuo de sua minúscula igreja, que devia englobar o mundo inteiro, a cristandade situa sua idade de ouro no passado. Igual aos mais virulentos de seus críticos, ela pensa que seu momento de verdade absoluta, depois do qual as coisas só degringolaram, são esses dois ou três anos em que Jesus pregou na Galileia e depois morreu em Jerusalém, e a Igreja, como ela própria confessa, só está viva quando se aproxima disso.
5
No fim, as coisas entram nos eixos. Não embarquei no cruzeiro São Paulo, melhor assim, mas nos últimos anos meus livros me valeram inúmeras cartas de cristãos — cristãs, principalmente. Entrei em contato com algumas, que me veem como uma espécie de cúmplice: isso me agrada.
Uma delas reagia a Limonov. Ao capítulo de Limonov em que, canhestramente, tento dizer alguma coisa sobre o fato evidente de que a vida é injusta e os homens, desiguais. Uns bonitos, outros feios, uns bem-nascidos, outros miseráveis, uns brilhantes, outros obscuros, uns inteligentes, outros burros… Será que a vida é assim e pronto? Será que aqueles a quem isso escandaliza são pura e simplesmente, como pensam Nietzsche e Limonov, pessoas que não amam a vida? Ou será que podemos ver as coisas de outro ângulo? Eu falava de duas maneiras de ver as coisas de outro ângulo. A primeira é o cristianismo: a ideia de que, no Reino, que certamente não é o além mas a realidade da realidade, o menor é o maior. A segunda está contida num sutra budista que Hervé me mostrou, que citei não uma, mas duas vezes, e que um número surpreendente de leitores de Limonov compreendeu ser o cerne do livro, a frase que merecia ser guardada e trabalhada em segredo, em seus corações, quando as quinhentas páginas em que ela está incrustada há muito tivessem sido apagadas de suas memórias: “O homem que se julga superior, inferior ou igual a outro homem não compreende a realidade”.
Minha correspondente me dizia: “Esse problema, eu conheço bem. Ele me atormenta desde criança. Lembro-me de ter tomado consciência dele quando uma senhora catequista nos exortou a ‘sermos bonzinhos’ com os outros, porque para alguns um simples sorriso pode ser muito importante. Fiquei completamente desesperada ao pensar que eu fazia parte dessa categoria de sub-humanos: aqueles a quem se sorri para ser bonzinho. Em outra ocasião, na leitura da missa, foi uma passagem de uma carta de São Paulo que começava: ‘Nós, que somos tão fortes…’. Pensei: isso não é para mim, eu não sou forte, não faço parte da metade boa da espécie. Isso é para dizer que eu conheço esse problema de hierarquia ao que o senhor se refere — talvez não do mesmo ponto de vista que o senhor. Mas tenho uma solução a lhe propor. Ela está ao alcance da mão. Ela se acha, bastante concretamente, no fundo da bacia em que o senhor terá os pés lavados e lavará os de um outro, se possível de um deficiente”.
Cumpria entender literalmente: aquela jovem mulher estava me convidando, para meu progresso moral e espiritual, a lavar pés de deficientes e ter os meus lavados — quer dizer, de um jeito ou de outro, o negócio mais enfática e, quase, obscenamente católico possível de se imaginar. Ao mesmo tempo, o tom de seu e-mail era simpático, inteligente. Ela tinha consciência da estranheza da coisa e, com uma ironia amistosa, antecipava meu inevitável gesto de recuo. Respondi que pensaria no assunto.
Dois anos mais tarde, chega um novo e-mail. Bérengère, minha correspondente, queria saber se eu havia pensado e, se depois de pensar, a experiência me seduzia. Na eventualidade de eu não ter à disposição pés suficientemente malformados, ela me passaria alguns endereços.
Eu estava prestes a terminar este livro e até me sentia, juro, satisfeito. Pensava: aprendi muitas coisas escrevendo-o, aquele que o ler aprenderá muito também, e essas coisas lhe darão o que pensar: fiz um bom trabalho. Ao mesmo tempo, uma sombra me atormentava: a de ter passado à margem do essencial. Com toda a minha erudição, toda a minha seriedade, todos os meus escrúpulos, de estar redondamente enganado. Evidentemente, o problema quando tocamos nessas questões é que a única maneira de não nos enganar redondamente seria pender para o lado da fé — ora, isso eu não queria, continuo não querendo. Mas quem sabe? Era hora, talvez, de dizer alguma coisa que eu não tinha dito, ou mal, e, talvez, sem o saber, Bérangère voltava para me puxar pela manga a fim de que eu não enviasse meu livro para Paul, meu editor, sem ter vislumbrando essa alguma coisa.
6
E assim nos vemos numa sala de fazenda restaurada, sob um crucifixo e — surpresa — uma grande reprodução do Filho pródigo de Rembrandt, com cerca de quarenta cristãos distribuídos em grupos de sete. Estão sentados em círculos, no meio dos quais foram dispostos bacias, jarros, toalhas, e todo mundo se prepara para lavar os pés uns dos outros.
O retiro começou na véspera, pude conhecer o meu grupo. Compõe-se, além de mim, de um diretor de escola da região dos Vosges, de uma voluntária do Secours Catholique, de um diretor de recursos humanos confrontado com a violência das demissões que ele tem como tarefa acompanhar, de uma cantora lírica e de um casal de aposentados, membros das equipes de Notre-Dame — eu conhecia esses grupos de oração, aos quais pertenciam meus ex-sogros e um dos visitantes de presídio que amparavam Jean-Claude Romand. Todos, inclusive eu, estão vestidos nesse estilo mais ou menos excursionista que os católicos apreciam. Posso estar enganado, mas não me dão a impressão de serem daqueles católicos que desfilam contra o casamento gay e o excesso de imigrantes. Imagino-os mais ajudando clandestinos analfabetos e preenchendo formulários para eles: católicos de esquerda, defensores dos fracos, pessoas de boa vontade. Dois deles são frequentadores contumazes e agem como íntimos dos que moram aqui: assistentes voluntários e, sobretudo, pessoas deficientes. Aprendi ao chegar: aqui se diz “pessoas deficientes” e não “deficientes”, e, embora se possa tachar isso de politicamente correto, de minha parte nada tenho a lhes censurar de tal forma está claro que o laço se dá realmente de pessoa a pessoa e de igual para igual. Algumas dessas pessoas são totalmente dependentes: encolhidas numa cadeira de rodas, alimentadas na boca, só se exprimindo por grunhidos guturais. Outras, menos prejudicadas, vão e vêm, botam a mesa, comunicam-se à sua maneira, como esse sujeito na casa dos cinquenta anos que, de manhã à noite, repete incansavelmente estas três palavras: “o pequeno Patrick” — e, me lembrando desse detalhe, me arrependo de não lhe haver perguntado quem era o pequeno Patrick: ele mesmo ou algum outro, e então quem?
Tudo isso começou há exatamente cinquenta anos. Um canadense chamado Jean Vanier procurava seu caminho. Fora para a guerra muito jovem, na Marinha inglesa, serviu em navios, estudou filosofia. Queria ser feliz e viver de acordo com o Evangelho — isto, ele estava convencido, sendo a condição daquilo. Todo mundo tem no Evangelho uma frase que lhe é especialmente destinada, a sua estava em Lucas: é aquela sobre o banquete ao qual Jesus aconselha a não convidar seus amigos ricos, nem os membros de seu clã, mas os mendigos, os estropiados, os degenerados que cambaleiam na rua e que evitamos e ninguém evidentemente nunca convida. Se fizeres isso, promete Jesus, serás feliz: o nome disso é beatitude.
Próximo à aldeia do Oise onde morava Jean Vanier, havia um hospital psiquiátrico — que ainda chamavam de hospício. Um verdadeiro hospício, feito não para acolher as pessoas que surtam momentaneamente, mas para confinar os pacientes sem possibilidade de tratamento. Aqueles que os nazistas, leitores consequentes de Nietzsche, achavam misericordioso matar e que nossas sociedades mais brandas limitam-se a afastar, nas instituições fechadas onde eles são cuidados a minima. Os que babam, os que uivam como se fossem morrer, os emparedados para sempre em si mesmos. Estes, certamente, não são convidados a lugar nenhum, mas Jean Vanier os convidou. Conseguiu que lhe confiassem dois desses doentes, para que vivessem com ele não como se vive numa instituição, mas numa família. Junto com Philippe e Raphaël, eram esses seus nomes, em sua casinha de Trosly, na orla da floresta de Compiègne, ele fundou uma família: a primeira comunidade de l’Arche. Cinquenta anos mais tarde, há pelo mundo cento e cinquenta comunidades de l’Arche, cada uma delas agrupando cinco ou seis pessoas deficientes mentais e o mesmo número de cuidadores. Uma pessoa por pessoa. Eles preparam as refeições, fazem trabalhos manuais, é uma vida muito simples e comunitária. Os que nunca irão se curar não se curam, mas alguém fala com eles, toca seus corpos, diz-lhes que são importantes, e isso até os mais feridos entendem, e alguma coisa neles começa a viver. Essa alguma coisa, Jean Vanier chama de Jesus, mas não obriga ninguém a agir como ele. Quando não viaja de uma comunidade a outra, ele continua em Trosly, no seio da comunidade originária. Às vezes promove retiros aqui, como este no qual Bérengère me aconselhou a me inscrever. A coisa consiste em missas cotidianas, que me entediam, em cânticos religiosos, que me irritam, em silêncio, que me convém, e em escutá-lo, a ele, Jean Vanier. É um homem muito velho agora, muito alto, muito atento, muito doce, visivelmente muito bom. Sob seus traços não é difícil distinguir seu santo padroeiro, o evangelista João. Esse evangelista João, fosse João, o apóstolo, ou João, o antigo, judeu ou grego, me preocupei muito com isso ao escrever meu livro, agora que o terminei estou pouco me lixando, que importância isso tem? Lembro-me apenas da frase que, já ido em anos, em Éfeso, ele repetia o dia inteiro, como o pequeno Patrick: “Meus filhinhos, amai-vos uns aos outros”.
7
O evangelista João conta o que Jean Vanier, por sua vez, nos conta esta noite, enquanto aguardamos pacientemente diante de nossas bacias: Jesus acaba de ressuscitar Lázaro, cada vez mais gente o toma pelo Messias. Aclamaram-no, quando ele chegou a Jerusalém, lançando ramos de palmeiras à sua passagem. Embora tenha feito questão de entrar na cidade sagrada no lombo de um burrico e não no de um cavalo majestoso, pressentimos que coisas prodigiosas estão para acontecer. Três dias depois, os três dias que separam o Domingo de Ramos da Quinta-feira Santa, ele janta com os Doze na famosa sala do andar superior. Num certo momento da refeição, ele se levanta e, conservando apenas uma toalha na cintura, tira seu manto. Sem uma palavra, despeja água na bacia para lavar os pés de seus discípulos, depois enxugá-los com as pontas da toalha amarrada na cintura. É a tarefa de um escravo: os discípulos estão atônitos. Ele se ajoelha diante de Pedro, que protesta: “‘Tu, Senhor? Lavar-me os pés?’ ‘O que faço, não compreendes agora, mas o compreenderás mais tarde.’ ‘Jamais me lavarás os pés!’, exclama Pedro”.
Não é a primeira vez que Pedro não entende nada, nem a última. Aquele lava-pés é demais para ele. Apesar das advertências de Jesus, os acontecimentos dos últimos dias o persuadiram de que a coisa acontecera, de que ele e os demais haviam apostado no caminho certo, de que Jesus tomaria o poder e se tornaria o chefe. Um chefe, a gente venera, coloca num pedestal. Mas admiração não é amor. O amor quer a proximidade, a reciprocidade, a aceitação da vulnerabilidade. O amor sozinho não diz o que passamos a vida inteira a dizer, todos, o tempo todo, a todo mundo: “Valho mais que você”. O amor tem outras maneiras de se reconfortar. Outra autoridade, que não vem de cima, mas de baixo. Nossas sociedades, todas as sociedades humanas, são pirâmides. No topo, estão os importantes: ricos, poderosos, bonitos, inteligentes, aqueles para quem todo mundo olha. No meio, o povão, que é maioria e para quem ninguém olha. E depois, bem na base, aqueles que até o povão aproveita para olhar do alto: os escravos, os degenerados, os menos que nada. Pedro é como todo mundo: gosta de ser amigo dos importantes, não dos menos que nada, e eis que Jesus ocupa bastante concretamente o lugar do menos que nada. Não dá mais para aguentar. Pedro encolhe os pés para que Jesus não possa lavá-los, diz: “Jamais”. Jesus, com firmeza, responde: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo, não podes ser meu discípulo”, e Pedro cede, exagerando como sempre: “Que seja”, diz ele, “mas então não apenas meus pés, mas também as mãos e a cabeça!”.
Depois de lavar os pés de todos, Jesus se levanta, veste novamente seu manto, volta ao seu lugar. Diz: “Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem, pois eu o sou. Se, portanto, eu, o Mestre e o Senhor, vos lavei os pés, também deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais”.
“Felizes sereis”: isso também, diz Jean Vanier, é uma beatitude. Nas comunidades de l’Arche, evoca-se tal beatitude, que o evangelista é o único a reportar. Como sou um historiador incorrigível, penso com meus botões: em todo caso, não deixa de ser estranho que, o time inteiro dos Doze tendo testemunhado e participado de cena tão marcante, ele seja o único a registrá-la. O que Marcos, Mateus e Lucas registram é o pão e o vinho, “fareis isso em minha memória”, mas também rumino que as coisas poderiam ter tomado outro viés: que o sacramento central do cristianismo, em vez da eucaristia, poderia ser o lava-pés. O que é feito nos retiros de l’Arche seria feito diariamente na missa, o que não seria muito mais extravagante — a bem da verdade, até menos.
“Lembro-me”, continua Jean Vanier, “de quando deixei a direção de l’Arche, tirei um ano sabático como assistente numa das comunidades, bem pertinho daqui, e aquele de quem eu cuidava chamava-se Éric. Éric tinha dezesseis anos. Era cego, surdo, não conseguia falar nem andar, não tinha aprendido e jamais aprenderia a manter-se limpo. Sua mãe o havia abandonado quando ele nasceu, ele tinha passado a vida inteira no hospital, sem nunca interagir de verdade com ninguém. Nunca conheci pessoa tão angustiada. Tinha sido tão rejeitado, tão humilhado, todos os sinais que ele recebera lhe haviam de tal forma sugerido que ele era mau e não contava para ninguém que ele se fechara completamente em sua angústia. Tudo que ele conseguia fazer, às vezes, era gritar, emitir gritos agudos, durante horas, que me enlouqueciam. É terrível: eu chegava ao ponto de compreender esses pais que maltratam os filhos e até os matam. A angústia dele despertava a minha, e meu ódio. O que podemos fazer com alguém que grita assim? Como acessamos alguém tão inacessível? Impossível falar com ele, ele não ouve. Impossível apelar ao bom senso, ele não compreende. Mas é possível tocá-lo. É possível lavar seu corpo. Foi isso que Jesus nos ensinou a fazer na Quinta-feira Santa. Ao instituir a eucaristia, ele fala aos Doze, coletivamente. Porém, quando se ajoelha para lavar os pés de seus discípulos, é diante de cada um pessoalmente, chamando-o pelo nome, tocando sua carne, alcançando-o onde ninguém soube alcançá-lo. O fato de alguém tocá-lo e lavá-lo não irá curar Éric, mas não existe nada mais importante, para ele e para quem faz isso. Para quem faz: este é o grande segredo do Evangelho. É o segredo de l’Arche também: no começo, queremos ser bons, queremos fazer bem aos pobres, porém, aos poucos, pode levar anos, descobrimos que são eles que nos fazem bem, porque, mantendo-nos junto à sua pobreza, à sua fraqueza, à sua angústia, desnudamos nossa pobreza, nossa fraqueza e nossa angústia, que são as mesmas, que são as mesmas para todos, vocês sabem, e então começamos a nos tornar mais humanos.
“Agora, vão.”
Ele se levanta, vai juntar-se ao grupo no qual lhe reservaram um lugar. Nesse grupo, há uma adolescente com Síndrome de Down, Élodie, que, enquanto ele falava, não parou de circular pela sala, dando uns passinhos de dança bastante graciosos e exigindo carinhos de um ou outro, mas que, ao vê-lo ocupar seu lugar, também foi para o dela, ao seu lado. Ela esperava por esse momento, sabe como a coisa funciona, e tem o ar tão satisfeito, tão à vontade, quanto Pascal, o menino com Síndrome de Down que ajudava na missa do padre Xavier em seu pequeno chalé de Levron.
Tiramos sapatos e meias e arregaçamos a barra das calças. É o diretor de recursos humanos que começa. Ele se ajoelha diante do diretor de escola, despeja água morna da jarra sobre seus pés, esfrega-os um pouco — uns dez, vinte segundos, é relativamente longo, a impressão é de que luta contra a tentação de ir rápido demais e reduzir o ritual a algo puramente simbólico. Um pé, outro pé, que em seguida ele enxuga com a toalha. Depois é a vez do diretor de escola ajoelhar-se à minha frente, lavar meus pés antes que eu lave os da voluntária do Secours Catholique. Olho aqueles pés, não sei o que penso. É realmente muito estranho lavar pés de desconhecidos. Ocorre-me uma bela frase de Emmanuel Levinas, que Bérangère citou para mim num e-mail, sobre o rosto humano, o qual, a partir do momento em que o vemos, proíbe matar. Ela dizia: sim, mas isso vale mais ainda para os pés: os pés são uma coisa ainda mais pobre, ainda mais vulnerável, é realmente o que existe de mais vulnerável: a criança dentro de cada um de nós. E, mesmo achando um pouco embaraçoso, acho bonito que pessoas se reúnam para isso, para ficar o mais perto possível do que há de mais pobre e vulnerável no mundo e neles mesmos. Penso comigo que o cristianismo é isso.
Ainda assim, não gostaria de ser tocado pela graça e, por ter participado de um lava-pés, voltar para casa convertido como vinte quatro anos atrás. Afortunadamente, não acontece nada disso.
8
No dia seguinte, domingo, depois do almoço, o retiro chega ao fim. Antes de nos separarmos, de voltar cada um para sua casa, todo mundo entoa um cântico tipo “Jesus é meu amigo”. A bondosa senhora que cuida de Élodie, a adolescente com Síndrome de Down, faz o acompanhamento ao violão e, como é um cântico alegre, todos se põem a bater mãos e pés e a se requebrar como numa boate. Nem com toda a boa vontade do mundo consigo me juntar sinceramente a momento de tão intenso kitsch religioso. Cantarolo vagamente, com a boca fechada, movo-me feito um pêndulo, espero terminar. Subitamente, ao meu lado, surge Élodie, que puxou uma espécie de quadrilha. Ela se planta à minha frente, sorri, atira os braços para o alto, ri abertamente, e, acima de tudo, olha para mim, me incentiva com o olhar, e há tamanha alegria nesse olhar, alegria tão cândida, confiante e sincera, que começo a dançar como os outros, a cantar que Jesus é meu amigo e, cantando, dançando, olhando para Élodie, que agora escolheu outro parceiro, lágrimas me vêm aos olhos e sou forçado a admitir que nesse dia, por um instante, entrevi o que é o Reino.
9
De volta em casa, antes de guardar em suas caixas de papelão os cadernos contendo meus comentários sobre João, folheio-os pela última vez. Vou ao final. Em 28 de novembro de 1982, copiei as últimas frases do Evangelho:
“Este é o discípulo [que Jesus amava] que dá testemunho dessas coisas e foi quem as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro. Há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez. Se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam.”
Anotei a seguir: “Jesus fez ainda muitas outras coisas: as que ele faz todos os dias, em nossas vidas, quase sempre à nossa revelia. Testemunhar algumas dessas coisas e escrever um testemunho verdadeiro, eis, creio, minha vocação. Permite, Senhor, que eu lhe seja fiel, a despeito das emboscadas, das omissões, dos afastamentos inevitáveis. Eis o que te peço no fim destes dezoito cadernos: fidelidade”.
Este livro, que termino aqui, escrevi-o de boa-fé, mas o que ele tenta abordar é tão maior do que eu que essa boa-fé, sei disso, é irrisória. Escrevi-o atrapalhado pelo que sou: um inteligente, um rico, um homem do topo: inúmeras desvantagens para entrar no Reino. Em todo caso, tentei. E o que me pergunto, no momento de deixá-lo, é se ele trai o jovem que fui e o Senhor no qual esse jovem acreditou, ou se, à sua maneira, lhes permaneceu fiel.
Eu não sei.
 
(Emmanuel Carrère - O Reino)

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