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A democracia é apenas a substituição de alguns corruptos por muitos incompetentes.
 
Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos.
Winston Churchill   
 
Sei que a internet democratiza, dando acesso a todos para se expressar. Mas a democracia também libera a idiotia. Deviam inventar um "antispam" para bobagens.
Arnaldo Jabor 

O principio da democracia é dar e receber; dar um e receber dez.
Mark Twain
 
 
Não tenho muita paciência para política. Como sempre digo, trato dela assim como quem cuida de uma ferida para que não infeccione. A necessidade da política é a prova de que a humanidade tem dificuldade em sobreviver: não pode viver sem bando; para viver em bando alguém tem de mandar e alguém tem de obedecer. Ainda que mentirosos de todos os tipos digam o contrário.
A forma por essência da política contemporânea é a democracia. Por ter sua soberania na chamada vontade popular ou no povo, a democracia deságua na crença de que a sociedade carrega em si alguma forma de verdade moral, já que ela é soberana. Esquece-se, como eu dizia antes, que toda moral pública é hipócrita. Dito de outro modo, o público é hipócrita e nada tem a ver com ideia alguma de verdade. Na democracia, o que importa é a maioria e não a verdade sobre coisa alguma. Mas isso Platão já sabia: o motivo de a democracia esconder a hipocrisia da moral pública é porque a democracia é sofista.
Em seu embate com os sofistas (aqueles caras que diziam que a verdade não existe porque ela é apenas a vitória de um argumento sobre o outro, portanto, retórica), Platão já apontava a tendência de a democracia ser demagógica. Antes que algum inteligentinho perdido na leitura deste livro me acuse de antidemocrático, devo dizer que a democracia é, de todos os regimes ruins em política, o menos pior, com certeza. E para manter essa “vantagem” da democracia sobre seus sistemas competidores, devemos lembrar suas fraquezas, coisa que o povo na democracia, como já dizia Alexis de Tocqueville no século XIX em sua visita aos Estados Unidos, não gosta de ouvir porque a democracia na democracia é um dogma a ser amado.
Voltando a Platão: o problema, aqui, é que num regime pautado por opiniões variadas, e pela contagem delas, o essencial é o número. A democracia é um regime de quantidades, e os idiotas (como dizia nosso brilhante Nelson Rodrigues) são sempre maioria. Uma das faces dessa idiotice é supor que a transparência na gestão da coisa pública, algo desejável num governo, implique a transparência da verdade moral. Sempre que se afirma um valor em público, essa afirmação é, em grande medida, uma farsa a serviço do resultado esperado em termos de contagem de votos a favor ou contra o que você quer.
Outro motivo para a democracia ser parceira da hipocrisia pública é sua dependência da adulação da opinião pública. Isso afeta desde os candidatos numa eleição (política agora é marketing) até artistas que vendem música: todos devem adular a opinião pública se quiserem conseguir o que almejam – a saber, o sucesso. Essa opinião pública nem sempre é só uma questão de números grandes; muitas vezes é uma questão de quem consegue influenciar mais pessoas. Os tais fazedores de opinião, como eu. Quando você lê este livro, eu estou, em alguma medida, influenciando sua opinião. A diferença entre mim e outro qualquer é que eu não tenho nenhuma causa, e isso me torna, de certa forma, um pouco menos retórico no que escrevo e falo. Num mundo em que todos concordam em ser bons, há sempre algo errado. Por isso, não faço filosofia para realizar bem algum; faço porque gosto.
Essa dependência da opinião pública, que leva todos a adular os idiotas, faz da democracia um simples regime de mercado. Ela é, na verdade, um mercado de opiniões a serem defendidas (compradas) ou recusadas (não compradas). A tendência da mentira na democracia é, no limite, uma tendência ao marketing. O que conta na democracia é a aparência. Não por acaso os defensores dela na Grécia eram os sofistas, os mesmos caras que, como eu disse antes, negavam a existência de qualquer verdade e reduziam o conhecimento à retórica. Então, quando ouço alguém gritar contra a mentira na democracia, sempre sinto um cheiro de Papai Noel no ar.

 (Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos)

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publicado às 20:18



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