Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Da pobreza do mais rico

por Thynus, em 22.05.16
Dez anos se foram —,
nenhuma gota me alcançou,
nenhum vento úmido, nenhum orvalho de amor
— uma terra sem chuva...
Agora peço à minha sabedoria
que não se torne avara nesta aridez:
transborda tu mesma, goteja teu orvalho,
sê tu mesma chuva para o deserto amarelado!
Outrora mandei as nuvens
afastarem-se de meus montes —
outrora falei “mais luz, ó escuras!”.
Hoje as atraio, para que venham:
fazei escuro ao meu redor com vossos úberes!
— quero ordenhar-vos,
ó vacas das alturas!
Sabedoria quente como leite, doce orvalho do amor
derramo eu sobre a terra.
Fora, fora, verdades
que olham sombriamente!
Não quero ver em meus montes
verdades acres e impacientes.
Dourada de riso
chegue hoje a mim a verdade,
pelo sol adoçada, bronzeada pelo amor —
uma verdade madura colho apenas da árvore.

Hoje estendo a mão
para as madeixas do acaso,
prudente o bastante para guiar, para iludir
o acaso como uma criança.
Hoje quero ser hospitaleiro
com o que não é bem-vindo,
com o próprio destino não quero ser espinhoso,
— Zaratustra não é um ouriço.
Minha alma,
com língua insaciável,
já lambeu em todas as coisas boas e ruins,
em toda profundidade já desceu.
Mas sempre, como a cortiça,
sempre nada de novo para cima,
volteja como óleo sobre os mares pardos:
por causa dessa alma chamam-me o Feliz.
Quem são pai e mãe para mim?
Não é meu pai o príncipe Abundância
e minha mãe o Riso silencioso?
O matrimônio desses dois não gerou
a mim, bicho enigmático
a mim, monstro de luz,
a mim, esbanjador de toda sabedoria, Zaratustra?
Hoje doente de ternura,
um vento de degelo,
Zaratustra espera sentado, espera em seus montes —
em seu próprio sumo
cozido e tornado doce,
abaixo de seu cume,
abaixo de seu gelo,
cansado e feliz,
um criador em seu sétimo dia.
— Silêncio!
Uma verdade passa sobre mim
como uma nuvem —

com invisíveis relâmpagos me atinge.
Por largas lentas escadas
sobe até mim sua felicidade:
vem, vem, amada verdade!
— Silêncio!
É minha verdade! —
De olhos hesitantes,
de tremores aveludados
atinge-me seu olhar,
meigo, mau, um olhar de menina...
Ela adivinhou a razão de minha felicidade,
ela me adivinhou — ah!, que estará tramando? —
Purpúreo, um dragão espreita
no abismo do seu olhar de menina.
— Silêncio! Minha verdade fala! —
Ai de ti, Zaratustra!
Semelhas alguém
que engoliu ouro:
ainda te abrirão a barriga!...
És rico demais,
corruptor de muitos!
A demasiados tornas invejosos,
a demasiados tornas pobres...
A mim mesmo tua luz lança sombra —,
tremo de frio: vai embora, ó rico,
vai, Zaratustra, sai do teu sol!...
Queres dar, doar tua abundância,
mas tu mesmo és o mais supérfluo!
Sê prudente, ó rico!
Dá primeiro a ti mesmo, ó Zaratustra!
Dez anos se foram —
e nenhuma gota te alcançou?
Eu sou tua verdade
 
nenhum vento úmido? nenhum orvalho de amor?
Mas quem te havia de amar,
ó rico demais?
Tua felicidade espalha secura ao redor,
faz pobre de amor
uma terra sem chuva...
Ninguém mais te agradece.
Mas tu agradeces a quem
recebe de ti:
nisso te reconheço,
ó rico demais,
ó mais pobre de todos os ricos!
Tu te sacrificas, tormenta-te a tua riqueza —,
tu te entregas,
não te poupas, não te amas:
a grande tortura sempre te coage,
a tortura dos celeiros cheios demais, do coração cheio demais —
mas ninguém mais te agradece...
Tens de fazer-te mais pobre,
sábio não-sábio!
se quiseres ser amado.
Só se ama ao sofredor,
dá-se amor apenas ao faminto:
dá primeiro a ti mesmo, ó Zaratustra!
— Eu sou tua verdade...

(Nietzsche - Ditirambos deDionísio)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 01:08



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D