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Da Ciência

por Thynus, em 18.07.17
 
Todas as coisas boas foram um dia coisas ruins; cada pecado original tornou-se uma virtude original. O casamento, por exemplo, foi por muito tempo uma ofensa aos direitos da comunidade; pagava-se uma sanção por ser tão imodesto e ter a pretensão de uma mulher só para si (daí, por exemplo, o jus primae noctis [direito da primeira noite], ainda hoje no Camboja privilégio dos sacerdotes, esses guardiões dos “bons costumes antigos”). Os sentimentos brandos, benevolentes, indulgentes, compassivos — afinal de valor tão elevado, que se tornaram quase os “valores em si” — por longo tempo tiveram contra si precisamente o autodesprezo: tinha-se vergonha da suavidade, como hoje se tem vergonha da dureza.
(F. Nietzsche - Genealogia da Moral)

 
Sou um conjunto dos possíveis e impossíveis, mas sou forjada, por que o meu aço não suporta a presença da suavidade daquele que conduz ao meu coração o aguçar dos seus suaves olhares!


Assim cantou o feiticeiro; e todos os que ali estavam caíram inadvertidamente, como pássaros, na rede de sua astuciosa e melancólica volúpia. Apenas o consciencioso do espírito não foi apanhado: ele tirou rapidamente a harpa das mãos do feiticeiro e gritou: “Ar! Deixai entrar o ar puro! Deixai que Zaratustra entre! Tornas abafada e venenosa esta caverna, ó velho feiticeiro mau!

     Com tua sedução, ó homem falso e refinado, levas a desejos e ermos desconhecidos. E ai de nós, quando alguém como tu faz tanto caso e tanto barulho em torno da verdade!

     Ai de todos os espíritos livres que não se acautelam de tais feiticeiros! Sua liberdade se foi: tu ensinas e atrais de volta às prisões. —

     — velho demônio melancólico, em teu lamento ressoa um chamariz; semelhas aqueles que, louvando a castidade, convidam secretamente às volúpias!”

     Assim falou o consciencioso; mas o velho feiticeiro olhou ao seu redor, gozou sua vitória e, assim, pôde engolir o dissabor que o consciencioso lhe causava. “Cala-te!”, disse com voz modesta, “as boas canções querem ter um bom eco; após uma boa canção, deve-se manter um longo silêncio.

     Assim fazem todos esses, os homens superiores. Mas entendeste pouco da minha canção, não foi? Não há muito espírito mágico em ti.”

     “Tu me elogias”, respondeu o consciencioso, “ao diferençar-me de ti. Muito bem! Mas vós outros, que vejo? Continuais aí sentados, com olhos lascivos —:

     Ó almas livres, onde está vossa liberdade? Sois quase, assim me parece, como aqueles que longamente contemplaram malvadas garotas nuas a dançar: vossas almas também dançam!

     Em vós, ó homens superiores, deve haver mais daquilo que o feiticeiro chama de seu maligno espírito de engano e sortilégio: — sim, devemos ser diferentes.

     E, em verdade, juntos falamos e pensamos o suficiente, antes que Zaratustra voltasse à sua caverna, para eu saber que somos diferentes.

     Nós também buscamos coisas diferentes aqui em cima, vós e eu. Eu busco mais segurança,162 por isso vim a Zaratustra. Pois ele é ainda a mais firme torre e vontade —

     — hoje, quando tudo cambaleia, quando toda a terra treme. Mas vós, quando vejo os olhos que arregalais, quase me parece que buscais mais insegurança

     — mais horrores, mais perigo, mais tremores de terra. Vós desejais, assim presumo, perdoai-me a presunção, ó homens superiores —

     — desejais a pior e mais perigosa vida, aquela que mais me assusta, a vida de animais selvagens: florestas, cavernas, montes íngremes e desfiladeiros sinuosos.

     E os guias que mais vos agradam não são os que vos conduzem para fora do perigo, mas os que vos induzem a abandonar todos os caminhos, os que seduzem. E, ainda que em vós seja real esse desejo, ele me parece impossível.

     Pois o medo — é o sentimento original e fundamental do homem; pelo medo tudo se explica, pecado original e virtude original. Do medo também nasceu a minha virtude, que se chama ‘ciência’.

     O medo dos animais selvagens — foi o que há mais tempo se inculcou no homem, inclusive o do animal que ele mesmo abriga e teme dentro de si: — Zaratustra o chama ‘o animal interior’.

     Esse velho e prolongado medo, enfim tornado sutil, espiritual, intelectual — hoje, parece-me, ele se chama ‘ciência’.” —

     Assim falou o consciencioso; mas Zaratustra, que justamente retornava à sua caverna e ouviu e compreendeu essa última fala, jogou para o consciencioso um punhado de rosas e riu de suas “verdades”. “Como?”, exclamou, “o que acabo de ouvir? Na verdade, parece-me que és um tolo, ou eu mesmo sou: e tua ‘verdade’ porei logo de cabeça para baixo.

     Pois o medo — é a nossa exceção. Mas coragem, aventura, prazer no incerto, no ainda não ousado, — coragem parece-me ser toda a pré-história do homem.

As virtudes dos mais selvagens e mais corajosos animais ele invejou e roubou: apenas assim tornou-se — homem.

     Essa coragem, enfim tornada sutil, espiritual, intelectual, essa coragem de homem com asas de águia e esperteza de cobra: ela, parece-me, chama-se hoje —”

     “Zaratustra!”, gritaram em coro todos os que estavam sentados, e deram uma grande risada; mas uma nuvem espessa como que se levantou deles. Também o feiticeiro riu e falou espertamente: “Muito bem! Ele se foi, meu mau espírito!

     Eu mesmo não vos preveni contra ele, quando afirmei que é um impostor, um espírito mendaz e enganador?

     E especialmente quando se mostra nu. Mas que faço eu contra suas perfídias? Fui eu quem o criou, a ele e ao mundo?

     Muito bem! Vamos estar novamente bem-dispostos! E, embora Zaratustra tenha o olhar sombrio — olhai para ele, zangou-se comigo! —:

     — antes que chegue a noite ele saberá novamente me amar e louvar, ele não pode viver muito tempo sem fazer dessas tolices.

     Ele — ama seus inimigos: dessa arte ele entende melhor do que todos que conheci. Mas ele se vinga disso — em seus amigos!”

     Assim falou o velho feiticeiro, e os homens superiores o aplaudiram: de modo que Zaratustra deu a volta, apertando as mãos de seus amigos com malícia e amor — como alguém que tem algo a reparar e de que se escusar com cada um. Mas, quando chegou junto à porta de sua caverna, eis que novamente ansiou pelo bom ar lá de fora e por seus animais —, e quis escapulir.
 
 
Entre as filhas do deserto

     “Não vás embora!”, disse então o andarilho que se denominava a sombra de Zaratustra, “fica conosco, senão pode voltar a nos acometer a velha e surda aflição.

     O velho feiticeiro já nos regalou o que tem de pior, e olha: o bom e piedoso papa está com lágrimas nos olhos e novamente se lançou ao mar da melancolia.

     Esses reis podem fazer boa cara diante de nós: foram eles, de todos nós, que melhor aprenderam isso hoje! Mas, se não tivessem testemunhas, aposto que o triste jogo recomeçaria também com eles —

     — o triste jogo das nuvens errantes, da úmida melancolia, do céu carregado, dos sóis roubados, dos uivantes ventos de outono,

     — o triste jogo de nossos próprios uivos e gritos de socorro: fica conosco, ó Zaratustra! Aqui há muita miséria oculta que deseja falar, muito anoitecer, muita nuvem, muito ar abafado!

     Tu nos nutriste com forte alimento de homem e vigorosas máximas: não permitas que os moles espíritos femininos voltem a nos assaltar no fim da refeição!

     Apenas tu tornas claro e forte o ar ao teu redor! Jamais encontrei na terra um ar tão bom como em tua caverna.

     Vi muitos países diferentes, meu nariz aprendeu a examinar e avaliar muitos tipos de ar: mas é junto a ti que minhas narinas têm seu grande prazer!

     A não ser — a não ser —, oh, perdoa-me uma antiga lembrança! Perdoa-me uma velha canção pós-refeição, que certa vez compus, estando entre as filhas do deserto: —

     — pois junto a elas havia igualmente o bom ar claro do Oriente; lá eu estava o mais longe possível da nublada, úmida, melancólica Velha Europa!

     Naquele tempo eu amava essas filhas do Oriente e um outro azul reino dos céus, em que não há nuvens nem pensamentos.

     Não imaginais como ficavam airosamente sentadas quando não dançavam, profundas mas sem pensamentos, como pequeninos segredos, como enfeitados enigmas, como nozes de sobremesa —

     Coloridas e exóticas, é verdade! Mas sem nuvens: enigmas que se deixavam decifrar: para essas garotas concebi, então, um salmo de sobremesa.”

     Assim falou o andarilho e sombra; e, antes que alguém lhe respondesse, tomou a harpa do velho feiticeiro, cruzou as pernas e olhou, tranquilo e sábio, em torno de si: — mas com as narinas aspirou o ar de modo lento e inquisitivo, como alguém que, em novas terras, saboreia o ar novo e estrangeiro. Então pôs-se a cantar, com uma espécie de rugido.



     O deserto cresce: ai daquele que abriga desertos!


     Ah! Solene!

     Realmente solene!

     Um começo digno!

     Africanamente solene!

     Digno de um leão

     Ou de um rugidor macaco moralista —

     — mas nada para vós,

     Amigas graciosíssimas,

     A cujos pés, a mim,

     Um europeu sob as palmeiras,

     Pela primeira vez

     É permitido sentar. Selá.163

     Maravilhoso, em verdade!

     Eis-me aqui sentado,

     Próximo ao deserto e já

     Novamente longe do deserto,

     E em nada devastado:

     Pois engolido

     Por esse pequeno oásis: —

     — que agora mesmo abriu, bocejante,

     Sua boca encantadora,

     A mais cheirosa de todas as bocas:

     E então caí nela,

     Dentro, através — entre vós,

     Amigas graciosíssimas! Selá.

     Salve, salve aquela baleia,

     Se bem tratou

     Seu hóspede! — entendeis

     Minha erudita alusão?...

     Salve o seu ventre,

     Se ele foi

     Um ventre-oásis agradável

     Como este: algo que ponho em dúvida.

     Pois venho da Europa,

     Que é mais cética do que todas as mulheres casadas.

     Que Deus melhore isso!

     Amém.

     Eis-me aqui sentado

     Neste pequenino oásis,

     Como uma tâmara,

     Castanha, inteiramente doce, gotejante de ouro,

     Ávida da boca redonda de uma garota,

     Mais ainda, porém, de virginais

     Gélidos, brancos como neve, cortantes

     Dentes que mordem: pois deles está sedento

     O coração de todas as tâmaras quentes. Selá.

     Semelhante, por demais semelhante

     Aos ditos frutos do Sul

     Aqui me acho deitado, cercado

     De pequenos besouros alados.

    Farejando e brincando,164

     Assim como de ainda menores

     Mais bobos e pecaminosos

     Desejos e pensamentos, —

     Sitiado por vós,

     Mudas, apreensivas

     Gatas-meninas

     Dudu e Zuleika165

     — circum-esfingeado, para pôr

     Numa palavra muitos sentimentos

     (Que Deus me perdoe

     Este pecado de linguagem!)

     — aqui estou sentado, farejando o melhor ar,

     Verdadeiramente ar de paraíso,

     Ar leve e claro, listrado de ouro,

     Ar bom como jamais

     Caiu da lua —

     Terá sido por acaso

     Ou por petulância?

     Como contam os velhos poetas.

     Mas eu, questionador, ponho isso

     Em questão, pois venho

     Da Europa,

     Que é mais cética do que todas as mulheres casadas.

     Que Deus melhore isso!

     Amém.

     Bebendo este belíssimo ar,

     Com narinas dilatadas como taças,

     Sem futuro, sem lembranças,

     Eis-me aqui sentado, graciosíssimas amigas,

     E olho a palmeira,

     Como, igual a uma dançarina,

     Ela se curva, se dobra e nos quadris se retorce

     — fazemos o mesmo, se olhamos muito tempo!

     Tal como uma dançarina que, quer-me parecer,

     Já por tempo demais, perigosamente

     Sempre se manteve apenas numa só perna?

     — esquecendo então, quer-me parecer,

     A outra perna?

     Em vão, ao menos

     Busquei a ausente

     Joia gêmea

     — isto é, a outra perna —

     Na sagrada vizinhança

     De sua graciosíssima, formosíssima

     Saia em leque, esvoaçante e brilhante.

     Sim, se quereis, belas amigas,

     Acreditar inteiramente em mim,

     Ela a perdeu!

     Foi-se!

     Foi-se para sempre!

     A outra perna!

     Oh, que pena por essa outra perna adorável!

     Onde — estará ela, chorosa e abandonada,

     A perna solitária?

     Talvez com medo de um

     Furioso monstro-leão

     De juba dourada? Ou talvez já

    Esburgada, roída —

     Lamentável! ai! ai! roída! Selá.

     Oh, não choreis,

     Corações meigos!

     Não choreis, ó

     Corações de tâmaras! Peitos de leite!

     Ó saquinhos de

     Coração de alcaçuz!

     Não chores mais,

     Pálida Dudu!

     Sê um homem, Zuleika! Coragem! Coragem!

     — Ou seria este o lugar

     De algo mais forte,

     Que fortifique o coração?

     Uma sentença consagrada?

     Uma solene exortação? —

     Ah! Arriba, dignidade!

     Dignidade virtuosa, dignidade europeia!

     Sopra, sopra de novo,

     Fole da virtude!

     Ah!

     Rugir mais uma vez,

     Rugir moralmente!

     Como leão moral

     Rugir ante as filhas do deserto!

     — Pois o bramido da virtude,

     Ó graciosíssimas garotas,

     É mais do que tudo

     Ardor de europeu, voracidade de europeu!

     E aqui estou eu,

     Como europeu

     Não posso agir de outra maneira, valha-me Deus!166

     Amém!

     O deserto cresce: ai daquele que abriga desertos!


(Friedrich Nietzsxhe - Assim falou Zaratustra)


 
NOTAS
(162) "segurança”: Sicherheit, que também significa “certeza”; da mesma forma, “insegurança”, que surge em seguida, pode ser entendida como “incerteza”. No título desse capítulo, a palavra alemã traduzida por “ciência”, Wissenschaft, tem sentido mais abrangente que o do termo português, como já se observou acima. 
(163) “Selá”: palavra hebraica que aparece com frequência nos salmos bíblicos, possivelmente uma marcação musical. Em algumas versões da Bíblia encontramos Selá (cf. a de Ferreira de Almeida); em outras, usa-se “Pausa” (cf. as das editoras Vozes e Paulinas). Como diz o tradutor Mário da Silva, Nietzsche pretendeu, ao utilizar esse termo, “acentuar o sabor de paródia de salmo”. Quanto a “Um europeu sob as palmeiras” etc., cf. Goethe, As afinidades eletivas, II, 7, a anotação de Ottilie em seu diário, sobre aqueles que viajam para terras exóticas: “Ninguém passeia impunemente sob as palmeiras”. 
 (164) “Farejando e brincando”: na edição de Colli e Montinari o primeiro verbo, umschnüffeln, foi substituído por umtänzeln, que significa “andar em volta com passos de dança”, e dois versos adiante o adjetivo sündhafteren, “mais pecaminosos”, deu lugar a boshafteren, “mais maldosos”. 
(165) Dudu é uma odalisca, personagem do D. Juan de Byron (no canto VI), uma das obras prediletas de Nietzsche na juventude. Zuleika é personagem importante do West-östlicher Diwan, ciclo de poemas de Goethe. No verso seguinte, o feio neologismo “circum-esfingeado” é apenas a tradução literal daquele cunhado por Nietzsche, umsphinxt, ou “rodeado de esfinges”; as versões consultadas também não tiveram muita opção: “esfingeado”, circumesfingeado, circosfingiato, ensphinxé, idem, ensphinxed, sphinxed round, ensphinxed. 
 (166) Palavras que Lutero teria dito na assembleia de Worms (1521), quando instado a renegar suas novas ideias; uma das citações favoritas de Nietzsche.

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publicado às 21:03



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