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comportamentalismo

por Thynus, em 14.11.14
Conhecida mundialmente pelo seu nome mundial, behaviourism, essa tem sido a escola de pensamento predominante na PSICOLOGIA acadêmica desde a publicação da obras clássica de J.B. Watson, Behaviourism, em 1924. Poucos psicólogos, desde essa época, têm-se mostrado dispostos a aceitar sua teoria sem reservas. A maioria, no entanto, sempre concordou com os aspectos gerais da sua posição. Ele afirma que:
1. os eventos mentais não podem constituir os dados de uma ciência respeitável, sendo o objeto adequado do estudo psicológico o comportamento, e não o pensamento ou o sentimento;
2. todo comportamento é o efeito de um reforço ou consolidação, isto é, a reação a um estímulo é a conseqüência da repetida coincidência da reação com uma recompensa (ou castigo);
3. as técnicas experimentais em psicologia permitem-nos manipular o comportamento no sentido de fins socialmente aprovados. Uma vez que todo comportamento é de qualquer forma condicionado, a objeção ao condicionamento, em oposição à persuasão racional, não procede.
A escola comportamentalista surgiu em primeiro lugar como protesto contra a situação insatisfatória da psicologia na virada do século. Wilhelm Wundt, Edward Tiechener e William James supunham que a psicologia estudava os eventos mentais por meio da introspecção. Esse processo era notoriamente destituído de fidedignidade, faltando-lhe os meios de replicar as descobertas relatadas. Era anátema para uma geração orientada por uma concepção da ciência extraída de Ernst Mach e que sentia inveja de cientistas mundialmente aclamados por seus sucessos na previsão de eventos no mundo físico. Os movimentos corporais, em contraste, pareciam satisfazer a exigência científica de dados confiáveis. A pressuposição de que o comportamento é sempre uma reação a estímulos reforçados forneceu as condições para experiências controladas. Até agora, portanto, o comportamentalismo é o ponto de vista da própria psicologia experimental.
Watson, no entanto, foi mais longe. Em Chicago, estudara com Jacques Loeb, famoso por sua afirmação de ter criado vida num tubo de ensaio e que pensava a ciência como um meio de controlar e mudar a natureza. Watson participava desse ponto de vista e, com seu aluno B.F. Skinner (1938; 1959; 1971), tornou popular uma imagem do comportamentalismo como receita para resolver as ansiedades individuais e o males do mundo. Onde psicólogos como Clark L. Hull e E.C. Tolman encaravam o estímulo-reação (E-R) como técnica para refinar nossa concepção do aparato mental ou fisiológico que, eles supunham, devia mediar entre um estímulo e uma reação, Skinner encara o reforço como recurso utilizado pelo experimentador para induzir comportamento.
Esse ponto de vista poderia ser chamado de comportamentalismo ideológico, de vez que acarreta uma concepção de comportamento formada a partir de fins escolhidos para a ação. Tal concepção exige a linguagem do desempenho bem ou malsucedido, e não apenas a descrição neutra de movimentos corporais, normalmente encarada como o fundamento científico da teoria psicológica. Definir o comportamento para atender à exigência de dados é um problema para o comportamentalismo em geral. A experiência clássica do labirinto constrói-se sobre a pressuposição de que um sujeito há de se  sentir gratificado por chegar à recompensa e resolverá o labirinto com maior rapidez em novas tentativas. O comportamento do sujeito não será descrito de forma mais exata se for analisado em suas unidades. A estratégia experimental sempre presume que o sujeito está buscando a recompensa. Mas, nesse ponto, não fica evidente por que não podemos dizer diretamente que o sujeito quer a recompensa e sabe como encontrá-la.
Grande parte da energia dedicada a experiências de labirinto teve o objetivo menos ambicioso de chegar a um registro de números. Por exemplo, a taxa de aprendizado. Se esses resultados têm implicações importantes para nossa compreensão do comportamento e da estrutura dos organismos é algo que pode, em si, ser questionado.
As experiências de taxa de aprendizado nem implicam nem excluem eventos íntimos. Nem exigem descrição em termos de movimentos corporais. Aprender é uma realização; é dado experimental. Comportamento, nesse contexto, é o que organismos fazem, e não meramente como se movem. As fortes alegações de Skinner sobre a eficiência na mudança de comportamento com o emprego de métodos expurgados de conteúdo mental parecem entrar em confronto com sua igualmente forte alegação de que, dado um controle suficiente sobre um organismo, podemos levá-lo a fazer praticamente tudo que quisermos. Cães caminhando sobre as patas traseiras, golfinhos pulando através de anéis de fogo, soldados marchando para a batalha atestam a possibilidade do controle. Mas uma descrição dos métodos de condicionamento parece acarretar certa referência aos fins, intenções e motivos, pelo menos do experimentador. Se assim for, elas acarretam também uma descrição dos organismos como executando, e não meramente exibindo, movimentos físicos.
Muitos dos críticos de Skinner têm-se oposto a seus pontos de vista por motivos morais e políticos. Ele reduz a motivação humana, segundo dizem, à forma mais simplista de hedonismo. Defende o reforço positivo (recompensas, em vez de castigos), não porque seja melhor ser bom, mas porque, de acordo com seu ponto de vista, esse é um método de manipulação mais eficaz. Suas alegações de eficiência são, além do mais, exageradas. As reações vão sumindo com o decorrer do tempo (extinção) e assim requerem freqüentes sessões de recondicionamento. É claro que hábitos que se extinguem podem ser explicados teoricamente, mas, como método de política social, o condicionamento iria onerar a sociedade com custos tremendos. Críticas desses tipos são importantes, apesar de se concentrarem, talvez de modo demasiado exclusivo, na obra polêmica de Skinner. Não obstante, elas revelam que grande parte da psicologia experimental é voltada para os fins, o que invalida a alegação de haver descrito o comportamento sem recorrer à linguagem do motivo, do propósito e da ação.
Expurgar a linguagem psicológica da linguagem intencional e mentalista foi, conforme vimos, uma reação às afirmações inverificáveis dos introspeccionistas. Essa reação assumiu duas formas. Comportamentalistas radicais, como Watson e Skinner, negavam a existência, ou pelo menos a significação, de eventos descobertos através da introspecção. Assumindo que qualquer uso de conversa intencional ou mental envolvia o que falava no processo desacreditado da introspecção, foram levados a negar que alguma coisa intervenha entre o estímulo e a reação. Qualquer referência a impulsos, motivos ou percepção consciente é redutível à linguagem E-R. Skinner, assim, é levado a excluir a explicação fisiológica, a qual, desde os tempos de Pavlov (1927), forneceu um ímpeto importante ao desenvolvimento de métodos comportamentalistas. A obra de Hebb (1949) é um exemplo instrutivo. Os fisiólogos requerem meios refinados para descrever o movimento corporal a fim de extrair inferências a respeito da estrutura e função do sistema nervoso.
Outros psicólogos, como Hull (1943) e Tolman (1958), supunham que a identificação precisa de estímulo e reação era necessária para chegar aos processos interiores que os introspeccionistas observaram de modo imperfeito. Seus pontos de vista receberam estímulo da visão predominante de que em ciência se postulam “construtos hipotéticos” ou “variáveis intervenientes”, a partir dos quais a prova experimental se segue logicamente e por meios dos quais novos eventos podem ser previstos. Para alguns, os modelos não se referem a eventos ou estruturas reais, mas são apenas recursos heurísticos para fazer previsões. Para outros, a descrição exata do processo de aprendizado era justificada com o argumento de que nos pode dar mapas mais precisos da mente (por exemplo, Tolman). O conceito de impulso desempenha um papel central em todas as teorias desse tipo. A força impulsionadora, segundo se diz, facilita a previsão (Skinner, é claro, argumentaria que não existe diferença entre o impulso e a súmula de respostas). Ele também apóia as afirmações a respeito de processos interiores, cuja natureza, porém, permanece problemática.
Já não é mais tão claro quanto pode ter parecido por volta de 1950 que o comportamentalismo psicológico contribuiu muito para a nossa compreensão do comportamento dos organismos. Alguns dos motivos de ceticismo se destacaram. A crítica de alcance mais profundo baseia-se na obra de Wittgenstein (1953) e Ryle (1949), que foram eles próprios descritos como comportamentalistas, uma vez que concordam em que a introspecção não é o meio apropriado de acesso à mente. Wittgenstein afirma que não podemos ter certeza de estarmos aplicando corretamente um termo a experiências particulares. Assim, nossa conversa sobre pensamentos e sentimentos não pode, logicamente, representar uma suposição de dados particulares. Ryle ataca a concepção da mente como um lugar onde os eventos mentais ocorrem. Nós não observamos nossos pensamentos e os relatamos; nossos pensamentos são o nosso discurso. Não descrevemos nossos sentimentos, na mesma medida em que os expressamos. A atividade mental, ou grande parte dela, é aquilo que fazemos.
Em Wittgenstein e Ryle, porém, a externalização da mente não é motivada pela tentativa de definir comportamento em termos científicos. Essa pesquisa leva, em vez disso, de volta à vida comum e à linguagem do dia-a-dia que usamos para facilitá-la. Nesse cenário, é inadequado falar dos movimentos dos organismos como a base para inferência sobre pensamentos, intenções, sentimentos e objetivos. Nossas descrições básicas do comportamento consistem em conversas sobre ações bem ou malsucedidas, e não sobre movimentos.
As implicações do “comportamentalismo” filosófico para a psicologia empírica são importantes. Se seus argumentos são sólidos, o inflado universo mental do introspeccionista é expurgado sem deixar um vácuo a ser preenchido pela pesquisa científica. Já vimos até que nível o projeto experimental em psicologia está implicado no ponto de vista da vida diária. O labirinto é construído visando descobrir com que rapidez o sujeito o resolve. A bolinha de comida é chamada de recompensa e horas de privação de alimentos são chamadas de estímulo ou excitação do impulso, linguagem que é difícil distinguir conceitualmente de observações a respeito da fome do sujeito, de suas preferências, estratégias e descobertas. Essa é uma linguagem na qual está implícita uma compreensão do comportamento. “Em psicologia”, diz Wittgenstein, “há método experimental e confusão conceitual” (Investigações filosóficas, II, p. XIV). A redução que o comportamentalista faz da ação para movimento tem sucesso caso concentre sua atenção em problemas psicológicos. Em caso contrário ela busca sua justificativa, não nos enigmas a respeito do que fazemos, mas em receitas positivistas para se fazer ciência.
Tem havido, nos últimos anos, uma retração marcante, na teoria comportamentalista, embora isso tenha sido acompanhado de novas defesas do modelo E-R por parte de epistemólogos e filósofos da LINGUAGEM. Word and Object (1960), de Quine, é um bom exemplo. Mas na psicologia, concebida como disciplina científica autônoma, pouco tem sido feito desde as tentativas de Spence (1956) de levar avante o trabalho de Hull. Durante os últimos 15 anos a idéia de que o estudo experimental das reações de organismos sob condições controladas poderia levar a uma ciência do comportamento passou a sofrer um ataque cada vez mais constante por parte dos que acreditam não ser possível nenhuma explicação legítima do comportamento, exceto no contexto de uma compreensão biológica e evolucionista dos organismos. Os comportamentalistas clássicos observam o que fazem os organismos estritamente dentro da perspectiva fornecida por recompensas explícitas ou estímulos de aversão. São, assim, incapazes de reconhecer o significado do comportamento altruísta. Essa é uma reação, dizem os sociobiólogos, explicável apenas com o pressuposto de que o altruísmo maximiza a possibilidade de o material genético ser passado adiante para a próxima geração. O desenvolvimento da SOCIOBIOLOGIA tem semelhanças marcantes com o comportamentalismo psicológico e tem sido criticado mais ou menos da mesma forma. É de interesse aqui por chamar a atenção para o que é fundamental na estratégia comportamentalista e para suas deficiências. O comportamentalismo será melhor encarado como tentativa de separar a psicologia, como ciência, de outras disciplinas.

(William Outhwaite, Tom Bottomore - DICIONÁRIO DO PENSAMENTO SOCIAL DO SÉCULO XX)

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publicado às 13:21



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