Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Veja como o jovem Nietzsche explicou, com muita justeza e profundidade, a
diferença entre Apolo e Dioniso:
Apolo, deus ético, pede comedimento aos seus e, para que o preservem, indica o
conhecimento de si mesmo. Por isso “conhece-te a ti mesmo” e “nada em
excesso” acompanham a exigência estética, enquanto o orgulho exagerado e o
descomedimento que, dentre todos os demônios, são os principais inimigos da
esfera apolínica, foram considerados atributos dos tempos pré-apolínicos, da
Idade dos Titãs ou do mundo extra-apolínico, ou seja, bárbaro [...] O grego
apolínico deve igualmente ter considerado titânica e bárbara a ação do
dionisíaco, sem, no entanto, poder esconder que, no fundo do seu ser, mantinha-se
um parentesco com aqueles Titãs [...] Mais do que isso, deve ter compreendido
que sua existência inteira, com toda beleza e comedimento, repousava sobre um
fundo oculto de sofrimento e de conhecimento que o dionisíaco o fazia
redescobrir. Desse modo, Apolo não pode viver sem Dioniso! O elemento titânico
e bárbaro mostrava-se definitivamente tão necessário quanto o apolínico. Que se
imagine o efeito produzido pela festa dionisíaca, com suas enfeitiçantes músicas,
sobre aquele mundo artificialmente protegido, construído sobre a aparência e o
comedimento [...] Que se imagine o que podia significar, diante dos demoníacos
cantos populares, o artista apolínico, cantando salmos e com suas fantasmagóricas
sonoridades de harpa [...] O descomedimento se revelou verdade; a contradição e
a alegria nascida da dor falaram uma linguagem que brotava do coração da
natureza. De forma que, em todos os lugares conquistados pelo dionisíaco, o
apolínico foi abolido e destruído.
(Nietzsche - O Nascimento da Tragédia, § 4)
Nietzsche, que era bom músico, compreendeu perfeitamente três coisas essenciais. A
primeira delas é que o tema do concurso musical não é anedótico, e sim essencial na
mitologia, por uma razão básica: a música, trazendo ao cerne da arte a ideia de
harmonia, é uma metáfora, em analogia com o cosmos ou, como o próprio filósofo
escreveu, “uma réplica e uma segunda versão do universo”.(Ibid., § 5) A segunda é que na
oposição entre Apolo e Dioniso — com este último representado por Pã ou Mársias,
mas que foram, todo mundo percebe, postos em cena como substitutos, tratando-se de
personagens que apenas representam Dioniso — é de novo a questão do caos e do
cosmos, do titânico caótico e do olímpico cósmico que surge constantemente desde as
origens do mundo. E a terceira é que, evidentemente, apesar de os dois universos
divinos, o harmonioso e calmo, simbolizado por Apolo, e o outro, contraditório e
dilacerado, que Dioniso representa, se oporem radicalmente nas aparências, eles, na
verdade, são inseparáveis. Sem a harmonia cósmica, o caos vence e tudo fica
devastado, mas sem caos, a ordem cósmica se paralisa, desaparecendo toda vida e
toda história.
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

Pã, certa vez. interessou-se pela ninfa Siringe e começou a perseguí-la. Para fugir do assédio de Pã, que era tido como hiperativo sexualmente e passível de cometer estupros, ela se transformou em junco. Pã apanhou alguns juncos e os amarrou, transformando assim num instrumento, a flauta de Pã ou a siringe.
   A palavra “pan” em grego significa “tudo”, portanto o deus Pã é expressão da totalidade da Natureza.
                        Quando nos deparamos com pessoas portadoras da Síndrome do Pânico percebemos sua angústia frente ao novo, sua dependência de alguma figura importante, o temor de rejeição e abandono. E, via de regra, as pessoas que os conhecem acham que eles estão apenas querendo chamar a atenção, tendo chiliques. É uma situação dramática. O pior é que muitas vezes os portadores da síndrome nem mesmo conseguem identificar o que os apavora tanto. Parece que os fantasmas do inconsciente virão atormentá-los. Todos são unânimes em relatar o medo de morrer ou de passar mal e não ter auxílio, aspectos que os tornam dependentes de outras pessoas. Passam por vários médicos procurando por alguma saída ou se descobrem alguma doença, e, ficam mais angustiados por descobrirem que não há uma doença física. Tudo vai bem. Mas por que permanece tão intenso medo de morrer?
 




Sigamos, uma vez mais, a narrativa do mito pela versão de Ovídio.
Aparentemente, Midas se acalmou depois do revés de seu desastroso toque de ouro. Parece ter ficado mais humilde, quase modesto. Longe do fausto e do luxo que esperou do ouro, ele passa a viver em retiro na floresta. Afastado do palácio suntuoso, contenta-se com a vida rústica e simples, nos campos e prados pelos quais gosta de passear sozinho ou, às vezes, na companhia de Pã, o deus dos pastores e das florestas. Você deve saber que Pã se parece estranhamente com Sileno e com os Sátiros. De fato, é também um deus de grande feiura. No sentido exato da palavra, ele é apavorante: todos que o veem levam um susto, ficam gelados de horror, com o medo chamado “pânico” e derivado do seu nome, em homenagem bem negativa. Pela aparência, Pã é meio homem e meio bicho: peludo, chifrudo e “fora de esquadro”; ostenta os cornos e as pernas, ou patas, de um bode. O nariz é achatado como o de Sileno, o queixo proeminente, as orelhas gigantescas e peludas como as de um cavalo, os cabelos lanosos como os de um mendigo. Às vezes dizem que sua própria mãe, uma ninfa, ficou tão aterrorizada quando ele nasceu que o abandonou. Teria então sido pego por Hermes, que o levou ao Olimpo para mostrar aos outros deuses — os quais teriam literalmente urrado de tanto rir, achando engraçadíssima tanta feiura. Atraído por suas disformidades, Dioniso — que por princípio gosta de tudo que é estranho e diferente — teria resolvido torná-lo mais tarde um companheiro para folguedos e viagens. Prodigiosamente forte e rápido, Pã gasta boa parte do seu tempo perseguindo ninfas, mas também rapazes, tentando por todos os meios obter seus favores. Dizem inclusive que um dia em que perseguia uma jovem ninfa chamada Siringe ela preferiu se matar, lançando-se num rio, para não ter que ceder às suas “investidas”. Siringe se transformou então em cana à beira do rio, e Pã, pegando o caule ainda trêmulo, o transformou em flauta e tornou-a seu instrumento-fetiche, a famosa “flauta de Pã”, que se toca ainda nos dias de hoje. Muitos séculos depois, Debussy, um dos maiores compositores franceses, escreveu uma peça para esse instrumento (na verdade para uma flauta transversa), chamando-a justamente Syrinx, em homenagem à infeliz ninfa. Muitas vezes podemos ver o deus Pã, assim como Sileno e os Sátiros, na companhia de Dioniso, dançando como um demônio, festejando e bebendo vinho até o delírio: o que mostra que esse deus nada tem de “cósmico”! Não é um artesão da ordem, e sim um fervoroso amador de todo tipo de desordem. Claramente pertence à linhagem das forças do caos, a ponto de certas narrativas simplesmente o tornarem filho de Hybris, a deusa do descomedimento.

Pan and Syrinx - oigem da palavra pânico
 

 Com isso podemos achar que Midas, tendo em vista suas companhias, talvez não tenha se ajuizado tanto assim. Ainda mais porque a tolice e a lentidão mental continuam firmes em sua pobre cabeça. Um dia em que Pã tocava sua famosa flauta, tentando seduzir umas moças, o deus se empolga e se gaba, como muitas vezes acontece nesse tipo de situação, afirmando que seu talento musical supera inclusive o de Apolo. E perdendo todo o controle, no cúmulo da hybris, chega a desafiar esse senhor do Olimpo! Um concurso imediatamente se organiza, entre a lira de Apolo e a flauta de Pã. E Tmolus, uma divindade da montanha, é escolhido como juiz. Pã começa a soprar seu instrumento, e os sons que saem são roucos e rústicos, à imagem de quem os toca. Têm muitos encantos, é claro, mas são brutos, para não dizer bestiais; o som que o sopro tira dos tubos de cana é idêntico ao que o vento produz na natureza, entre as taquaras. A lira de Apolo, em contrapartida, é um instrumento sofisticadíssimo; explora com precisão matemática as relações entre o comprimento das cordas e sua respectiva tensão, garantindo uma perfeita justeza em suas relações, mais ou menos simbolizando a harmonia, igualmente sofisticada, que os deuses estabeleceram na escala do universo. É um instrumento ao mesmo tempo delicado e civilizado, o oposto da rusticidade da flauta, sendo a sedução suscitada pela lira inteiramente originada na suavidade. O público está encantado e unanimemente escolhe Apolo. Com apenas um voto contrário, o do grosseirão Midas, que ergue sua opinião dissonante em pleno festival de elogios dirigidos a Apolo. Amigo de Pã e já habituado à vida na floresta e no campo, Midas, tendo perdido o senso da civilidade, diz claramente preferir, e de longe, o som gutural da flauta em vez das harmonias delicadas da lira. As consequências são péssimas para ele! Não se desafia Apolo impunemente, e, como sempre em casos desse tipo, o castigo vem relacionado à natureza do “crime” cometido pelo desafortunado Midas; ele pecou ao mesmo tempo pelo ouvido e pela inteligência, sendo, então, pelas orelhas e pelo espírito que será punido. Vejamos como, de novo segundo Ovídio:
O deus de Delos (Apolo) não quer que orelhas tão grosseiras conservem a forma humana: ele as alonga e enche de pelos cinzentos. Deu-lhes uma raiz flexível, e elas guardam a faculdade de se mover em todas as direções. Midas mantém todo o restante de homem. Apenas nessa parte do corpo foi punido, exibindo as orelhas do asno de lentas passadas.
É claro, com suas novas orelhas de asno, Midas morre de vergonha. Não sabe mais o que fazer para esconder dos olhos do mundo sua feiura — feiura que publicamente o denuncia não apenas como um ser desprovido de ouvido, de senso musical, mas também como um imbecil, sem maior inteligência do que um ruminante. Ele tenta disfarçar seus novos atributos sob formas diversas, chapéus e tiras de pano com que enrola cuidadosamente a cabeça. Mas não há como seu barbeiro não perceber e perguntar: “Majestade, o que aconteceu? O senhor parece ter orelhas de asno...” Azar o seu, pois Midas também não prima pela delicadeza: avisa-lhe imediatamente que se contar a alguém o que acaba de descobrir, será levado ao suplício e à morte. O pobre barbeiro faz o que pode para manter o calamitoso segredo. Ao mesmo tempo, entretanto — imagine-se no lugar dele —, ele arde de vontade de contar aos amigos e à família, e treme diante da possibilidade de um dia, até por inadvertência, alguma palavra escapar. Para se livrar desse peso, ele tem uma ideia: “Vou cavar um buraco grande no chão e confiar meu segredo às profundezas da terra, tapando-o logo em seguida.” Dito e feito. O barbeiro encontra um lugar afastado da cidade, escava a terra, grita ou até mesmo urra o que quer, fecha em seguida com todo cuidado o buraco e volta para casa, com o coração mais leve. Na primavera, porém, uma floresta de canas cresce no piso recentemente revolvido. E quando o vento sopra, pode-se ouvir uma voz formidável se erguer e se inflar, gritando para quem quiser ouvir: “O rei Midas tem orelhas de aaaaasno, o rei Midas tem orelhas de aaaaasno...”

Midas tem orelhas de burro!
O segredo foi desvendado.
Midas só não dava esturro
Porque era educado.

E assim a falta de discernimento de Midas foi punida por Apolo. Talvez você ache que dessa vez não se vê muito bem em que esse pobre Midas ameaçava a ordem do mundo. É bem verdade, ele desafiou um deus, e um dos principais — pois Apolo, que é deus da música e da medicina, é um dos olímpicos. Mas, no final das contas, era apenas um caso de gosto, e cada um tem o direito de dizer o que acha. Se Apolo se sentiu ferido, parece ter sido apenas no amor-próprio, ou até mesmo na vaidade. Assim sendo, sua reação parece excessiva, para não dizer um tanto ridícula. Tal opinião, no entanto, só se sustenta se, uma vez mais, não estivermos prestando atenção aos detalhes da história e nos limitarmos a julgá-la de um ponto de vista moderno. Pois olhando mais de perto, trata-se, como no final do combate de Zeus contra Tífon, de uma disciplina, a música, com a qual não se brinca; ela se remete diretamente à nossa relação com a harmonia do mundo. Como expliquei a você, a lira é um instrumento harmônico, enquanto a flauta só pode tocar uma nota de cada vez e, com isso, é um instrumento “melódico”. Com a lira, como no caso de um violão, a gente pode acompanhar o próprio canto, e mesmo que os gregos ignorassem a harmonia, no sentido em que vão entendê-la compositores como Rameau e Bach, eles começavam, de qualquer forma, a mais ou menos pôr em consonância entre si sons diferentes. Com a flauta, essa harmonização da diversidade é impossível. Sob a aparência de uma competição apenas musical, representa-se, na verdade, a oposição cardeal de dois mundos, o de Apolo, civilizado e harmonioso, e o de Dioniso, de quem Pã é companheiro, caótico e desordenado, como qualquer uma das suas festas que podem, de uma hora para outra, degenerar em horror. Nas famosas bacanais organizadas por Dioniso e seus amigos — é como se chamam as festas dionisíacas —, mulheres ao redor do deus, as “Bacantes”, eventualmente se entregam a orgias que ultrapassam qualquer entendimento. Sob o domínio do delírio dionisíaco, perseguem filhotes de animais e os dilaceram vivos, devorando-os crus. E, às vezes, não são apenas os animais que elas tratam da maneira mais abominável, também crianças ou até adultos, como Penteu, um rei de Tebas que vai terminar dilacerado pelas garras deles e devorado por seus dentes. Para que possa medir o quanto a oposição entre os dois universos, o cósmico de Apolo e o caótico de Dioniso, pode ser brutal, me parece útil contar para você uma variante mais dura dessa mesma competição de música, uma que traz à cena o suplício atroz do infeliz Mársias.

 (Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 04:29



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D