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Coelhos

por Thynus, em 21.01.17

O coelho é um animal de coito rápido: Alice abriu os olhos. Lembrou-se da história que seu marido contava: a dos coelhos, que tendo relações com a coelha, disse a ela: “Está muito bom, negrinha, não foi?”

Bocejou e saltou da cama. “Que dia é hoje? Quarta-feira? Não, quarta-feira foi ontem... É o dia em que vamos jogar cartas. Mas jogamos cartas ontem? Jogamos, sim.

Lembro-me que a Gilda me disse — tens muita sorte — e eu tinha. Espera, isso foi na quarta-feira passada. Ou no mês passado?”

Sentou-se diante do toucador, começou a escovar os cabelos. “Agora escovo os cabelos. Exatamente como ontem.” Mirava-se com atenção. “Meu rosto; sempre igual.

Tenho trinta e dois anos. Podia ter vinte e dois. Ou doze?” — “Minha guriazinha.” Voltou-se: não havia ninguém no quarto. No entanto, ouvira distintamente a voz grave do marido. Olhou o relógio: sete e meia. A esta hora, ele estava na estrada. Era gerente de uma fábrica de conservas, a trinta quilômetros da cidade. Tinha um carro enorme, um velho Dodge preto. Troçava com ele: “Ninguém tem um carro tão velho!” — “Eu sei, negrinha. Mas o gerente de uma fábrica de conservas deve ser conservador.” O riso curto, áspero. Estremeceu e tornou a voltar-se. O vento agitava mansamente as cortinas. Levantou-se, foi até a janela.

Moravam no alto de uma colina pedregosa e desolada, nos arredores da cidade. Era uma bela casa, espaçosa, construída em sólida pedra branca e madeira escura. De lá viam as torres da igreja. “Mas é tão isolado!” — queixara-se ao marido. “Eu sei, negrinha”. Um homem forte, de espessas sobrancelhas negras e dentes poderosos.

Um lobo solitário. Estreitava-a entre os braços peludos. Sentavam-se diante da lareira, nas noites de inverno. Ele a contemplava em silêncio. De repente, contava: “O coelho, negrinha, é um animal de coito rápido...” Ria, abraçava-a.

Ela estremeceu.

Afastou as cortinas. A cerração cobria tudo, como um mar branco. Nem as torres da igreja eram visíveis. A casa flutuava, meio submersa na névoa. Uma aragem fria arrepiou-lhe a pele. Fechou a janela. “Que frio! Vou pôr o vestido branco de lã.”

Dirigiu-se ao guarda-roupa, abriu as pesadas portas de cedro escuro. Viu-se no espelho. “Sou muito bonita” — murmurou. Trinta e dois anos, podiam ser vinte e dois.

Vestia-se bem: branco...

Sobressaltou-se: já estava com o vestido. “Como estou distraída. Vesti-me sem perceber.” O marido gostava do vestido branco. “Pareces ter doze anos.” Sentavam-se frente a frente, diante da lareira acesa. Ela olhava, fascinada, os dentes que reluziam ao fogo. Ele ria um riso curto, áspero. “O coelho...” Ela corava. “Por quê?” — ele perguntava. “É a solidão. Não gosto desta casa, tão solitária...” Ele ficava quieto, olhando.

Mas uma noite entraram no carro, o grande Dodge negro. “É uma surpresa” — ele disse, e riu. E era: foram visitar o sócio do marido. “Apresento-te meu sócio, negrinha. Coelho, esta é a minha esposa.” Coelho! Riu. Riram todos. Jogavam cartas às quartas-feiras. Os dois, Coelho e Gilda.

Era bom, estarem juntos... “O coelho é um animal de coito rápido...” — ela dizia e riam. Era bom, naquelas doces manhãs de inverno. “És um animal de coito rápido.” Coelho ria: “Branco te fica muito bem.”

Vestida, desceu a grande escadaria. Chamou a empregada. “Júlia!” Ninguém respondeu. Franziu a .esta. Depois lembrou-se: “Hoje é quinta-feira, ela foi ao mercado.” Sobressaltou-se: “Mas hoje é quinta-feira? É! Ontem jogamos cartas, eu sei! Lembro-me que Gilda me disse... Mas foi ontem?... Foi: fiz trinta e dois anos na terça-feira. Ou vinte e dois?” Seu marido prometera um presente.

A grande mesa estava servida: para uma pessoa. Sempre tomava o café sozinha, na enorme sala de jantar. Desagradava-a muito, a solidão. Sentou-se.

“Vou ao cabeleireiro...” Mas hoje é dia de ir ao cabeleireiro? Pegou o bule, mas deteve-se: já havia café na xícara. “Quem pôs? Fui eu? Que estranho, não é — não foi?”

Pôs o bule no lugar e ficou parada, muito quieta.

Foi só depois de alguns minutos que viu o coelho branco.

Estendeu precipitadamente a mão, derrubando a xícara.

Uma mancha preta de café espalhou-se sobre a toalha branca. Atrás do bule: um coelhinho branco de pelúcia.

“Quando eu fiz dois anos, meu pai me deu um coelhinho branco de pelúcia. Alice e seu coelho branco, ele disse rindo. Os dentes brancos, as sobrancelhas cerradas. Aos dois anos. Ou aos doze?”

Chorava. Levantou-se da mesa. “Mas hoje é quinta-feira! Vamos nos encontrar às oito!” Doce manhã de inverno! Doces beijos! Ria.

Correu à garagem, tirou de lá o pequeno carro branco, presente do marido. Sobre o banco dianteiro — um pequeno coelho de pelúcia branca. As lágrimas turvavam-lhe os olhos quando se pôs a descer a estreita estrada pedregosa. “É tarde! É tarde!” A cerração tornava-se cada vez mais densa.

“Espera por mim, Coelho!” Corria. “O coelho é um animal...” O marido ria.

Foi então que viu o grande Dodge preto crescendo à sua frente. O marido, dedos crispados na direção, rindo — os dentes poderosos arreganhados, brancos, brancos. Os cacos de vidro varando-lhe a garganta, os ferros esmagando-lhe o peito.

É tudo tão rápido, não foi? — murmurou ela, e fechou os olhos.

 

(Moacyr Scliar - O Carnaval dos Animais)

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