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Circe

por Thynus, em 04.02.16
Diante do promontório da Lucânia, desde então,
Estão à vista de todos as rochosas Sirenusas,
Formadas pelos ossos de antigas e belas sereias,
Que ainda dizem àqueles que cruzam suas águas:
"Cuidado! Mesmo as pedras escondem um desejo!"
(A. S. Franchini / Carmen Seganfredo - AS 100 MELHORES HISTÓRIAS DA MITOLOGIA)
 
Como sempre, quando a dificuldade é
insuperável, o Olimpo desperta. Hermes, o mensageiro de Zeus, intervém. Oferece a
Ulisses um antídoto, uma pequena erva que, se tomá-la logo, vai deixá-lo invulnerável
ao encanto de Circe. Além disso, oferece alguns conselhos: quando vir Circe, deve
aceitar e beber a poção. Nada vai acontecer. Circe, então, compreenderá a quem tem
pela frente. Ele deve se levantar e ameaçá-la com a espada, como se tencionasse matá-la.
Ela vai libertar seus companheiros, devolver-lhes a aparência humana, mas, em
troca, vai chamar Ulisses para compartilhar seu leito e fazer amor com ela. Ele deve
aceitar, mas sob uma condição: que ela jure pelo Estige que não tentará mais
prejudicá-lo.

[...] Ulisses acaba gostando. E com isso, fica um ano inteiro em seus
braços fazendo amor, bebendo, dormindo, comendo... e recomeçando a mesma rotina
no dia seguinte. O que o ameaça de novo, você sem dúvida já compreendeu, é a
tentação do esquecimento. Circe faz de tudo para que ele não pense em mais nada, que
sobretudo não pense em Penélope nem em Ítaca, e fique com ela no quentinho da sua
cama. Uma vez mais, Ulisses beira a catástrofe — uma catástrofe bem agradável, é
verdade, mas, mesmo assim, calamitosa. Pelo menos dessa vez, os marinheiros o tiram
dessa situação. Estão cansados de ficar ali e se impacientam, já que não têm Circe
todas as noites para entretê-los. Procuram então Ulisses, querendo retomar o caminho.
Contra toda expectativa, Circe aceita bem o fato. Afinal, não se pode manter um
amante à força, e se ele quer a qualquer preço ir embora, que vá! [...]

Ulisses organiza os preparativos da partida, mas continua sem saber
onde está e não tem a menor ideia do que fazer para chegar à sua ilha. Circe o ajuda,
mas com um conselho que o faz estremecer: é preciso encontrar a entrada do reino de
Hades, o reino dos mortos, nele penetrar e consultar Tirésias, o mais famoso de todos
os adivinhos. Apenas ele pode dizer a Ulisses o que o espera na sequência da sua
viagem e como retomar seu rumo.

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)
 
 

Una ilustración de autor desconocido (por el momento) que muestra a Circe con su vara mágica convirtiendo a los hombres de Ulises en cerdos inteligentes.
 
Uma das figuras mais fascinantes do mundo homérico é Circe, hábil em toda sorte de encantamentos e quem dava à espécie humana muito pouco valor. Por outro lado, amava a luz, e em honra dela colocara o nome de Aurora [Eos] na ilha em que reinava, abundante em carvalhos e outras espécies de árvores. Tecia e, às vezes, cantava nos terraços de seu palácio, situado em uma clareira do bosque cercado por leões e lobos que não haviam nascido de feras, mas homens que haviam sido transformados em animais pela força de seus feitiços.
Irmã de Eetes, o deus da mente perversa, Circe era uma poderosa deidade de fala humana. Conhecia o vigor secreto das ervas e praticava os mais delicados deleites do erotismo. Sua sensualidade também a levou a desfrutar os prazeres gastronômicos e a perceber, sem dificuldades, os desejos de seus visitantes através dos matizes de suas vozes e da profundidade de seus olhares. Sua devoção pelo esplendor provinha da linhagem paterna, assim como de sua mãe aprendeu a dominar as palavras, pois que, afamada como era por seus formosos cabelos, Circe era filha do Sol, que deu a luz aos homens, e sua mãe foi Perseis, ninfa gerada pelo Oceano.
Foi em sua ilha de Aea ou Eéia que desembarcou Odisseu [Ulisses] quando navegava para o leste em busca de seu reino de Ítaca, depois de atravessar suas últimas peripécias na terra dos lestrigões, povo que morava em outra ilha, governada por Lamo e cujo porto estreito era resguardado por dois promontórios rochosos; alguns situam tal país em algum ponto a noroeste da Sicília, onde se sentia tão de perto a manhã e a noite que os pastores que conduziam seus rebanhos para casa ao pôr-do-sol cruzavam no caminho com aqueles que se dirigiam aos campos na hora do amanhecer. Lá abundavam as fendas e os perigosos penhascos, a partir dos quais Ulisses e seus homens seriam atacados com pedras pelos selvagens antes que pudessem lançar ao mar suas naves. Hábil como era para arquitetar artimanhas, o herói pôde se salvar porque conseguiu cortar com a espada o cabo que prendia seu navio, enquanto exortava seus homens a remar com todas as suas forças a fim de evitar serem arrojados ao Hades.
Depois de uma longa viagem e ocupando o único barco que não fora destruído por aqueles vorazes canibais, Ulisses e os homens que lhe restavam vieram a atracar no amplo porto de Eéia, em cuja praia ficaram estendidos durante dois dias e duas noites, cheios de dor e vencidos pelo cansaço. Quando os primeiros raios da aurora anunciaram a chegada do terceiro dia, Ulisses subiu a uma atalaia a fim de ver se descobria a presença de mortais, e ao cabo de longos caminhos que atravessavam o espesso azinhal divisou uma cortina de fumaça que subia do local em que se erguia o palácio de Circe. Ali começou o episódio mais apaixonante de sua odisséia, aquele menos descrito por Homero em seus cantos e, ao mesmo tempo, o mais sugestivo sobre o sentido de pátria e sobre a batalha travada na alma do herói entre a paixão e o passado.
Já eram muitas as peripécias sofridas para que se descuidassem ao chegarem a regiões desconhecidas; mas não faltaram os imprudentes que, em sua insana curiosidade, se atreviam a descurar dos conselhos de Ulisses de conter seus impulsos e observar os arredores com cautela antes de colocarem suas vidas em risco. O curioso é que reincidiam em todos os casos e que, por causa de sua ousadia, os veteranos que acompanhavam Ulisses foram caindo um a um até deixá-lo praticamente sozinho nas últimas etapas de seu legendário périplo. Em Eéia, quando tiraram a sorte para decidir quem ficaria cuidando do navio e quem sairia a explorar a ilha, tocou justamente a Euríloco, o companheiro mais íntimo de Odisseu, colocar-se a testa dos 22 tripulantes que empreenderam a marcha em meio a soluços desconsolados.
Passo a passo, por entre azinheiros e carvalhos, subiram pela encosta até alcançarem o ponto mais elevado onde se encontravam as edificações de Circe, em um sítio protegido; ali rondavam leões e lobos sacudindo as caudas, os quais, em vez de atacá-los, se erguiam sobre as patas traseiras e os acariciavam. Desconcertados, os navegantes se indagavam que coisa era essa que lhes queriam dizer aquelas feras ao se comportarem daquela maneira, pois o natural seria que tentassem devorá-los e não que lhes lambessem as mãos. Seja como for, eles os seguiram até a clareira do bosque e encontraram Circe sentada em frente ao tear na mais pacífica das atitudes, tecendo uma tapeçaria imensa, divina, brilhante, sutil e graciosa, tal como correspondia ao labor de uma deusa. Cativados por seu canto bem afinado, começaram logo a gritar para chamar-lhe a atenção, acreditando tratar-se de uma donzela indefesa. No entanto, cheio de desconfiança, Euríloco se manteve na retaguarda sem se deixar fitar nos olhos pela mulher de belíssimos cabelos. Sorridente, de permeio às fórmulas da mais obsequiosa cortesia, Circe convidou os homens a comerem a sua mesa e os levou consigo para o interior do palácio.
Euríloco relatou a Ulisses que todos a seguiram sem discutir, como se não soubessem o que estavam fazendo, e que ela os fizera se assentar em poltronas magníficas para oferecer-lhes queijo e bolos de farinha, mel silvestre e o forte vinho de Pramno(Pramne ou Pramme era uma pequena cidade da Ásia Menor, nas cercanias de Esmirna, hoje na Turquia. Produzia um vinho doce e capitoso, extremamente afamado na Antigüidade), no qual se ocultava a erva que os faria se esquecer de sua pátria. Vorazes como eram, os homens acabaram com os manjares e de um só gole beberam o perverso licor, por cuja influência não somente se esqueceram totalmente da pátria como também, ao serem tocados pela vara mágica de Circe, começaram a se transformar em porcos, até que perderam completamente sua aparência humana. As cabeças, os pêlos, as patas e a maneira de andar tornaram-se idênticos aos dos suínos, ainda que sua mente continuasse intacta e totalmente humana. Por isso choravam com a mesma tristeza dos homens, ao mesmo tempo que guinchavam à maneira dos porcos; foram depois encerrados em um chiqueiro, no qual comiam as bagas de sanguinho, as abelotas de carvalho e os frutos de faia que Circe lhes lançava.
Euríloco somente se salvou do feitiço porque não se aproximara da mulher de lindos cabelos. Vira de fora tudo o que ocorrera, olhando por uma janela ou observando as pocilgas a distância, para não ser capturado pela deusa de mente perversa. Seus olhos se enchiam de pranto ao anunciar aos companheiros que haviam permanecido no batei a amarga fortuna de seus amigos. Intimidados pelo relato, alguns quiseram lançar o barco ao mar de imediato para não compartilhar de semelhante ruína, e até mesmo Euríloco suplicava a Ulisses, invocando o nome de Zeus, prostrado no solo e abraçado a seus joelhos, que não o fizesse voltar ao palácio de Circe, porque a perita em venenos era também senhora das ilusões e, segundo acreditava, fizessem o que fizessem, ninguém poderia ser libertado de seus encantamentos.
Ulisses não era homem que se furtasse aos desafios. Escutou o relato de Euríloco em todos os seus pormenores e consolou-o como pôde; mas não concordou que devessem fugir da ilha, nem que abandonassem à própria sorte os que haviam sido transformados em bestas. Ao contrário, sentiu-se tentado pelo desafio e disse ao amigo que podia permanecer ao resguardo da nave enquanto ele partia, armado somente com sua lança, para empreender a difícil aventura de derrotar a deusa; subiu a ribanceira a partir do mar e tomou o caminho ao longo do vale sagrado até aproximar-se da mansão de Circe, sem levar consigo o apoio de nenhum valente. Muito longe, a grande distância do ponto em que Ulisses parara a esquadrinhar o terreno, alguns de seus marinheiros se lamentavam pelo que supunham ser o seu destino inevitável, outros se resignavam, sentindo já perto de si as profundezas do Hades, enquanto os demais esperavam secretamente a intervenção de algum deus que se interpusesse entre aquela mulher que dispunha de um conhecimento tão rico sobre os venenos e o herói de Tróia. E como tudo em Homero está povoado de magia e de encantamento, no meio de um dos mais cerrados renques de carvalhos veio esperar por Ulisses o portador do caduceu de ouro, o grande Hermes, que para a missão assumira o aspecto de um jovem lanugento, um adolescente em sua idade mais cheia de graça.
Narra-se que o deus estendeu a mão e apertou a de Ulisses, interrompendo-lhe o passo para que não mais avançasse, e lhe dirigiu as seguintes palavras:
- Como vais atravessar sozinho estas brenhas, infeliz, desconhecendo o país e sem saber onde pisas? Teus amigos que entraram na casa de Circe estão encerrados nas pocilgas, transformados em porcos. Por acaso vieste com a intenção de salválos? Nem sequer tu mesmo voltarias de lá; ao contrário, ficarás preso onde eles estão e não haverá para nenhum esperança de regresso. Detém teu passo, Ulisses, e escuta a solução para livrar-te de tantos males que acabariam não só com tua glória, mas até com a recordação de ti, sem falar de tua esperança de algum dia poder ver de novo tua pátria.
 Acedendo docilmente ao chamado do deus, Ulisses deteve o passo e escutou, como escutavam os homens naquela época as revelações superiores. Soube por Hermes que existia na região uma raiz muito salutar, que lhe permitiria conservar o controle de sua mente e abolir o efeito daquela erva que fazia com que os homens se esquecessem de sua pátria.
- Agora vou te explicar - disse o adolescente divino - os truques maléficos de Circe. Ela vai preparar um veneno que porá na comida que te vai servir, porém, mesmo assim, não conseguirá te enfeitiçar. Serás defendido pela poção que te darei, mas sob a condição de fazeres o seguinte: quando Circe te mandar correr brandindo sua vara mágica, deves sacar da bainha a faca afiada que trazes presa ao flanco e saltar sobre ela, tal como se pretendesses matá-la. Imediatamente verás que, assustada com tua resistência, convidará a te deitares com ela. Não recusarás aquele leito divino a fim de que ela liberte os teus homens, e a ti, te acolha em sua moradia; porém, deves exigir-lhe que profira o grande juramento que só fazem os deuses, de que não tramará uma nova armadilha, que mais não seja para garantir que não te privará de tua força e vigor tão logo te veja desarmado.

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En esta pintura de 1900, el artista inglés Wright Barker (1864-1941) representa a Circe dando la bienvenida a su palacio de marmol pulido


Dito isso, o divino Argifonte entregou ao herói uma erva com flores da cor do leite e raiz negra, ensinando-o também a distinguir a planta para que esta não lhe faltasse. Os deuses a chamavam Molu, e era dura e muito resistente a sair da terra, mas fácil de arrancar para quem tivesse a mão sagrada. Assim, sem lhe dizer mais nada, Hermes partiu de regresso ao Olimpo sobrevoando a ilha e seus bosques, enquanto Ulisses, movendo-se em sentido contrário, se encaminhava para o palácio de Circe com o coração agitado por mil inquietações. Quando Ulisses, ainda angustiado, pisou o umbral da deusa de formosos cabelos, Circe saiu a recebê-lo com suspeitosa solicitude. Ia rodeada de sedutoras donzelas e seguida por feras tão dóceis que pareciam suas mascotes. Lentamente, como se cumprisse um ritual, enrolou sua tapeçaria, guardou os fios de cores brilhantes e os novelos de lã em suas cestinhas e o fez entrar no recinto quando já despontavam os primeiros raios da aurora. Como estava situado no cume do monte, de cada canto do palácio se divisava um arvoredo cerrado precedido por um pântano e cercado pela franja azulada de um mar tão manso que custava crer que há tão pouco tempo os ventos tivessem reduzido a estilhaços algumas das naves de Ulisses, enquanto arrastava outras delas para terras desconhecidas.
A deusa leu no porte e nos gestos do herói a sua fadiga.
Adivinhou também sua ansiedade e a urgência que sentia para desfrutar da acolhida doméstica, pois vagava há anos, presa da confusão e dos enredos com que o envolviam os seres olímpicos.
Quanto mais próxima vislumbrava a pátria, tanto mais longe se afastava de Ítaca, ao mesmo tempo que perdia homens e navios diante dos perigos mais inusitados; agora expunha-se à tecelã de feitiços a risco de transmutar-se ele mesmo em porco ou de ficar indefinidamente enredado em suas teias de erotismo.
Circe convidou Ulisses a sentar-se em uma poltrona marchetada de tachas de prata e sob seus pés colocou um tamborete cujo estofamento tinha sido bordado por ela mesma. Sem desperdiçar mais tempo, misturou em uma taça de ouro um vinho saboroso com a beberagem maligna, destinada a fazer com que seu hóspede se esquecesse da pátria. Ele, precavido e consciente de que sob sua beleza sedutora a maga praticava desígnios perversos, cheirou disfarçadamente a flor do conjuro e recordou-se ao consumi-la da advertência de Hermes. No momento em que Circe tocou-o no ombro pretendendo transformá-lo também em porco e conduzi-lo à pocilga para juntar-se a seus amigos, Ulisses sacou da faca e lançou-se ameaçadoramente sobre ela, como se fosse matá-la. Os dois se fitaram frente a frente e, antes que proferissem qualquer palavra, um halo de amor envolveu-os mesmo contra a vontade de ambos.
Nunca antes a deusa se havia ajoelhado, como o fazia agora perante Ulisses, a chorar aos pés de homem algum. Abraçou-lhe os joelhos com evidente aflição e perguntou como havia conseguido resistir ao feitiço que havia sido praticado com tanta eficácia sobre todos os outros mortais.
- Por acaso és tu aquele astuto Ulisses que, segundo a previsão do Argifonte do báculo de ouro, haveria de chegar em seu barco negro em seu retorno do cerco de Ílion? És então o anunciado, cuja mente indomável desafiaria meu poder? Baixa tua espada, Odisseu, para que subamos os dois ao leito sagrado até que, unidos em descanso e amor, aprendamos a confiar um no outro. Depois eu tecerei minha tapeçaria, te deleitarei com meu canto e gozarás em sossego sobre uma colcha confortável na qual receberás minhas atenções e poderás se recuperar até que estejas preparado para retornares tua rota.
Ulisses deixou que ela falasse e esperou. Circe fez-lhe uma profusão de promessas estendendo ao redor dele os fios de sua magia proscrita; mas ele recordou que todas as feiticeiras acabam por destruir ao amante, uma vez que, em meio aos gozos, lhe tiram o sangue para guardá-lo em pequenos odres e, da noite para o dia, não restam mais que ossos e pele ressequida ao redor de uma alma estéril que, sem nenhuma potência, desce indefesa até o Hades. Assim, prevenido, o herói recorreu mais uma vez à sua astúcia a fim de encontrar uma maneira de dobrá-la.
- Mas como, Circe, pretendes de mim que seja terno contigo se converteste meus homens em porcos e a mim mesmo, a quem já fizeste provar a beberagem que faz olvidar a pátria, me convidas cheia de dolo a subir a teu leito? O que desejas é me pegares desarmado a fim de me prenderes com outras artimanhas. Não concordarei com teu desejo até que me dês tua palavra de honra e te comprometas, por meio do juramento dos deuses, de que nunca mais irás tramar um novo ardil em prejuízo meu.
E foi assim que, de permeio a rituais sagrados, Circe empenhou o juramento em nome de todos os deuses benditos de devolver à forma humana não somente os companheiros de Ulisses, mas todos os demais desgraçados que mantinha em cativeiro sob a forma de bestas, e ainda jurou que jamais faria coisa alguma que pudesse prejudicá-lo enquanto estivesse adormecido. Confiando na palavra suprema da deusa, o herói se deixou conduzir por suas servas, ninfas filhas das fontes, dos bosques e dos rios as quais, em meio a grande agitação, lhe preparavam a indumentária de gala. Uma estendia pelos troncos belos tapetes recobertos de púrpura; outra colocava diante dele mesas de prata cobertas de cestas; outra mais, depois de misturá-los com perfeita harmonia, servia os vinhos com notas de mel em belas vasilhas. Enquanto a encarregada da água limpava as gotas que haviam sobrado das ânforas, a vigia do trípode mantinha, a distância, aceso o fogo sob a pequena caldeira. Quando percebeu a fervura da água no bronze, Circe convidou Ulisses a se banhar a fim de livrar seus membros do cansaço desgastante, e ela mesma, com grande habilidade e experiência, encarregou-se de lavá-lo e depois ungi-lo com óleo brilhante.
Por melhores que tivessem sido os banhos que Ulisses havia provado de mãos luxuriosas até então, o da deusa se distinguia por abundantes deleites que nele despertavam sensações adormecidas, não obstante sua mente permanecesse sempre alerta contra o perigo. Com um olho observava a túnica e o esplêndido manto cor de púrpura com que Circe o vestia aparentando grande respeito e reverência, e com o outro vigiava os alimentos que as donzelas estavam encarregadas de lhe servir. Deixou-se descansar mas sem se atrever a provar dos manjares, pois sua mente continuava ocupada prevendo calamidades que, no mínimo, poderiam reduzi-lo a um prisioneiro dos encantos da deusa feiticeira.
Ao notar que Ulisses continuava tomado de grande tristeza, a tecelã instou-o novamente a confiar em seu juramento divino; mas ele replicou que não se poderia esperar dele atitude diferente se seus amigos permaneciam enfeitiçados nos chiqueiros em vez de estarem sãos e salvos a seu lado. Circe, ansiosa para despertar-lhe o amor através de seu poder, dirigiu-se até as pocilgas para libertar os homens conforme haviam concordado e, como sinal de que estava disposta a cumprir sua palavra da melhor maneira possível para levar o herói para seu leito e talvez retê-lo consigo, não só lhes devolveu a humanidade como até os rejuvenesceu por meio de um novo filtro. Um por um iamse erguendo os navegantes, maravilhados não somente por sentir que haviam recuperado seus corpos e tinham novamente o controle de todos os seus movimentos, mas por retornar com aspecto e vigor juvenis. Como era próprio dos heróis homéricos, os homens romperam em pranto e, sem deixar de gemer, se congregaram ao redor de Ulisses para tomar-lhe as mãos em sinal de agradecimento. Diversamente aos costumes de nosso tempo, a Antigüidade se caracteriza por figuras másculas que soluçam, pranteiam e derramam lágrimas abundantes quase que por qualquer motivo. É a mulher, ao contrário, que domina suas emoções, conserva sua firmeza perante a dor ou, em seu desassossego, pode gritar e se indignar, mas dificilmente se abandona aos extremos sentimentais em que incorrem os homens, sejam eles guerreiros, deuses ou reis. Circe, sem descer de seu pedestal de deusa, quando muito se comove pelo grupo de humanos cuja aflição reforça seu desejo de volver à pátria; mas por condescender e agradá-los, lhes impinge outra amostra de seu poder oferecendo a Ulisses ocultar-lhe o tesouro, os cordames e as provisões em uma caverna até que tenham reparado o barco e estejam em condições de velejar e empreender a viagem.
- Arrastemos primeiro o barco para a terra - disse Ulisses a seus homens que haviam permanecido escondidos no batei. - Levemos depois o tesouro e os cordames para uma gruta próxima daqui; a seguir, preparem-se todos para me acompanhar ao palácio de Circe, onde encontrareis nossos companheiros, que lá estão comendo e bebendo fartamente.
Receoso, Euríloco descreu não de Ulisses, mas dos ardis da feiticeira, pois os tendo enganado uma vez, poderia ela enganá-los duas vezes, só que desta servindo-se da voz de Odisseu e sob o encantamento de apetitosos festins servidos por ninfas. Assim, em vez de segui-lo, como todos os companheiros já se aprestavam a fazer, Euríloco alertou-os a tomarem cuidado com aquele enlevo aparente, pois já eram bastantes os sofrimentos que haviam passado até chegarem a estas praias sem que precisassem acrescentar ainda mais um por esta imprudência.
- Recordem-se - disse-lhes - de todas aquelas loucuras que levaram à morte nossos companheiros quando perdemos o rumo; recordem-se do ciclope, dos ventos furiosos, da destruição das naves... Lembrem-se da pátria distante e das famílias que os esperam. Por muitos que sejam seus males, qualquer morte é odiosa para os pobres humanos... É melhor perseguirmos as vacas do deus Sol e escolhermos as mais saudáveis para fazer sacrifícios aos deuses. Se finalmente conseguirmos atracar em Itaca, nossa terra paterna, a primeira coisa que devemos fazer é erigir novos templos. Prefiro morrer boquiaberto sobre as ondas do que despedaçar minha vida nesta ilha terrível.
Mas Euríloco lhes falou em vão enquanto permanecia na popa, porque os demais empreenderam a marcha atrás de seu líder, ansiosos pelos banhos, pelas túnicas e pelos mantos aveludados com que Circe e suas ninfas os esperavam. E foi assim que começou essa aventura que duraria alguns anos na ilha de Eéia, sem suspeitar de que, se para uns não haveria regresso, para outros aguardavam as maiores dificuldades e talvez até a morte.
Aquela que se pensava a princípio ser apenas uma estada de passagem em sua rota para Ítaca, prolongou-se indefinidamente porque Ulisses finalmente sucumbiu aos encantos de Circe. Não que o houvesse enfeitiçado com qualquer substância arcana, mas a deusa utilizou seus liames de amor a fim de mantê-lo preso a seu leito, enquanto que aos demais, para que não protestassem, recomendava massagens e longos sonos até que se recuperassem do abatimento provocado pela recordação tenaz de tão más jornadas.
Segundo o calendário de Homero, um ano durou a paixão do herói pela deusa; de seus amores, foram frutos os nascimentos de Ágrio, Latino e Telégono, sobre quem pouco evocou a memória poética, já que a história se concentrou em Odisseu e no mito de seus encontros felizes com Circe em meio a banquetes de uma infinidade de carnes e de vinhos deliciosos nessa ilha de Eéia onde, além dos porcos consagrados particularmente à deusa Morte, alimentados com as vagens que cresciam nos arbustos de Cronos, existia um cemitério semeado de salgueiros dedicados a Hécate.
Através da Odisséia veio saber-se que, passado um ano, quando retornou a estação em que os dias fazem-se mais longos, os homens vieram a Ulisses para se queixarem, pois em suas almas sentiam os furores de uma profunda melancolia. Enquanto estiveram reunidos ao cair da tarde, comendo pedaços de carne salgada em torno do líder, o que havia sido escolhido para falar em nome dos demais explicou que haviam decidido que já era tempo de Ulisses voltar de novo sua mente para a pátria, posto que, se era certo o decreto divino de que deveriam se salvar e regressar à própria terra, não deveriam adiar mais sua partida, por mais que estivessem gozando na ilha dos mais acolhedores cuidados.
Ao imaginar a despedida, foi como se um raio trespassasse o coração de Ulisses; sentia saudades da pátria, mas sabia, no mais íntimo de sua alma, que amava a deusa e que, perante um dilema tão extremo, não seria ele quem decidiria, mas o destino que tudo prescreve e, ainda no momento do gozo, nos condena a sofrer, talvez porque não exista recompensa que não custe alguma renúncia. Apesar do aguilhão da dor, nada disse a seus homens sobre o padecer que sofria. Em um grego era raro o silêncio, e mais raro ainda em um herói que sozinho já padecera tanta tristeza, já que tudo se ventilava em corrilhos e a intimidade era algo incomum. Muito deve ter doído a Odisseu prometer-lhes que apelaria à palavra de deusa para pedir a Circe que cumprisse sua promessa de que os ajudaria a empreender a viagem de retorno, mas ele o fez nessa mesma tarde.
Nem essa noite nem a seguinte foram períodos tranqüilos para Odisseu, porque em seu coração crescia a angústia de uma paixão que teria de esquecer se quisesse continuar sua trajetória. Nenhuma notícia recebera de Ítaca durante sua ausência tão prolongada. Talvez suspeitasse que ainda o aguardava Penélope, espantando os pretendentes que o davam por morto; mas a risco de encontrá-la casada de novo e de que seu filho Telêmaco jamais viesse a conhecer o alcance de suas façanhas, já que havia crescido enquanto ele guerreava com os aqueus, o herói oscilava entre permanecer e retornar. A intensidade de seu apego à ilha de Eéia era, no mínimo, igual à da sua incerteza. Secretamente, ele sabia que Afrodite não outorga duas vezes a fortuna amorosa e que, ao lançar-se ao mar, empreenderia a rota inexplorada daqueles que abandonam, um rumo que o marcaria pelo resto da vida. Foi desse modo que, ao subir mais uma vez ao leito lavrado de Circe, abraçou os joelhos da deusa implorando clemência: - Enfim chegou o tempo para que cumpras, ó Circe, tua antiga promessa de ajudar em meu regresso à pátria. Sinto-me impelido pelo desejo de retornar, assim como meus homens, cujas súplicas quebrantam minha alma com seus lamentos infindos cada vez que me deixas a sós com eles.
Sem que renunciasse à sua dignidade de deusa, surgiu em Circe uma tristeza que lhe era desconhecida. Queria conservá-lo junto a si como seu amante e enfeitiçá-lo com seus atributos supremos; mas o traço de humanidade que desvendava dentro de si mesma a seu próprio pesar invalidava sua tentação de recorrer a artimanhas para retê-lo prisioneiro de novos encantamentos. Não conseguia entender o que era capaz de provocar tantas saudades em seu amado por uma Ítaca tão distante, o que pretendia ele recuperar em um leito já frio ou quais rebanhos reclamaria para si depois de ter partido para batalhar há tantos anos, já que as forças ainda não declinavam em seu corpo nem este era sulcado pelas cicatrizes da memória.
- A contragosto não haverei de te manter a meu lado - disselhe a deusa. - Ó Laértida("Filho de Laerte". Era comum entre os gregos designar uma pessoa ou um deus por um adjetivo derivado do nome de seu pai ou outro antepassado), Ulisses astuciosos, verdadeiro descendente dos deuses! Tampouco irás permanecer em minha casa descontente. Tu me humanizaste o coração, ao mesmo tempo que deixaste intacta minha condição superior. Vejo teu futuro e vejo o meu. Vejo a distância e o mar que se estende entre tua pátria e a minha. Vejo a tristeza como uma névoa e, não obstante, serei eu quem guiará teu caminho para impedir que cometas novos erros. Partirás, sei muito bem, mesmo que não te dê um regresso fácil nem livre de provações que os deuses se interponham em teu caminho.
Disse-lhe depois que, ao lançar-se ao mar, o primeiro que deveria fazer era consultar o adivinho Tirésias para que este lhe previsse a sorte, ainda que, para tanto, uma vez que o profeta se encontrava encarcerado na região dos mortos, devesse Ulisses se atrever a descer com seu negro navio ao escuro palácio onde habitavam Hades e a horrenda Perséfone, diante de cujo trono nenhum vivo havia chegado antes.
- O sopro de Bóreas conduzirá teu navio - explicou-lhe - até que tenhas atravessado o oceano e divisado os bosques de choupos e salgueiros inertes. Ali ancorarás teu batei e sozinho, tal como eu te ordeno, te dirigirás ao pé de um penhasco de onde brota uma cachoeira ruidosa, na confluência do rio das Chamas com o rio dos Prantos. Ali abrirás um rego a teu redor e nele derramarás uma libação para todos os mortos, vertendo primeiro uma mistura de leite e mel e depois outra de vinho doce com água; por cima, espalharás farinha de trigo branca e os honrarás longamente. Sacrificarás um carneiro jovem e uma ovelha negra a Perséfone e a Hades, orientando suas cabeças em direção ao Érebo. Deixarás que o sangue escorra inteiramente e penetre no valo que abriste à tua volta e, enquanto aguardas a chegada do cego Tirésias, a quem Perséfone prodigalizou sensatez e razão entre todos os mortos, afugentarás com tua espada a toda e qualquer alma que pretenda segui-lo. Vira teu rosto na direção oposta ao rio e não contemples a turba de homens privados de vida. Então ordena a teus homens que acendam fogo sob as rezes mortas invocando aos deuses e, sobretudo, não permitas aos residentes do Hades que te toquem nem toquem o sangue imolado até que te hajas encontrado com o sábio adivinho.
Ao alvorecer, a própria Circe revestiu Odisseu com uma túnica e um manto novos e, para despedir-se dele, abriu os cofres em que guardava seus ornamentos mais preciosos. Cingiu-lhe a cintura com fios de ouro e cobriu sua cabeça com um velo de lã, para que sua tristeza não perturbasse a algazarra dos que partiam. Nenhum deles, até então, sabia que sua meta era o Hades, a fim de solicitar-se um oráculo à alma de Tirésias. Ao se inteirarem de tão macabra aventura, romperam em prantos e todos se puseram a se retratar em vão.
Arrancavam os cabelos de tanto pesar, clamavam a Odisseu por piedade e rasgavam-se as vestes; mas por mais que gemessem, de nada lhes adiantou: através de Tirésias aguardava a voz do destino, e tudo estava determinado para que fosse aceita sua palavra.
Obrigados por Odisseu, finalmente todos embarcaram, menos o imprudente Elpenor que, embriagado, dormira no telhado de Circe e, ao despertar aturdido, caiu de cabeça no sola.
- Pensar - disse Ulisses - que chegaria Elpenor caminhando ao Tártaro antes que eu com minha nave! O herói prometeu-lhe uma sepultura digna e então se lançou ao mar impulsionado por um vento suave proporcionado pela deusa.
Lá atrás permaneceu Circe, olhando do alto de uma penedia o afastamento de seu amado, sentindo tanta dor na alma quanto em sua humanidade recém-adquirida. Chorava como choram as mulheres abandonadas, uma vez que, sendo maga, estava consciente de que cedo ou tarde, e depois de superar novas dificuldades, Odisseu e seus homens voltariam à pátria e jamais regressariam. Quando suas noites se fizessem tão longas e frias que não existiria Penélope nem quaisquer espaços capazes de fazê-lo sentir-se em casa, ele se daria conta em Ítaca do que havia perdido na ilha de Eéia. Choraria a ausência de Circe com saudade profunda. Vagaria envelhecido gritando por seu nome, suplicando aos deuses por outra oportunidade, até que se recolhesse a seu leito e, finalmente, encetasse sua última viagem. Para Circe, ao contrário, nem a morte lhe era permitida, pois as deusas não morrem, as deusas não descem ao Tártaro. Vagaria em círculos com seus fios dourados e, durante as tardes, teceria novos mantos em seu tear. Ao despontar da aurora, percorreria os caminhos de areia contemplando as águas que não lhe haviam deixado mais que a sombra de seu amado Ulisses e, algumas vezes, no decorrer dos séculos, se transmutaria em outra divindade menos sensível aos delírios humanos.

 (Martha Robles - Mulheres, Mitos e Deusas, o feminino através dos tempos)

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