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CIBELE E ÁTIS

por Thynus, em 06.03.14

Os perigos da possessividade 

 

Esta é uma visão violenta e crua da paixão ciumenta levada ao exagero. A história é antiga: na região central da Turquia, o culto a Cibele remonta a pelo menos seis mil anos atrás. Mas o tema também é extremamente atual, pois fala das consequências trágicas do amor possessivo. Embora nesse mito a amante ciumenta seja também a mãe, muitos relacionamentos adultos implicam sentimentos inconscientes de dependência infantil e possessividade parental. E podemos levar para a vida adulta conflitos não resolvidos na relação com os pais, e pôr em prática os temas apresentados nesse mito — de maneiras mais sutis, porém psicologicamente semelhantes.

 

 

A grande deusa anatólia da terra, Cibele, criadora de todos os reinos da natureza, teve um filho a quem chamou Átis. Desde o momento em que ele nasceu, a deusa ficou extasiada com sua beleza e graça, e não havia nada que não fizesse para deixá-lo feliz. À medida que ele foi crescendo, o amor de Cibele aprofundou-se em todos os níveis e, quando Átis chegou à idade adulta, ela tomou posse também dessa virilidade e se tornou sua amante. Além disso, fez dele sacerdote de seu culto e o prendeu a um juramento de fidelidade absoluta. E assim viviam os dois, fechados num mundo paradisíaco, onde nada podia macular a perfeição desse laço.
Mas era impossível manter Átis afastado do mundo para sempre, e um de seus maiores prazeres era perambular pelos montes. Um dia, quando descansava sob a copa de um enorme pinheiro, Átis ergueu os olhos e avistou uma bela ninfa; imediatamente, apaixonou-se e deitou-se com ela. Porém, não se podia esconder nada de Cibele, e quando ela soube que seu filho-amante fora infiel, teve um terrível acesso de ciúmes. Fez Átis entrar num transe delirante e, em sua loucura, ele se castrou, para garantir que nunca mais tornasse a quebrar seu juramento de fidelidade. Ao se recobrar do delírio, estava mortalmente ferido, e sangrou até a morte nos braços de Cibele, sob o mesmo pinheiro em cuja sombra se havia deitado com sua ninfa. Entretanto, como Átis era um deus, sua morte não foi definitiva: a cada primavera o jovem renasce para sua mãe e passa com ela o tempo rico e fecundo do verão; e a cada inverno, quando o Sol chega a seu ponto mais distante, ele torna a morrer, e a deusa da terra chora até que finalmente chegue a primavera seguinte.

COMENTÁRIO: O incesto entre Cibele e Átis não precisa ser interpretado literalmente. O laço intenso entre mãe e filho constrói-se a partir de muitos sentimentos — sensuais, afetivos e espirituais —, e não é incomum nem patológico a mãe olhar seu bebê recém-nascido e considerá-lo belo. Tampouco é incomum ou patológico que o laço entre mãe e filho tenha repercussões mais tarde, quando o rapaz ou a moça buscam nos braços da pessoa amada certas qualidades e respostas afetivas semelhantes às experimentadas no começo da vida. A maioria dos relacionamentos amorosos tem componentes de proteção e dependência; a questão, no final das contas, é se também há espaço na relação para a igualdade e a distinção entre os parceiros. A tragédia desse mito está no desejo de Cibele de deter a posse absoluta do amado. Embora isso também não seja incomum, tanto nos relacionamentos adultos quanto na relação mãefilho, as consequências psicológicas podem ser profundamente destrutivas, quando a possessividade não é reconhecida e refreada.
Cibele não permite que Átis seja um parceiro em igualdade de condições. Quer prendê-lo unicamente a si, como alguém profundamente dependente e incapaz de ter vida própria longe dela. Podemos ver ecos desse padrão em todo relacionamento em que um dos parceiros — homem ou mulher — ressente-se dos amigos e interesses independentes do outro. Pode haver ciúme da dedicação do parceiro ao trabalho ou a atividades criativas, e pode até haver ressentimento quando o parceiro se recolhe a seus próprios pensamentos. Isso não é relacionamento, mas posse. Tal possessividade absoluta provém, invariavelmente, da profunda insegurança que faz o indivíduo se sentir ameaçado por qualquer sinal de separação nesse vínculo. E essa insegurança profunda pode evocar sentimentos intensamente destrutivos — especialmente quando a pessoa insegura, como Cibele, não tem mais nada na vida além do amado.
A vingança de Cibele pela infidelidade de Átis — infidelidade que é, em essência, uma tentativa dele de criar uma identidade masculina independente — consiste em levá-lo à autocastração. Essa é uma imagem assustadora e brutal, que, felizmente, costuma se restringir ao mundo dos mitos. Mas há níveis mais sutis de autocastração que podem ocorrer na vida cotidiana. Quando alguém procura minar a independência do parceiro pela chantagem emocional, esse homem ou mulher tenta, na verdade, castrar a potência do parceiro na vida; e quando o parceiro compactua com isso, por medo de perder o relacionamento, a autocastração de Átis concretiza-se no plano psicológico.
A loucura de Átis pode ser vislumbrada na confusão afetiva que a manipulação psicológica é capaz de criar, ao ser imposta a qualquer indivíduo que não tenha consciência ou maturidade afetiva suficientes para perceber o que está acontecendo. Impor sentimentos de culpa, criticar, negar-se ao outro em termos afetivos e sexuais, num jogo de poder, e isolar o parceiro, mediante uma interferência sutil em suas amizades e interesses externos: tudo isso são métodos pelos quais as Cibeles de hoje, homens ou mulheres, levam seus parceiros a um estado de insegurança e dúvida a seu próprio respeito.
Paixão intensa e insegurança são uma mistura nociva, pois dela brota o tipo de amor possessivo que é claramente ilustrado por esse mito sombrio. Talvez a insegurança tenha que existir dos dois lados, pois, de outro modo, Átis se libertaria e buscaria uma vida nova. Cibele tem o poder de enlouquecê-lo porque o rapaz tem uma necessidade absoluta dela; Átis ainda é um bebê no plano psicológico, não suportando separar-se da mãe. A dependência que sente é a de um filho em relação aos pais. Quando levamos esses sentimentos intensos de dependência para as relações adultas, estamos abrindo as portas para enormes sofrimentos. A menos que saibamos lidar com a separação, não conseguimos resistir às tentativas de manipulação e aprisionamento de outra pessoa, nem conseguimos nos abster de manipular e aprisionar os outros, para mantê-los junto de nós. Presos nessa rede, não conseguimos viver plenamente a vida e temos de abrir mão do poder de moldar nosso destino, por medo de ficarmos sós. Nem Cibele nem Átis suportam o desafio humano fundamental da existência afetiva independente. Por isso, não podem se tornar amantes que realmente respeitam e valorizam a alteridade do outro; condenam-se a um estado psicológico de fusão, que resulta numa repetição cíclica de traição, mágoa, confusão e autodestrutividade. Esse mito nos ensina que não é apenas a paixão que desencadeia a tragédia, mas a mistura doentia de paixão e incapacidade de existir como um ser humano separado. 

(Liz Greene, Juliet Sharman-Burke - Uma Viagem através dos Mitos)

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publicado às 17:06



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