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CHRISTA

por Thynus, em 31.01.16
Contrariamente ao que pensam alguns renovadores da Igreja católica, temerosos desta não se saber moldar aos novos tempos e por isso apressar o seu desaparecimento, jamais esta Igreja aceitará as palavras de Jesus (de Kazantzakis) para a sua amante, Maria Madalena: "Eu não sabia, minha bem-amada, que o mundo era tão belo e a carne tão santa... Eu não sabia que a alegria do corpo não era pecado."

 
Existe na Grécia uma montanha que jamais foi pisada por mulher, desde que foi consagrada à Virgem, há mais de mil anos. É o monte Athos, a Montanha Sagrada. Não só mulheres estão proibidas de pisar o solo sagrado, como toda e qualquer fêmea, seja cabra, ovelha ou galinha. No cais do porto pelo qual se chega à montanha, monges com olhos treinados vigiam para que nenhuma mulher vestida de homem profane o monte Athos.
Em sua autobiografia, Testamento para El Greco, Nikos Kazantzakis conta sua visita a esta montanha só pisada por homens. O amigo que acompanhava Kazantzakis quis saber como os monges distinguiam as mulheres dos homens.
 — Pelo cheiro, respondeu um jovem monge. E pediu ao rapaz que se dirigisse a um monge mais velho, que já fora sentinela no cais.
— As mulheres têm outro cheiro, Santo Padre? Que cheiro têm?
— Como gambás, fedorentas, respondeu o velho.
Nas culturas de inspiração cristã, tem sido mais ou menos esse o conceito da mulher ao longo de uma História feita por homens. Cristo perdoou a adúltera, confraternizou com Madalena. Mas seus seguidores sempre associaram a mulher à imundície, pecado, demônio. Sprenger e Kramer, teólogos dominicanos encarregados da Inquisição na Alemanha, no livro significativamente intitulado O Malho das Feiticeiras, afirmam: “Uma mulher é um ser bonito de se contemplar; é contaminadora ao toque; e conservá-la é ato mortal. A mulher é inimiga da amizade, um mal necessário, uma tentação natural, um perigo doméstico, um mal da Natureza. Não há fúria maior que a fúria de uma mulher. Visto que são mais fracas, tanto no espírito como no corpo, não surpreende que acabem se colocando no âmbito da feitiçaria”.
Os dois teólogos não poupam o malho. Continuam afirmando que a mulher é mais carnal que o homem, e toda a feitiçaria procede dos impulsos carnais, impulsos que, nas mulheres, são insaciáveis. E se os poderosos se entregavam à orgia com mulheres, a culpa era destas. Pois as mulheres satisfaziam “sua imunda luxúria não apenas em si mesmas, mas também na pessoa dos poderosos de sua época, sejam eles de que condição forem, provocando, por meio de toda a espécie de feitiçaria, a morte das respectivas almas através da excessiva intensidade do amor carnal”.
Diz Ney Messias, em uma de suas crônicas, que o feitiço é essencialmente um dom da mulher. E que estamos entrando em uma nova era de encantamento e demonismo, pois as religiões de Brahman, Buda, Confúcio e Cristo estão sendo atacadas por um estranho vírus. “A civilização do homem, as instituições do princípio masculino e a dominância de valores alquímicos vão sendo marginalizadas. O macho recua em todas as frentes, com suas ideias lógicas, com suas deduções e inferências. O silogismo entra em agonia. De novo as feiticeiras, as antigas sacerdotisas dos templos pagãos, vão ter a palavra”.
Edwira Sandys, neta de Winston Churchill, certamente não leu Ney Messias, provavelmente conhece Kazantzakis, conhecerá ou não O Malho das Feiticeiras. Mas deve ter sentido na carne que os homens têm crucificado a mulher ao longo da História. Pois Edwira está expondo, em uma galeria em Nova Iorque, uma escultura em bronze de um Cristo na cruz, encarnado nas formas ondulantes de uma mulher.
— Eu quis apenas traduzir o sofrimento das mulheres, afirma Sandys. A escultura foi batizada com o nome de Christa.

(Janer Cristaldo -  A Força dos MItos)

A boceta de Pandora
 

LINKS:
 A CAÇA ÀS BRUXAS (INQUISIÇÃO)
 A caça às bruxas
 De como as Bruxas, por assim dizer, privam um homem de seu membro viril.
 A FEITICEIRA DE ÉVORA — PODEROSA BRUXA
 XAMANISMO – WICCA
 Inquisição - As acusações
 Igreja "casta e putana"
 O Culto à Virgem Maria e a Cultura de Submissão da Mulher
 Misoginia na Igreja romana
A sexualidade é uma espécie de patologia do cristianismo e da Igreja
O RISCO DA INVISIBILIDADE
O mito grego da criação do homem

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publicado às 15:37



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