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Cárceres psíquicos

por Thynus, em 14.02.15
Uma pessoa inteligente não deve tentar arrombar o cérebro dos outros, sejam eles filhos, alunos, cônjuge ou outras pessoas. Além de ser uma violação, isso não funciona. A estratégia fenomenal é primeiro abrir as janelas light e depois tratar das killer. Primeiro conquistar o território da emoção e depois o da razão. Enfim, primeiro valorizar a pessoa que erra para depois tocar em seu erro, falha, incoerência, “loucura”.
(AUGUSTO CURY)
 
 
Você nunca ficou impressionado ao constatar que os seres humanos, apesar de saberem que são mortais e detestarem a morte, sempre a abraçaram, sempre fizeram guerras? Para um mortal, nada é tão estúpido quanto as guerras, mas a nossa espécie sempre flertou com elas, seja por motivos religiosos, políticos, territoriais ou para conquistar recursos naturais. Todavia, nenhum desses motivos explica completamente essa tendência se não entendermos que o acesso à liberdade e à memória pode ser truncado, bloqueado e encarcerado pela síndrome CIFE-K (síndrome do circuito fechado da memória Killer), que também pode ser chamada de CIFE-T ou tensional.
O infra-consciente não pode ser encerrado no cárcere
 
Pessoas que têm ataques de pânico, sofrimento por antecipação, culpa, ideias obsessivas, timidez, fobias são exemplos claros de que o direito de ser livre tem de ser uma conquista diária. Reafirmo que não nascemos livres. Conquistamos nossa liberdade por meio do processo educacional, ainda que não formal, capaz de nos equipar para gerenciarmos a nossa mente e sermos autônomos e autodeterminantes.  A quase totalidade das pessoas das sociedades modernas pensa equivocadamente que é livre, mas não é. Psiquiatras, psicólogos, juristas, filósofos, religiosos, executivos sonham com a liberdade, mas poucos a conhecem, principalmente nos focos de tensão. Alguns ficam irreconhecíveis quando entram em janelas traumáticas, perdendo completamente a serenidade. Milhões de pessoas são encarceradas por raiva, complexo de inferioridade, ciúmes, inveja, autopunição, pensamentos perturbadores, necessidade neurótica de poder, de estar sempre certo, de ser reconhecido.
Uma pessoa que tem fobia social, medo de falar em público, tem em tese liberdade de expressar seus pensamentos. Mas bem antes de iniciar uma conferência ou no instante da sua fala, detonam os fenômenos inconscientes. O gatilho abre na pessoa uma janela traumática killer que contém medo de falhar, não fluir o pensamento, não agradar, ser criticada. Essa janela produz um volume de tensão ou ansiedade que gera um terremoto no processo de leitura da memória. Esse é o primeiro ato da construção de pensamentos. O volume de tensão bloqueia ou “assassina” o acesso do Eu a milhares de outras janelas com milhões de dados, na síndrome CIFE-K.
Tive o privilégio de descobrir essa síndrome, mas nem por isso deixei de ser vitima dela. Quando o circuito da memória se fecha, não encontramos informações para dar respostas inteligentes nas situações estressantes. A partir desse momento a racionalidade humana se compromete e abre-se o caminho para produzir de guerras a discriminação, de homicídios a suicídio, do sentimento de culpa à autopunição, do medo de um inseto ao medo de falar em público, de uma reação de intolerância à intimidação. Tudo vai depender da maturidade do Eu, do grau de gerenciamento do estresse, da quantidade e qualidade das janelas fechadas.
No caso de quem tem fobia social, a síndrome CIFE-K, por ser acionada quando entramos numa janela traumática ou killer (assassina), fecha o acesso aos dados da memória, asfixia a capacidade de pensar do Homo sapiens e exacerba os mecanismos instintivos que produzem sintomas psicossomáticos (taquicardia, aumento de frequência respiratória, rubor, suor) para a pessoa fugir do estímulo estressante ou lutar contra ele. Somente segundos depois de iniciado o primeiro ato do teatro psíquico é que o Eu entra ou deveria entrar em cena para organizar o caos emocional e o fechamento do circuito da memória gerados pela janela killer.
Se for feliz em gerenciar sua mente, poderá encontrar seu ponto de equilíbrio e fluirá o pensamento com inteligência. Caso contrário, ele será vítima do terremoto gerado pela fobia social, bloqueará seu raciocínio, comprometerá sua eloquência.
Mas em que escola sua universidade ou alunos são ensinados a gerenciar sua mente nos focos de tensão? Onde eles aprendem a desenvolver um Eu consciente de seus papéis, capaz de conquistar sua liberdade diariamente? Desenvolvemos nossa personalidade em meio a múltiplas armadilhas que fecham o circuito da memória. Aprendemos da pré-escola à universidade a resolver inúmeros problemas matemáticos, mas não aprendemos a resolver as equações existenciais. Que escola é essa que não ensina a inteligência socioemocional? Estamos preparando, em nossas universidades, lideres maduros ou meninos que não sabem ser contrariados, desfiados, incapazes de atravessar os vales das perdas? Temos de nos questionar. Para onde caminha a educação será para onde caminha a humanidade. Todos os casais deveriam saber que quando se casam ou se ajuntam não levam apenas as flores para a relação, mas também uma série de emboscadas mentais. Se não aprenderem a abrir o circuito da memória nos focos de tensão poderão ferir drasticamente quem amam. Mas onde estão os casais que conhecem os fantasmas da sua mente? Onde aprendem a desarmar as suas emboscadas e a do parceiro ou parceira que sabotam sua felicidade?
 
Nos 30 segundos de tensão cometemos os maiores erros
Com que frequência vivemos a síndrome CIFE-K e fechamos o circuito da memória? Todos os dias. Se não aprender a se educar, equipar, treinar, a abrir esse circuito, a dar um choque de lucidez na desordem psíquica, a relação entre casais, entre pais e filhos, professores e alunos, colegas de trabalho poderá ser um tormento. Sinceramente, estamos completamente despreparados para construir relações saudáveis conhecemos presídios, mas não as masmorras mentais.
Nos primeiros 30 segundos de tensão, sob a égide de críticas, ofensas, contrariedades, dispara-se o gatilho e abre-se uma janela traumática. Se essa janela tiver um alto volume de ansiedade, o circuito da memória se fechará, levando-nos a reagir como animais, com algumas doses de irracionalidade. A síndrome CIFE-K, por fechar o circuito da memória, leva o Homo sapiens a reagir orientado pelo insano fenômeno da ação-reação, do bateu-levou. Palavras que jamais deveríamos dizer a quem amamos são ditas nesses cálidos momentos. Qual é a sua atitude quando alguém o decepciona? O seu Eu é gerente do seu estresse?
Os casais se ferem e esfacelam seus romances não quando atravessam um mar calmo, mas quando estão nos focos de tensão. Muitos casais extremamente grudentos em momentos calmos se atarracam quando contrariados. Não sabem minimamente fazer a oração dos sábios, o silêncio proativo, quando se calam por fora e gritam por dentro contra sua irritabilidade, explosão, intolerância. Atitudes, reações, pressões, ameaças que nunca deveriam ser produzidas são construídas quando o circuito da memória se fecha. Nosso Eu se torna refém frequentemente dessa síndrome.
Reitero: somos livres?
Se a famosíssima palavra “liberdade”, que permeia todos os povos e culturas, se materializasse plenamente no psiquismo humano a maioria das pessoas não teria timidez, como mostram as estatísticas. Do mesmo modo, 1 bilhão e 400 milhões de pessoas (20% da população) não atravessaria os vales sórdidos de uma depressão se tivéssemos a plena liberdade de administrar a emoção. Acordaríamos cantarolando e não daríamos bulhufas para as frustrações da vida.

  (AUGUSTO CURY - AS REGRAS DE OURO DOS CASAIS SAUDÁVEIS)
 

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publicado às 03:40



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