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Filosofia, Ética e Sociedade

Até hoje existem três “ismos” importantes que integram a maior parte dos sistemas de crenças da maioria dos seres humanos: o dualismo, o monismo material e o monismo idealista.

O mais popular, dualismo, é também o mais antigo. O dualismo é empiricamente “óbvio” em nossa própria experiência, pois tem uma dicotomia interna/externa. Sem dúvida, esta é a razão para sua popularidade. No pensamento religioso, o dualismo existe como um dualismo Deus-mundo: Deus separado do mundo, porém exercendo influências (causação descendente) sobre ele. Esse dualismo dominou a humanidade por milênios, especialmente no Ocidente. No entanto, no século XVI, Descartes formulou uma versão “moderna” do dualismo mente-corpo, sendo a mente o território de Deus, no qual temos livre-arbítrio, e o corpo (ou mundo físico) o território da ciência determinista. Este dualismo cartesiano – uma trégua entre a ciência e a religião – foi bastante influente no pensamento filosófico acadêmico do Ocidente. Ele também definiu a recente era da filosofia ocidental: a modernidade.

Antes desse período, a sociedade ocidental esteve sob o silêncio da idade das trevas, quando a religião (na forma do cristianismo) dominou a sociedade sem qualquer percalço. A modernidade livrou os cientistas das garras da religião. Então, eles saíram para descobrir o significado do mundo material – as leis da natureza – com o objetivo de obter o poder e o controle sobre elas. E o fizeram com tamanha disposição, com tecnologias de virtuosismo inquestionável, que seu espírito invadiu por completo a sociedade ocidental. Em pouco tempo, a hierarquia religiosa e o feudalismo deram lugar à democracia e ao capitalismo, os eventos que coroaram a sociedade moderna.

Pouco depois, em virtude do sucesso da ciência, as pessoas começaram a questionar a necessidade da trégua entre a ciência e a religião. Na verdade, o dualismo não resiste muito a questões óbvias como, por exemplo: de que modo interagem dois corpos, feitos de duas substâncias completamente diferentes? Como Deus, de substância divina, interage com o mundo material? Como uma mente não material interage com o corpo material?

Essa interação é impossível, se dermos espaço apenas para interações locais mediadas por sinais portadores de energia que viajam pelo espaço e pelo tempo, de um corpo para outro. Uma interação entre o material e o não material seria uma violação da sacrossanta lei de conservação de energia da física. Além disso, há uma pergunta incômoda sobre os meios pelos quais essa interação poderia ocorrer, qual seja: do que é feito o sinal do mediador? Parece que precisamos de um mediador feito das duas substâncias, mas não existe nenhum!

Assim, surgiu o monismo material como alternativa ao dualismo. No monismo material, as dificuldades do dualismo são contornadas simplesmente afirmando-se que não são duas substâncias, e sim apenas uma matéria. A consciência, Deus, nossas mentes e todas as nossas experiências internas são o resultado das interações cerebrais. Estas, em última análise, chegam até as interações das partículas elementares (causação ascendente).

Esta filosofia ganhou muita credibilidade recentemente, não apenas por sua simplicidade, como também porque conglomerados de partículas elementares, como os núcleos atômicos, foram confirmados algumas vezes de maneira espetacular (detonações nucleares).

Mas o sucesso do monismo material também amorteceu o espírito modernista do Ocidente e estabeleceu-se um mal-estar pós-moderno. Afinal, se o materialismo for verdadeiro, não podemos conquistar e controlar a natureza como pensávamos que poderíamos na época do modernismo. Na verdade, nós, humanos, como o resto da natureza, somos máquinas determinadas. Não temos livre-arbítrio, a liberdade de buscar o significado quando achamos necessário. Não há significado no universo-máquina. Nessas circunstâncias, o melhor que podemos fazer é acatar a filosofia do existencialismo: nossas vidas não têm significado – cada um de nós, como indivíduos, cria o significado (essência) em sua vida. Afinal, de algum modo nós existimos. Como não podemos negar nossa existência, podemos jogar o jogo da maneira que parece ser esperado de nós. Fingimos que existe um significado, fingimos que existe o amor em um universo que, no mais, é destituído de sentido e de amor.

Esta saída pessimista e existencialista ao niilismo – com efeito, o filósofo Friedrich Nietzsche colocou de maneira perfeita a mensagem, “Deus está morto” – não durou muito. Alguns cientistas reagiram com o holismo, uma nova ideia originada por um político da África do Sul, Jan Smuts, em seu livro Holismo e evolução, de 1926. Originalmente, foi definida como “a tendência da natureza em formar um todo que é maior do que a soma das partes por meio da evolução criativa”. Muitos cientistas se recusavam a abrir completamente mão de Deus e da religião; e, no holismo, viram uma oportunidade para resgatar Deus, de alguma forma.

De determinado modo, em um pensamento primitivo e animista, Deus existe como um Deus imanente, um Deus da natureza. A ideia é que a própria natureza é animada por Deus. Não é preciso procurar Deus fora deste mundo: Deus está aqui. Usando a linguagem holística, isso pode ser transformado em uma filosofia atraente. O todo não pode ser reduzido às suas partes. Partículas elementares formam átomos; mas átomos são um todo, e, assim, não podem ser reduzidos completamente às partes, as partículas elementares. Algo similar acontece quando os átomos formam moléculas; algo novo emerge no todo que não pode ser reduzido ao nível atômico de existência. Quando as moléculas constituem a célula viva, o novo princípio holístico que emerge pode ser identificado como a vida (Maturana & Varella, 1992; Capra, 1996). Quando as células chamadas neurônios formam o cérebro, o novo princípio holístico emergente pode ser identificado como mente. E a totalidade de toda vida e de toda mente, a totalidade da própria natureza, pode ser entendida como Deus. Algumas pessoas a vêem como Gaia, a mãe-terra, conceito idealizado pelo químico James Lovelock (1982) e pela bióloga Lynn Margulis (1993).

Ao mesmo tempo, esse pensamento holístico deu origem ao movimento ecológico – a atenção à preservação da natureza e à filosofia da ecologia profunda (Devall & Sessions, 1985), a transformação espiritual por meio do amor e da apreciação da própria natureza.

No entanto, os cientistas materialistas fazem uma afirmativa válida: a de que a matéria é fundamentalmente reducionista como milhares de experimentos mostram, e que, por isso, o holismo é uma fantasia filosófica.

Contudo, há, desde a antiguidade, mais uma alternativa ao dualismo além do monismo materialista: o monismo idealista. É interessante observar que no pensamento grego (a maior influência sobre a civilização ocidental), o idealismo monista (apresentado por filósofos como Parmênides, Sócrates e Platão) e o monismo material (formulado por Demócrito) possuem quase a mesma idade. O dualismo encontra problemas porque não pode responder à pergunta sobre sinais de mediação, necessários para que os corpos duplos interajam entre si. Suponha que não exista sinal, suponha que a interação é não local. E agora? A imaginação humana e a intuição chegaram a elevadas alturas desde cedo, e formularam o idealismo não dualista ou monista (também chamado filosofia perene). Deus interage com o mundo porque Deus não está dissociado do mundo. Deus é, ao mesmo tempo, transcendente e imanente no mundo.

Para o dualismo mente-corpo, podemos pensar idealmente desta maneira. Nossa experiência interior, a morada da mente, consiste de um sujeito (o experimentador) e objetos mentais internos, como os pensamentos. O sujeito não apenas experimenta os objetos internos, como também os objetos externos do mundo material. Suponha que afirmamos que existe apenas uma entidade e que a chamamos consciência, que, por sua vez, se divide de alguma maneira misteriosa no sujeito e nos objetos de nossa experiência. A consciência transcende tanto objetos materiais como mentais e também é imanente a eles. Deste modo, as linguagens religiosa e filosófica tornam-se idênticas, exceto por pequenos detalhes linguísticos.

Esta filosofia do idealismo monista nunca foi popular porque é difícil compreender a transcendência sem entender o conceito de não localidade, um conceito quântico. Ainda mais obscuras são as sutilezas da filosofia, como na frase “tudo está em Deus, mas Deus não está em todas as coisas”. O sentido da frase é que Deus nunca pode ser completamente imanente, que sempre há um aspecto transcendente de Deus, ou seja: o infinito nunca pode ser plenamente representado pela finitude! Mas tente explicar isso para uma pessoa mediana!

Entretanto, o idealismo monista foi muito influente no Oriente, em especial na Índia, Tibete, China e Japão, na forma de religiões como o hinduísmo, o budismo e o taoísmo. Estas religiões, não sendo hierarquias organizadas, sempre responderam às mensagens dos místicos que, de tempos em tempos, reafirmaram a validade da filosofia com base em sua própria experiência transcendente.

Os místicos também existiram no Ocidente. Jesus foi um grande místico. Além dele, o cristianismo ocidental teve outros grandes místicos que propuseram o idealismo monista, como, por exemplo, Mestre Eckhart, São Francisco de Assis, Santa Teresa de Ávila, Santa Catarina de Gênova etc. Entretanto, a natureza organizada do cristianismo abafou as vozes dos místicos (e, de modo irônico, inclusive a voz de Jesus) e o dualismo predominou no pensamento oficial do reino cristão.

Como você identifica um místico? Místicos são essas pessoas que deram um salto quântico desde seu ego-mente para descobrir diretamente que existem a percepção e a beatitude além do ego, valores muito maiores em potencial do que costumamos experimentar. Contudo, a chegada mística a uma realidade “mais real” não produz nenhuma transformação comportamental imediata (principalmente no domínio das emoções básicas). Portanto, em termos comportamentais, a maioria dos místicos não costuma impressionar mais do que as pessoas comuns. Precisamos aceitar a palavra dos místicos por suas “verdades” e, através dos tempos, cientistas e líderes sociais têm relutado em fazê-lo!

Além disso, há um sério obstáculo às formulações filosóficas tradicionais do idealismo monista. Tudo é Deus ou consciência, e sendo assim, quão real é a matéria, qual sua importância? Neste ponto, a maioria dos filósofos idealistas assume a postura de que o mundo material é irrelevante, ilusório, apenas algo a ser tolerado e transcendido. É verdade que alguns filósofos idealistas enfatizaram a importância do material, alegando que apenas na forma material é possível esgotar o karma, o que a alma deve fazer para se libertar da necessidade de reencarnar sempre na forma física no mundo material. De modo geral, porém, sempre houve uma assimetria na visão dos idealistas no que concerne à consciência e à matéria. A consciência é a realidade de verdade, e a matéria é um epifenômeno, quase trivial. Isso é parecido com o inverso da crença materialista, que diz que consciência, mente e todas as coisas internas de nossa experiência são banais, sem eficácia causal (uma relação entre uma ou mais propriedades de uma coisa e um efeito dessa coisa). Mas, para um estudo completo, integral da consciência, devemos ultrapassar essas atitudes.

Domínios externo e interno da consciência, objetividades forte e fraca

Obviamente, os estudos materialistas da consciência, da neurofisiologia, da ciência cognitiva etc., estão limitados pelo sistema de crenças dos pesquisadores, mas ninguém pode duvidar de que os dados que eles reuniram são úteis. E as teorias materialistas, embora incompletas, também são úteis. De modo similar, os dados e teorias, reunidos por místicos e pesquisadores da meditação por meio da introspecção do interior, que levaram a muitos relatos de estados superiores de consciência (além dos estados comuns), também devem ser considerados significativos e úteis.

Perceba que aquilo que a ciência materialista estuda é o aspecto da consciência na terceira pessoa (efeitos comportamentais), para o qual é fácil se chegar a um consenso. Os dados satisfazem o critério severo da objetividade forte – são bastante independentes do observador. Em contraste, os místicos e os pesquisadores da meditação estudam o aspecto da consciência na primeira pessoa (experiências sentidas). Precisamos verificar que os dados que estes pesquisadores nos apresentam têm semelhanças, e, portanto, levam a um consenso sobre os estados superiores da consciência. Mas precisamos afrouxar o critério de julgar os dados sob uma objetividade forte (independência do observador: não se aceitam dados subjetivos) e começar a utilizar uma objetividade fraca (invariabilidade em função do observador: os dados devem ser similares de um observador/sujeito para outro). Lembre-se de que, normalmente, em experiências em laboratório de psicologia cognitiva, já aceitamos a objetividade fraca como critério para dados sobre estados normais da consciência. Veja ainda que, como disse o físico Bernard D’Espagnat (1983), há muito tempo a natureza probabilística da física quântica é consistente apenas com a objetividade fraca.

A isso, podemos acrescentar mais um quadrante: a experiência intersubjetiva – dados pouco estudados sobre aspectos de relacionamentos experimentados interiormente. E, para fazer com que isso seja simétrico, podemos acrescentar um quarto quadrante, consistente em dados objetivos sobre agrupamentos de pessoas, como em uma comunidade, por exemplo. Deste modo, obtemos o modelo de quatro quadrantes (ver Figura 3.1), graças, em boa parte, ao filósofo Ken Wilber (2000).
 

Figura 3.1 Os quatro quadrantes da consciência segundo Wilber.

Entretanto, na verdade, este golpe fenomenológico pode se parecer com uma abordagem integrada, mas é apenas seu começo. Há dicotomias em cada quadrante; além disso, ainda não se chegou a nenhuma interação real de todos os quadrantes. A posição do filósofo é elitista: não podemos integrar usando a lógica ou a ciência. Para ver a integração, precisamos atingir estados superiores de consciência.

Será possível superar o preconceito do filósofo, segundo o qual a ciência somente se aplica no nível material da realidade e a razão nunca pode se estender aos níveis superiores de consciência? Creio que este preconceito tem sua origem na crença do filósofo em um dualismo oculto de consciência e matéria, realidade interior e realidade exterior. O filósofo procura evitar o problema do interacionismo (como a consciência e a matéria interagem?) afirmando que a ciência se aplica apenas ao exterior (matéria), e não ao interior (consciência), de modo que não precisamos nos incomodar com a interação de ambos.

Quando o verdadeiro significado da física quântica é compreendido, fica claro que a consciência não pode ser um mero fenômeno cerebral. Além disso, não há necessidade de tratar a mente e os outros objetos internos como epifenômenos do cérebro ou do corpo. Em vez disso, a física quântica e todas as ciências devem se basear na filosofia do idealismo monista: a consciência é a base de toda existência, na qual a matéria, a mente e outros objetos internos existem como possibilidades. Mas tampouco há motivo para destratar a matéria. Esta, em sua capacidade de representar estados mentais sutis, é tão importante quanto o sutil (não material) que reflete. Em outras palavras, o pensamento quântico nos permite tratar a mente e a matéria, as experiências internas e externas, de igual para igual, estendendo importância e eficácia causal às duas.

Deste modo, filosófica e cientificamente (com teoria e evidências), resolvemos o problema metafísico de qual “ismo” está correto e válido – o idealismo monista. Contudo, o pensamento materialista criou uma ferida na psique coletiva da humanidade que, sem atenção ou cura, vem piorando. Nossa tarefa primária consiste em ajudar a curar essa ferida, compartilhando as mensagens filosófica e científica que estão emergindo em toda a humanidade.

Como modernos, sabemos da veracidade da mente e daquilo que ela processa: significado. Este conhecimento levou a uma participação muito mais expansiva nas aventuras da exploração de significados. Quando a modernidade deu lugar à moléstia pós-moderna do materialismo sem significado, nossas instituições e seu legado progressivo de democracia, capitalismo e educação liberal ficaram abalados. Suas bases estão sendo minadas para se criar um novo tipo de hierarquia, estabelecendo novos limites à liberdade, nem um pouco melhores do que aqueles antes lançados pela Igreja e pela dominação feudal. Desta vez, porém, a restrição está na ciência materialista e no cientismo.

O idealismo monista pode levar a um novo tipo de modernismo que chamo transmodernismo, acompanhando o filósofo Willis Harman. O modernismo dualista de Descartes baseou-se no lema “Penso, logo existo”. Em outras palavras, se existe um pensamento, deve existir um pensador. Isto libertou a mente pensante para novas explorações, mas especialmente de invenções que visavam à solução de problemas. Invenções exigem criatividade, mas apenas uma versão limitada dela, que chamo criatividade situacional, idealizada para solucionar um problema dentro de um contexto conhecido de pensamentos. A criatividade situacional é importante, mas em termos práticos significa mais daquilo que já existe: é “pensar dentro da caixa”. O transmodernismo se baseia no lema “Escolho, logo existo”. Ele libera o verdadeiro potencial da mente criativa, não apenas da criatividade situacional, como também daquilo que chamo criatividade fundamental: a capacidade de mudar os próprios contextos, nos quais o pensamento se baseia, e de escolher novos contextos.

Sob o modernismo, não recebemos apenas os benefícios da democracia e do capitalismo, mas também os males do modernismo: o pensamento que situa o homem acima da natureza, a dominação do pensamento sobre o sentimento, que chamo mentalização do sentimento. Sim, criamos indústrias e tecnologias úteis, mas também criamos problemas ambientais que não sabemos resolver.

Precisamos resgatar o espírito modernista e a ênfase sobre a exploração mental, mas sem o lado sombrio de atitudes como homem-sobre-a-natureza ou razão-sobre-sentimento; sem a dependência quase total de hierarquias simples e o isolamento do ego do indivíduo solitário. A nova era do transmodernismo começa com um salto quântico em nossa atitude – do homem sobre a natureza para o homem na natureza, da razão sobre sentimento para a razão integrada ao sentimento, de hierarquias simples para hierarquias entrelaçadas, de separação egóica para ações integradas de ego e consciência quântica/Deus. Apenas assim, estaremos realmente no caminho para o surgimento de uma nova era de vida ética.

Velha e nova ciências: mudança de paradigma

Apresentei o conceito de mudança de paradigma na ciência no Capítulo 1. A antiga ciência se baseia na supremacia da matéria, o monismo material, com seu reducionismo e causação ascendente. O novo paradigma holístico não abre mão do monismo material: tudo é matéria. Mas, no entanto, abre mão da ideia do reducionismo e opta pela filosofia do holismo – o todo é maior do que as partes e não se reduz às partes. Aqui, Deus e a espiritualidade se recuperam no sentido de um Deus imanente – Deus ou uma “consciência Gaia” inseparável à Terra como um todo, com todos os seus organismos. (A teoria ou hipótese Gaia, desenvolvida por James Lovelock, representa tudo o que existe sobre a Terra, coisas vivas ou não, como um complexo sistema de interações que pode ser considerado um único organismo.) Há ainda algo como uma causação descendente, uma autonomia causal de entidades holísticas emergentes em cada nível da organização, que não podem ser reduzidas às partes. Isso é uma causalidade artificial, pois, no final, ela também é determinada por interações materiais, isto é, por uma causação ascendente.

A nova ciência, a ciência dentro da consciência, baseia-se na física quântica e no primado da consciência (idealismo monista) e inclui o antigo paradigma redutivo. Na ciência dentro da consciência, Deus é um agente real, e causalmente eficaz, intervindo por meio da causação descendente. Na ciência dentro da consciência, podemos até tratar corpos sutis sem os problemas usuais do dualismo da interação; podemos falar cientificamente da evolução da natureza divina, a que as religiões aspiram. Contudo, a antiga ciência permanece válida – em seu próprio domínio. No domínio material da experiência consciente, a consciência escolhe o evento da realidade manifestada entre as possibilidades quânticas determinadas pela causação ascendente, a partir do substrato material. E, como os efeitos quânticos são relativamente silenciados na matéria densa, o comportamento dessa matéria é aproximadamente determinista.

Na verdade, até os materialistas reducionistas abrem espaço para Deus. Em um livro chamado Why God won’t go away, Andrew Newberg e Eugene D’Aquili (2001) citaram recentes trabalhos em neurofisiologia para sugerir que Deus e experiências espirituais podem ser explicados simplesmente como fenômenos cerebrais.

De modo similar, os holistas afirmam que Deus e espiritualidade podem ser compreendidos e explorados como fenômenos holísticos emergentes da própria matéria; até o livre-arbítrio e a causação descendente podem ser entendidos como uma aparente autonomia emergente de níveis mais elevados de organização da matéria.

O paradigma explorado e endossado neste livro é muito mais radical do que qualquer uma destas duas abordagens de Deus. Eu postulo que a base da existência é a consciência e não a matéria. Eu postulo que não apenas a matéria, mas também um corpo energético vital mais sutil, um corpo mental ainda mais sutil e um corpo supramental mais sutil ainda, existem como possibilidades quânticas da consciência. Elas se desenvolvem com o tempo, a partir de interações causais em seu domínio respectivo. Também postulo que, por meio da evolução, rumamos para estados manifestados de consciência que são manifestações cada vez maiores da divindade – as qualidades de Deus, os arquétipos supramentais. O preço que pagamos pela inclusão do sutil em nossa ciência é o multiculturalismo da teoria e a objetividade fraca na seleção de dados.

Preciso enfatizar, uma vez mais, que o Deus para o qual apresento dados científicos é o mesmo Deus vislumbrado pelos místicos e fundadores de todas as grandes tradições religiosas mundiais, embora os ensinamentos das grandes religiões tenham sido diluídos nas representações populares.

No final do século XIX, Friedrich Nietzsche proclamou, por meio de um de seus personagens fictícios, que “Deus está morto”. Isso refletia a preocupação dele com a pouca eficácia do cristianismo popular e ingênuo na sustentação da ética e da moralidade, diante da visão materialista de mundo que a ciência estava rapidamente conseguindo espalhar pelo Ocidente. Em outras palavras, Nietzsche percebeu que o Deus cristão, dualista e popular, está morto. Demonstro neste livro, com o emergente paradigma da ciência baseada no primado da consciência e na física quântica, que Deus vive eternamente como agente de causação descendente, em um papel que se mostraria satisfatório tanto para cientistas quanto para religiosos.

Hoje, independentemente da imagem de Deus que mais o satisfaz, espero que você faça uma avaliação justa das evidências e teorias apresentadas aqui. Afinal, Deus tem sido uma preocupação milenar dos seres humanos, uma preocupação que, segundo suspeito, tem afetado você, ao menos um pouco. Peço-lhe apenas que suspenda seus julgamentos e descrença durante a leitura das partes 2, 3 e 4, onde apresento as evidências.

(Amit Goswami - Deus não está morto,evidências científicas da existência divina)

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