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Socialismo e Nacional-socialismo: a esquerda e a direita autoritárias do século XX
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Em torno da destruição física – o imenso ossário, a demolição da terra, aspecto mais evidente do desastre, sobre o qual se concentram os estudos e as medições – estende-se um domínio invisível em que a devastação é provavelmente maior, afeta mais gente e demandará ainda mais tempo para ser reparada: a destruição das inteligências e das almas.
 
 
A inépcia
 
Pode-se esboçar – e isso foi feito – a genealogia intelectual das duas principais formas ideológicas que dominaram neste século uma parte da humanidade. O perigo é o de se acreditar que as ideias vastas e profundas de que elas tiraram alguma coisa para se formar subsistem ainda nelas. E dar-lhes uma dignidade, cartas de nobreza que elas não merecem. Seria ir na sua direção, pois elas reivindicam essa genealogia.
O marxismo-leninismo se considera o herdeiro de uma tradição que vem de Heráclito e de Demócrito. Ele descende, segundo sua pretensão, de Lucrécio, do lluminismo, de Hegel, de todo o movimento científico. Ele os resumiria e os realizaria. O nazismo buscava suas referências na tragédia grega, em Herder, Novalis, num outro Hegel, em Nietzsche e, claro, se garantia no movimento científico posterior a Darwin. E preciso não levá-los a sério. E uma ilusão, que comporta, além disso, o perigo de comprometer a linhagem reivindicada: arrisca-se a se atribuir a Hegel, ou a qualquer filósofo ou cientista citados por eles, tais descendentes.
Essa ilusão se dissipa caso se queira olhar bem o genuíno funcionamento intelectual dos dirigentes nazistas e comunistas. Ele é inteiramente dominado por um sistema de interpretação do mundo de uma extraordinária indigência. Um combate dualista é levado adiante entre classes ou raças. A definição dessas classes ou dessas raças só tem sentido no e pelo sistema, se bem que o que pode ter objetivo na noção de classe ou de raça perde-se de vista. Essas noções loucas explicam a natureza do combate, justificam-no, guiam-no no espírito da ideologia a ação dos adversários e dos aliados. Pode haver ardis e astúcias nos meios utilizados para atingir o fim e, de fato, o comunismo com Lenin, Stalin, Mao Ho Chi Minh beneficiou-se de atores mais competentes do que Hitlet: a lógica do conjunto do sistema permanece absurda; seu fim, inatingível.
O estado psíquico do militante distingue-se pelo investimento fanático no sistema. A visão central reorganiza todo o campo intelectual e perceptivo, até na periferia. A linguagem transforma-se. Ela não serve mais para comunicar ou expressar, e sim para mascarar a solução de continuidade entre o sistema e a realidade. Assume o papel mágico de sujeitar a realidade à visão do mundo; é uma linguagem litúrgica, em que cada fórmula indica a adesão do locutor ao sistema e intimida o interlocutor a aderir. As palavras reveladoras são, então, ameaças e figuras de um poder.
Não se pode permanecer inteligente sob a ideologia. O nazismo seduziu alguns grandes espíritos: Heidegger, Carl Schmitt. Isso porque eles projetavam sobre o nazismo pensamentos próprios que lhe eram estranhos, um antimodernismo profundo, um antidemocratismo profundo, um nacionalismo transformado em metafísica, tudo que o nazismo parecia ter assumido, salvo o que produzia seu valor na vida intelectual desses filósofos, o pensamento, a profundidade, a metafísica. Eles também cediam à ilusão da genealogia.
O marxismo-leninismo só recrutou espíritos de segundo escalão, um Lukács, por exemplo: eles não tardaram a perder seu talento. Os partidos comunistas podiam se vangloriar de contar com adesões ilustres – Aragon, Brecht, Picasso, Langevin, Neruda: eles tinham o cuidado de mantê-los à margem para isolá-los numa adesão de acaso, de humor, de interesse, de circunstância. Porém, apesar do caráter superficial dessa adesão, a pintura de Picasso (ver os Massacres da Coréia) e a poesia de Neruda e de Aragon não deixaram de sofrer os efeitos. Ela pode subsistir artisticamente em um registro de provocação. A adesão à ideologia dos espíritos superiores produz-se a favor de uma confluência aleatória de paixões diversas cuja natureza é externa à ideologia. Mas, aproximando-se de seu cerne, tais paixões se debilitam, não restando às vezes senão um resíduo de inépcia.
Na zona comunista, os dirigentes tiveram às vezes que resumir sob seu nome o esquema fundamental, como foi o caso Stalin e Mao, que se resume em algumas páginas e contém a totalidade da doutrina: não existem tratados superiores a esses manuais, qualificados às vezes de “elementares” para se fazer crer que haja outros mais profundos; eles seriam apenas a diluição dos primeiros. Nem por isso deixam de ser impostos como objetos de “estudo”, isto é, que os sujeitos têm a obrigação de passar algumas horas a repeti-los e a papagueá-los. Na zona nazista, tais compêndios não existiram. O pensamento deveria estar subordinado ao do líder, que se apresentaria como oracular e inspirado. Quando se analisa o teor, constata-se uma misteriosa mistura de darwinismo social, de eugenismo, de ódio vagamente nietzschiano pelo cristianismo, religião do “ressentimento”, do anti-semitismo patológico.
O homem nazista e comunista oferece-se ao exame clínico do psiquiatra. Ele parece fechado, desligado do real, capaz de argumentar indefinidamente em círculo com seu interlocutor, obscurecido, persuadido, no entanto, de ser racional. E por isso que os psiquiatras associaram esse estado de delírio crônico sistematizado à esquizofrenia, à paranóia. Se nos aprofundamos no exame, vemos que esta caracterização permanece metafórica. O sinal mais evidente de esta loucura ser artificial é que ela é reversível: quando a pressão cessa e as circunstâncias mudam, nós saímos dela imediatamente, como de um sonho. Mas é um sonho desperto, que não bloqueia a motricidade e mantém uma certa coerência de caráter racional. Fora da zona atingida, que, no homem sadio, é a parte superior do espírito, aquela que elabora a religião, a filosofia, as “ideias diretrizes da razão”, diria Kant, as funções do entendimento parecem intactas, mas polarizadas e sujeitas ao lado delirante. De tal modo que, quando despertamos, a cabeça está vazia, a aprendizagem da vida e do saber deve ser completamente retomada. A Alemanha, que tinha sido a Atenas da Europa durante um século, despertou embrutecida por doze anos de nazismo. O que dizer da Rússia, bem mais sistematicamente submetida durante setenta anos à pedagogia do absurdo, e cujas bases intelectuais eram menos estabelecidas e mais frágeis?
Essas doenças mentais artificiais são também epidêmicas e contagiosas. Elas foram comparadas à difusão repentina da peste ou da gripe. Formalmente, a nazificação da Alemanha, em 1933, e a Revolução Cultural chinesa desenvolveram-se de fato como uma espécie de doença contagiosa. Esperando sabermos mais sobre essas pandemias psíquicas, atribuamos a essas comparações um valor simplesmente metafórico.
A inépcia é o cenário de fundo da destruição moral. Ela é sua condição. O desajustamento moral da consciência natural e comum só pode existir se a concepção do mundo, a relação com a realidade, forem previamente perturbadas. Se essa cegueira é uma circunstância atenuante ou se ela é uma parte integrante do mal, eu não discutirei aqui. Ela não suspende o julgamento moral.
 
 
A falsificação nazista do bem
 
Se buscamos olhar atentamente o conjunto das operações que se praticavam contra um povo nos seis campos enumerados anteriormente, nos faltam palavras, conceitos. a imaginação recusa-se a conceber e a memória a reter. Estamos fora do humano, como se nos encontrássemos diante de uma transcendência negativa. A ideia do demoníaco aparece então irresistivelmente ao espírito.
O que assinala a nossos olhos o demoníaco é que estes atos foram realizados em nome de um bem, sob a cobertura de uma moral. A destruição moral tem como instrumento uma falsificação do bem tal que o criminoso, em uma medida impossível de precisar, possa manter a distância a consciência de que pratica o mal.
Himmler pronunciou durante a guerra numerosos discursos diante dos oficiais superiores e dos chefes de serviço da SS. O tom é sempre o da exortação moral.
Eis um texto que se eleva acima das contingências da época, acima mesmo dos interesses imediatos do Reich e que se eleva ao plano do universal: “Tudo o que fazemos deve ser justificado em relação a nossos ancestrais. Se não encontrarmos este vínculo moral, o mais profundo e o melhor porque mais natural, não seremos capazes a esse nível de vencer o cristianismo e de constituir esse Reich germânico que será uma bênção para toda a Terra. Há milênios é o dever da raça loura dominar a terra e sempre lhe propiciar felicidade e civilização.” (9 de junho de 1942)
O bem, segundo o nazismo, consiste em restaurar uma ordem natural corrompida pela história. A correta hierarquização das raças foi transformada por esses acontecimentos funestos que são o cristianismo (“esta peste, a pior doença que nos tem atingido em toda a nossa história”), a democracia, o reino do ouro, o bolchevismo, os judeus. A ordem natural é coroada pelo Reich alemão, mas reserva um lugar aos outros germânicos, que são os escandinavos, os holandeses, os flamengos. Pode-se mesmo deixar intacto o império britânico, que é “um império mundial criado pela raça branca”. Abaixo, os franceses e os italianos. Mais abaixo ainda os eslavos, que serão escravizados e reduzidos em número; Himmler encara uma “diminuição” de trinta milhões. No interior da sociedade, restaurar-se-á assim a ordem natural que quer que dominem os melhores, os mais duros, os mais puros, os mais cavalheirescos, cujos exemplos vivos são fornecidos pela elite da Waffen-SS. Quando Himmler pronunciou esse discurso, os incuráveis, os deficientes, os alienados da “raça” alemã já haviam sido eutanasiados clandestinamente nos hospitais e nos asilos.
Tudo isso não poderá ser feito, continua Himmler, sem um combate extremamente duro. Em seus discursos, ele apela constantemente ao heroísmo, à superação de si, ao sentido do dever superior com o Reich, particularmente quando se trata de executar ordens dolorosas: “Nós devemos atacar as tarefas ideológicas e responder ao destino, qualquer que seja ele; devemos estar sempre de pé, não cair nunca, não nos enfraquecermos nunca, mas estarmos sempre presentes até que o caminho termine ou que a tarefa de cada um tenha sido cumprida.”
A “solução final”, em certos aspectos, é apenas um problema técnico, como a desinfecção quando há perigo de tifo: “Destruir os piolhos não decorre de uma concepção do mundo. É uma questão de higiene. [...] Logo não teremos mais piolhos.” (24 de abril de 1943) A metáfora do inseto a destruir aparece regularmente no campo do extermínio ideológico. Lenin já a usara. Mas Himmler, grande líder, diz isso para fortalecer e encorajar seu auditório. Ele sabe que não é tão simples, que falsos escrúpulos podem ser superados e que para se realizar um certo tipo de tarefa “é sempre preciso ter consciência do fato de que nos encontramos em um combate racial, primitivo, natural e original” (IPde dezembro de 1943). Esses quatro adjetivos descrevem de modo apropriado a característica da ética nazista.
Em seu discurso de 6 de outubro de 1943, Himmler enuncia sua concepção da solução final; “A frase ‘os judeus devem ser exterminados’ comporta poucas palavras, ela é dita rapidamente, senhores. Mas o que ela necessita da parte daqueles que a colocam em prática é o que há de mais árduo e de mais difícil no mundo.
Naturalmente, são judeus, não são senão judeus, é evidente; mas pensem no número de pessoas – mesmo de camaradas do partido – que dirigiram a não importa que serviço, ou a mim mesmo, estes famosos pedidos, dizendo que, claro, todos os judeus são porcos, exceto fulano ou sicrano, que são judeus decentes, aos quais não se deve fazer nada. Eu ouso dizer que, a julgar pelo número desses pedidos e pelo número dessas opiniões na Alemanha, há mais judeus decentes do que propriamente judeus. [...] Eu lhes peço então com insistência para simplesmente ouvir o que eu digo aqui neste círculo fechado, e nunca falem disso com ninguém. Foi-nos feita a seguinte pergunta: o que fazer com as mulheres e as crianças? – Eu decidi, e também neste caso, encontrei uma solução evidente. Eu não me sentia no direito de exterminar os homens – se vocês preferem, matá-los ou mandá-los matar – e deixar crescer as crianças que se vingariam em nossas crianças e em nossos descendentes. Foi preciso tomar a grave decisão de fazer desaparecer esse povo da Terra. Foi, para a organização que teve de realizar essa tarefa, a coisa mais dura que já conhecera. Eu creio poder dizer que isso foi realizado sem que os nossos homens e os nossos oficiais tenham sofrido em seus corações ou em suas almas. Esse perigo era, no entanto, real. A via situada entre as duas possibilidades: tornar-se duro demais, agir sem coração e não respeitar mais a vida humana, ou então se tomar muito brando e perder a cabeça até ter crises de nervos – a via entre Caribde e Cila é desesperadamente estreita.”
Este justo meio virtuoso que Himmler reclama foi, às vezes, atingido: vários grandes carrascos, de fato, foram ternos pais de família, maridos sentimentais. Ele exige que a “tarefa” seja realizada sem intervenção de motivos “egoístas”, calmamente, sem fraqueza nervosa. Entregar-se à bebida, violar uma jovem, roubar os deportados, entregar-se a um sadismo inútil revela indisciplina, desordem, esquecimento do idealismo nazista, que são condenáveis e devem ser punidos.
A moral nazista impõe a busca da ordem que indica a natureza. Mas a ordem natural não é contemplada, mas sim deduzida do saber ideológico. O pólo do bem é representado pela “raça loura”, o pólo do mal pela “raça judia”. O combate cósmico terminará pela vitória de uma ou de outra.
Mas tudo isso é falso. Não há raças, no sentido em que o entendem os nazistas. O grande ariano alto e louro não existe, mesmo que se possam exibir alemães que sejam grandes e louros. O judeu, conforme eles o entendem, não existe, pois a representação racial que é feita pelo nazismo só tem relações de coincidência com a verdadeira identidade do povo da Aliança bíblica. O nazista crê ver a natureza, mas a natureza se esconde atrás do esquema interpretativo. A situação histórica e militar não é mais percebida sem deformação. Por causa de seu “nazismo”, Hitler entra em guerra e, por causa do próprio nazismo, ele a perde. A superioridade de Stalin residiu em ter conseguido colocar sua ideologia de lado o tempo necessário para preparar a vitória. A ideologia leninista era “melhor” porque permitia essas pausas e autorizava uma paciência política de que o nazismo, impulsivo e convulsivo, se mostrou incapaz.
A ética nazista se manifestava como uma negação da tradição ética de toda a humanidade. No máximo alguns pensadores marginais ousaram lançar, por provocação estética, alguns de seus temas. De fato, o gênero de naturalismo que ela propõe, o super-homem, o sub-homem, o desejo de poder, o niilismo, o irracionalismo, fazem-na recair no terreno da estética. É o kitsch artístico que embriaga, as encenações de Nuremberg, a arquitetura colossal ao estilo de Speer, o sombrio esplendor da força bruta. Enquanto moral, ela não pode produzir um correlato sério na História. Sua perversidade se torna evidente; ela não é universalizável: estas duas fraquezas se opõem à moral comunista.
Isto explica o motivo de a moral nazista ter sido menos contagiosa que a moral comunista e de a destruição moral ter sido mais limitada. As raças “inferiores”, “sub-humanas”, viam nessa doutrina uma ameaça mortal iminente e não podiam ser tentadas. O próprio povo alemão, na medida em que seguiu Hitler, o fez mais por nacionalismo do que por nazismo. O nacionalismo, que é uma paixão natural, singularmente estimulada há dois séculos, forneceu às formações artificiais do regime nazista, como aliás às do regime comunista, sua energia, seu carburante. Alguns membros da elite alemã tinham apoiado a chegada ao poder do chanceler: o aristocratismo indolente das tropas hitleristas não tinha nada a ver com a antiga elite. Aquele que reivindicava Nietzsche caiu na armadilha, como todo mundo. Quanto à lealdade do corpo de oficiais, ela se explica pela tradição militar, reforçada por um pouco de kantismo ou de hegelianismo. Os soldados obedeceram como obedecem os soldados.
É por isso que a abordagem teórico-simbólica do nazismo, a destruição física do povo judeu, e depois, por ordem hierárquica, a dos outros povos, foi um segredo, e dos mais bem guardados, do Reich. A “Noite de Cristal”, que foi um teste, uma tentativa para convocar e unir o povo alemão no grande projeto, não se constituiu um sucesso político. Hitler também decidiu construir fora dos territórios da Alemanha histórica os seis grandes centros de extermínio.
O desgaste moral nazista pode ser descrito em círculos concêntricos em torno de um núcleo central que os propósitos citados por Himmler permitem imaginar. Ele é formado por aqueles que se converteram plenamente ao nazismo. Eles são pouco numerosos. É o coração do partido, o coração da Waffen-SS, o coração da Gestapo. Os executores do extermínio são ainda menos numerosos. Não tinham necessidade de sê-lo: o alto desenvolvimento industrial e tecnológico alemão permitia economia de mão-de-obra. Algumas centenas de SS que governavam os campos da morte delegavam as tarefas “manuais” às próprias vítimas. Os Einsatzgruppen eram recrutados sem qualificação prévia. Percebeu-se que eles poderiam teoricamente abandonar esse corpo de assassinos. Mas grandes problemas os esperavam então, o primeiro dos quais o de combater na frente soviética. Esses homens eram, ou tinham se tornado, monstros. Não é certo que todos eles tinham feito adesão à ideologia nazista. Em toda população é fácil recrutar tantos torturadores e assassinos quanto se necessita. O verniz ideológico facilitava sua vocação ou lhes permitia desabrocharem. Já observamos que a atividade das Einsatzgruppen não podia ser ignorada pela Wehrmacht, em cuja sombra elas operavam; que o destino dos trens, a liquidação dos guetos, não deixavam muita margem a suposições; que, apesar da no man’s land que envolvia os campos da morte, alguma coisa terminava por transparecer. Hillberg escreve que o segredo era “um segredo conhecido por todo mundo”. O que é, sem dúvida, verdade, mas é preciso considerar dois pontos.
Um segredo conhecido por todo mundo não é a mesma coisa que uma política proclamada e um fato público. Os alemães seguiam, por disciplina militar e cívica, por nacionalismo, por medo, por impotência em conceber ou em realizar um ato de resistência. O segredo, mesmo ventilado, livrava-os da responsabilidade moral imediata, ou pelo menos permitia desviar, voltar a cabeça para outro lado, fazer como se tudo aquilo não existisse. Sob o nazismo subsistia uma sociedade que vivia sobre as relíquias do direito. O corpo de oficiais compreendia um número de homens que permaneciam fiéis aos cânones da guerra e se esforçavam, com maior ou menos sucesso, para manter uma certa honra. Porque a propriedade não tinha sido ainda eliminada, uma sociedade civil sobrevivia. O filme A lista de Schindler repousa no fato de que podia existir, na Alemanha, um proprietário de empresa em condições de recrutar e de abrigar uma mão-de-obra judia. Desde os primeiros anos do comunismo, algo desse tipo não era mais concebível na Rússia.
O conteúdo do segredo não era algo em que poderia crer um espírito normalmente constituído. O fato de que uma grande parte da Alemanha vivia ainda em uma sociedade e sob uma moral naturais, e de não avaliar bem o que a esperava, tornava mais difícil acreditar na realidade do que lhe escondiam, na consistência das suspeitas, na evidência dos indícios. Os próprios judeus, que tinham passado pela expropriação, concentração, deportação, quando chegavam diante das câmaras de gás ainda não podiam acreditar.
A pedagogia nazista teve apenas alguns anos de exercício. Quando a Alemanha foi ocupada, o nazismo rapidamente se evaporou – pelo menos na zona ocidental; no leste, ele foi, em parte, utilizado de novo. Em primeiro lugar porque foi julgado e condenado por todas as justiças alemãs e internacionais. Em seguida, porque a maioria da população não tinha ficado profundamente impregnada. Enfim, porque os próprios nazistas, despertos, não viam nitidamente a relação entre o que eles tinham sido sob a influência mágica da ideologia e o que eles eram agora que essa influência tinha se dissipado. Eichmann voltou à sua natureza básica de quadro médio, o que ele era antes e o que teria sido depois se não tivesse sido preso e condenado. Punição que ele recebeu de forma passiva, conforme seu caráter apagado. Os fatos relatados, como mostrou com razão Hannah Arendt, eram incomensuráveis para a consciência estreita daquele ser banal.
 
 
A falsificação comunista do bem
 
O comunismo é moral. O imperativo moral sustenta toda a pré-história do bolchevismo (o socialismo francês e alemão, o populismo russo), e sua vitória é celebrada como uma vitória do bem. A estética não predomina sobre a ética. O nazista se acha um artista; o comunista, um virtuoso.
O fundamento dessa moral está no sistema interpretativo. Ela é deduzida do saber. A natureza primitiva, afirma ele, não é a natureza hierarquizada, cruel, implacável com que se encanta o homem superior nazista. Ela se parece com a natureza boa de Rousseau. Ela se perdeu, mas o socialismo a recriará, levando-a a um nível superior. O homem se realizará completamente nela. Trotski afirmava que o nível de base da humanidade nova seria Michelangelo e Leonardo da Vinci. O comunismo democratiza o super-homem.
O progresso natural é um progresso histórico, pois o materialismo histórico e dialético garante a unidade entre a natureza e a história. O comunismo faz seu o grande tema do Iluminismo, o Progresso, em oposição, então, aos temas da decadência que assombram o nazismo; mas progresso dramático, que passa por imensas e inevitáveis destruições. Reconhecemos aqui vestígios do pantragismo hegeliano e sobretudo do darwinismo árduo da luta pela sobrevivência aplicada à sociedade. As “relações sociais de produção” (“escravismo”, “feudalismo”, “capitalismo”) se sucedem à maneira dos grandes reinos no mundo animal, como os mamíferos sucedem aos répteis. É um terreno de acordo secreto entre o nazismo e o comunismo: não se chora sobre o leite derramado; não se faz omelete sem quebrar os ovos; quando o gato sai, os ratos fazem a festa, todas expressões familiares a Stalin. De um lado e do outro, a história é dona da verdade. O nazismo restabelecerá o mundo em sua beleza; o comunismo, em sua bondade.
O restabelecimento depende da vontade humana iluminada pela ideologia. O leninismo, mais claramente ainda que o nazismo, obedece ao esquema gnóstico dos dois princípios antagônicos e dos três tempos. No momento inicial era a comuna primitiva; no momento futuro será o comunismo, e hoje é o momento da luta entre os dois princípios. As forças que fazem “avançar” são boas; as que “atrasam”, ruins. A ideologia (cientificamente garantida) designa o princípio ruim. Não se trata de uma entidade biológica (a raça inferior), mas social, que se tece na realidade em toda a sociedade: a propriedade, o capitalismo, o complexo dos costumes, do direito, da cultura que se eleva sobre o princípio ruim e que resume a expressão “o espírito do capitalismo”. Aqueles que compreenderam os três momentos e os dois princípios, que conhecem a essência da ordem natural e histórica, e que conhecem o sentido de sua evolução e os meios para acelerá-la, reagrupam-se e formam o partido.
É bom então o conjunto dos meios que fazem advir o fim que o revolucionário prevê. Como o processo é tão natural quanto histórico, a destruição da velha ordem é em si uma possibilidade para fazer advir o novo. A fórmula de Bakunin, que resumia o que ele tinha compreendido de Hegel, é a máxima do bolchevismo: o espírito de destruição é o mesmo que o espírito de criação. Na pré-história do bolchevismo, os heróis narodnik eram muito conscientes da revolução moral que suas concepções continham. Tchemychevski, Netchaiev e Tkatchev desenvolveram uma literatura do “homem novo”, de que Dostoievski satirizou e de que ele compreendeu o sentido metafísico. O homem novo é aquele que faz sua a nova moral de dedicação absoluta aos fins, que se dedica a expulsar de si mesmo os restos da velha moral, aquela que os “inimigos de classe” propagam para perpetuar o seu domínio. Lenin canonizou a ética comunista, e Trotski escreveu um pequeno livro cujo título já diz tudo: A moral deles e a nossa.
O fato assustador é que essa ruptura moral não é percebida por todos de fora desse meio revolucionário. De fato, para descrever a nova moral, o comunismo serve-se de palavras da velha: justiça, igualdade, liberdade... É fato que o mundo que ele se apresta a destruir está repleto de injustiça e de opressão. Os homens de bem não podem deixar de aceitar que os comunistas denunciam esses males com extremo vigor. Eles concordam que a justiça distributiva não é respeitada. Guiando-se pela ideia de justiça, o homem de bem busca promover uma melhor distribuição das riquezas. Para o comunista, a ideia de justiça não consiste numa divisão “justa”, e sim no estabelecimento do socialismo, na supressão da propriedade privada, anulando assim todo tipo de divisão, a própria divisão e, enfim, o direito das partes. Os comunistas dedicam-se a fazer nascer a consciência da desigualdade, não tendo como objetivo fazer constatar uma falta de direito, mas fazer desejar uma sociedade em que a regulação não passará pelo direito. Da mesma forma, a ideia comunista de liberdade tem por fim estimular a consciência de uma opressão onde o indivíduo, vítima da alienação capitalista, crê ser livre. Finalmente, todas as palavras que servem para expressar as modalidades do bem – justiça, liberdade, humanidade, bondade, generosidade, realização – são instrumentalizadas em vista do fim único, que contém todas elas e as realiza: comunismo. Do ponto de vista da ideia comunista, essas palavras mantêm com as antigas apenas uma relação de homonímia. Havia, no entanto, critérios simples que deveriam ter dissipado essas confusões.
Eu chamo de moral natural ou comum aquela à qual se referem os sábios da Antiguidade, e também os da China, da índia ou da África. No mundo constituído pela Bíblia, essa moral é resumida na segunda tábua dos mandamentos de Moisés. A ética comunista opõe-se a ela de forma frontal e muito consciente. Ela se propõe a destruir a propriedade e, com ela, o direito e a liberdade que se vinculam a ela, e reformar a ordem familiar. Ela se dá o direito de todos os meios de mentira e de violência para derrubar a velha ordem e fazer surgir a nova. Ela transgride abertamente, em seu princípio, o quinto mandamento (“honrarás pai e mãe”), o sexto (“não matarás”), o sétimo (“não cometerás adultério”), o oitavo (“não roubarás”), o nono (“não darás falso testemunho contra teu próximo”) e o décimo (“não cobiçarás a mulher do próximo”).
Não é absolutamente necessário crer na revelação bíblica para aceitar o espírito desses preceitos que se encontram em todo o mundo. A maioria dos homens considera que existem comportamentos que são verdadeiros e bons porque correspondem ao que eles conhecem das estruturas do universo. O comunismo concebe um outro universo e vincula a ele sua moral. É por isso que ele recusa não só os preceitos, mas também seu fundamento, o mundo natural. Dizíamos que a moral comunista baseia-se na natureza e na história; é falso. Baseia-se numa supernatureza que não existe e numa História sem verdade.
“O regime soviético”, escreveu Raymond Aron, em Democracia e totalitarismo “originou-se de uma vontade revolucionária inspirada em um ideal humanitário. O objetivo era o de criar o regime mais humano que a História já tivesse conhecido, o primeiro regime em que todos os homens poderiam ter acesso à humanidade, em que as classes teriam desaparecido, em que a homogeneidade da sociedade permitiria o reconhecimento recíproco dos cidadãos. Mas esse movimento tendeu para um fim absoluto, não hesitando diante de qualquer meio, porque, segundo a doutrina, apenas a violência poderia criar essa sociedade absolutamente boa, e o proletariado estava engajado numa guerra impiedosa contra o capitalismo. Dessa combinação entre um fim último e uma técnica impiedosa surgiram as diferentes fases do regime soviético.”
Estas linhas refletem, com toda a clareza possível, a ambigüidade e o engodo do comunismo. Pois o que é chamado de humano e de humanitário é, de fato, o sobre-humano e o sobre-humanitário que promete a ideologia. O humano e o humanitário não têm nem direito nem futuro. As classes não se reconciliam, elas desaparecem. A sociedade não se torna homogênea, ela é destruída em sua autonomia e em sua dinâmica própria. Não é o proletariado que faz a guerra ao capitalismo, é a seita ideológica que fala e age em seu nome. Enfim, o capitalismo só existe por oposição a um socialismo não existente senão na ideologia, e, em conseqüência, o conceito de capitalismo é inadequado para descrever a realidade que deve ser derrubada. O objetivo não é sublime: ele assume as cores do sublime. O meio, que é matar, se toma o único fim possível.
Ao fim de um longo e admirável paralelo entre o nazismo e o comunismo, Raymond Aron escreve: “Eu manterei, no ponto de chegada, que, entre esses dois fenômenos, a diferença é essencial, quaisquer que sejam as similitudes. A diferença é essencial à causa da ideia que anima os dois empreendimentos. Num caso, o ponto de chegada é o campo de trabalho; no outro, a câmara de gás. Num caso, é a vontade de construir um regime novo e talvez um outro homem, não importando quais os meios; no outro, uma vontade propriamente demoníaca de destruição de uma pseudo-raça.”
Eu também admito a diferença na base de argumentos que exporei mais adiante. Aqueles que são mencionados aqui não me convencem. O nazismo também projetava um regime novo e um homem novo, não importando quais os meios. Não é possível decidir qual o mais demoníaco: destruir uma pseudo-raça, inclusive a “superior”, porque elas são todas poluídas; ou destruir uma pseudoclasse e, depois, sucessivamente, as outras, todas contaminadas pelo espírito do capitalismo.
Raymond Aron, enfim, conclui: “Se eu tivesse que resumir o sentido de cada uma dessas empresas, acho que estas são as fórmulas que eu sugeriria: a propósito da empresa soviética, eu recordaria a fórmula banal ‘quem quer se passar por anjo, passa por animal’; a propósito da empresa hitlerista, eu diria: ‘O homem erraria ao se colocar como objetivo assemelhar-se a um animal de rapina, porque ele o conseguiria perfeitamente’.”
É melhor ser um animal que se passa por anjo ou ser um homem que se faz de animal, tendo-se confessado que todos os dois são de “rapina”? E impossível decidir. No primeiro caso, o grau de mentira é maior e a sedução mais atraente. A falsificação do bem é mais profunda, dado que o crime se assemelha mais ao bem do que o crime do nazismo, o que permite ao comunismo difundir-se mais amplamente e tocar corações que teriam recuado diante de uma vocação SS. Tomar maus homens bons talvez seja mais demoníaco que tornar pior homens já maus. O argumento de Raymond Aron vincula-se à diferença de intenções. A intenção nazista contradiz a ideia universal do bem. A intenção comunista perverte-a, pois ela tem um jeito bom e permite a muitas almas desatentas aderir ao projeto. O projeto sendo inacessivel, só restam, para qualificar o julgamento moral, os meios, que, sendo impotentes para atingir o seu fim, tornam-se o fim efetivo. Agregando-se ao crime, a mentira o torna mais tentador e mais perigoso.
Mais tentador: o comunismo leninista rouba a herança de um ideal muito antigo. Nem todos estão em condição de discernir, no momento da adesão, a corrupção que ele operou. Acontece que se permanece por muito tempo comunista, até toda a vida, sem se dar conta disso. A confusão da velha moral (comum) com a nova nunca é completamente dissipada. Se bem que ainda resta nos partidos comunistas uma proporção de “gente boa”, que resiste à deterioração moral e cuja presença joga a favor da anistia coletiva. O ex-comunista é mais facilmente perdoado do que o ex-nazista, já que este é suspeito de ter, desde sua adesão, rompido conscientemente com a moral comum.
Mais perigoso porque a educação comunista é insidiosa, progressiva, e transforma em bons os atos ruins que ela faz cometer. Mais perigoso também por ser imprevisível com as suas futuras vítimas. Todo mundo, de fato, pode assumir virtualmente, de um momento para o outro, a qualidade do inimigo. O nazismo designava por antecipação seus inimigos. Ele lhes atribuía uma natureza fantástica sem relação com a verdadeira, mas por trás do sub-homem havia um judeu real, por trás do eslavo desprezível um polonês ou um ucraniano de carne e osso. Aqueles que não eram nem judeus nem eslavos dispunham de um sursis. O universalismo, que é, antes da tomada do poder, a grande superioridade do comunismo sobre o exclusivismo nazista, se torna, uma vez no poder, uma ameaça universal. O capitalismo, como esta palavra é empregada, só tem uma existência ideológica, e não há categoria da humanidade que não possa cair sob a maldição que se abate sobre ele: o camponês “médio” e “pobre”, a intelligentsia, o “proletariado”, o próprio partido, enfim. Todos podem ser contaminados pelo espírito do capitalismo. Ninguém está a salvo da suspeita.
Com um certo realismo, os líderes nazistas prometiam sangue e lágrimas, previam um combate mortal para restabelecer a humanidade em sua correta ordem racial. Ao contrário, Lenin achava que os tempos estavam maduros e que a escatologia se realizaria assim que o “capitalismo” tivesse sido derrubado. A revolução iria inflamar o mundo inteiro. Uma vez expropriados os expropriadores, os quadros do socialismo iriam espontaneamente ocupar seu lugar. Mas nada disso se passou em seguida ao 7 de novembro de 1917, e a cortina subiu sobre um palco vazio. Para onde foram o proletariado, o campesinato pobre e médio, o internacionalismo proletário? Lenin está sozinho com seu partido, alguns guardas vermelhos, em um mundo hostil ou indiferente. 
No entanto, o marxismo-leninismo é científico. É preciso então que a experiência prove a teoria. Como o capitalismo foi derrubado, é necessário que o socialismo chegue. Como, aparentemente, ele não chega, resta construí-lo segundo as linhas indicadas pela teoria e verificar que em cada momento o resultado será conforme a previsão. Assim se constrói, pedra sobre pedra, um universo falso que se supõe que deveria substituir o verdadeiro. Assim se torna espessa uma atmosfera de mentira generalizada, à medida que os fatos se afastam das palavras encarregadas de descrevê-los. O bem se afirma freneticamente para negar a realidade do mal.
É principalmente por esta via que se produz a destruição moral no regime comunista. Como no regime nazista, ela se estende em círculos concêntricos em torno do núcleo inicial.
No centro se encontra o partido, e, no partido, seu círculo dirigente. Nos primeiros tempos do poder, ele ainda está sob o domínio total da ideologia. Nesse momento é que ele se dedica a eliminar “o inimigo de classe”. Em uma intoxicação absoluta da consciência moral, ele destrói em nome da utopia categorias inteiras de pessoas. Uma olhada retrospectiva mostra que, nos casos russo, coreano, chinês, romeno, polonês, cambojano, esta sangria inicial foi uma das mais importantes da história desses regimes: às vezes da ordem de 10% da população, ou até mais do que isso.
Quando parece que o sonho utópico já não se realizará, que a dizimação propiciatória não serviu para nada, observa-se um deslizamento da utopia para a simples conservação do poder. O inimigo objetivo estando já exterminado, é preciso cuidado para que não se reconstitua, até mesmo para que não reapareça nas fileiras do próprio partido. É o momento de um segundo terror, que parece absurdo porque não responde a uma resistência social e política, e visa a um controle total de todos os homens e de todos os pensamentos. O medo então se torna universal, ele se alastra no próprio partido, onde cada membro se sente ameaçado. Todo mundo denuncia todo mundo; todo mundo trai em cadeia.
Depois vem o terceiro estágio, o partido previne-se contra o expurgo permanente. Ele se contenta com uma gestão rotineira do poder e de sua segurança. Ele não crê mais na ideologia, mas continua a falar sua linguagem, e cuida para que essa linguagem, que ele sabe que é mentirosa, seja a única falada, pois ela é o sinal de sua dominação. Ele acumula os privilégios e as vantagens; transforma-se em casta. Ele entra em uma corrupção generalizada. Entre o povo, não se comparam mais seus membros a lobos, mas a porcos.
A periferia é constituída pelo restante da população. Na sua totalidade, de fato, esta é imediatamente convocada e mobilizada para a construção do socialismo. Ainda na sua totalidade ela sofre a ameaça, ela está exposta à mentira, ela é solicitada a participar do crime.
Ela está, antes de tudo, fechada. Todo governo comunista fecha as fronteiras, esse é um de seus primeiros atos. Os nazistas, até 1939, autorizavam as partidas, a troco de resgate. A “pureza” da Alemanha ganhava com isso. Mas jamais os comunistas. Eles têm necessidade do fechamento absoluto das fronteiras para proteger o segredo de suas matanças, de seu fracasso; mas, sobretudo, porque o país supostamente se tornou uma vasta escola em que todos devem receber a educação que extirpará o espírito do capitalismo e filtrará, em seu lugar, o espírito socialista.
O segundo passo é conttolar a informação. A população não deve saber o que se passa fora do campo socialista. Ela não deve tampouco saber o que se passa dentro. Ela não deve conhecer seu passado. Ela não deve conhecer seu presente: somente seu futuro radioso.
O terceiro é substituir a realidade por uma pseudo-realidade. Todo um corpo especializado no falso produz falsos jornalistas, falsos historiadores, uma falsa literatura, uma falsa arte que finge refletir fotograficamente uma realidade fictícia. Uma falsa economia produz estatísticas imaginárias. Acontece às vezes que as necessidades da cenografia chegam à adoção de medidas de estilo nazista. Assim, na URSS, os mutilados de guerra e do trabalho eram afastados da vista do público, transportados para asilos longínquos onde eles não chamavam mais atenção. Na Coréia, recordemos, são os anões, cuja “raça” deve desaparecer, que são deportados e impedidos de procriar. A construção dessa cenografia ocupa milhões de homens. Para que serve isso? Para provar que o socialismo não só é possível, mas que se constrói, se afirma, mais do que isso, que já está realizado: que existe uma sociedade nova, livre, auto-regulamentada, em que crescem os “homens novos” que pensam e agem espontaneamente conforme os cânones da realidade-ficção. O instrumento mais poderoso do poder é a confecção de um novo idioma em que as palavras assumem um sentido diferente do habitual. Sua elocução, seu vocabulário especial lhe dão o valor de uma linguagem litúrgica: ela denota a transcendência do socialismo. Ela assinala a onipotência do partido. Seu emprego pelo povo é a marca imediatamente visível de sua servidão.
No começo, uma parte importante da população recebe de boa-fé a pedagogia da mentira. Ela entra na nova moral com seu patrimônio moral antigo. Ela ama os dirigentes que lhe prometem a felicidade, ela crê que é feliz. Ela pensa viver na justiça. Ela detesta os inimigos do socialismo, ela os denuncia, aprova que eles sejam expropriados, que sejam mortos. Ela apóia seu extermínio com dureza. Ela participa do crime sem se dar conta. Ao mesmo tempo, ela se embrutece por ignorância, desinformação, raciocínios falsos. Ela perde suas referências intelectuais e suas referências morais.
A incapacidade de distinguir o comunismo do ideal moral comum faz com que, quando seu sentimento de justiça é ferido, ela atribua o abuso ao inimigo externo. Até a queda do comunismo, na Rússia, era freqüente os homens que sofriam maus-tratos pelos policiais ou pelos militantes os tratarem de “fascistas”. Não passava chamar-lhes por seu verdadeiro nome – comunistas.
E a vida, na cenografia socialista, em vez de se tornar “mais alegre, mais feliz”, como dizia Stalin, enfaticamente, em pleno “grande expurgo”, se torna mais sinistra, mais lúgubre. O medo invade tudo e é preciso sobreviver. O aviltamento moral, até ali inconsciente, penetra na consciência. O povo socialista, que fazia o mal acreditando que fazia o bem, sabe agora que o faz. Ele denuncia, rouba, se humilha, se torna mau, covarde e tem vergonha. O regime comunista não esconde seus crimes, como fez o nazismo; ele os proclama, convida a população a se associar a eles. Cada condenação é seguida de uma reunião de aprovação. O acusado é publicamente renegado por seus camaradas, sua mulher, seus filhos. Estes se unem à cerimônia por medo, por interesse. O stakhanovismo entusiasta dos primeiros tempos – se ele chegou a existir foi apenas como elemento cenográfico – é revelado no Homo sovieticus como um indolente, servil, imbecil. As mulheres sentem horror pelos homens. As crianças por seus pais, e sentem que se tornam aos poucos como eles.
O último estágio nos é descrito pelos escritores do fim do sovietismo, Erofeev, Zinoviev. Os sentimentos mais difundidos são o desespero e a repugnância de si mesmo. Resta aproveitar-se dos prazeres específicos que esse regime proporciona: a irresponsabilidade, a preguiça, a passividade vegetativa. Não vale mais a pena praticar o duplo pensamento, procura-se na verdade não pensar em nada. As pessoas se fecham sobre si mesmas. O sentimentalismo choroso, a selppity são uma maneira, como fazem os bêbados, de tomar os outros testemunhas de sua degradação. Estamos sempre no “ratorium' de Zinoviev, na luta hobbesiana de todos contra todos, mas com muito pouca energia. Zinoviev estimava que o Homo sovieticus era o produto de uma mutação irreversível da espécie. Provavelmente um erro.
Não há lugar protegido para escapar à pedagogia da mentira. Os quadros sociais da velha sociedade foram destruídos, juntamente com a propriedade, e substituídos por novos quadros que são outras tantas escolas e lugares de vigilância: o kolkhoz, a comuna popular chinesa para o camponês, o “sindicato” para o operário, as “Uniões” para o escritor e o artista. Pode-se descrever a história desses regimes como uma corrida permanente para o controle universal e, do lado dos indivíduos, como uma corrida perdida para encontrar refúgios ou pelo menos alguns recantos. Eles sempre existiram. Foi assim que na Rússia algumas famílias da velha intelligemsia souberam preservar suas tradições. Um Andrei Sakharov apareceu. Nas universidades, houve cátedras mais ou menos tranqüilas de assiriologia ou de filologia grega. Nas igrejas subjugadas, golpes de ar puro. No fim do regime, eram encontrados em Moscou pequenos grupos de jovens que, tendo recuperado a vida moral e intelectual, viviam voluntariamente de expedientes, não pegando nenhum trabalho, não brigando por nenhum posto, reduzindo ao mínimo os contatos com o exterior soviético. Eles se mantiveram assim até o fim.
No império soviético, o espírito reeducativo do comunista deter-se-ia na porta do campo. Para os nazistas, a conversão não tinha lugar, mas os bolcheviques praticamente renunciaram a converter os presos. Se bem que Soljenitsyn tenha podido afirmar que o campo era, apesar de seu horror, um lugar de liberdade intelectual e de respiração espiritual. O comunismo asiático fez dele, ao contrário, o lugar em que a pedagogia se exerce da maneira mais obsessiva, mais torturante. As autoridades observam o progresso do preso. Ele só sairá morto ou reeducado.
 
 
Avaliação
 
Pode-se tentar, nos limites que impõe o ponto de vista histórico, avaliar comparativamente a destruição moral produzida neste século pelo nazismo e pelo comunismo.
Por destruição moral, não entendo a desestruturação dos costumes, no sentido em que reclamam desde sempre as pessoas velhas olhando os costumes dos mais jovens. Eu não quero tampouco fazer um juízo sobre este século em comparação com outros. Não há nenhuma razão filosófica para pensar que o homem tenha sido mais virtuoso ou menos virtuoso. Resta que o comunismo e o nazismo buscaram mudar, agindo sobre os costumes, a regra moral, a consciência do bem e do mal. Por causa disso, algumas coisas que a experiência humana jamais tinha registrado foram cometidas.
Apesar de a intensidade no crime ser levada pelo nazismo a um grau que o comunismo talvez jamais se igualou, deve-se, no entanto, afirmar que este último a levou a uma destruição moral mais extensa e mais profunda. Por duas razões.
Em primeiro lugar, porque a obrigação de interiorizar a nova regra moral se estende à população inteira submetida à reeducação. As testemunhas nos dizem que esta interiorização obrigatória é a parte mais insuportável da opressão comunista: que todo o resto – a ausência das liberdades políticas e civis, a vigilância policial, a repressão física, o próprio medo – não é nada ao lado desta pedagogia mutilante, que se torna louca porque contradiz as evidências dos sentidos e do entendimento. Que toda a panóplia das “medidas” e dos “órgãos” lhe está finalmente subordinada. Como o comunismo, à diferença do nazismo, teve o tempo para ele, a pedagogia foi até o fim. Sua queda ou sua retirada de cena deixaram como herança uma humanidade arruinada, e o envenenamento das almas é mais difícil de ser expurgado que na Alemanha, que, afetada por uma alienação temporária, despertou de seu pesadelo pronta para o trabalho, o exame de consciência e o arrependimento purificador.
Em seguida, porque a confusão permanece insuperável entre a moral comum e a moral comunista, esta se escondendo atrás daquela, tornando-se parasita dela, gangrenando-a, fazendo dela o instrumento de seu contágio. Um exemplo recente: nas discussões que se seguiram à publicação do Livro Negro, um editorialista do L’Humanité declarou à televisão que os oitenta milhões de mortos não manchavam em nada o ideal comunista. Eles representavam apenas um lamentável desvio. Depois de Auschwitz, continuou ele, não se pode ser mais nazista; mas depois dos campos soviéticos, pode-se continuar sendo comunista. Esse homem que falava com consciência não se dava de forma alguma conta de que ele acabava de formular sua mais fatal condenação. Ele não percebia que a ideia comunista tinha pervertido de tal forma o princípio de realidade e o princípio moral, que ela não poderia de fato sobreviver a oitenta milhões de cadáveres, ao passo que a ideia nazista tinha sucumbido sob os seus. Acreditando falar como um homem muito honesto, idealista e intransigente, ele tinha pronunciado uma palavra monstruosa. O comunismo é mais perverso que o nazismo porque ele não pede ao homem que atue conscientemente como um criminoso, mas, ao contrário, se serve do espírito de justiça e de bondade que se estendeu por toda a terra para difundir em toda a terra o mal. Cada experiência comunista é recomeçada na inocência.


(ALAIN BESANÇON - A INFELICIDADE DO SÉCULO, SOBRE O COMUNISMO,
 O NAZISMO
 E A UNICIDADE DA SHOAH)
 

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