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Platão se serve com frequência de mitos para expor suas ideias. Há quem goste dos deuses e de suas aventuras. Mas, num texto filosófico, não é o que mais importa. Trata-se de artifício didático, como os exemplos dados em aula que ajudam a aproximar a ideia filosófica abstrata do repertório presumido do auditório.
A cena relatada é de um tempo em que homens e animais ainda não tinham dado as caras no mundo. Só havia deuses. Como Epimeteu e Prometeu, dois irmãos, filhos de titãs. E imortais, claro, como todos os deuses. Mas, a despeito de gozarem de tal privilégio, eram divindades secundárias. Dessas que nunca seriam chamadas para decidir ou fazer nada de importante.
Essa dupla vai merecer a atenção de Protágoras, conhecido sofista, num momento em que Zeus já havia vencido os titãs e colocado ordem na casa. Apesar da filiação, os irmãos não foram trancafiados no Tártaro, como seus pais. E é curioso o motivo de sua aparição na cena mitológica.
Zeus tinha instituído o Cosmos. Distribuiu o mundo aos seus parceiros. Passado um primeiro momento de alívio pelo fim da guerra entre a primeira e a segunda geração de deuses, seguiu-se um enorme tédio. Imaginem, depois do caos completo, as coisas todas em seus devidos lugares. Tudo adequadamente disposto. Lógico, cíclico e previsível. Astros em suas órbitas, dias e noites, ventos e marés. Tudo numa regularidade irritante, excluindo rigorosamente toda e qualquer possibilidade de surpresa. Os deuses não suportavam mais tanto marasmo. Era preciso dar um jeito naquilo. Epimeteu e Prometeu foram, então, escalados para fabricar mortais.
Uma interrupção rápida aqui para algumas inferências. Primeiro: o motivo inicial da produção de mortais foi o tédio. Isto é, se você, caro leitor, e eu estamos por aqui é porque os deuses estavam aborrecidos com a engenhoca cósmica que eles mesmos inventaram. Somos filhos do enfado divino. Cá entre nós, se não for do divino, pelo menos do tédio de muitos pais mortais, especialmente nos tempos pré-televisivos ou restritos à TV aberta.
Segundo: podemos deduzir deste enfado o que os deuses esperavam de nós, mortais, ao patrocinar e autorizar nossa existência. No mínimo, divertimento ou entretenimento. Bobos da corte olimpiana. E não só para fazer rir. Mas gozar também. Sabe-se que Zeus, deus dos deuses, tinha clara preferência pelas amantes humanas.
Terceiro: na hora de executar a fabricação dos mortais, o que incluía outros animais e plantas, deixaram a tarefa para dois deuses de quinta categoria! Como aqueles jogadores que ficam sempre no banco de reservas. Desprestígio total. Um deles, menos ligeiro das ideias que o outro. Epimeteu quer dizer aquele que pensa depois. E Prometeu, o contrário, aquele que pensa antes. Um lerdinho, outro espertinho.
Bem, o fato é que Epimeteu e Prometeu arregaçaram as mangas. E este último, sempre mais afoito para agir, propôs uma divisão da tarefa. Aquele se incumbiria dos animais. E deixaria os homens para o irmão, Prometeu, o mais antenado, que pensava um pouco mais antes de agir.
Epimeteu recorreu a todos os recursos naturais disponíveis para produzir os animais. E o fez à moda de Zeus. Buscando o equilíbrio, criando uma verdadeira biosfera. De tal modo que todos os animais pudessem dispor de algum recurso para enfrentar as intempéries e predadores. Assim, os mais pesados, os mais velozes, os mais contundentes, os mais ágeis. Uns com couro, outros com carapaça, outros com ferrão, etc. Cada um na sua. Preocupou-se também com o todo. Com a preservação de todas as espécies, do entorno, do meio ambiente. Assim, por exemplo, carnívoros alcançam mais rapidamente a saciedade do que herbívoros. A distribuição dos recursos naturais alinhava naturalmente cada criatura ao cosmos definido por Zeus. Apesar de Epimeteu ser Epimeteu, fez um trabalho de grande inteligência.
A não ser pelo fato de ter deixado seu irmão na mão. Ao conceder aos animais todos os bens naturais, note bem, TODOS, acabou condenando Prometeu a fazer o homem sem nada, praticamente sem recursos. Lembro-me de meu primeiro Chevette S. Nunca soube o que o “S” queria dizer ao certo. Simples, talvez. Standard, dirão os mais entendidos. Ou, “S” de sem nada. Nenhum acessório. Recurso zero. Nem couro, nem barbatana, nem muita força, nem peso, nem faro potente, nem mandíbula, nem nada.
Atente para este “nada”. Vamos precisar dele mais tarde. Em pleno século XX. Na hora em que o existencialismo de Jean-Paul Sartre for explicar o que entende por liberdade em O ser e o nada.
Para compensar tanta carência natural, Prometeu se viu obrigado a roubar, no palácio de Atena, a astúcia. Surrupiou também o fogo em outro lugar. Assim, o homem, zerado de natureza, “nadadizado” de recursos, poderia, produzir com próprio esforço tudo o que precisasse, as ferramentas que lhe fossem necessárias.
Poderia também fazer da vida o que bem entendesse. Sem as habilidades garantidas por Epimeteu aos animais, o homem viu-se desobrigado de qualquer alinhamento. Se a vida dependia da sua astúcia, o homem não poderia ser nada antes de usá-la. Em outras palavras, a burrada de Epimeteu nos deixou num mato sem cachorro. Porém, livres para viver do próprio modo. No nosso caso, alinhar-nos com o universo cósmico é uma questão ética. Uma escolha. Contingente. Que exige saberes sobre nós mesmos e sobre o universo. Saberes que nem sempre temos.
Ancestralidade pouco nobre, portanto, esta da liberdade. E, como se não bastasse, os deuses ficaram furiosos. Prometeu foi castigado por Zeus. Amarrado em um Rochedo, sofreu com o ataque das aves de rapina que queriam comer suas vísceras. Crueldade redobrada se considerarmos que se tratava de um deus, que não morria nunca. Prometeu acabou solto pela intervenção do filho de Zeus. Vale a pena a leitura do relato platônico. Sempre tendo em mente a problemática filosófica que lhe confere densidade. Esta reflexão sobre a liberdade acabou tendo sequência no pensamento moderno. Com Jean-Jacques Rousseau.

(Clóvis de Barros Filho e Júlio Pompeu - A filosofia explica as grandes questões da humanidade)

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publicado às 21:28



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