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Bichinhos na gente 2

por Thynus, em 20.09.16
A regulamentação dos antibióticos, parte 1
Em 1937, uma companhia farmacêutica dos EUA produziu uma droga à base de sulfa com sabor de framboesa. Que simpático da parte deles. Menos simpático foi o fato de utilizarem dietilenoglicol como solvente. Depois da morte de mais de 100 pessoas por envenenamento por essa substância , descobriu-se que a companhia não tinha realizado testes de segurança para checar seu produto. Pior ainda foi o fato de que a companhia não havia quebrado nenhuma lei, a não ser pela inclusão da palavra “elixir” no nome do produto, quando na verdade este não continha álcool. Esse ato foi ilegal; envenenar as pessoas não foi, e a companhia se safou sem grandes punições. A revolta contra esse absurdo trágico fez com que a Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora de drogas e alimentos dos EUA, ganhasse muito mais poder. Desde então, a FDA, cujos parâmetros são muito estritos, tornou-se responsável por aprovar (ou não) todas as drogas vendidas nos EUA, o que tem importantes repercussões globais.
 
Descoberta e produção de antibióticos

 

Chegamos agora a um dos eventos mais encantadores da história da ciência: em 1928, o dr. Alexander Fleming retorna de umas longas férias a seu notoriamente desorganizado laboratório no Hospital St. Mary, em Londres. Entre as muitas placas de cultura empilhadas em sua embalagem desinfetante, ele notou uma que estava fortuitamente equilibrada no topo de uma pilha de placas e, portanto, não fora tocada pelo banho antisséptico. A placa estava contaminada por um fungo, e embora toda ela estivesse cheia de uma mistura opaca de colônias de bactérias, um círculo ao redor do fungo contaminante continuava livre delas.
Esse momento singular — quando, em meio a tudo o que certamente passava por sua mente naquele instante, Fleming notou um detalhe curioso e compreendeu suas possíveis implicações — é a ciência no que ela tem de melhor.8
Fleming isolou o fungo, identificando-o corretamente como o Penicillium notatum (P. notatum), e conseguiu isolar o composto antibacteriano produzido, que denominou penicilina. Os resultados foram publicados um ano depois, sendo amplamente ignorados pelos poucos que os leram.
Esse evento desperta algumas das perguntas mais inquietantes da história médica e científica: qual é o lugar da sorte nas descobertas científicas? E se Fleming tivesse sido só um pouquinho mais organizado? E se aquela cepa específica de fungo — uma cepa que, como se descobriu posteriormente, havia sido uma enorme hiperprodutora de penicilina, muito além da taxa normal para o P. notatum — não tivesse pairado pelo ar até cair naquele laboratório em particular? E se o clima tivesse sido diferente e não estimulasse o crescimento do fungo? E se Fleming tivesse voltado mais cedo, antes que o fungo tivesse tempo de provocar sua marca visível na placa? E se ele estivesse preocupado, ou apenas de ressaca, e não notasse o fungo? Como seria nosso mundo nesse caso? Em termos mais práticos, será possível que coisas assim aconteçam o tempo todo sem que as percebamos, e que tenhamos como melhorar nossa chance de notá-las?
Com base em casos semelhantes e no senso comum, parece seguro dizermos que a penicilina teria sido descoberta mais cedo ou mais tarde e que os desenvolvimentos médicos e científicos não teriam sido radicalmente diferentes. Qualquer especulação sobre a diferença que isso teria feito para a história em geral não passa de um chute.
Vale a pena ressaltarmos dois pontos: as pessoas começaram a notar as propriedades antibacterianas dos fungos Penicillium antes de Fleming (ainda que ele tenha sido o primeiro a isolar o ingrediente ativo), e o próprio Fleming, ao que parece, não percebeu inteiramente, naquele momento (ou na década que se seguiu), o grande potencial de sua descoberta. Ele explorou outras opções antibacterianas que julgou serem mais promissoras, fez uso da penicilina para modestos fins diagnósticos em seu laboratório e para tratar infecções cutâneas e não explorou as possibilidades clínicas da penicilina, nem tentou atrair vigorosamente o interesse da comunidade científica sobre o composto.
Por mais de uma década após sua purificação, não havia penicilina suficiente no mundo para curar um único paciente. Em 1939, os pesquisadores Howard Florey e Ernest Chain ficaram curiosos e finalmente deram atenção à descoberta de Fleming. Seguiu-se um esforço em grande escala para produzir quantidades viáveis de penicilina. Inicialmente, a produção só tinha objetivos científicos; porém, quando seu potencial pleno foi notado, o Departamento de Defesa dos EUA se envolveu na história. Para a produção em grande escala, foi necessária a colaboração transatlântica (durante a guerra, quando era muito perigoso atravessar o Oceano Atlântico) e outras grandes medidas de sorte, acaso e trabalho duro bastante concentrado, além de contribuições generosas da parte de um grande número de pessoas muito inventivas.9
Fleming merece grande parte do mérito por sua contribuição, mas a imagem popular segundo a qual ele foi o salvador solitário da humanidade presta um grande desserviço a todos aqueles que trabalharam antes e depois dele de modo a trazer a descoberta até seus estágios aplicáveis. Um momento “eureca”, por mais brilhante que seja, nunca é suficiente.
Perto do final da Segunda Guerra Mundial, já havia grande disponibilidade de penicilina. Ela foi inicialmente administrada aos soldados Aliados (para substituir as drogas à base de sulfa, mais primitivas, que tinham a desvantagem adicional de serem uma inovação alemã), salvou muitas vidas e curou muitas doenças (entre elas, uma condição muito prevalente e bastante relacionada aos combates, a gonorreia).
Seguiu-se uma onda de inovações científicas, e novos antibióticos passaram a ser descobertos e produzidos regularmente. O futuro parecia mais brilhante que nunca. A humanidade havia finalmente ganhado a dianteira na luta contra o mundo natural. O átomo fora dominado para a geração de energia, o espaço sideral estava a nosso alcance e a humanidade seguia firmemente no caminho de se livrar da maldição ancestral da morte e do sofrimento causados pelas doenças — era um admirável mundo novo. Em 1967, conta-se que o cirurgião-geral do serviço de saúde dos EUA, William H. Stewart, afirmou que a ciência médica já podia “parar de se preocupar com as doenças infecciosas” e voltar seus esforços para outras aflições, como as doenças cardíacas.10
Mais recentemente, a produção de antibióticos passou para o âmbito do mundo comercial, no qual responde a considerações de mercado, tais como facilidade de produção, preço e estabilidade. Afinal de contas, uma droga maravilhosa que perde a validade ao ser estocada por uma semana, não podendo mais ser utilizada, ou cuja produção é excessivamente cara, não tem muita utilidade.
 
O império contra-ataca
No fim das contas, a batalha não foi tão simples quanto parecia: a Lua continua a se mover em seu trajeto regular, e podemos ter confiança de que não se desviará quando tentarmos aterrissar nela pela segunda ou pela centésima vez; um átomo é algo difícil de dividir, mas não é cada vez mais difícil dividir átomos com o passar do tempo. As entidades biológicas, no entanto, têm um comportamento diferente — elas se adaptam.
Temos o mérito de ter antevisto a chegada do problema: os pesquisadores (Fleming inclusive) observaram, já em 1946, que a resistência bacteriana aos antibióticos era possível. Temos também o demérito de não ter feito muito a esse respeito: recém-descobertos, os poderes dos antibióticos se mostraram tão incrivelmente úteis que tivemos dificuldade em exercitar a cautela. Além disso, por que nos preocuparíamos? As bactérias não podem evoluir tão rápido assim, podem? Certamente devemos ser capazes de acabar com todas elas antes que fiquem mais espertas.
Hoje em dia, temos uma noção mais clara da situação: sabemos que há grandes obstáculos ante a eliminação de toda uma espécie de bactérias patogênicas, e sabemos que as bactérias não só evoluem muito rapidamente — quando uma geração dura 20 minutos, isso é bastante fácil de acontecer —, como também ajudam umas às outras a fazê-lo.
Também estamos começando a enxergar toda a escala dos efeitos da THG, que ninguém conhecia há 50 anos: se uma espécie bacteriana consegue desenvolver um gene que a torna resistente contra um antibiótico, outras espécies podem assimilar esse gene — elas não precisam reinventar a roda a cada vez. Os patógenos resistentes a antibióticos, por exemplo, apareceram com bastante rapidez (especialmente em hospitais, onde convergem muitas doenças e muitos antibióticos), e agora estão se disseminando pelo mundo de maneira lenta, porém estável.
A situação é agravada pelo fato de que os antibióticos foram (e em grande medida, ainda são) utilizados de maneira não adequada. Alguns médicos continuam a administrá-los inapropriadamente para tratar doenças que não responderão a eles — geralmente para satisfazer os pedidos dos pacientes, para não serem vistos como negligentes, ou como uma medida de segurança geral, quando o diagnóstico é incerto. Os pacientes muitas vezes deixam de tomar sua medicação quando se sentem melhor, o que não é necessariamente o momento em que os germes prejudiciais foram exterminados de seu organismo.
O pior uso dos antibióticos, entretanto, deriva de um interesse puramente econômico: são dados rotineiramente aos animais de abate para prevenir doenças e estimular seu crescimento. Isso faz com que uma quantidade enorme de antibióticos (estimada em aproximadamente 90% de todo o contingente utilizado em todo o mundo) seja dada a animais perfeitamente saudáveis. Isso funciona bastante bem para o fazendeiro a curto prazo, mas significa que haverá muitos antibióticos desnecessários por aí, o que gera um problema: se um germe for exposto a um antibiótico a um nível abaixo do letal, ou por um período de tempo mais curto que o letal, sua chance de desenvolver resistência a esse medicamento aumenta (especialmente se a situação persistir por diversas gerações), como ocorreria com qualquer adaptação a condições ambientais. Estamos, por assim dizer, aclimatando o germe aos antibióticos.
 
Como resolver um problema como a resistência?
A resistência aos antibióticos ocorre por muitas razões: pode se dar pela presença de uma enzima bacteriana que desintegra o antibiótico, por uma modificação no alvo do antibiótico, de modo que uma droga que atue ligando-se a uma proteína crítica dentro do micróbio não encontre mais a proteína, ou pela presença de uma estrutura proteica chamada bomba de efluxo de múltiplas drogas na membrana externa da bactéria. Também chamada de “aspirador molecular”, a bomba de efluxo elimina substâncias das células bacterianas — o que faz com que o micróbio, em um ato de grande desconsideração por todo o trabalho que tivemos para encontrar um veneno apropriado contra ele, jogue-o imediatamente para o exterior e continue a viver. Essas bombas são muito eficazes (não só com bactérias, como também em outros tipos de células, inclusive tumores cancerígenos), porque não são específicas para nenhum tipo particular de substância, conferindo resistência contra muitos antibióticos de uma só vez.
Não é fácil driblar a resistência aos antibióticos. Existem duas abordagens complementares: a primeira é fazer com que a ciência médica jogue no ataque, e a segunda é deixar que o resto do mundo melhore sua defesa.
O ataque consiste em encontrarmos drogas mais novas e melhores contra outras estruturas e mecanismos exclusivos das bactérias, ou contra os próprios mecanismos de resistência. A descoberta de novos medicamentos pode ser feita testando-se vários organismos vivos em busca de moléculas ativas (foi assim que os antibióticos se originaram, lembra?) ou pela criação racional de drogas: geramos modelos por computador do alvo bacteriano de modo a projetar uma molécula artificial que irá se ligar a ele ou inibir sua ação. A criação racional de drogas pode ser realizada em um laboratório e não requer que caminhemos pela selva selecionando milhares de moléculas, mas para isso precisamos de boas informações iniciais sobre o alvo molecular e uma potência computacional descomunal. Até agora, esse sistema tem sido menos eficaz que o método tradicional, mas temos de lhe dar algum tempo.
Uma estratégia de tratamento simples e inteligente que utiliza drogas existentes e que muitas vezes traz bons resultados é o golpe duplo: dar ao paciente dois antibióticos diferentes de uma só vez, na esperança de que, se houver ali germes resistentes somente ao antibiótico A, eles sucumbirão ao antibiótico B e vice-versa. Isso muitas vezes funciona bem, mas nem sempre: germes multirresistentes são cada vez mais comuns, e nossas opções se reduzem a cada vez que experimentamos essa estratégia.
A abordagem defensiva é mais uma questão de saúde pública: requer um aumento da consciência e leis mais rígidas para eliminar o uso desnecessário de antibióticos em humanos e animais, e essas medidas estão fora da jurisdição da comunidade médica e científica.
 
A regulamentação dos antibióticos, parte 2 (e um pouco de política)
Na disputa entre humanos e micróbios, o time dos microrganismos é mais rápido: eles jogam em equipe e têm mais experiência. Nós somos novatos, e os únicos aspectos que temos a nosso favor são nossa inteligência, uma certa estratégia de jogo e, potencialmente, um orçamento maior para o campeonato.
Neste momento, porém, as companhias farmacêuticas estão fazendo pesquisas em temas mais lucrativos, como doenças cardíacas, diabetes, câncer, mal de Alzheimer, obesidade e impotência. As doenças infecciosas ainda não são um problema grande o suficiente para justificar o investimento — trocando em miúdos, não há uma quantidade suficiente de pessoas em sofrimento para tornar o mercado lucrativo.11 A pesquisa governamental tem recursos limitados, e ainda não há suficientes clamores públicos para chamar a atenção dos políticos. Se você está lembrado do que eu disse antes, a pesquisa sobre a penicilina só decolou quando o governo dos EUA decidiu (após ser persuadido pelo pesquisador australiano Howard Florey) que isso fazia parte do esforço de guerra. Um fato triste, na minha opinião.
Um problema bastante relacionado é a velocidade limitada na qual conseguimos avançar quando estamos falando em desenvolvimento científico: a quantidade de tempo necessária para desenvolvermos uma nova droga é medida em anos, quando não em décadas. Sempre há muitas pistas promissoras por onde podemos começar: eu já perdi há tempos o número de artigos profissionais ou propostas de pesquisa que li terminadas nas seguintes palavras: “Estas descobertas podem ter importantes aplicações terapêuticas.” O problema é que as exigências a serem atendidas são tantas que somente uma minúscula porcentagem das pesquisas inovadoras acaba dando em uma nova droga ou tratamento na prateleira da farmácia ou no hospital, e o processo de separar o útil do inútil é longo e tortuoso.
Os micróbios, por outro lado, além de erigirem defesas com mais rapidez, também não se veem impedidos por considerações morais ou políticas. Quando morre um bilhão de bactérias e uma única delas resistente sobrevive, tudo correu perfeitamente conforme o esperado. Para nós, até mesmo uma única morte humana é excessiva. Temos maneiras de proteger os indivíduos — entre elas, principalmente as leis e regulamentações governamentais. Hoje em dia, antes que o uso de uma droga seja aprovado, é preciso demonstrar que ela não vai prejudicar ninguém, o que requer estudos clínicos prolongados (e caros). Eu não gostaria que fosse de outra forma (gosto tanto de ser envenenado por empresas quanto você), mas ainda assim trata-se de um obstáculo, e é necessário atingir um equilíbrio delicado entre segurança e urgência — um problema que as agências regulatórias enfrentam constantemente. Nos idos de 1988, por exemplo, pessoas que sofriam com a Aids cercaram o escritório central da FDA e o fecharam por um dia em protesto contra o que, para eles, era uma regulamentação excessivamente estrita que retardava a aprovação de novas drogas antivirais. Estamos morrendo agora, diziam, permitam que usemos essas drogas, por favor; não vamos estar por aqui mais tarde. A FDA concordou em acelerar a aprovação de drogas em certos casos, mas esse equilíbrio tenso entre os interesses da indústria, da comunidade e do governo persiste.
 
Nós somos o mundo?

 

Enquanto isso, mais de seis décadas após seu início, a revolução dos antibióticos ainda está para chegar a muitas partes do mundo. Fora dos países ocidentais, as pessoas (especialmente as crianças) continuam a morrer das mesmas velhas doenças — doenças que podem ser curadas por medicamentos já existentes e baratos, mas aos quais não têm acesso por falta de recursos. Doadores privados e organizações humanitárias decidiram recentemente assumir uma parcela da responsabilidade por essa situação, provendo fundos para financiar parte das pesquisas e tratamentos necessários para essas doenças. Na minha opinião, isso é fantástico, e espero que funcione. Também espero que esteja sendo feito com sabedoria. Além disso, ver Bill Gates e Bob Geldof concordarem em alguma coisa me traz um inesperado prazer.
 
Dois futuros
O que temos pela frente? Tentei procurar “profetas” na lista telefônica, mas a categoria mais próxima que encontrei foi a de “consultor financeiro” (uma estranha coincidência), portanto vou ter de apresentar os dois cenários possíveis que consigo antever:
No primeiro, as gerações futuras sofrem com bactérias resistentes e disseminadas, padecem novamente de doenças que todos já tínhamos esquecido e nos culpam por nosso egoísmo e incapacidade de prever o que viria pela frente.
No segundo, uma ou mais das linhas de pesquisa atualmente em curso geram novas soluções, e as gerações vindouras sentem pena de nós por nossas medidas primitivas e nosso sofrimento, assim como nós, hoje, sentimos pena das gerações passadas.
Estou torcendo pelo segundo futuro. É bastante possível que uma solução situada fora dos paradigmas correntes venha a nos ajudar. Fizemos enormes avanços na área da imunologia, o que melhorou nossa compreensão sobre a atuação de nosso corpo contra os invasores, e podemos encontrar novas maneiras de reforçar essas defesas. Outros desenvolvimentos, como a terapia fágica, a terapia por RNA, os probióticos (uma palavra de efeito usada por produtores de iogurte, mas que também se trata de uma área com certo potencial) ou algo inteiramente diferente do qual ainda não suspeitamos, podem vir a ser a nossa salvação, ao menos temporariamente.
O passado nos mostrou que os grandes avanços científicos muitas vezes têm origens humildes e inesperadas. Qualquer coisa que venhamos a aprender sobre os antibióticos poderá trazer a nova grande inovação — quem sabe, a próxima droga maravilhosa poderá entrar flutuando pela janela, como ocorreu com Fleming.
 
Exatamente o que o médico receitou

 

Os cientistas adoram o trabalho de pesquisa. Ele certamente os mantém ocupados. O que o resto de nós pode fazer enquanto isso é bem simples: além de tomar o remédio correto, como boas criancinhas, nosso melhor método de proteção é o mais antigo de todos — precisamos dar suporte ao complexo sistema imune que nos protege a cada momento de nossas vidas. O corpo é capaz de se defender bastante bem, e precisamos lhe dar condições para fazê-lo — atitudes simples, como comer adequadamente, fazer exercício e dormir bem. Não é uma apólice de seguros, mas vale a pena.
 
Uma pitada de antibiótico

 

Diz-se que um homem sábio aprende com os erros dos outros. Já que meu objetivo é fazer com que os leitores deste livro se tornem mais sábios que o resto de seus companheiros humanos, ofereço aqui estes conselhos dolorosamente aprendidos: depois de servir o zhoug verde, não lamba a colher.
Zhoug é um condimento de origem iemenita. É preparado com pimenta malagueta, alho, salsa e outros trecos admiráveis. Tem um gosto incrivelmente forte — em especial a variedade verde. Vai bem, se usado cautelosamente, com carne, peixe e outros pratos. Não vai bem com o meu sistema digestivo quando misturo uma porção tamanho pronto-socorro no meu húmus para tornar o jantar mais interessante. Ainda assim, eu cometo o mesmo erro repetidamente. Por que me tentais, ó mistura demoníaca?
Temperar; salgar; conservar as frutas no açúcar e os vegetais no vinagre; defumar a carne ou o peixe; fermentar praticamente qualquer coisa para gerar álcool; ferver; cozinhar; fritar — são muitas as maneiras incríveis inventadas por nós, humanos, para tratarmos os alimentos ao longo das eras.
Não vemos outros animais fazendo o mesmo: ninguém jamais observou esquilos apimentando delicadamente suas nozes, e as chitas não acrescentam canela a seu antílope tartare. Tudo bem, algumas vespas mantêm suas presas (aranhas) vivas porém paralisadas, de modo que suas crias tenham carne fresca quando eclodirem dos ovos, e a desconcertante abelha tropical Trigona hypogea tempera sua comida (carne semidigerida de carcaças animais) com bactérias Bacillus para ajudar suas larvas a digeri-la à perfeição. Elas também parecem secretar substâncias antibióticas que evitam que esse caldo de carne estrague no calor tropical. Porém, a não ser por esses casos, a culinária mais sofisticada que conheço por parte de algum organismo não humano consiste em deixar a comida ao relento, ou enterrada, até que amadureça um pouco mais. Os humanos, nós apenas, temos que complicar as coisas.
O motivo óbvio pelo qual temperamos e preparamos nossos alimentos é porque somos capazes de fazê-lo. Isso melhora o sabor, facilita a digestão e torna a comida mais interessante. Temos mãos capazes de operar um saleiro e conseguimos domesticar o fogo — uma inovação cuja melhor aplicação de todos os tempos certamente deve ser o churrasco. Mas isso não resume toda a história. Temos boas razões para acreditar que o fato de que todas essas medidas impeçam a sobrevivência de micróbios em nossa comida não seja uma coincidência.
Este é um ponto sutil: nós não tínhamos uma preferência inerente pela comida preparada dessa maneira. Na verdade, ao longo de milhares e milhares de anos, fomos adaptando lentamente nosso paladar coletivo.12 Nós, como espécie, acabamos por nos acostumar ao sabor da comida quando preservada dessas maneiras.
Não é por coincidência que a comida picante vem de países quentes. Nos lugares em que o calor estraga os alimentos com mais rapidez, temperar a comida é uma boa maneira de preservá-la — não indefinidamente, é claro, mas isso ajuda por algum tempo, quando não temos uma geladeira onde guardar os alimentos.
Condições extremas como o calor, a salinidade ou a acidez não atuam como um escudo contra os micróbios; já os vimos sobreviver em tais condições nos capítulos anteriores. Porém, é interessante notar que, como regra, os microrganismos que conseguem sobreviver em condições extremas não causam doenças. Um micróbio que cause uma doença infecciosa é, quase por definição, aquele cujas condições ideais de crescimento estão muito próximas às encontradas dentro do corpo humano. Faz sentido, não é mesmo?13
Você talvez tenha se perguntado por que eu incluí o açúcar na lista de conservantes. Desde quando o açúcar é uma substância antimicrobiana? Será que estou sendo financiado por algum produtor de pirulitos?
O que temos que entender aqui é que concentrações diferentes de substâncias afetam os micróbios de distintas maneiras. Os microrganismos preferem certas condições: a barreira entre seu ambiente interno e o resto do mundo é muito fina, e seu contato com o mundo exterior, portanto, é bastante intenso. Uma geleia ambiental repleta de açúcar ou sal provoca o caos em seu metabolismo — a água literalmente será sugada de seu interior pela alta concentração de solutos existente do lado de fora. Em concentrações reduzidas, o açúcar e o sal podem se tornar uma ameaça, pois os micróbios os buscam avidamente. O apodrecimento dos dentes, por exemplo, é causado por micróbios que vivem em nossos dentes à espera do açúcar que passará por lá. Eles ficam por ali secretando um ácido que dissolve o esmalte protetor de nossos dentes — este é apenas um efeito colateral de suas vidas; eles não têm a intenção de causar qualquer dano (um fato que certamente dará a você um grande consolo quando tiver que pagar a próxima conta do dentista).
Os condimentos, por outro lado, têm uma relação diferente com os micróbios. São encontrados em plantas vivas, defendendo-as da invasão de micróbios de diversas maneiras. Quando colocamos manjericão ou orégano em um prato, o que estamos fazendo é temperá-lo com antibióticos naturais. O alho e a cebola estão no topo da lista quando falamos em força antimicrobiana — e consumir esses alimentos também previne doenças de outra maneira: eles evitam que as pessoas se aproximem de nós, o que minimiza nossa chance de pegarmos qualquer resfriado, gripe ou DST que esteja passando por aí.
 
FAIXA BÔNUS № 5: Minha amada

Como pude ter feito isso contigo? Estivemos juntos por tanto tempo. Doze anos se passaram desde nosso primeiro encontro. Não lembro onde foi que o acaso nos aproximou pela primeira vez, mas tens estado comigo desde então.

Tu sabes, tanto quanto eu, que nossa união foi turbulenta desde o início. Já naqueles cálidos primeiros dias, muitas vezes desejei que te fosses. Escondi tua existência de todos os meus conhecidos — muitos são os que desdenham de encontros como o nosso. Eu não poderia suportar a ideia de expô-los publicamente, e sempre tive de guardar o tempo que passamos juntos como algo intensamente privado.

Oh, mas quanta alegria me trouxeram esses momentos. Os prazeres da carne tornados duas vezes mais doces, por ilícitos. O êxtase passado nesses breves momentos roubados; e ainda assim, eu me arrependeria após cada encontro. “Nunca mais”, repreendia-me, “entregar-me-ei a essas paixões primitivas, animais. Este é um caso maldito que só me trará a desdita.”

Por vezes, convenci-me de que te havias ido definitivamente de minha vida — um tema do passado, a ser recordado com a mescla apaziguante da nostalgia e da compunção, isto quando rememorado. Porém, uma e outra vez regressaste a mim, chamando-me com a brisa do verão, e eu aquiesci. Posso dizer, em minha defesa, que nem uma única vez aspirei apressar tua chegada ou delongar voluntariamente tua estada, mas estou perfeitamente ciente de que estas não passam de meras escusas.

A princípio, eras modesta e comedida — satisfeita com teu lugar em minha vida. Mas com o passar dos anos, tornaste-te mais exigente, tuas visitas mais acaloradas, e as marcas que me deixavam, mais indeléveis. Tentei chamar-te à razão. Falei: “Sou agora um homem tomado — não posso mais prosseguir com isto.” Mas tu persististe, e nada pude fazer ante teu ardente canto de sereia, quando este se aproximava.

A última gota, minha querida, veio quando surgiste mais uma vez, no verão passado, fervente como sempre. Guardarei eternamente essa temporada com apreço em minha memória, pois foi um tempo apaixonado, e meu prazer atingiu alturas que eu jamais conhecera contigo. Ainda assim, tu te tornaste ainda mais possessiva. Não te limitavas ao lugar em que sempre te havias mantido, querias expandir-te, explorar. Necessitavas apropriar-te de mim como nunca antes.

Eu não podia com isso. Nossa relação chegava ao ocaso. Eu já não era o jovem despreocupado que fora quando nos conhecemos. Tentei encerrar nosso caso com delicadeza; um rompimento puro e amigável — mas tu não o aceitaste. Não te culpo, pois eu deveria ter sido mais rigoroso desde o início, jamais poderia ter permitido que te aferrastes a mim. Peço perdão, minha querida. Não me deste opção além da derradeira.

Por fim, executei o feito. Permiti que meu coração endurecesse, ignorei as tuas súplicas e te sufoquei repetidamente, até que perecesses.

Agora te fostes, Tinea pedis, partiste de meu pé esquerdo para sempre. O creme antifúngico cumpriu bem sua função. Ainda assim, lembro-me de ti com carinho. Um envolvimento com alguém como tu não passava de um tabu em nossa sociedade, e qualquer traço de satisfação extraído da experiência jamais poderia ser mencionado. És algo do qual devemos nos livrar, e não saborear — ainda assim, suspeito não ser o único mortal a ter sucumbido a tal pecado. Por vezes me surpreendo contemplando o lugar que guardavas, ali entre o segundo e terceiro dedos de meu pé, e a pontada pungente e inebriante da proibição ecoa novamente em minha memória. Jamais te esquecerei.
 
 
(Idan Ben-Barak - Pequenas Maravilhas: como os micróbios governam o mundo) 
1 Quando eu era adolescente, tive uma camiseta que usei incessantemente. Não era especialmente bonita, e, além disso, ela já tinha 20 anos quando a herdei. No final, eu já não sabia direito quais eram os buracos originais destinados aos braços e à cabeça. Tive que a resgatar duas vezes do cesto de lixo, e uma vez consegui evitar que minha mãe a usasse como pano de chão. Por fim, minha irmã, desesperada, colocou-a em uma moldura e a entregou a mim em uma cerimônia curta, mas muito emocionante.
2 De maneira interessante – muito interessante – o estudo de 2009 que mencionei na seção anterior mostra que vírus de resfriado podem praticar uma versão do mesmo truque de mixagem como vírus da gripe. Esses malandrinhos!
3 A menos, é claro, que você goste dessas imagens.
4 Esse é, obviamente, o modo como funcionam as vacinas: elas expõem o corpo a uma versão inócua do patógeno, o que nos permite gerar resistência contra ele.
5 O outro lado da moeda — um corpo que consegue finalmente se livrar de um invasor persistente — também ocorre, mas como não se manifesta por meio de nenhum sintoma ou surto, normalmente não nos damos conta de sua ocorrência.
6 O alcoolismo, outro aspecto dos contatos interculturais, tem muita semelhança com a dinâmica das doenças infecciosas, já que as populações que não haviam sido expostas ao consumo de álcool antes do contato com os europeus (e cujos corpos não precisaram desenvolver evolutivamente as adaptações necessárias para lidar com ele) foram afetadas severamente por seus efeitos.
7 Você pensa que eu estou brincando? O dr. Ignaz Semmelweis, possivelmente o herói mais desconhecido da história humana, foi ridicularizado quando sugeriu, em 1861, que os médicos deveriam lavar as mãos ao passarem de um paciente ao seguinte. Lentamente, descobrimos que ele estava certo. O sabão salvou mais vidas do que os mais maravilhosos remédios.
8 Isso também trouxe esperança e conforto a incontáveis cientistas desorganizados, que ganharam uma excelente desculpa para largar suas coisas por aí em vez de limparem a bagunça.
9 Também foi necessária uma fruta estragada. Das mil cepas de Penicillium testadas, a que crescia em um melão mofado encontrado em uma feira resultou ser a melhor produtora de penicilina.
10 Não está claro exatamente onde, e para quem, ele disse essas palavras. Stewart disse recentemente que não conseguia se lembrar de ter feito essa declaração, e ninguém consegue encontrar uma boa fonte. Pode ser uma dessas inesquecíveis citações equivocadas — como o “que comam brioches” de Maria Antonieta — que acabam servindo como um bom alvo para a indignação moralista na geração seguinte.
11 Essa é uma das limitações do sistema de livre mercado.
12 Naturalmente existem variações regionais e pessoais.
13 Uma exceção bastante conhecida e da qual já falamos são os micróbios esporulantes: eles conseguem sobreviver em condições inóspitas dentro de seus esporos, e então retornam à forma ativa ao infectarem o hospedeiro.

O que são esses "bichinhos" que flutuam no olhos da gente?

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