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Atração e vida sexual

por Thynus, em 14.10.16
Erotismo é aquilo que o excita e pode levá-lo ao orgasmo. É o que lhe “dá tesão”. Mas os erotismos femininos e masculinos em muitos aspectos não se complementam. Quantas vezes parceiros de cama parecem estar tão próximos e, de repente, pequenos e grandes mal-entendidos eróticos interferem na felicidade sexual. Por isso, antes de discutir sexo no casamento e abordar a Química sexual, as Preferências eróticas, a Habilidade sexual e o Ambiente erótico-sensual, tratarei das diferenças nos Erotismos e das possibilidades de você se conectar com o tesão do seu parceiro.
Química sexual: cheiro e sensibilidade
 

EROTISMOS

Você possui uma camada primitiva em seu erotismo. Ela pode, por exemplo, ser ativada por toques físicos, num mecanismo arco-reflexo de excitação. Também brota como um “tesão espontâneo”, por exemplo, quando a mulher ovula ou quando o homem, de manhã, acumula testosterona, e você se excita com a própria excitação. Pode também ser ativada por sinais visuais ou olfativos (a visão de uma parte do corpo, um odor). Ou ser provocada por sensações afrodisíacas, roupas leves, vento, água do mar.

Mas também existe uma camada de tesão que se excita com determinadas situações. Por exemplo, há pessoas que se excitam com a ideia de fazer sexo em grupo, ou têm prazer em ser tratadas de forma bruta. Esse tipo de excitação aparece muito em nossas fantasias sexuais.

E você também tem uma camada erótica que depende das relações com a pessoa desejada. O tesão que ela demonstra por você, os elogios, as afinidades, a gratidão, a rejeição, o estresse, a admiração, tudo pode excitá-lo. Ou brochá-lo.

Além das diferentes camadas de erotismo, há diferenças entre homens e mulheres. Embora ninguém seja nem anatômica, nem psiquicamente 100% masculino ou feminino, tratarei do tema diferenciando homens e mulheres.

Se você for mulher, talvez reconheça nos homens com quem conviveu (ou convive) diversas características descritas a seguir sobre o erotismo primário. Essas camadas primitivas são poderosas e podem se manifestar não em todos, mas na maioria dos homens até cerca dos quarenta anos, quando costuma haver maior queda de testosterona.


Relações com os orifícios

Desde pequenos, homens têm ereções involuntárias diurnas e noturnas que provocam excitação. Intumescido, o pênis produz sensações prazerosas, mesmo sem um objeto de desejo que o estimule. Na adolescência, precisam regularmente descarregar o sêmen acumulado. Ou por meio das poluções noturnas e diurnas, ou masturbando-se. Essa disposição sexual surge diariamente e se impõe de modo imperativo à percepção masculina do mundo.

E logo os meninos descobrem os orifícios, com os quais estabelecem uma relação masturbatória. Antigamente, na zona rural, muitos meninos iniciavam-se sexualmente com galinhas ou animais domésticos. Em centros urbanos praticavam jogos de “troca-troca”, alternando-se na função ativa e passiva, cada um tolerando ser penetrado para ter sua vez de penetrar. Os estupros ilustram de forma bruta essa dimensão pênis-orifício. Numa forma extrema, essa tendência de descarregar suas necessidades em orifícios pode se manifestar em homens adultos que, sob anonimato — e numa total desconsideração em relação aos desejos da outra pessoa —, praticam estupros coletivos, como lamentavelmente vemos acontecer até hoje em diversos casos de tropas militares que tomam cidades inimigas. A essa disposição masturbatória se acrescenta, muitas vezes, tendências sádicas.

Mas, apesar de um grande número de homens tender a tratar o objeto sexual como “coisa”, se, desde a infância há um convívio em família, em sociedade, e há uma educação afetiva e ética, as tendências brutas costumam se atrofiar. Elas se transformam em fantasias e encenações mais sutis que podem servir de jogos sexuais com a companheira.

Na paixão, os orifícios da amada se tornam objeto de culto. Como Sérgio, de quem ainda falaremos, que cultuava a vagina, o ânus e a boca de sua sensual esposa Rita, tomando-os por orifícios sagrados de sua “deusa do sexo”. Para a mulher, as coisas se dão de outro modo; a vivência sexual envolve muito mais sentidos e se distribui por diversas atividades. O pênis e a penetração terão seu valor em dado momento, mas não é em torno do pênis que se organiza a experiência sexual feminina. Portanto, diferente da fantasia masculina, não há uma fêmea sempre ávida pelo pênis poderoso para levá-la ao gozo radical (tema clássico de filmes pornôs).

As sensações sexuais femininas não se concentram de modo tão exclusivo na genitália, se distribuem de modo mais uniforme pelo corpo. A vagina e o clitóris estão embutidos, não se apresentam à consciência várias vezes ao dia, chamando a mulher ao sexo, embora haja ciclos de disposição sexual, ligados à ovulação e aos hormônios.

Outra diferença é que uma vez excitado, o menino ainda imaturo quer logo gozar. Não há preliminares, sutilezas. Só com o tempo descobre que pode estender o prazer por meio de masturbações prolongadas acompanhadas de fantasias eróticas. Depois descobre a necessidade de seduzir e aprende a ter mais calma, a transitar por curvas, picos e vales, embora possa, por toda a vida, continuar a enxergar a corte, o namoro e as preliminares como um contratempo muito incômodo. É verdade que há homens que passam até a usufruir do flerte, das conversas e da sedução, mas a maioria continua a enxergar a sedução como um trabalho penoso e, no casamento, se sente à vontade para encurtar os rituais de sedução. Sendo assim, o ritmo sexual é algo que na maioria dos casos precisa ser ajustado entre os gêneros, já que ambos despertam para o sexo por vias diferentes.

Não só o amor, mas também a timidez e a ansiedade mitigam os ímpetos brutos masculinos. A maioria dos homens já foi um menino tímido. Muitos continuam a sê-lo. Como abordar uma mulher? Como chegar do flerte ao sexo? Vou brochar com uma mulher tão sexy? E meu pênis, será demasiado pequeno? Inseguro, depende das respostas da parceira. A mulher que deixá-lo seguro terá preferência sobre outras mais atraentes. Ao menos por um tempo.



Gatilhos e fantasias sexuais

A visão da genitália feminina em filmes pornôs pode gerar ereções, mesmo que o “roteiro” seja ruim. Em culturas repressoras basta que o homem veja elementos associados ao proibido, tornozelo, cabelos ou lábios. Também cegos têm seus gatilhos sexuais: tato, olfato ou audição. Em geral, o ponto de entrada para a paixão masculina está nos gatilhos eróticos. Para Ricardo,
os seios e os lábios carnudos de Penélope; para Armando, o work-
aholic, as ancas “de potranca” de Thais. Como num arco-reflexo os meros gatilhos podem inundar o homem de volúpia, que se manifestará como um intenso desejo de penetrar a mulher.


Você é um grosso

Ricardo comparece ao encontro com Penélope sentindo “necessidade sexual”. A primeira coisa que notou em sua futura esposa foram os seios fartos e os lábios carnudos! Logo desejou intensamente possuí-la. E impaciente segue o ritual anterior ao sexo: levar para jantar, conversar, criar um clima, dançar, então propor um motel. Enquanto conversam no restaurante sobre viagens, sobre a família dela e sobre esporte, ele enxerga o decote, os contornos do corpo e a desnuda na fantasia. Não se incomoda que ela seja inculta e vote em partidos de seu desagrado. Só quer “comê-la”. Penélope também não estava procurando um grande romance. Só queira se divertir, mas preferia que o percurso do jantar à cama tivesse sido outro. Em vez de buscá-la em casa, Ricardo pediu que viesse de táxi e quis pagar a corrida. Como se fosse uma prostituta! E o cheiro do prato de bacalhau que ele pediu a incomoda. Sua camisa social não combina com o blazer, e ele é rude com o garçom. Tampouco os temas de conversa a interessam, sobretudo a insistência em falar das eleições! Mas ela está carente, deixa-se convencer a ir a um motel. Lá, uma estranha mancha no lençol derruba em definitivo seu ânimo. Ricardo insiste que cubram o lençol com uma toalha trazida às pressas do banheiro. Propõe-lhe sexo no sofá, na banheira, ou irem a outro motel. Mas para ela passou o momento, talvez outro dia, sobretudo se não for pressionada. Não entende por que Ricardo faz tanta questão. Ele se indigna. Dane-se o lençol, não é possível que ela recuse sexo por motivos tão fúteis! Imaginava uma Penélope “molhada”, louca para ser penetrada, mas encontrou uma mulher decepcionada porque ele não a buscou, incomodada com uma mancha e irritada com um comentário machista dele a caminho do motel. Penélope esperava flertar, divertir-se e ter uma noite instigante, mas Ricardo estava obcecado em “comê-la”. Após colocá-la num táxi, ele saiu com uma prostituta. Até hoje ela se queixa das grosserias dele naquela noite.


O interesse erótico feminino é mais variado: a mulher sente-se atraída por nádegas, mãos ou pele. Também a voz e o conteúdo da fala podem excitá-la. E sobretudo o olhar dele pode fazer a diferença, um olhar de desejo que não a desnude de modo constrangedor, mas a provoque e convide a uma cumplicidade erótica, sem uma palavra ser dita. Ela pode se excitar porque se comove com a gentileza ou a fragilidade do parceiro. Ou porque admira a inteligência, o carisma. Até tristeza ou raiva podem se transmutar em excitação. Também praias, cenários relaxantes, situações aventurosas, luxuosas, podem excitá-la.


Tesão por cetim preto

Desde a lua de mel Letícia estranhou a excitação de Alfredo por roupa de cama de cetim preto. No terceiro mês de casamento, um sex-shop despertou grande entusiasmo nele. Nos meses seguintes começou a lhe trazer roupas e acessórios eróticos. Passados dois anos, ela se via solicitada a se paramentar com tantos apetrechos — meias, botas, ligas, cintas, acessórios de couro — que sonhava com um homem que a desejasse em pelo, nua. Ele também insistia em penetrá-la analmente com um vibrador. Dois anos mais tarde, depois de tomarem ecstasy em uma festa, ela acordou de madrugada e se percebeu nua, ao lado o marido, que vestia sua lingerie. Daí em diante, passaram a fazer sexo em duas rodadas: a segunda com ele usando roupas dela. Depois, ele pede que ela o penetre analmente com o vibrador. No primeiro round ele faz sexo convencional para agradá-la, e no segundo, ele goza loucamente. Ela não consegue lhe impor um limite. Foi preciso que tratasse deste e de outros temas em terapia de casal para que chegassem a um acordo sexual.

Para Letícia, os apetrechos e as atividades “diferentes” são estímulos recreativos, não condição sine qua non para o gozo. As fantasias femininas variam conforme o parceiro e o momento. Hoje a esposa quer ser prostituta, amanhã dominadora, e depois mulher de estivador. Agora quer carinho; outro dia, sexo bruto sem beijos.

Para o homem, passada a intensidade juvenil do erotismo primário (quando a excitação é autônoma e fácil), as fantasias passam a ser um grande incrementador da vida sexual no casamento. Mas a maioria das fantasias masculinas não é complexa como a de Alfredo. Muitas já estão padronizadas em sites pornôs e fazem parte da oferta padrão na prostituição. Sexo oral, lingeries, sexo anal, sexo com duas mulheres, swing de casais. Muitos homens se constrangem em revelar suas fantasias, alguns optam por vivê-las fora do casamento com prostitutas, amantes ou virtualmente. Outros, como Alfredo, vão tateando e propondo à parceira certas práticas. Se ela se escandaliza ou zomba, eles recuam.


Erotismos primários femininos

Mulheres podem ter comportamentos análogos ao erotismo primário masculino.


O jardineiro gostoso

Glaucia, 42, que se separou de Claudio, o marido “sem sal”, ficava inebriada ao observar o jardineiro da casa de seus pais, o porte, os braços, as mãos, as nádegas, o rosto clássico... Ela pensava: “Seja apenas belo e deixe que eu o possua”. Foram nove meses de encontros que até hoje a perseguem em sonhos.


A sensual Rita

Rita, 34, casada com Sérgio, sempre foi fascinada pelos homens e sua diversidade. Gostava de seduzir e de sexo recreativo. Ao longo da juventude formou vínculos eróticos com dois homens, cuja química sexual e entendimento na cama eram mágicos. Depois de se casar, reduziu os encontros com ambos a poucas ocasiões por ano. Mas há dez meses tem um amante fixo, Carlos. Embora continue a encontrar seus dois outros “amigos”, está sexualmente envolvida com Carlos, que é ousado, desbocado e cheio de vontades sexuais, como ela.


Muitas mulheres, sentem em algum momento um forte erotismo primário, que prescinde de sintonias delicadas. Vão “direto ao ponto”, como fazem tantos homens. Mas para entrar nesse estado de “caça sexual” algumas condições são necessárias. Que tenham autoestima quanto à sua aparência e atratividade sexual. Que não temam ser condenadas moralmente e se autorizem para o prazer. Que tenham tomado para si o controle das condições de gozo para suprir as inépcias sexuais masculinas. E que possam separar o prazer sexual da relação amorosa.

Muitas mulheres só preenchem essas condições após certa maturidade. Além disso, a plena adaptação física à penetração pode exigir anos de experiência. É comum mulheres jovens terem mais prazer em seduzir e na farra, do que efetivamente no sexo.

Mas ainda não abordei a assimetria erótica responsável pela maioria dos desencontros, sobretudo em relações longas: a diferença entre Gozo ativo e gozo passivo.


Gozo ativo

Como mulher você pode ter uma experiência de gozo ativo ao estourar plásticos bolha, apertar tubos de tinta, morder o talo crocante da alface ou amassar argila. No gozo ativo você utiliza seu próprio corpo (dedos, dentes) ou uma extensão dele (varetas, chicotes) para manipular objetos, deformá-los e obter um alívio ou gozo.

Também no sexo você tem gozos ativos parciais. Quando beija, morde, aperta ou monta em cima do parceiro. É como se houvesse uma comichão se acumulando em seus músculos, nervos, e uma vontade de descarregar o excesso de energia acumulada.

Por meio do contato com objetos que absorvem essa energia, você pode remover a sobrecarga que tensiona seu corpo e sua mente. Exerce então um domínio sobre o objeto, que pode ser furado, amassado e até destruído.

Há algo de sádico no gozo ativo, mesmo que não haja toque físico. Por exemplo, ao lançar um olhar que devassa, afeta, constrange ou excita o objeto. Você está no controle e manipula o objeto a seu bel-prazer. E usufrui disso.

Homens e mulheres têm gozo ativo. Mas homens costumam enfatizá-lo. Anatomicamente, a vagina “come” o pênis, mas subjetivamente o pênis penetra, agride e domina a vagina. Descrevemos ações sexuais masculinas como “tomar”, “pegar” e “possuir”. Embora sejam encenações eróticas, em que, autorizado por ela, ele encena e ambos se excitam, no gozo ativo a mulher é um objeto (talvez um plástico bolha).

Essa coisificação do objeto sexual, inerente ao gozo ativo, facilita o gozo e favorece a promiscuidade. Muitos homens “pegam” duas, três parceiras na mesma noite ou buscam sexo grupal, ou ainda prostitutas. Se você for mulher, pode ser que tenha algumas relações em paralelo. Mas mesmo tendo vários parceiros, a maioria das mulheres prefere reeditar as relações mais prazerosas do que a cada noite ter um novo homem desconhecido. O erotismo feminino é mais complexo, é mais difícil de se encaixar sexualmente com um parceiro.


Gozo passivo

Como homem, você pode vislumbrar o gozo passivo imaginando que seu corpo serve de meta sexual e que você necessita de outro corpo (ou objeto) que manipule e remova a tensão prazerosa acumulada em você, promovendo alívio e prazer. Homens e mulheres têm pequenos gozos passivos parciais ao serem acariciados, beijados, tocados, olhados com volúpia; enfim, nas atividades em que sejam objetos. Mas o gozo passivo pleno é mais complexo. Ocorre em etapas. Alterna-se entre a camada do erotismo primário e secundário, como ilustra o exemplo a seguir.

Se você for um homem, imagine-se com uma tensão nas costas, precisando de massagem. À porta da clínica de massagem você nota que o local é malcuidado, não inspira confiança. Tenso, você se afasta, procura outra clínica. Mas imaginemos que isso não ocorreu. A estética externa e interna são condizentes com sua expectativa. Você então contrata a massagem, porém na sala de massagem encontra um massagista que fala errado e usa roupa amarrotada. Você se tensiona, talvez desista. Mas deixemos que tudo corra bem e o massagista seja adequado. Então, em vez de uma música relaxante, ele põe um rock no máximo volume. De novo, você se tensiona, e com os músculos contraídos, não há como massageá-lo. Mas imagine que nada disso ocorreu, a música é relaxante, e enfim dá-se o início da massagem. O massagista o aperta com força demais, ou, ao contrário, o toca de modo muito débil, ou faz movimentos muito rápidos. Nessa esfera sutil, qualquer excesso ou falta, bem como mudanças no ritmo, fazem diferença. Seu prazer e relaxamento dependem de uma sintonia fina nas manobras. Mas imagine que a massagem seja perfeita. Você está feliz, relaxado. Subitamente escuta o choro estridente de um bebê da vizinhança. Você se contrai. Porém digamos que não houve choro algum e você esteja relaxado, tendo prazer... até que se lembrou de um processo tributário que poderá levá-lo a perder seu patrimônio! A tensão varre seu corpo, não consegue mais se entregar. Afinal, sua vida é um todo, interligado, e a reunião com os advogados hoje à tarde o preocupa. As manobras físicas sobre seu corpo agora o incomodam, até irritam. Você decide interromper e ir embora.

O gozo passivo depende de balanceamentos. Uma das chaves é relaxar. E para isso é preciso confiar. Também a estética e o conforto importam. E necessária uma sintonia fina de ritmos. Não há uma predeterminação de um trem-bala que quer apenas penetrar e gozar. Foi algo que André teve de entender a respeito de Juliana, a esposa tensa e perfeccionista.


Sexo: só longe de casa

Juliana não gosta dos pelos que crescem na orelha dele nem da caspa. O jeito como ele a toca é hesitante. Queria uma pegada mais forte, “de homem”. O beijo é demasiado molhado. Na cama, ele prolonga o ato em demasia, faz movimentos lerdos demais e, pior de tudo, fica perguntando se ela está para ter, está tendo ou terá um orgasmo! Ele insiste em sexo oral, anal e variações sexuais que a deixam ansiosa. Ela tem dificuldade de relaxar em casa, pensa nos problemas com a faxineira, na sogra infernal. Só longe da família, das obrigações, quando sai de férias com André, se solta e deseja transar.


Lembra-se do mal-entendido descrito na introdução deste livro? De como muitos homens se casam para ter um “lar”, enquanto suas mulheres querem construir uma relação a dois?

Também no campo erótico homens e mulheres têm erotismos assimétricos e tendem — equivocadamente — a imaginar que o erotismo de seu parceiro é semelhante ao seu. Pensam que os desejos se complementam, se encaixam. Quantas vezes mulheres acham que o erotismo primário masculino é um desvio ou defeito de certos homens, e não uma característica de gênero? Elas não percebem que mesmo homens mais sensíveis e sintonizados também têm essas camadas brutas (elas estão apenas calibradas pela empatia, pela educação e pelo amor).

E quantas vezes homens atribuem equivocadamente às esposas desinteresse por sexo, sem perceber que a chave que as excita não é a mesma que a deles?

Homens e mulheres, mesmo quando conseguem seduzir o parceiro, muitas vezes não sabem como o fizeram. Pensam que foi devido a algo que, na verdade, nem é tão importante. Arrisco dizer que em muitos dos bons encontros eróticos ambos miraram num alvo e acertaram em outro, tendo sucesso sem saber por quê. Assim, no início do relacionamento, o encontro erótico foi um delicioso mal-entendido que não se esclareceu, mas que, ao longo do tempo, pode se tornar problemático. Na Parte III discutiremos possibilidades de atuar nessa área.


Tantas diferenças próprias de gênero e ainda nem falamos das diferenças eróticas entre os tipos psicológicos! Obsessivos, histéricos, fóbicos, narcisistas, distraídos... cada “tipo” tem um estilo erótico. Para lidar com todas essas diferenças numa relação de longo prazo, é importante dar atenção à Química sexual, às Preferências eróticas, à Habilidade sexual e ao Ambiente erótico-sensual, temas de que trato a seguir.


SEXO NO CASAMENTO

Você já deve saber — ou ter descoberto por conta própria — que rotina, hábito, estresse doméstico e profissional, envelhecimento, intimidade, previsibilidade, segurança, dependência e cobranças são verdadeiros assassinos do desejo e do tesão. Sentimos frisson diante do novo, da aventura, do desconhecido e do arriscado, talvez diante do proibido. Nesse sentido, casamento e tesão simplesmente não rimam.

Mas, como veremos, é possível que ousadia sexual, somados a uma boa química, habilidade sexual, sensualidade e fantasias permitam indenizar a perda do frisson no casamento e trocá-lo por sexo recreativo e divertido. Mas isso não significa que todos casais necessitem de muito sexo ou de frisson. Alguns valorizam mais as outras dimensões da Equação do Casamento. E outros até preferem se aconchegar num sexo acolhedor e “fofinho” do que em sexo ousado. Outros, dependendo do ciclo de vida, passam por diferentes fases, ora necessitando de aventura, ora de aconchego. Na Parte III discutiremos essas questões detalhadamente. Por ora, vale abordar cada um dos quatro aspectos da vida sexual.


Química sexual

Ninguém sabe por que você se sente sexualmente atraído por alguém. Homens e mulheres relatam muitas vezes sentir uma química sexual irresistível por “pessoas nem tão bonitas assim”. Especula-se que preferências e repulsas eróticas sejam influenciadas por uma combinação de fatores biológicos — como a complementaridade imunológica, hormônios sexuais e um programa genético da espécie — com fatores psicológicos, como vivências infantis e adolescentes e as primeiras experiências sexuais.


Alergia sexual

Jayme, 33 anos, queria se casar com Catarina, mas não gostava de seu cheiro, nem da textura da pele (que segundo ele tinha “uma penugem sobre uma pele rugosa”), tampouco das sardas, das cores pálidas e dos cabelos crespos e loiros. Também achava os seios dela pequenos e murchos. Mesmo assim pensava que Catarina era a mulher certa para fazê-lo feliz, e queria saber de mim se poderia aprender a desejá-la sexualmente, ou ao menos se acostumar. Já eram noivos, queria apenas que eu confirmasse sua escolha. Depois de dois anos, com um filho recém-nascido, voltou a me procurar: havia desenvolvido uma grave alergia no pênis às secreções vaginais de sua esposa. Mas esse era um dos raros casos em que mesmo assim parecia fazer sentido continuarem juntos. Ele tinha tantas dificuldades em seu funcionamento psicológico individual, e Catarina cobria tão bem as áreas em que ele era deficitário, que por estranho que possa parecer permanecerem juntos o deixava melhor do que se separarem (o que ele tentou por quatro meses). No final, o pouco sexo que tinham passou a ser feito com preservativo. Algumas vezes por ano ele buscava experiências fora do casamento. Para Catarina também parecia fazer sentido ficar com Jayme. Ele se inseria no mundo dela e não a desafiava em seus fantasmas (medo de lidar com a própria feminilidade e de enfrentar divergências interpessoais). Não há receitas de como deve ser seu arranjo de casamento.


Mas casos como o de Jayme e Catarina são raros. Uma radical falta de química sexual tende a ser restritiva, com o tempo mina toda relação. Por outro lado, ter uma boa química pode não bastar para sustentar o desejo sexual, como mostra o caso de Denise, que, antes de se casar com Ronaldo, teve uma inesquecível experiência erótica.


Deus grego

Denise, 32, era editora e convivia com uma elite cultural e financeira onde tinha muitas amizades e casos ocasionais. Conheceu então na praia, durante um fim de semana no Rio de Janeiro, um homem de quarenta anos. Ao vê-lo sair do mar, pareceu-lhe estar diante de “um deus grego”. De início um caso de férias sem maiores pretensões. Sentia por ele uma química de pele inigualável, e encaixavam-se tão bem! Embora notasse sua inteligência mediana e suas limitações financeiras, a química, o entendimento na cama, o charme e a beleza falavam alto. Continuou o caso para além das férias. Percebeu-se numa fissura sexual. Foram meses de ponte aérea. Sentia desejo nos momentos mais impróprios (em reuniões de trabalho, em jantares familiares). Mas ele queria aprofundar a relação e constituir família. Ela não poderia apresentá-lo a seu meio social e tampouco queria conviver com suas restrições financeiras e intelectuais. Foi perdendo o tesão. Decidiu então encerrar a história e, apesar de passar meses deprimida, não se arrependeu da decisão. Três anos depois encontrou um homem por quem sentia uma química sexual mediana, mas que a completava em outros quesitos: seu marido, Ronaldo.



Com frequência não casamos com quem tivemos a química sexual mais inebriante. Pessoas com grande carisma sexual podem não ser parceiros confiáveis ou não ter competências suficientes em outras áreas. Os outros três aspectos da vida sexual, discutidos a seguir, costumam ser ainda mais relevantes em relações de longo prazo.


Preferências eróticas

Como mencionado, sobretudo os homens tendem a conferir excepcional importância às preferências eróticas.


Sacanagens telefônicas

Pedro, 43, o dono de casa, acha que Silvana, quarenta, executiva, é “uma chata na cama”. Nas últimas semanas, buscando esquentar a vida sexual, ele adotou a tática de ligar logo de manhã sussurrando-lhe as fantasias de como pretende ter sexo com ela à noite. Sexo de pé, contra a parede, ela de joelhos na posição missionária, ou fazer sexo oral nela. Em sessão, para surpresa dele, ela diz odiar esses telefonemas matinais, eles a deixam em pânico. Enquanto ele passa o dia antevendo uma noite com uma mulher sedenta de sexo, ela passa o dia pensando em como escapar da noitada.


As fantasias e preferências nem sempre são tão vitais (como eram para Alfredo, obcecado por usar lingerie e consolos). Mas mesmo Pedro, André e Armando, que não conseguiram convencer as esposas a aceitar fantasias mais modestas, como sexo oral e anal, acabaram realizando-as com prostitutas ou em casos ocasionais.

Mulheres muitas vezes não entendem e não aceitam a insistência do marido em determinada fantasia, pois elas próprias tendem a ser mais flexíveis e a tolerar melhor que os maridos as frustrem nas suas preferências sexuais.


Habilidade sexual

A área sexual de maior potencial de mudança é a competência “técnica” na cama. Isso se marido e mulher não estiverem travados ou constrangidos por tabus. Com uma genuína disposição de se entender na cama, ambos podem aprender a interpretar e tocar melhor o parceiro.


Pedro continua insatisfeito

Além de topar “no máximo duas vezes por semana”, Silvana era displicente na cama. Havia meses, Pedro procurava instruí-la a respeito de técnicas sexuais enviando-lhe por internet cenas de sexo explícito e vídeos “didáticos” de como fazer sexo oral e masturbação. Ele era habilidoso em fazer a esposa gozar e se queixava da falta de reciprocidade. A única explicação que ele conseguia imaginar era que talvez ela não gostasse de sexo ou não o amasse.


Embora Pedro fosse o queixoso, já vimos que o gozo passivo depende muito da perícia do parceiro, daí ser mais comum as esposas se queixarem da inépcia masculina nos ritmos e manobras sexuais. Após anos, muitas relatam que o parceiro ainda faz carinhos inábeis que machucam ou incomodam. E é comum homens e mulheres não terem coragem de conversar e instruir o parceiro de como tocá-los de modo prazeroso.

Mas além de inexperiência, timidez e tabus, a falta de habilidade no sexo pode também estar ligada a dificuldades psicossexuais, como ejaculação precoce, vaginismo, anorgasmia, entre outras. Embora muitos deixem de procurar ajuda por constrangimento, terapia sexual, de casal e medicação costumam ser muito eficazes para tratar certas dificuldades.


Ambiente erótico-sensual

Essa é uma demanda mais feminina, e muitos maridos não estão à altura das necessidades eróticas da esposa fora da cama. Ainda que na cama eles se entendam, fora dela não se sentem ligados eroticamente. Esquecem-se de que, como mencionado, rotina e previsibilidade são verdadeiros assassinos, e que testemunhar diariamente os aspectos menos glamorosos da fisiologia e psicologia do parceiro também não ajuda. Sem contar que o estresse cotidiano (filhos, obrigações, desentendimentos) nos torna todos mais irritadiços e distantes.


Fofinho
Na primeira sessão, Rogério, 59, veio com Marcela, quarenta, para que ela “explicasse” o problema. Marcela há cinco anos “desistiu de lutar” por Rogério. Acha que ele não lhe dá atenção, que parece ausente e que faz sexo de modo mecânico. Cansou-se de reclamar, ele nem ao menos lhe responde, fica em silêncio, encarando-a, atônito. Rogério é um tipo acomodado, introvertido, tímido, pouco criativo e afeito a rotinas. Nem sequer entende o pedido dela para que “resgatem a época do namoro”. Tudo que percebe é que tem uma mulher ressentida e que pode perdê-la. Mas apesar de seu jeito travado, aos poucos Rogério passa a ser mais “fofinho” e a demonstrar que a nota. Propõe programas que interessam a ambos, também entendeu que sexo em casa não era estimulante para ela, e se organizou com a babá para “escapar” com Marcela uma vez por semana. Passados dois meses, Marcela está mais carinhosa e eles retomaram as relações sexuais.


Para algumas esposas basta sentir certo enlace romântico, algo como “sinto saudades”, “te amo”, ou uma pequena lembrança comprada a caminho de casa. Marcela tinha horizontes sensuais mais modestos, e não foi difícil para Rogério corresponder. Outras necessitam de algo menos “fofo”, mais apimentado — no estilo de Carlos, o amante da sensual Rita, que a instigava eroticamente. Diferente do marido Sérgio, que embora adorasse as “surpresas” de sua mulher, não era capaz de promover algo análogo por conta própria. No máximo abordava Rita de pijama, com um estranho gesto desajeitado (como que a galope, segurando rédeas, donde ela depreendia que seria a égua).

Criar espaços inusitados, divertidos, momentos a dois, tende a ser percebido, sobretudo pelas esposas, como estimulante, seja você “fofo”, sensual ou instigante. O capítulo 16 é inteiramente dedicado ao tema “buscar mais sintonia sexual”. Como você pode depreender do que já leu, se há pouco a ser incrementado a respeito de química sexual, muito pode ser feito nos outros três aspectos (habilidades, preferências e ambiente), sobretudo se desenvolverem uma conexão com as diferenças de erotismo entre vocês.


(Luiz Hanns - A Equação do Casamento, O que pode (ou não) ser mudado na sua relação)

LUIZ HANNS graduou-se em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP). Possui mestrado e doutorado em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e atua como terapeuta de casais há mais de vinte anos. É autor de Dicionário comentado do alemão de Freud (Imago, 1996), entre outros.

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