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As origens da religião

por Thynus, em 23.11.16
O Armagedom no conflito entre ciência e religião (se me permitem uma metáfora assim tão forte) começou para valer no final do século xx. É a tentativa dos cientistas de explicarem a religião em seus fundamentos — não como uma realidade independente dentro da qual a humanidade luta para encontrar seu lugar, não como obediência a uma Presença divina, mas como um produto da evolução por seleção natural. Em sua origem, a luta não é entre pessoas, mas entre visões de mundo. Pessoas não são descartáveis, mas visões de mundo são.

O Homem foi feito à imagem de Deus, ou Deus foi feito à imagem do Homem? Esse é o núcleo da diferença entre a religião e o secularismo baseado na ciência. A alternativa selecionada tem uma importância profunda para a autocompreensão humana e como as pessoas tratam umas às outras. Se Deus fez o Homem à Sua imagem, uma crença sugerida pelas histórias da criação e iconografias da maioria das religiões, é razoável supor que Ele é pessoalmente responsável pelos seres humanos. Se, no entanto, Deus não criou a humanidade à Sua imagem, existe uma boa chance de que o sistema solar não seja especial entre os cerca de 10 sextilhões de outros sistemas estelares no universo. Se a maioria suspeitasse desta última alternativa, a devoção às religiões organizadas cairia significativamente.

Chegamos então à derradeira questão, que me parece ter sido complicada desnecessariamente pelos teólogos através dos sécu­los. Deus existe? Caso Ele exista, será um Deus pessoal a quem possamos orar com a expectativa de receber uma resposta? E, se isso for verdade, podemos esperar ser mortais, vivendo, digamos, nos próximos trilhões de anos (só para começar) em paz e conforto?

Sobre essas perguntas básicas, uma divisão se ampliou durante o século xx entre os crentes nas religiões e os cientistas seculares. Em 1910, uma pesquisa dos “maiores” cientistas arrolados na American Men of Science revelou que uma porcentagem ainda expressiva de 32% acreditavam em um Deus pessoal e 37% acreditavam na imortalidade. Quando a pesquisa foi repetida em 1933, os crentes em Deus haviam caído para 13% e os que acreditavam na imortalidade, para 15%. A tendência continua. Em 1998, os membros da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, um grupo seleto patrocinado pelo governo federal, estavam se aproximando do ateísmo completo. Somente 10% afirmaram que acreditavam em Deus ou na imortalidade. Entre eles, uma escassa porcentagem de 2% dos biólogos.

Nas civilizações modernas, não é tão importante assim na população em geral pertencer a uma religião organizada. Prova disso, por exemplo, são as fortes diferenças de religiosidade entre a população dos Estados Unidos e a da Europa Ocidental. Pesquisas publicadas no final da década de 1990 constataram que mais de 95% dos americanos acreditavam em Deus ou em alguma espécie de força viva universal, contra 61% dos britânicos. Dentre os americanos, 84% achavam que Jesus foi Deus ou o filho de Deus, mas somente 46% dos britânicos compartilhavam essa crença. Numa pesquisa realizada em 1979, 70% dos americanos acreditavam na vida pós-morte, em contraste com 46% dos italianos, 43% dos franceses e 35% dos escandinavos. Quase 45% dos americanos atuais frequentam uma igreja mais de uma vez por semana, em comparação com 13% dos britânicos, 10% dos franceses, 3% dos dinamarqueses e 2% dos islandeses.

Muitas vezes me indagam sobre o motivo dessas disparidades intercontinentais, dado que a maioria dos americanos são de ascendência europeia. Existe também uma grande perplexidade com o literalismo bíblico generalizado e a negação, por metade da população americana, da evolução biológica. Tendo sido criado como um batista sulista, uma confissão evangélica que inclui uma grande porcentagem de cristãos fundamentalistas americanos, conheço bem o poder da Bíblia do rei Jaime, o calor humano e a generosidade daqueles unidos por ela e a sensação de estarem cercados por uma cultura que veem tornar-se cada vez mais ateia. A Bíblia, incorruptível e incontestável, é o instrumento de todas as necessidades espirituais. Suas passagens veneráveis são um poço sem fundo de significado. Nos momentos solitários, os crentes encontram companhia, na dor encontram conforto, e no desvio moral esperam redenção. “Que amigo temos em Jesus”, entoa um hino popular. “Todos os nossos pecados e tristezas ele suportou! Que privilégio levar tudo a Deus em oração!” Existem razões históricas por que os protestantes fundamentalistas constituem tamanha porcentagem dos americanos, que deixo para os historiadores explicarem. Mas aos que acreditam que a cultura desses protestantes poderia ser destroçada pelo ridículo e pela razão, peço que pensem duas vezes. Existem circunstâncias sob as quais a identidade e o significado das vidas de pessoas inteligentes e educadas estão associados à religião, e esta é uma delas.

Se um Deus pessoal, ou deuses, ou espíritos imateriais não forem aceitos ao menos em certo grau, que dizer de uma força divina criadora do universo? Poderíamos venerar um tal Criador — ainda que não tenha nenhum interesse especial por nós? O argumento do deísmo é que a existência material foi iniciada com um propósito por algo ou alguém. Se isso é verdade, a razão do universo permanece até hoje um mistério, 13,7 bilhões de anos após o Big Bang. Uns poucos cientistas sérios têm argumentado que ao menos deve existir um Deus criador. O núcleo de seu raciocínio é o princípio antrópico, que sustenta que as leis da física e seus parâmetros tiveram de ser finamente ajustados para que os sistemas estelares evoluíssem e a vida baseada no carbono avançasse dentro deles. No universo acolhedor que nos cerca, as entidades e as forças físicas existem na medida certa: nem menos, nem mais. Por exemplo, se o Big Bang tivesse sido um pouquinho mais forte, a matéria teria se dispersado rápido demais para que as estrelas e os planetas se formassem. Não dá para negar que o princípio antrópico é intrigante. Porém, o historiador Thomas Dixon assim expressa sua dificuldade:



Como sabemos se devemos ou não nos surpreender com dada configuração de restrições físicas? Com certeza qualquer combinação não é quase infinitamente improvável? Como, de qualquer modo, sabemos que essas restrições são livres para variarem da forma como esses argumentos supõem que sejam, e não simplesmente fixadas pela natureza ou ligadas umas às outras de um modo que não entendemos? E deve a existência real de trilhões de outros universos, em contraste com sua existência meramente possível, realmente nos deixar menos surpresos com a existência e a constituição física do nosso universo (supondo que estivéssemos surpresos para começar, o que sinceramente eu não estava)?

Esse contra-argumento reflete a percepção do Filo de Hume: “Tendo encontrado em tantos outros assuntos bem mais familiares as imperfeições e até as contradições da razão humana, jamais deveria esperar qualquer sucesso de suas débeis conjecturas num assunto tão sublime e tão remoto da esfera de nossa observação”.

Suponhamos que, em oposição a esse raciocínio e de alguma maneira, optemos por interpretar as leis físicas do universo como indícios de um ser sobrenatural supremo. Seria então um enorme salto de fé imputar a história biológica que se desenrolou neste planeta a alguma intervenção divina. Se os indícios da biologia e da antropologia significam algo, outro erro da mesma magnitude seria imaginar, à maneira de Platão e Kant, preceitos éticos universais que existem separados das idiossincrasias da existência humana, como a lei moral concedida por Deus tão eloquentemente postulada por C. S. Lewis e outros apologistas cristãos. Pelo contrário, temos ótimas razões para explicar a origem da religião e da moralidade como eventos especiais na história evolutiva da humanidade induzidos pela seleção natural.

Os indícios abundantes em nossa frente apontam para a religião organizada como uma expressão do tribalismo. Toda religião ensina aos seus adeptos que eles formam uma confraria especial e que sua história da criação, seus preceitos morais e os privilégios do poder divino são superiores aos reivindicados por outras religiões. Sua caridade e outros atos de altruísmo estão concentrados em seus correligionários. Quando estendidos aos forasteiros, geralmente se visa o proselitismo e, portanto, fortalecer o tamanho da tribo e seus aliados. Nenhum líder religioso jamais exorta as pessoas a examinarem as religiões rivais e escolherem aquela que julguem melhor à sua pessoa e sociedade. Pelo contrário, o conflito entre as religiões costuma ser um acelerador, se não a causa direta, da guerra. Os crentes devotos valorizam sua religião acima de tudo e logo se enfurecem quando ela é desafiada. O poder das religiões organizadas se baseia em sua contribuição à ordem social e à segurança pessoal, não na busca da verdade. A meta das religiões é a submissão à vontade e ao bem comum da tribo.

A falta de lógica das religiões não é uma fraqueza nelas, mas sua força essencial. A aceitação de mitos da criação grotescos une os membros. Entre as diferentes confissões cristãs proeminentes, encontramos a crença de que aqueles que submeteram sua vontade a Jesus logo ascenderão corporalmente ao céu, e aqueles que ficarem para trás sofrerão por mil anos, após o que o mundo terminará. Uma seita rival discorda, mas recomenda a comunhão com Cristo na Terra comendo sua carne e bebendo seu sangue — ambos tornados literais pelo ato da transubstanciação. Um não adepto duvidar abertamente de tais dogmas é considerado uma invasão de privacidade e um insulto pessoal. Se um adepto expressa dúvidas, isso é punível como heresia.

Tal instinto intensamente tribal pôde, no mundo real, surgir na evolução somente por seleção de grupo, no contexto das tribos competindo entre si. As qualidades peculiares da fé religiosa são a consequência lógica do dinamismo nesse nível mais alto de organização biológica.

A essência das religiões organizadas tradicionais está em seus mitos da criação. Como, na história do mundo real, se originaram? Alguns se basearam em parte na memória coletiva de acontecimentos monumentais — da emigração para terras novas, de guerras vencidas ou perdidas, de grandes enchentes e erupções vulcânicas. Cada um foi reformulado e ritualizado através das gerações. A chegada em cena percebida de seres divinos é possibilitada pelos processos de pensamento pessoais dos profetas e dos crentes. Eles esperam que os deuses tenham as mesmas emoções, raciocínio e motivações que eles próprios. No Antigo Testamento, por exemplo, Javé foi, em momentos diferentes, amoroso, ciumento, raivoso e vingativo, da mesma maneira que seus súditos mortais.

As pessoas também projetam sua humanidade nos animais, em máquinas, em lugares e até em seres fictícios. A transição de soberanos humanos para seres divinos invisíveis tem sido relativamente fácil nessa transferência. Por exemplo, Deus, em todas as três religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo), é um patriarca parecido com aqueles dos reinos do deserto onde essas religiões surgiram.

Mesmo os elementos mais fantasmagóricos dos mitos da criação — o aparecimento de demônios e anjos, vozes do além, a ressurreição dos mortos e a parada do Sol em sua órbita — são fáceis de entender não como leis físicas, mas à luz da fisiologia e da medicina modernas. Os líderes dos clãs e xamãs estão sempre inclinados a falar com deuses e espíritos durante sonhos, alucinações induzidas por drogas e surtos de doença mental. Especialmente vívidos são os episódios de paralisia noturna, em que pessoas normalmente sadias caem num mundo de monstros ameaçadores e medo mortal. Um voluntário estudado pelo psicólogo J. Allan Cheyne descreve “uma sombra de uma figura em movimento, braços estendidos, que tinha absoluta certeza ser sobrenatural e maléfica”. Outro estava igualmente convicto de, ao despertar, encontrar a realidade de uma “coisa metade cobra, metade humana gritando algo ininteligível no seu ouvido”. A imagística convincente da paralisia do sono é bem semelhante à das abduções por alienígenas, associadas, ao menos em alguns casos, à hiperatividade na região parietal do cérebro. Outras experiências relatadas durante a pa­ralisia do sono incluem voar ou cair, ou sair do próprio corpo. A emoção básica é medo, mas às vezes muda para empolgação, euforia ou êxtase.

Ainda mais importantes na criação dos mitos da gênese são as drogas alucinógenas, que transformam ilusões em histórias de duração mais longa, plenas de símbolos e daquilo que o sonhador percebe como significado místico. Xamãs e seus seguidores nas sociedades primitivas usam essas drogas para se conectar com o mundo dos espíritos. Uma dessas substâncias que foi especialmente bem estudada é a ayahuasca, um alucinógeno amplamente consumido entre as tribos indígenas da bacia do Amazonas. Ser enfeitiçado pela ayahuasca é experimentar visões vivamente realistas, inicialmente confusas mas que depois se desenrolam em certo tipo de história. Elas aparecem alternadamente como desenhos geométricos estranhos, onças, cobras e outros animais, e a morte da própria pessoa e jornada a outro mundo. Um exemplo é de um índio siona da Colômbia que consumiu yagé, o nome local da ayahuasca:



Mas então uma mulher idosa veio me envolver num grande pano, ofereceu-me o seio para sugar e depois saí voando, para bem longe, e subitamente me encontrei num lugar completamente iluminado, muito limpo, onde tudo era plácido e sereno. Ali, onde vive o povo yagé, como nós, mas melhor, é aonde se vai ao final da vida.

Isso poderia ser interpretado como uma entrada no céu. Outro exemplo é uma visão do inferno experimentada por uma consumidora chilena da droga cujos pais são europeus. (Os tigres se referem às onças, os grandes felinos nativos da América do Sul.)



De início, muitos rostos de tigre. [...] Depois o tigre. O maior e mais forte de todos. Sei (pois leio seu pensamento) que devo segui-lo. Vejo o planalto. Ele caminha resolutamente em linha reta. Eu sigo; mas ao atingir a borda e perceber o brilho, não consigo segui-lo.



Ela então olha para um fosso circular de fogo líquido, onde pessoas estão nadando.



O tigre quer que eu vá até lá. Não sei como descer. Agarro a cauda do tigre, e ele salta. Por causa de sua musculatura o salto é gracioso e lento. O tigre nada no fogo líquido enquanto estou sentada nas suas costas [...] Ergo-me sobre o tigre na praia [...] Existe uma cratera. Aguardamos algum tempo, e aí começa uma enorme erupção. O tigre manda que eu me atire na cratera [...]

Essas visões vívidas não são mais estranhas do que aquelas formuladas como verdades fundamentais pelas grandes religiões do mundo. Constatamos isso no testemunho de São João no livro final do Novo Testamento, o Apocalipse. O ano é no primeiro
século, provavelmente 96, e o lugar é a ilha grega de Patmos. Na visão de São João, Jesus retorna à Terra do Seu trono no céu do lado direito de Deus e fala por intermédio de anjos. João é surpreen­dido por uma voz estranha.



E voltei-me para ver quem falava comigo. E, ao voltar-me, vi sete candeeiros de ouro, e no meio dos candeeiros um semelhante a um filho de homem, vestido de uma roupa talar, e cingido à altura do peito com um cinto de ouro; e a sua cabeça e cabelos eram brancos como lã branca, como a neve; e os seus olhos como chama de fogo; e os seus pés, semelhantes a latão reluzente que fora refinado numa fornalha; e a sua voz como a voz de muitas águas. Tinha ele na sua destra sete estrelas; e da sua boca saía uma aguda espada de dois gumes; e o seu rosto era como o sol, quando resplandece na sua força.

Jesus em seu Segundo Advento (não o outro catastrófico que Ele está prestes a prometer a João) está com raiva. Abriga sentimentos ambíguos sobre as sete cidades representadas pelos candeeiros, e está disposto a abater os cidadãos ali que se desviaram de sua devoção por Ele. Identifica-se como o Alfa e o Ômega, que detém as “chaves do inferno e da morte”. Jesus odeia especialmente as ações dos nicolaítas. E, aos membros desgarrados da Igreja de Patmos que também aderiram à dou­trina nicolaíta, emite uma advertência feroz: “Arrepende-te, pois; ou se não, virei a ti em breve, e contra eles batalharei com a espada da minha boca”. Jesus, no testemunho de São João, passa a vaticinar através dos anjos o Arrebatamento, a Tribulação e a guerra entre as forças de Deus e Satã, encerrando-se com a vitória final de Deus.
Figura 25-1. Mantendo os mortos em casa, bem como no mundo dos espíritos. Numa aldeia Kukukuku de Nova Guiné, um ancião morto mumificado por fumaça de fogueira é cercado por sua família. (De Vernon Reynolds e Ralph Tanner, The Biology of Religion. Nova York: Longman, 1983.)
 
São João pode ter recebido uma visita divina real exatamente como relatou. Mas o mais provável é que tenha tido sonhos ao tomar drogas alucinógenas, naquela época uma prática ainda generalizada no sudeste da Europa e no Oriente Médio. As mais poderosas eram feitas da beladona (Atropa belladonna), datura, esporão-do-centeio (Claviceps Purpurea, um fungo que cresce em relvas e ciperáceas, uma fonte do lsd), maconha e haxixe (Cannabis sativa).

Igualmente provável é que João sofresse de esquizofrenia, que produz alucinações semelhantes às visões do Apocalipse: vozes, outros sons como conversas e ordens — às vezes experimentados como pensamentos muito poderosos e importantes, geralmente tranquilizantes, mas algumas vezes ameaçadores. Os delírios também se expandem em relatos mais longos e podem se aglutinar numa visão de mundo baseada na fantasia.

O caso de São João é de importância especial, porque o Apocalipse, o clímax e conclusão do Novo Testamento, serve de guia para protestantes evangélicos conservadores. Os sonhos de João exerceram um efeito profundo em como milhões de pessoas perfeitamente sãs e responsáveis veem o mundo e, num grau variável, ordenam suas vidas. Há quem considere suas declarações verdadeiras, mas na minha modesta opinião a imagem de um Jesus destrutivo ameaçando partir dissidentes com uma espada do século i destoa tanto do resto do Novo Testamento que uma explicação biológica se torna preferível.

De qualquer modo, os historiadores e outros estudiosos com uma perspectiva evolutiva, e não influenciados pelos pressupostos sobrenaturais da teologia tradicional, começaram a reconstituir os passos que levaram às estruturas hierárquicas e dogmáticas das religiões modernas. Em algum ponto no Paleolítico Superior, as pessoas começaram a refletir sobre a própria mortalidade. Os locais de sepultamento mais antigos conhecidos com quaisquer sinais de rituais são de 95 mil anos atrás. Naquela época, ou antes, os vivos devem ter indagado: para onde vão todas essas pessoas mortas? A resposta teria sido imediatamente óbvia para eles. Os defuntos ainda viviam, e regularmente se reuniam aos vivos — em sonhos. No mundo espiritual dos sonhos, e ainda mais vivamente nas alucinações induzidas por drogas, seus parentes falecidos residiam, junto com aliados, inimigos, deuses, anjos, demônios e monstros. Visões semelhantes, como mais tarde as sociedades descobriram, podiam também ser induzidas por jejuns, exaustão e autotortura. Atualmente, como então, a mente consciente de toda pessoa viva deixa seu corpo no sono e adentra o mundo espiritual criado pelos surtos neuronais de seu cérebro.

Em alguma época remota, os xamãs surgiram e se incumbiram da interpretação das visões, particularmente suas próprias, que consideravam especialmente importantes. Afirmavam que as aparições controlavam o destino da tribo. Su­punha-se que os seres sobrenaturais sentissem as mesmas emoções das pessoas vivas, motivo por que eram venerados e apaziguados mediante cerimônias. Esses seres tinham de ser invocados para abençoar a pequena comunidade durante os ritos de passagem — para a vida adulta, de casamento e morte. Com a revolução neolítica, e especialmente durante o surgimento dos Estados, quando alianças se forjaram para o comércio e a guerra e diferentes tribos lutaram pela supremacia religiosa, os deuses foram às vezes compartilhados.

Figura 25-2. A busca de visões pela autotortura. No ritual do povo mandan, indígenas valentes buscavam visões inserindo tiras de couro na carne e depois sendo rodados até desmaiarem. (De Vernon Reynolds e Ralph Tanner, The Biology of Religion. Nova York: Longman, 1983.)
 
Com o aumento da complexidade social, cresceu também a responsabilidade dos deuses por manter a estabilidade social, que seus representantes humanos, os sacerdotes, obtinham pelo controle político de cima para baixo. Quando líderes políticos, militares e religiosos colaboravam para alcançar esses objetivos, o dogma era tradicional e inabalável. Na ocorrência de revoluções religiosas bem-sucedidas, os líderes religiosos geralmente encontravam um meio de se ajustarem às circunstâncias — normalmente tomando partido dos insurgentes e atenuando os velhos dogmas consagrados.


Figura 25-3. Líder da Sociedade Buffalo Bull do povo mandan. (De Joseph Campbell, com Bill Moyers, The Power of Myth. Nova York: Doubleday, 1988. Pintura de Karl Bodmer, 1834.)
 

Durante a formação israelita remota do que viria a se tornar as poderosas reli­giões abraâmicas, vários deuses ainda presidiam sobre o povo escolhido. Em Salmos 86,8 o escriba entoa: “Entre os deuses nenhum há semelhante a ti, Senhor, nem há obras como as tuas”. Com o tempo, Javé conquistou o poder absoluto sobre os israelitas. Desde então, Ele tendia a prescrever a tolerância para com as divindades dos reinos vizinhos nas épocas de bonança, e a opressão violenta nas épocas difíceis.

Os crentes religiosos atuais, como nos tempos antigos, não estão, comumente, interessados em teologia, e menos ainda nos passos evolutivos que levaram às religiões do mundo atual. Em vez disso, estão preocupados com a fé religiosa e os benefícios que ela oferece. Os mitos da criação explicam tudo de que precisam para conhecer a história profunda a fim de manter a unidade tribal. Em épocas de mudanças e perigo, sua fé pessoal promete estabilidade e paz. Diante da ameaça e da competição de grupos externos, os mitos asseguram aos crentes que eles são supremos aos olhos de Deus. A fé religiosa oferece a segurança psicológica que advém exclusivamente do pertencimento a um grupo, e ainda por cima um grupo divinamente abençoado. Ao menos para as multidões imensas de fiéis abraâmicos ao redor do mundo, ela promete a vida eterna após a morte, e no céu, não no inferno — especialmente se escolhermos a seita certa entre as muitas disponíveis, e jurarmos praticar fielmente seus rituais.

Os credos religiosos se apropriaram de todos os estímulos do assombro e da admiração de que a mente humana é capaz em obras-primas da literatura, artes visuais, música e arquitetura. Três mil anos de Javé acarretaram um poder estético inigualável nessas artes criativas. Não há nada em minha própria experiência mais comovente do que o Lucernarium católico, quando a luz da vela pascal espalha a lumen Christi (luz de Cristo) em uma catedral escura, ou os hinos corais para os fiéis de pé e a procissão se aproximando durante uma chamada evangélica ao altar protestante.

Figura 25-4. Dançarinos pré-históricos e da história antiga em disfarces místicos de cabeças de animais. (A) Pintura em caverna paleolítica de Trois Frères, França. (B) Pintura de bosquímanos pré-históricos em Afvallingskop, África do Sul. (C, D) Pinturas de Sioux das Grandes Planícies. (De R. Dale Guthrie, The Nature of Paleolithic Art. Chicago: University of Chicago Press, 2005.)
 
Esses benefícios requerem a submissão a Deus, ou a seu Filho, o Redentor, ou a ambos, ou ao seu último porta-voz escolhido, Maomé. É fácil demais. Basta se submeter, prostrar-se, repetir os juramentos sagrados. Vamos e venhamos: a quem essa obediência realmente se dirige? A uma entidade que pode não ter nenhum significado ao alcance da mente humana — ou pode nem mesmo existir? Sim, talvez seja realmente a Deus. Mas talvez se trate meramente de uma tribo unida por um mito da criação. Neste último caso, a fé religiosa é mais bem interpretada como uma armadilha invisível inevitável durante a história biológica de nossa espécie. E, se isso estiver correto, certamente existem formas de encontrar a realização espiritual sem a submissão e a escravidão. A humanidade merece algo melhor.


(Edward O. Wilson - A Conquista Social da Terra) 

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