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As Origens da Empatia

por Thynus, em 20.02.18
Voltemos a Gary, o brilhante mas alexitímico médico que tanto perturbava a noiva, Ellen, por ignorar não apenas seus próprios sentimentos, mas também os dela. Como a maioria dos alexitímicos, faltava-lhe não só empatia, mas também intuição. Se Ellen se dizia deprimida, ele não demonstrava entender os seus sentimentos; se ela falava de amor, ele mudava de assunto. Gary fazia críticas “construtivas” a coisas que Ellen fazia, sem compreender que ela se sentia agredida, e não ajudada.
A empatia é alimentada pelo autoconhecimento; quanto mais consciente estivermos acerca de nossas próprias emoções, mais facilmente poderemos entender o sentimento alheio.1 Alexitímicos como Gary, que não têm idéia do que eles próprios sentem, ficam completamente perdidos quando se trata de saber o que as pessoas à sua volta estão sentindo. Não têm ouvido emocional. As notas e os acordes emocionais que são entoados nas palavras e ações das pessoas — um tom revelador ou mudança de postura, o silêncio eloqüente ou o tremor que trai — passam despercebidos.
Confusos acerca de seus próprios sentimentos, os alexitímicos ficam igualmente perplexos quando outras pessoas falam do que estão sentindo. Essa incapacidade de registrar os sentimentos de outrem significa que existe um grande déficit de inteligência emocional e uma trágica falha no entendimento do que significa ser humano. Pois todo relacionamento, que é a raiz do envolvimento, vem de uma sintonia emocional, da capacidade de empatia.
Essa capacidade — de saber como o outro se sente — entra em jogo em vários aspectos da vida, quer nas práticas comerciais, na administração, no namoro e na paternidade, no sermos piedosos e na ação política. A falta de empatia é também reveladora. Nota-se em criminosos psicopatas, estupradores e molestadores de crianças.
As emoções das pessoas raramente são postas em palavras; com muito mais freqüência, são expressas sob outras formas. A chave para que possamos entender os sentimentos dos outros está em nossa capacidade de interpretar canais não-verbais: o tom da voz, gestos, expressão facial e outros sinais. Talvez a mais ampla pesquisa acerca da capacidade que têm as pessoas de detectar mensagens não-verbais seja a de Robert Rosenthal, psicólogo de Harvard, e seus alunos. Ele idealizou um teste de aferição de empatia, o PONS — Profile of Nonverbal Sensitivity,[1] que consiste na exibição de uma série de videoteipes em que uma jovem manifesta sentimentos que vão da antipatia ao amor materno.2 As cenas percorrem todo um espectro de emoções, desde um acesso de ciúmes até um pedido de perdão, de uma demonstração de gratidão a uma sedução. O vídeo foi editado de forma que, em cada um desses estados, fossem sistematicamente apagados um ou mais canais de comunicação não-verbal; além do som, por exemplo, em algumas cenas todos os outros sinais são bloqueados, sendo mantida apenas a expressão facial. Em outras, somente são exibidos os movimentos do corpo, e assim por diante, passando pelos principais canais não-verbais de comunicação, para que os espectadores possam detectar a emoção a partir de uma ou outra indicação não-verbal.
Em testes feitos com mais de 7 mil pessoas nos Estados Unidos e em outros 18 países, as vantagens de poder interpretar sentimentos a partir de indicações não-verbais incluíam um melhor ajustamento emocional, maior popularidade, mais abertura e — talvez o que seja mais surpreendente — maior sensibilidade. Em geral, as mulheres são melhores que os homens nesse tipo de empatia. E as pessoas cujo desempenho melhorou no decorrer do teste, que durou 45 minutos — um indicador de que aquelas pessoas têm talento para adquirir aptidões de empatia —, também se relacionavam melhor com o sexo oposto. A empatia, não é nenhuma surpresa, ajuda na vida romântica.
Conforme constatações sobre outros elementos de inteligência emocional, havia apenas uma relação incidental entre as contagens nessa medição de acuidade e os resultados do SAT, QI ou dos testes de desempenho escolares. A independência da empatia em relação à inteligência acadêmica também foi constatada em testagens com uma versão do PONS destinada a crianças. Em testes feitos em 1.011 crianças, aquelas que mostraram aptidão para interpretar sentimentos não-verbalizados eram consideradas as mais queridas na escola, eram as mais emocionalmente estáveis.3 Além disso, tinham melhor desempenho acadêmico embora, na média, não tivessem QI superior ao de outras crianças menos capacitadas para interpretar mensagens não-verbais — o que sugere que o domínio dessa capacidade empática abre o caminho para a eficiência na sala de aula (ou simplesmente faz com que os professores gostem mais delas).
Assim como a forma de expressão da mente racional é a palavra, a das emoções é não-verbal. Na verdade, quando as palavras de alguém entram em desacordo com o que é transmitido por seu tom de voz, gestos ou outros canais não-verbais, a verdade emocional está mais no como ele diz alguma coisa do que no que ele diz. Uma regra elementar usada na pesquisa de comunicações é que 90% ou mais de uma mensagem emocional são não-verbais. E essas mensagens — ansiedade no tom de voz de alguém, irritação na rapidez de um gesto — são quase sempre aceitas inconscientemente, sem que se dê uma atenção especial ao conteúdo da mensagem, mas apenas recebendo-a e respondendo-a tacitamente. As aptidões que nos permitem fazer isso bem ou mal são também, na maioria das vezes, inferidas.
 
Faça valer o poder da empatia
Como se Desenvolve a Empatia
Assim que Hope, de apenas nove meses, viu outro bebê levar um tombo, ficou com os olhos cheios d’água e engatinhou até sua mãe, procurando consolo, embora não fosse ela que tivesse levado o tombo. E Michael, com um ano e três meses, foi buscar seu ursinho de pelúcia para entregá-lo ao amigo Paul, que chorava; como Paul continuasse chorando, Michael se agarrou no cobertorzinho “de segurança” do amigo. Esses pequenos atos de simpatia e solidariedade foram observados por mães treinadas para registrar tais incidentes de demonstração de empatia.4 Os resultados do estudo sugerem que as origens da empatia podem ser identificadas já na infância. Praticamente desde o dia em que nascem, os bebês ficam perturbados quando ouvem outro bebê chorando — uma reação que alguns encaram como o primeiro indicador da empatia que se desenvolverá até a idade adulta.5
Psicólogos do desenvolvimento infantil descobriram que os bebês são solidários diante da angústia de outrem, mesmo antes de adquirirem a percepção de sua individualidade. Mesmo poucos meses após o nascimento, os bebês reagem a uma perturbação sentida por aqueles que estão em torno deles, como se esse incômodo estivesse acontecendo neles próprios, chorando ao verem que outra criança está chorando. Em torno de um ano, começam a compreender que o sofrimento não é deles, mas de outro, embora ainda pareçam confusos sobre o que fazer. Numa pesquisa feita por Martin L. Hoffmann, da Universidade de Nova York, por exemplo, uma criança de um ano trouxe a própria mãe para consolar um amigo que chorava, ignorando que a mãe do amigo também estava no recinto. Essa confusão se vê também quando crianças de um ano imitam a angústia de outras, possivelmente para melhor compreender o que elas estão sentindo; por exemplo, se outro bebê machuca os dedos, um bebê de um ano põe os seus dedos na boca, para ver se também doem. Ao ver a mãe chorar, um bebê enxugou os próprios olhos, embora não tivessem lágrimas.

Essa mímica motora, como é denominada, é o significado técnico original da palavra empatia, como pela primeira vez foi usada, na década de 1920, por E. B. Titchener, psicólogo americano. Esse sentido é um pouco diferente de sua introdução original em inglês, do grego empátheia, “entrar no sentimento”, termo inicialmente usado por teóricos da estética para designar a capacidade de perceber a experiência subjetiva de outra pessoa. A tese de Titchener era de que a empatia vinha de uma espécie de imitação física da angústia de outra pessoa, que então evoca os mesmos sentimentos em nós. Ele procurou uma palavra distinta de simpatia, algo que sentimos pelo que o outro está vivenciando, sem, contudo, sentir o que esse outro está sentindo.
A mímica motora desaparece do repertório dos bebês por volta dos dois anos e meio, quando eles percebem que o sofrimento de outra pessoa é diferente do deles, e então podem melhor consolá-los. Um incidente típico, extraído do diário de uma mãe:
O bebê de um vizinho chora... e Jenny se aproxima e tenta dar-lhe biscoito. Segue-o por toda parte e começa a choramingar. Então, tenta alisar os cabelos dele, mas ele se afasta... Ele se acalma, mas Jenny continua preocupada. Continua a trazer-lhe brinquedos e a dar-lhe tapinhas na cabeça e nos ombros.6
Nessa altura de seu desenvolvimento, os bebês começam a se diferenciar na sensibilidade geral às perturbações emocionais de outras pessoas, com alguns, como Jenny, sendo agudamente conscientes e outros desligando-se. Uma série de estudos feitos por Marian Radke-Yarrow e Carolyn Zahn-Waxler, do Instituto Nacional de Saúde Mental, mostrou que grande parte dessa diferença em interesse empático tinha a ver com a maneira como os pais educavam seus filhos. Elas constataram que as crianças eram mais empáticas quando a educação incluía chamar fortemente a atenção para a aflição que o mau comportamento delas causava nos outros: “Veja como você a deixou triste” em vez de “Isso foi malfeito”. Também descobriram que a empatia das crianças é igualmente moldada por verem como os outros reagem quando alguém mais está aflito; imitando o que vêem, as crianças desenvolvem um repertório de reação empática, sobretudo na ajuda a outras pessoas angustiadas.
 
A Criança Bem Sintonizada
Sarah tinha 25 anos quando deu à luz dois gêmeos, Mark e Fred. Achou que Mark se parecia mais com ela; Fred, mais com o pai. Essa percepção pode ter sido a semente de uma reveladora mas sutil diferença na maneira como ela lidou com cada um dos meninos. Quando eles tinham apenas três meses, Sarah muitas vezes tentava atrair o olhar de Fred, e quando ele virava o rosto, ela tentava de novo; Fred reagia dando-lhe mais enfaticamente as costas. Assim que ela olhava para outro lado, ele tornava a olhar para ela, e o esconde-esconde recomeçava — muitas vezes deixando Fred em prantos. Mas, com Mark, Sarah nunca tentava estabelecer contato ocular como fazia com Fred. Ao contrário, Mark podia romper esse contato quando quisesse, que ela não insistia.
Um ato pequeno, mas revelador. Um ano depois, Fred era visivelmente mais medroso e dependente do que Mark; uma das maneiras como demonstrava esse medo era evitando olhar nos olhos de outras pessoas, como fizera com a mãe aos três meses, baixando e desviando o rosto. Mark, por outro lado, olhava direto nos olhos dos outros; quando queria romper o contato, virava ligeiramente a cabeça para cima e para o lado, com um sorriso cativante.
Os gêmeos e a mãe foram minuciosamente observados quando participaram da pesquisa de Daniel Stern, um psiquiatra então na Faculdade de Medicina da Universidade Cornell.7 Stern é fascinado com os pequenos e repetidos
intercâmbios que ocorrem entre pais e filhos; acredita que as lições mais elementares da vida emocional se dão nesses momentos íntimos. Desses momentos, os mais críticos são os que informam à criança que seus sentimentos encontram empatia, são aceitos e retribuídos, num processo que Stern chama de sintonia. A mãe dos gêmeos estava sintonizada com Mark, mas emocionalmente dessincronizada com Fred. Stern afirma que os incontáveis momentos de sintonia ou não sintonia entre pais e filhos moldam as expectativas emocionais que, quando adultos, levarão para seus relacionamentos — talvez muito mais do que os mais dramáticos acontecimentos da infância.
A sintonia ocorre tacitamente, como parte do ritmo de relacionamento. Stern estudou-a com precisão microscópica, em horas de gravação em vídeo de mães com seus bebês. Ele constata que, pela sintonização, as mães informam aos bebês que compreendem o que eles estão sentindo. O bebê grita de prazer, por exemplo, e a mãe atesta esse prazer balançando-o de forma delicada, arrulhando ou imitando o guincho dele. Ou o bebê sacode o chocalho, e ela responde, balançando-o. Nessa interação, a mensagem de afirmação está no fato de a mãe se igualar mais ou menos no nível de excitação do bebê. Essas pequenas sintonizações dão ao bebê a tranqüilizadora sensação de estar emocionalmente ligado, uma mensagem que Stern constata que as mães enviam cerca de uma vez a cada minuto quando interagem com seus bebês.
A sintonização é muito diferente da simples imitação.
— Se você apenas imita um bebê — disse-me Stern —, isso apenas mostra que sabe o que ele fez, mas não como se sentiu. Para que ele saiba que você sente como ele se sente, é preciso reproduzir os sentimentos íntimos dele de outra forma. Aí o bebê sabe que foi entendido.
O amor físico é talvez a coisa mais próxima, na vida adulta, dessa íntima sintonização entre o bebê e a mãe. O amor físico, escreve Stern, “envolve a experiência de sentir o estado subjetivo do outro: desejo partilhado, intenções alinhadas e mútuos estados de excitação simultaneamente mutáveis”, com os amantes respondendo um ao outro numa sincronia que exprime, de forma tácita, o significado de profunda relação.8 O amor físico é, no que tem de melhor, um ato de mútua empatia; no pior, falta-lhe toda essa mutualidade emocional.
 
Quanto Custa a Falta de Sintonia
Stern afirma que, com essas repetidas sintonizações, o bebê começa a desenvolver o sentimento de que outras pessoas podem partilhar e partilham de seus sentimentos. Esse sentido parece surgir por volta dos 8 meses, quando os bebês começam a compreender que não estão em simbiose com as outras pessoas, e continua a ser moldado por relacionamentos íntimos durante toda a vida. Quando os pais não estão em sintonia com um filho, isso é profundamente perturbador. Num experimento, Stern fez com que as mães deliberadamente respondessem com mais e com menos intensidade a seus bebês, em vez de se igualarem de modo sintonizado; os bebês reagiram com imediata consternação e angústia.
Uma prolongada ausência de sintonia entre pai e filho impõe um tremendo tributo emocional à criança. Quando um pai repetidamente não entra em empatia com uma determinada gama de emoções da criança — alegria, lágrimas, necessidade de aconchego —, a criança começa a evitar expressar, e talvez mesmo a sentir, esses tipos de emoção. Dessa forma, presume-se, séries inteiras de emoção para relacionamentos íntimos podem começar a ser apagadas do repertório, sobretudo se durante a infância esses sentimentos continuarem a ser tácita ou expressamente desestimulados.
Da mesma forma, as crianças podem vir a preferir uma infeliz gama de emoção, dependendo dos estados de espírito que lhes foram retribuídos. Mesmo os bebês “captam” estados de espírito: bebês de 3 meses cujas mães estão deprimidas, por exemplo, refletiam esse mesmo estado de espírito quando brincavam com elas, exibindo mais sentimentos de ira e tristeza, e muito menos curiosidade e interesse espontâneos, em comparação com bebês cujas mães não estavam deprimidas.9
Uma mãe, no estudo de Stern, sempre reagia com pouca intensidade ao nível de atividade de seu bebê; o bebê acabou aprendendo a ser passivo.
— Um bebê tratado desse modo aprende: quando eu fico excitado, minha mãe não fica igualmente excitada, logo, talvez seja melhor nem tentar — afirma Stern. Mas há esperanças nos “relacionamentos reparadores”. — Os relacionamentos de toda a vida — com amigos ou parentes, por exemplo, ou na psicoterapia — remodelam continuamente nosso modo funcional de tê-los. Um desequilíbrio num ponto pode ser corrigido depois; é um processo contínuo, de uma vida inteira.
Na verdade, várias teorias da psicanálise vêem a relação que se estabelece entre analista e analisando como proporcionando exatamente esse ajustamento emocional, uma experiência reparadora de sintonização. Espelhar é o termo empregado por alguns pensadores psicanalíticos para designar o fato de o terapeuta ser, para o paciente, o reflexo de seu estado interior, como faz uma mãe sintonizada com o seu bebê. A sincronia emocional é tácita e fora da consciência, embora o paciente possa extrair um grande prazer da sensação de que está sendo profundamente reconhecido e entendido.
Os custos emocionais, para toda uma vida, decorrentes da falta de sintonização na infância podem ser grandes — e não só para a criança. Um estudo sobre criminosos que praticaram os crimes mais cruéis e violentos constatou que o que lhes caracterizava e os distinguia de outros criminosos é que, na infância, tinham sido mandados de uma casa de adoção para outra, ou criados em orfanatos — históricos de vida que sugerem abandono emocional e pouca oportunidade de sintonização.10
Enquanto o abandono emocional parece embotar a empatia, há um resultado paradoxal quando ocorre abuso emocional intenso e constante, incluindo ameaças cruéis e sádicas, humilhações e maldade pura e simples. As crianças que sofrem tais abusos podem tornar-se hiperalertas para as emoções daqueles que as cercam, o que é equivalente a uma vigilância pós-traumática para detectar indícios que anunciem ameaça. Essa preocupação obsessiva com os sentimentos dos outros é típica de crianças psicologicamente maltratadas e que, na idade adulta, sofrem os mercuriais altos e baixos às vezes diagnosticados como “distúrbio limite de personalidade”. Muitas dessas pessoas têm o dom de sentir o que sentem os que as cercam, e é muito comum relatarem que sofreram abusos emocionais na infância.11
 
A Neurologia da Empatia
Como tantas vezes acontece na neurologia, os relatos de casos peculiares e bizarros estão entre os primeiros indícios de que há um componente cerebral na empatia. Um trabalho de 1957, por exemplo, examinava vários casos em que os pacientes com certas lesões na área direita dos lobos frontais tinham um déficit curioso: não eram capazes de entender a mensagem emocional através do tom de voz das pessoas, embora fossem perfeitamente capazes de entender as palavras. Os “muito obrigado” sarcásticos, agradecidos ou furiosos tinham, todos, o mesmo sentido neutro para eles. Em contraste, um trabalho de 1979 falava de pacientes com danos em outras partes do hemisfério direito que tinham uma falha bastante diferente na percepção emocional. Estes eram incapazes de expressar suas emoções através do tom de voz ou gestos. Sabiam o que sentiam, mas simplesmente não eram capazes de transmiti-lo. Todas essas regiões corticais do cérebro, observaram os vários autores, tinham fortes ligações com o sistema límbico.
Esses estudos serviram como pano de fundo de um trabalho para um seminário de Leslie Brothers, psiquiatra do Instituto de Tecnologia da Califórnia, sobre a biologia da empatia.12 Examinando relatos neurológicos, Brothers aponta as amígdalas corticais e suas ligações com a área de associação do córtex visual como parte dos circuitos-chave do cérebro que estão por trás da empatia.
Grande parte da importante pesquisa neurológica vem do trabalho com animais, sobretudo primatas não-humanos. O fato de que esses animais demonstram empatia — ou “comunicação emocional”, como Brothers prefere chamar — fica evidenciado não apenas pelas histórias que são relatadas, mas também por estudos como o seguinte: primeiro, treinaram-se macacos Rhesus para terem medo de um determinado som, fazendo-se com que o ouvissem enquanto recebiam um choque. Depois, eles aprenderam a evitar o choque empurrando uma alavanca sempre que ouviam o som. Em seguida, pares desses macacos foram postos em jaulas separadas, tendo como única comunicação entre si um circuito fechado de TV, que lhes permitia ver as feições um do outro. O primeiro macaco, mas não o segundo, ouvia então o som temido, que trazia uma expressão de pânico à sua cara. Nesse momento, o segundo macaco, vendo o medo na fisionomia do primeiro, empurrava a alavanca que impedia o choque — um ato de empatia, senão de altruísmo.
Havendo estabelecido que os primatas não-humanos de fato são capazes de captar emoções a partir da expressão facial de seus iguais, os pesquisadores inseriram delicadamente longos eletrodos pontiagudos no cérebro dos macacos. Esses eletrodos permitiam a gravação da atividade num único neurônio. Os eletrodos que monitoravam neurônios no córtex visual e nas amígdalas mostraram que, quando um macaco via a cara do outro, essa informação levava ao disparo de um neurônio, primeiro, no córtex visual, e depois, nas amígdalas corticais. Esse caminho, claro, é uma rota-padrão da informação emocionalmente estimulante. Mas o que surpreende nos resultados desses estudos é que também identificaram neurônios no córtex visual que parecem disparar somente em resposta a expressões faciais ou gestos específicos, como um ameaçador abrir a boca, uma careta terrível ou um dócil agachamento. Esses neurônios são distintos de outros na mesma região que reconhecem rostos familiares. Isso poderia significar que o cérebro se destina desde o princípio a responder a expressões emocionais específicas — ou seja, que a empatia é um dado da biologia.
Outra linha de indícios para o papel-chave do caminho amígdala-córtex na leitura e resposta de emoções, sugere Brothers, é a pesquisa na qual foram cortadas as ligações entre amígdalas e córtex de macacos selvagens. Quando os soltaram de volta a seu habitat, esses macacos podiam praticar tarefas comuns como alimentar-se e subir em árvores. Mas os infelizes animais tinham perdido qualquer noção de como reagir emocionalmente aos outros. Mesmo quando um deles fazia uma abordagem amistosa, os outros fugiam, e eles acabaram se isolando, evitando contato com o grupo a que pertenciam.
Brothers observa que as mesmas regiões do córtex onde se concentram os neurônios específicos da emoção são também as de mais densa ligação com as amígdalas; a interpretação de emoções envolve os circuitos amígdala-córtex, que têm um papel-chave na organização das respostas adequadas.
— O valor para a sobrevivência desse sistema é óbvio — observa Brothers. — A percepção da aproximação de outro indivíduo deveria determinar um certo padrão [de resposta fisiológica] — e muito rapidamente — que fosse apropriado à intenção de morder, de entrar numa gostosa sessão de cafuné ou copular.13
Uma base fisiológica semelhante da empatia em nós humanos é sugerida numa pesquisa realizada por Robert Levenson, psicólogo da Universidade da Califórnia, em Berkeley, que estudou casais em que cada cônjuge tentava adivinhar o que o outro estava pensando durante uma acalorada discussão que mantinham.14 O método dele é simples: o casal é filmado em vídeo e suas respostas fisiológicas vão sendo medidas enquanto eles discutem um problema importante no casamento deles — educação das crianças, hábitos de despesa e coisas assim. Depois, cada um deles vê o filme e descreve o que sentia, momento a momento. O outro cônjuge revê a fita, desta vez tentando interpretar os sentimentos do outro.
A mais precisa acuidade empática ocorreu nos maridos e esposas cuja própria fisiologia identificava a do cônjuge que eles estavam vendo. Quer dizer, quando um suava mais, o outro também; quando um sofria uma queda nos batimentos cardíacos, o mesmo acontecia com o outro. Em suma, o corpo de um imitava as mais sutis reações físicas do outro. Se aquele que estivesse vendo o filme repetisse o mesmo comportamento fisiológico que tivera na situação ao vivo, este dado era apontado como um indicador de que ele não era capaz de entender o sentimento do outro. Só quando o corpo de um entrava em sintonia com o corpo do outro é que ocorria a empatia.
Isso sugere que quando o cérebro emocional dirige o corpo com uma forte emoção — o calor da fúria, digamos —, há pouca ou nenhuma empatia. Empatia exige bastante calma e receptividade para que os sutis sinais de sentimento de uma pessoa sejam recebidos e imitados pelo cérebro emocional da outra pessoa.
 
Empatia e Ética: As Raízes do Altruísmo
“Nunca pergunte por quem dobra o sino; ele dobra por ti” é um dos versos mais famosos da literatura inglesa. O sentimento de John Donne fala ao cerne da ligação entre empatia e envolvimento: a dor do outro é nossa. Sentir com o outro é envolver-se. Neste sentido, o oposto de empatia é antipatia. A atitude empática empenha-se interminavelmente em julgamentos morais, pois os dilemas morais envolvem vítimas potenciais. Deve-se mentir para evitar ferir os sentimentos de um amigo? Deve-se manter o compromisso de visita a um amigo doente ou, ao contrário, aceitar um convite de última hora para um jantar? Até quando devem ser mantidos ligados os aparelhos hospitalares que mantêm a vida de alguém?
Essas questões morais são colocadas pelo pesquisador de empatia Martin Hoffman, que afirma que as raízes da ética estão na empatia, pois é o sentir empatia com as vítimas potenciais — alguém que sofre, que está em perigo, ou que passa privação, digamos — e, portanto, partilhar da sua aflição que leva as pessoas a agirem para ajudá-las.15 Além dessa ligação imediata entre empatia e altruísmo nos encontros pessoais, Hoffman sugere que a própria capacidade de afeto empático, de colocar-se no lugar de outra pessoa, leva as pessoas a seguir certos princípios morais.
Hoffman vê um desenvolvimento natural na empatia a partir da infância. Como vimos, com um ano de idade, a criança se sente aflita quando vê outra cair e começar a chorar; sua relação é tão forte e imediata que ela põe o polegar na boca e enterra a cabeça no colo da mãe, como se fosse ela a machucada. Depois do primeiro ano, quando os bebês se tornam mais conscientes de que são distintos dos outros, tentam ativamente consolar um outro que chora, oferecendo-lhe ursinhos de pelúcia, por exemplo. Já aos 2 anos as crianças começam a perceber que os sentimentos dos outros não são os seus e, com isso, se tornam mais sensíveis a indícios que revelam o que o outro de fato sente; nessa altura, podem, por exemplo, reconhecer que o orgulho de outra criança pode significar que a melhor maneira de ajudá-la a lidar com suas lágrimas é não chamar indevida atenção para elas.
No fim da infância, surgem os mais elevados níveis de empatia, pois as crianças são capazes de entender a aflição que está além de um acontecimento específico e constatar que a condição ou posição de alguém na vida pode ser um motivo de aflição permanente. Nesse ponto, as crianças podem perceber as circunstâncias de todo um grupo, como os pobres, os oprimidos, os marginalizados. Essa compreensão, na adolescência, pode reforçar convicções morais centradas na vontade de aliviar o infortúnio e a injustiça.
A empatia é o suporte de muitas facetas de julgamento e ação morais. Uma delas é a “raiva empática”, que John Stuart Mill descreveu como “o sentimento natural de retaliação (...) tornado pelo intelecto e a simpatia aplicável (...) aos sofrimentos que nos ferem por ferir outros”; Mill chamou isso de “guardião da justiça”. Outro exemplo em que a empatia conduz à ação moral é quando um circunstante é levado a intervir em favor de uma vítima; a pesquisa mostra que, quanto mais empatia ele sentir pela vítima, maior a probabilidade de vir a intervir. Há algum indício de que o nível de empatia que as pessoas sentem também afeta seus julgamentos morais. Por exemplo, estudos na Alemanha e nos Estados Unidos constataram que, quanto mais empáticas as pessoas, mais fica fortalecido, para elas, o princípio moral segundo o qual a riqueza deva ser distribuída conforme a necessidade de cada um.16
 
A Vida sem Empatia: A Mente do Molestador, a Moral do Sociopata
Eric Eckardt envolveu-se num crime infame: guarda-costas da patinadora Tonya Harding, mandou vagabundos agredirem Nancy Kerrigan, arqui-rival de Tonya pela medalha de ouro de patinação feminina nas Olimpíadas de 1994. No ataque, o joelho de Tonya foi machucado, deixando-a de fora da competição durante meses de cruciais exercícios. Mas, quando Eckardt a viu chorando na televisão, teve uma súbita onda de remorso e procurou um amigo para revelar seu segredo, iniciando a seqüência que levou à prisão dos atacantes. Tal é o poder da empatia.
Mas ela está em geral, e tragicamente, ausente naqueles que cometem os crimes mais hediondos. Uma falha psicológica é comum em estupradores, molestadores de crianças e muitos perpetradores de violência familiar: são incapazes de empatia. Essa incapacidade de sentir a dor das vítimas lhes permite dizer a si mesmos mentiras que justificam o seu crime. Para os estupradores, a mentira inclui “As mulheres querem mais é ser estupradas” ou “Se ela resiste, é só pra bancar a difícil”; para os molestadores: “Não estou machucando a criança, só demonstrando amor” ou “Esta é apenas mais uma forma de afeto”; para os pais violentos: “Isso é pra aprender.” Todas essas autojustificações foram coletadas a partir do que pessoas em tratamento relatam terem dito a si mesmas quando brutalizavam suas vítimas, ou quando estavam em vias de fazê-lo.
A ausência da empatia no momento em que essas pessoas infligem dano às vítimas é quase sempre parte de um ciclo emocional que precipita seus atos cruéis. É só ver a seqüência emocional que, normalmente, leva a um crime sexual como, por exemplo, molestar crianças.17 O ciclo começa com o molestador sentindo-se perturbado: irado, deprimido, solitário. Esses sentimentos podem ser provocados, digamos, vendo casais felizes na TV, e depois sentindo-se deprimido por estar só. O molestador, então, busca consolo numa fantasia de sua preferência, em geral sobre uma cálida amizade com uma criança; a fantasia torna-se sexual e acaba em masturbação. Depois, o molestador sente um alívio temporário da tristeza, mas esse alívio tem vida breve; a depressão e a solidão retornam com mais intensidade. O molestador começa a pensar em transformar a fantasia em realidade, dando a si mesmo justificativas do tipo “Não estou fazendo nenhum mal de fato se a criança não for psicologicamente atingida” e “Se uma criança não quisesse mesmo fazer sexo comigo, ela pararia”.
Nessa altura, o molestador está vendo a criança pela lente da fantasia pervertida, sem empatia pelo que uma criança de fato sentiria na situação. Esse desligamento emocional caracteriza tudo que vem a seguir, desde o resultante plano de pegar a criança sozinha até o cuidadoso ensaio do que vai acontecer e a execução do plano. Tudo se segue como se a criança envolvida não tivesse sentimentos próprios; ao contrário, o molestador projeta nela a atitude cooperativa da criança de sua fantasia. Os sentimentos dela — repulsa, medo, nojo — não são registrados. Se fossem, “estragariam” tudo para o molestador.
Essa absoluta falta de empatia pelas vítimas é um dos principais focos de novos tratamentos, em vias de elaboração, para molestadores de crianças e outros criminosos do gênero. Num dos mais promissores programas de tratamento, os criminosos lêem dilacerantes histórias de crimes semelhantes aos que praticaram, contadas da perspectiva da vítima. Também vêem videoteipes de vítimas contando, em lágrimas, o que é ser molestado. Os criminosos então escrevem sobre seu próprio crime do ponto de vista da vítima, imaginando o que ela sentiu. Lêem essa história para um grupo de terapia e tentam responder às perguntas sobre o ataque do ponto de vista da vítima. Finalmente, o criminoso passa por uma reencenação simulada do crime, desta vez fazendo o papel da vítima.
William Pithers, psicólogo da prisão de Vermont que desenvolveu essa terapia de adoção da perspectiva da vítima, me disse:
— A empatia com a vítima muda a percepção de tal modo que é difícil a negação da dor, mesmo em nossas fantasias.
Isso reforça a motivação dos homens que desejam controlar seus impulsos sexuais perversos. Os criminosos sexuais que passaram pelo programa na prisão tiveram apenas metade da taxa de crimes posteriores após a libertação, comparados com os que não foram submetidos a esse tratamento. Sem essa motivação inicial inspirada pela empatia, nada do resto do tratamento dará certo.
Embora possa haver uma leve esperança de se instilar um sentimento de empatia em criminosos como os molestadores de crianças, há muito menos para outro tipo criminoso, o psicopata (mais recentemente chamado de sociopata na diagnose psiquiátrica). Os psicopatas são notórios por serem ao mesmo tempo encantadores e completamente desprovidos de remorso, mesmo em relação aos atos mais cruéis e impiedosos. A psicopatia, incapacidade de sentir qualquer tipo de empatia ou piedade, ou o mínimo problema de consciência, é um dos defeitos emocionais mais intrigantes. O núcleo da frieza do psicopata parece estar na incapacidade de ir além das mais tênues ligações emocionais. Os mais cruéis dos criminosos, como os sádicos assassinos em série, que se deliciam com o sofrimento de suas vítimas antes de elas morrerem, são exemplos clássicos da psicopatia.18
Os psicopatas são também deslavados mentirosos, prontos a dizer qualquer coisa para conseguir o que querem, e manipulam as emoções das vítimas com o mesmo cinismo. Vejam o desempenho de Faro, garoto de 17 anos e membro de uma gangue de Los Angeles que aleijou uma mãe e seu bebê atirando-os de um carro em movimento, o que ele descreveu mais com orgulho do que com remorso. Num carro com Leon Bing, que escrevia um livro sobre as gangues Crips e Blocks, de Los Angeles, Faro quer se exibir. Diz a Bing que “vai dar uma de doido” com os “dois panacas” no carro ao lado. Bing conta o ocorrido:
O motorista, sentindo que alguém o está observando, dá uma olhada no meu carro. Seus olhos encontram os de Faro e arregalam-se por um instante. Depois ele desfaz o contato, baixa os olhos, desvia os olhos. E não tenho a menor sombra de dúvida sobre o que vi ali nos olhos dele. Era medo.
Faro repete o olhar que lançou ao carro ao lado para Bing:
Ele olha direto para mim e tudo em seu rosto muda e se transforma, como por um truque de fotografia de tempo. Torna-se uma cara de pesadelo, apavorante de se ver. Diz à gente que se a gente retribuir o olhar dele, se desafiar esse garoto, é melhor poder se garantir. O olhar dele diz que ele não está dando a mínima para coisa alguma, nem para a vida da gente nem para a dele.19
É evidente que, num comportamento tão complexo quanto o crime, há muitas explicações plausíveis que não evocam base biológica. Uma delas seria a de que uma espécie de aptidão emocional perversa — intimidar os outros — é importante, em bairros violentos, para a sobrevivência, como seria voltar-se para o crime; nesses casos, empatia demais poderia ser contraproducente. Na verdade, uma oportunística falta de empatia pode ser uma “virtude” em muitos papéis na vida, do interrogador policial “barra pesada” ao invasor de empresas. Homens que trabalharam como torturadores para Estados terroristas, por exemplo, descrevem como aprenderam a se dissociar dos sentimentos das vítimas para fazer seu “serviço”. Há muitos caminhos para a manipulação.
Uma das mais sinistras formas em que a ausência de empatia pode mostrar-se foi descoberta por acaso num estudo sobre os mais perversos espancadores de esposa. A pesquisa revelou uma anomalia fisiológica entre muitos dos maridos mais violentos, aqueles que batem regularmente na mulher ou as ameaçam com facas e revólveres: eles fazem isso mais em estado de calma, de forma calculada, do que quando arrebatados pelo calor da fúria.20 À medida que aumenta a sua cólera, surge a anomalia: os batimentos cardíacos caem, em vez de elevarem-se, como acontece comumente na fúria em ascensão. Isso significa que estão ficando fisiologicamente mais calmos, no próprio momento em que se tornam mais beligerantes e abusivos. A violência deles parece ser um ato de terrorismo calculado, um método de controlar as esposas pela instilação do medo.
Esses maridos friamente brutais são uma raça à parte da maioria dos outros homens que espancam as esposas. Entre outras coisas, é mais provável que sejam também violentos fora do casamento, metendo-se em brigas de bar e entrando em luta corporal com colegas de trabalho e com outros membros da família. E, enquanto a maioria dos outros homens que ficam violentos com as esposas faz isso impulsivamente, com raiva por se sentirem rejeitados ou por ciúmes, ou por medo de serem abandonados, esses espancadores calculistas batem nas mulheres sem nenhum motivo aparente — e, uma vez que começam, nada que elas façam, incluindo tentar ir embora, parece conter a violência deles.
Alguns pesquisadores que estudam criminosos psicopatas suspeitam que a fria manipulatividade deles, essa ausência de empattia ou envolvimento, às vezes tem origem numa anomalia neural.[2] Uma possível base fisiológica para a psicopatologia cruel foi demonstrada de duas formas, ambas sugerindo o envolvimento de caminhos neurais para o cérebro límbico. Numa, as ondas cerebrais das pessoas são medidas quando tentam decifrar palavras embaralhadas. As palavras são exibidas muito rapidamente, por apenas cerca de um décimo de segundo. A maioria das pessoas reage de um modo diferente a palavras como matar do que a palavras neutras como cadeira; decide mais rapidamente se a palavra emocional foi embaralhada, mas não as neutras. Os psicopatas, no entanto, não têm nenhuma dessas reações: o cérebro deles não mostra o padrão distintivo em resposta às palavras emocionais, e eles não reagem com mais rapidez a elas, o que sugere uma perturbação nos circuitos entre o córtex verbal, que reconhece a palavra, e o cérebro límbico, que lhe atribui sentido.
Robert Hare, psicólogo da Universidade de Colúmbia que fez essa pesquisa, interpreta esses resultados como significando que os psicopatas têm uma tênue compreensão de palavras de cunho emocional, um reflexo da tenuidade mais genérica no campo afetivo. Hare acredita que a insensibilidade dos psicopatas se baseia parcialmente em outro padrão psicológico identificado em pesquisa anterior, e que também sugere uma anomalia no funcionamento das amígdalas e circuitos relacionados: os psicopatas que vão tomar um choque elétrico não demonstram qualquer sinal de medo, como normalmente ocorre em pessoas que vão sentir dor.21 Como a perspectiva de dor não provoca uma onda de ansiedade, Hare afirma que os psicopatas não se preocupam com punições futuras pelos atos que praticam. E como eles próprios não sentem medo, não há lugar para a empatia — ou piedade — em relação ao medo e à dor de suas vítimas.

 
[1] Perfil de Sensibilidade Não-Verbal. (N. do T.)
[2] Uma nota de advertência. Se há padrões biológicos em jogo em alguns tipos de criminalidade — como um defeito neural na empatia —, isso não quer dizer que todos os criminosos são biologicamente anômalos, ou que existe uma determinante biológica para o crime. Há uma tremenda controvérsia sobre essa questão, e o melhor consenso a que podemos chegar é o de que não há essa determinante biológica, e certamente nenhum “gene criminoso”. Mesmo que haja, em alguns casos, uma base biológica que justifique a ausência de empatia, isso não é determinante para a prática de atos criminosos; não acontece com a maioria das pessoas. A falta de empatia é apenas um fator, entre outras forças psicológicas, econômicas e sociais, que contribui para um vetor em direção à criminalidade.
 
(Goleman, Daniel - Inteligência emocional)
 
 
Notas:  
 
1. Autoconsciência e empatia: ver, por exemplo, John Mayer e Melissa Kirkpatrick, “Hot Information-Processing Becomes More Accurate With Open Emotional Experience”, Universidade de New Hampshire, manuscrito inédito (outubro de 1994); Rand Larsen e outros, “Cognitive Operations Associated With Individual Differences in Affect Intensity”, Journal of Personality and Social Psychology 53 (1987).
 
2. Rober Rosenthal e outros. “The PONS Test: Measuring Sensitivity to Nonverbal Cues”, em P. Reynolds, ed., Advances in Psychological Assessment (São Francisco: Jossey-Bass, 1977).
   
3. Stephen e Marshall Duke, “A Measure of Nonverbal Social Processing Ability in
Children Between the Ages of 6 and 10”, trabalho apresentado no encontro da Sociedade Psicológica Americana (1989).
 
4. As mães que agiram como pesquisadoras foram treinadas por Marian Radke-Yarrow e Carolyn Zan-Waxler, no Laboratório de Psicologia Desenvolvimentista, Instituto Nacional de Saúde Mental.
 
5. Escrevi sobre empatia, suas raízes desenvolvimentistas e sua neurologia em The New York Times (28 de março de 1989).
 
6. Incutindo empatia nas crianças: Marian Radke-Yarrow e Carolyn Zahn-Waxler, “Roots, Motives and Patterns in Children’s Prosocial Behavior”, em Ervin Staub e outros (eds.), Development and Maintenance of Prosocial Behavior (Nova York: Plenum, 1984).
 
7. Daniel Stern, The Interpersonal World of the Infant (Nova York: Basic Books, 1987), p. 30.
 
8. Stern, op. cit.
 
9. Os bebês deprimidos são descritos em Jefey Pickens e Tiffany Field, “Facial Expressivity in Infants of Depressed Mothers”, Developmental Psychology 29, 6 (1993).
 
10. O estudo da infância de estupradores violentos foi feito por Robert Prentky, psicólogo de Filadélfia.
 
11. A empatia em pacientes limite: “Giftedness and Psychological Abuse in Borderline PersonaJity Disorder: Their Relevance to Genesis and Treatment”, Journal of Personality Disorders 6 (1992).
 
12. Leslie Brothers, “A Biological Perspective on Empathy”, American Journal of Psychiatry 146, 1 (1989).
 
13. Brothers, “A Biological Perspective”, p. 16.
 
14. Fisiologia da empatia: Robert Levenson e Anna Ruef, “Empathy: A Physiological Substrate”, Journal of Personality and Social Psychology 63, 2 (1992).
 
15. Martin L. Hoffman, “Empathy, Social Cognition, and Moral Action”, em W. Kurtines e J. Gerwitz, eds., Moral Behavior and Development: Advances in Theory, Research, and Applications (Nova York: John Wiley and Sons, 1984).
 
16. Os estudos da ligação entre empatia e ética estão em Hoffman, “Empathy, Social Cognition, and Moral Action”.
 
17. Escrevi sobre o ciclo emocional que culmina em crimes sexuais em The New York Times (14 de abril de 1992). A fonte é William Pithers, psicólogo do Departamento Correcional de Vermont.
 
18. A natureza da psicopatia é descrita com mais detalhes num artigo que escrevi no The New York Times de 7 de julho de 1987. Grande parte do que escrevo aqui vem de Robert Hare, psicólogo da Universidade da Colúmbia Britânica, especialista em psicopatas.
 
19. Leon Bing, Do or Die (Nova York: HarperCollins, 1991).
 
20. Espancadores de esposas: Neil S. Jacobson e outros, “Affect, Verbal Content and Psychophysiology in the Arguments of Couples With a Violent Husband”. Journal of Clinical and Consulting Psychology (julho de 1994).
 
21. Os psicopatas não têm medo — o efeito é visto quando criminosos psicopatas vão receber um choque. Uma das mais recentes réplicas do efeito está em Christopher Patrick e outros, “Emotion in the Criminal Psychopath: Fear Image Processing”, Journal of Abnormal Psychology 103 (1994).
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